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Dengue, um alerta contínuo!

Posted in Saúde by micheletavares on 30/05/2009

                                                                            

Foto: Uiliane Costa

Foto: Uiliane Costa

 Hospitais lotados, milhares de  infectados. Os sergipanos  enfrentavam uma epidemia de dengue. Os casos mais graves dos últimos tempos, número de óbitos crescente  e a população assustada: este era o preocupante cenário em que se encontrava a saúde em Sergipe, em 2008. “A dengue é uma doença constante”, afirma o infectologista e coordenador do Núcleo de Doenças Transmissíveis do estado de Sergipe, Marco Aurélio Góes, alertando para a gravidade da doença e a necessidade de evitar o esquecimento, mesmo com a diminuição dos casos em 2009. Esclarecendo sobre os principais pontos polêmicos relacionados à dengue, Marco Aurélio aborda na entrevista desde as questões mais freqüentes até as mais complexas e curiosas.

 Por Daniele Melo e  Uiliane Costa

 

EmPauta UFSO que é a DENGUE?

 Marco Aurélio – A dengue é uma doença aguda que tem sintomas que já são bem conhecidos como: febre, dor de cabeça, dor no corpo, dor nos olhos, que na maior parte desses casos eles são altos resolutivos, quer dizer, que eles se resolvem somente com cuidados básicos como hidratação, uso de anti-térmicos, só que tem um pequeno percentual de casos  que ocorre complicações, o que pode levar o paciente até ao óbito.

EmPauta UFS – As complicações são devidas ao próprio organismo ou a doença?

 Marco Aurélio – Como toda doença não existe só um fator, tudo envolve diversos fatores, pode ser, é claro, o organismo de cada indivíduo responde de uma forma diferente, e em alguns casos, tornam-se mais agressivas essas respostas, mas também o tipo de vírus. Ás vezes o vírus que está circulando no nosso meio é mais agressivo, como o que vimos no ano passado, a ocorrência de casos mais graves. O problema não foi nem tanto a quantidade de casos, que foi grande também, mas sim a gravidade deles é claro que fatores ambientais são importantes também, a temperatura e a umidade, por exemplo, que favorecem a replicação do vírus e a multiplicação dos insetos transmissores, ocorrendo mais casos e cada vez mais fatores.

EmPauta UFS - Existe um horário de pico para o ataque do Aedes aegypti?

 Marco Aurélio – O que a gente tem é um maior risco de picadas pela fêmea do mosquito da dengue no inicio da manhã e à tardinha que é o período que ela sai pra fazer sua caçada. Só que isso não exclui outros horários, estamos falando de pico de maior probabilidade, só que as pessoas acham que estão protegidas em outros horários e não é assim, é mais comum que ela pique em áreas mais baixas, até 1 metro de altura.

EmPauta UFS - Qual período do ano é mais propicio ao desenvolvimento da DENGUE? Porque?

 Marco Aurélio – A Dengue é uma das doenças chamadas de sazonais, que segue algumas estações do ano. No Brasil a gente considera o verão, porque o verão tem umas chuvas…Aqui no nordeste a gente considera o primeiro semestre que é o período de chuva e calor.

EmPauta UFS - Quais a regiões mais atingidas no Brasil?

 Marco Aurélio – No mundo, a região mais atingida é justamente entre os trópicos (na região tropical), porque é uma doença típica das regiões tropicais, que é o vetor para ele se multiplicar…Ele precisa das condições de umidade e de calor. A dengue tem se concentrado, no mundo inteiro, nas grandes cidades e cidades de médio porte porque esse mosquito já se adaptou de tal forma ao ambiente urbano que favorece sua replicação. Nesses ambientes onde há muita gente pra ele picar, há facilidades também na oferta de criadouros, principalmente muitos reservatórios artificiais que é o predileto para ele. Não que o mosquito não se reproduza nos municípios menores, mas tudo isso contribui para que ele se adapte cada vez mais ao ambiente urbano e por isso a gente tem epidemias urbanas com alguma rapidez. É claro que diferente do acontece normalmente, a gente atende até em municípios pequenos, é um comportamento um pouco diferenciado que implica também das condições de desenvolvimento de cada município, as questões do lixo, do copinho que  pode acumular água, as lavanderias, o tanque.

EmPauta UFS - Uma pessoa pode ter DENGUE mais de uma vez?

 Marco Aurélio – A gente pode ter uma dengue pra cada vírus, se os quatro vírus estiverem circulando a gente pode ter quatro dengues na vida, que pra cada tipo de vírus da dengue (o dengue1, dengue2, dengue3 e o dengue4) existe uma resposta imunológica que é definitiva. Se tiver por um tipo de vírus, não vai ter mais por aquele sorotipo, mas você pode ter pelo outro. Por exemplo: no Brasil ainda não circula o dengue 4, mas mesmo quem já teve 3 dengues anteriores chegando o dengue 4 ainda poderá ter esse tipo.

EmPauta UFS - Qual a principal diferença entre a DENGUE hemorrágica e a DENGUE comum?

 Marco Aurélio – Estamos falando do vírus da dengue, dos quatro vírus. Eles podem causar desde uma doença leve até uma doença grave. Não é o tipo de vírus que determina a gravidade da doença apenas, por que os vírus multiplicam-se fazem algumas mutações e com isso algumas respostas do organismo podem ser mais agressivas.O tipo de vírus pode ajudar nisso dependendo do vírus que ta circulando, mas não é isso que vai definir. Então quando a gente fala dengue hemorrágica, ela pode ser causada pelo vírus da dengue 1,2,3 ou 4. A dengue hemorrágica é uma doença que no seu começo ela parece com a dengue comum, que tem aqueles sintomas clássicos e que naquele momento em que a pessoa deveria apresentar uma melhora clinica, o organismo começa a responder de uma forma tão exagerada que a pessoa apresenta manifestações hemorrágicas , a plaqueta começa a cair, a pressão a diminuir e a pessoa começa a ter uma piora clinica podendo levar a óbito. É isso que é preocupante por que como já teve varias vezes surtos da doença circulando no Estado, a população banalize e fala : ‘Ah é só dengue!…Você toma paracetamol, dipirona, liquido e pronto, acha que é tão simples e não toma os cuidados adequados, só indo ao medico quando o caso já está grave.

EmPauta UFS - No ano passado teve surto de DENGUE?

 Marco Aurélio – No ano passado foi uma epidemia de dengue, surto a gente usa geralmente quando é pra comunicar que esses números de casos estão em um certo lugar. A gente teve surtos em vários lugares o que a gente denomina de epidemia, um numero muito superior ao que se esperava tanto da forma comum, como da grave

EmPauta UFS - Então não se pode falar em erradicação da DENGUE?

 Marco Aurélio – Não, a gente fala de controle da dengue.Ela é uma doença que vai conviver muitos anos com a gente, tudo depende das condições climáticas também.O inseto sabe-se que é impossível erradicá-lo do meio humano.

EmPauta UFS - Existe alguma vacina que possa inibir a ação desse vírus?

 Marco Aurélio – Tem-se trabalhado muito com vacinas, agora em uma atualização que saiu no congresso de medicina tropical, as melhores propostas serão para mais de 8 anos, para se elaborar essa vacina, o que talvez fosse a solução para o problema. O grande empecilho para a vacina da dengue é que são quatro tipos de vírus, quando a gente tem uma dengue o outro tipo de dengue que podemos ter pode ser mais complicado, tem um risco maior de ser hemorrágica. Os estudos emperram um pouco nisso, ás vezes você vacinado para um vírus da dengue, continua ou até aumenta o risco de desenvolver uma dengue mais agravada, pelo outro tipo. Então, há tentativas de fazer uma vacina que a gente chama de conjugada, que contém os 4 tipos de vírus, mas existe uma dificuldade muito grande.

EmPauta UFS - Há alguma possibilidade de mutação da DENGUE?

 Marco Aurélio – As mutações ocorrem nas replicações que os vírus fazem com facilidade. Não de ter um novo tipo de dengue, só os quatro tipos mesmo, mas é diferente do vírus da gripe que modifica com muita freqüência, todo ano são vírus novos. O da dengue não!Ele tem pequenas mutações que dão uma maior virulência (capacidade de ele causar doença grave dentro do mesmo tipo de vírus).

EmPauta UFS - Por que alguns atestados de óbitos constam apenas como uma suspeita de DENGUE e não como um caso confirmado?

 Marco Aurélio – O atestado de óbito ele é um documento médico, quem preenche é o medico da assistência, o medico que assistiu o paciente de acordo com o que ele entendeu da doença, o que ele compreendeu que aquele quadro clinico significava. A gente tem atestados de óbitos que disseram que era dengue e na realidade não era dengue, outros que disseram que não era dengue, e na investigação era. O atestado é um documento que é necessário para enterrar a pessoa e ele é dado muitas vezes em período que nem todos os exames estão prontos ainda.Teve casos no ano passado mesmo que estavam como outro diagnostico, mas na investigação, na verificação da história, nos contatos, avaliando também os índices da quantidade de dengue que tem naquele município, alguns casos mesmo com atestado estando como outras doenças nas estatísticas entraram como caso de dengue, pois para gente interessa saber de que as pessoas estão morrendo. As famílias às vezes não compreendem bem isso, o que significa aquele atestado, por que a gente tem uma doença muito grave e que mata muito também que é muito parecida com a dengue que é a leptospirose e que ocorre neste período de chuvas, tem outra forma de transmissão, mas ela é muito parecida (causa sangramento, leva a óbito).Então alguns casos os exames deram positivos para leptospirose e tava no atestado como dengue, mas nas estatísticas a gente muda o dado por que o que importa é saber do que as pessoas estão morrendo pra poder intervir de maneira mais eficaz.

EmPauta UFS - Existe um exame especifico pra comprovar a DENGUE. Esse exame já está sendo feito aqui em Sergipe?

 Marco Aurélio – Sim, a gente tem classicamente a sorologia pra dengue, a pesquisa dos anticorpos para vírus da dengue (a célula de defesa), só que esse exame ele só positiva depois do sexto dia de doença, por que vai medir o anticorpo e ele vai surgindo aos poucos e depois do sexto dia ele começa a aparecer de forma elevada, quando o exame pode se tornar positivo.O Brasil está testando uma outra metodologia que é tentar identificar alguns fragmentos para o vírus, aí estaria recolhendo até o 3ºdia de doença, só pra realmente ver se consegue agilizar um pouco mais essa resposta do diagnostico. Mas temos que lembrar que a coisa mais importante independente de ter um exame laboratorial é o paciente ser bem assistido, o profissional examinar adequadamente, fazer orientações, às vezes a gente observa que muitos casos que evoluem de forma desfavorável é por que não teve os  cuidados adequados, tanto por parte dos pacientes como dos médicos.

EmPauta UFS - O senhor acha que a população tem consciência sobre o papel que ela tem na diminuição da doença?

 Marco Aurélio – Eu acho que a população está cada vez mais consciente e muda de atitude, mas a gente sabe que a mudança de atitude precisa está sempre com informação. Acho que informação todo mundo tem, todo mundo sabe como é que se previne, o que deve evitar, mas mudar o habito é difícil, a gente observa que depois de uma epidemia fica todo mundo muito sensibilizado.

EmPauta UFS - E quando se ameniza a epidemia as pessoas se esquecem?

 Marco Aurélio – Esse é o grande problema, esse é o medo que se tem, que as pessoas esqueçam e achem que a epidemia foi uma coisa do passado, e não, ela pode acontecer a qualquer momento se as atividades forem relaxadas.

EmPauta UFS - Há algum projeto de conscientização da população sendo executado no momento?

 Marco Aurélio – Tanto a mídia por conta própria como a secretaria do Estado, município, governo federal sempre intensificaram as informações sobre dengue a necessidade de mudanças de hábitos, mais é importante também está trabalhando com comunidades mais locais.

 EmPauta UFS - Do ponto de vista nacional o que é mais relevante a DENGUE ou a gripe suína? Por que?

 Marco Aurélio – A gente tem vários problemas com doenças transmissíveis e que todas são relevantes, só que em momentos diferentes. A dengue é relevante falar sempre, por que o ano todo tem dengue e o ano todo precisa está controlando o vetor, essa informação tem que estar constante.Outra informação diferente é o da gripe, a gripe é um vírus que ainda não circula no Brasil e que a gente trabalha com a vigilância para bloquear que ele penetre por aqui, precisa identificar todos os casos possíveis, colher exames para descartar e restringir o número de casos, para que ela não vire uma epidemia também no país. È um momento diferente. A dengue não, ela já circula, já é uma doença que tem no Brasil, e em praticamente todos os estados. A habilidade dela é diferente, é de controle, de tratamento, já nessa outra doença influenza A (H1N1) é uma medida de barreira que a gente faz. Momentos diferentes de se trabalhar uma doença, mas todas são importantes.

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