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Transporte Público Coletivo de Aracaju está entre os piores do país

Posted in Uncategorized by micheletavares on 20/06/2009

Ônibus velhos, ausência de pontos e atrasos constantes irritam usuários do sistema público de transporte. A melhoria do mesmo é uma necessidade urgente da população, que pede uma solução para o caso. 

Por Igor David Sá e Mayana Macedo

O transporte público no Brasil, de modo geral, sempre foi de baixa qualidade e nunca mereceu, salvo em raros casos, uma avaliação positiva dos seus usuários. Em Aracaju, a história não é diferente. As constantes greves, o aumento das tarifas, a falta de qualidade no serviço, o despreparo de alguns funcionários das empresas, a falta de segurança e conforto, os poucos veículos disponíveis, ocasionando superlotação em horários de pico, além do descumprimento freqüente dos horários, são alguns dos fatores que explicam por si sós esse quadro negativo.

Dia dia de usuários do transporte coletivo de Aracaju. Foto: Igor David Sá

Dia dia de usuários do transporte coletivo de Aracaju. Foto: Igor David Sá

A imagem ao lado, sem dramaticidade alguma, é facilmente reconhecida por aqueles que utilizam diariamente o transporte público da capital, pois já é parte do cotidiano de muitos trabalhadores e estudantes. Fica difícil se movimentar pela cidade. O trabalhador, que já começa seu dia correndo, é obrigado a passar por situações de total desconforto desde os terminais até sua entrada no ônibus. Quando os veículos chegam aos chamados terminais de integração, o espaço fica pequeno pra tanta gente. Tem passageiro que só consegue um lugar na escada. Trata-se, pois, também de uma questão de segurança pública.

 A reportagem do Em Pauta acompanhou durante dois meses a rotina dos usuários, ouvindo suas sugestões e reclamações. Nesse período, o sistema passou por uma greve dos rodoviários, que reivindicavam reajuste salarial e melhorias nas condições de trabalho. Algumas conquistas foram alcançadas, é claro, como a promessa de empresários do setor de disponibilizar cem novos ônibus até o final de junho. Apesar disso, o presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros do Município de Aracaju – Setransp –, Adierson Monteiro, reconhece que a grande Aracaju tem um dos piores serviços públicos de ônibus do país.

Aracaju tem um dos piores serviços públicos de ônibus do país. Foto: Mayana Macedo

Aracaju tem um dos piores serviços públicos de ônibus do país. Foto: Mayana Macedo

 Greve dos Rodoviários

Aracaju, 27 de março de 2009. Ainda está fresco na memória dos aracajuanos o dia em que centenas de trabalhadores do transporte público da capital cruzaram os braços, em busca de melhores salários e condições de trabalho. Terminais vazios, ônibus apedrejados, pneus furados e milhares de trabalhadores e estudantes impedidos de se locomover pela cidade. Os rodoviários reivindicavam carga horária de 8h, uma hora de repouso e o fim das horas extras. O grande problema é que havia dois sindicatos na briga: o Sintra – Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários em Aracaju -, representado por João Batista e o Simco – Sindicato dos Cobradores e Motoristas  das Empresas dos Transportes Públicos Urbanos de Aracaju -, representado por Adriano Oliveira.

De acordo com o presidente do Simco, Adriano Oliveira, “o salário dos rodoviários vem passando por um achatamento ao longo dos anos”. Segundo ele, em 1994, um motorista ganhava o equivalente a cinco salários mínimos e os cobradores recebiam três salários. E atualmente, esses valores reduziram a metade. Sendo assim, “o Simco pretenderia discutir com a categoria, um reajuste em que fossem revistas essas perdas”, esclarece Oliveira.

Procurada pela reportagem do Em Pauta, a assessoria de comunicação do Setransp informou que naquela ocasião a greve foi deflagrada por um sindicato que não existe. “O Simco não possui legitimidade junto à categoria e o Setransp não realizou nenhuma negociação com os representantes do Simco, só com o Sintra que foi contra a greve” informa a Ascom do Sindicato das Empresas de Passageiros.

Sede do Setransp - Avenida Tancredo Neves. Foto: Igor David Sá

Sede do Setransp - Avenida Tancredo Neves. Foto: Igor David Sá

De acordo com a Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT), cerca de 100 mil pessoas fora prejudicadas pela paralisação do transporte.

 O Sintra, através de seu vice-presidente, Miguel Belarmino, definiu a paralisação da seguinte forma: “Foi um ato irresponsável que não teve o apoio do Sindicato”, diz. Belarmino declarou que alguns ônibus foram atacados por homens em motocicletas. Os homens teriam obrigado os motoristas a entregarem as chaves dos veículos. Além disso, alguns ônibus tiveram os pneus esvaziados.

Questionado, Oliveira declarou não ter tomado conhecimento sobre as ações de violência contra os veículos. Segundo ele, alguns ônibus teriam sido atacados pela população, revoltada com a falta de transporte na manhã do dia 27.

Opinião

Texto: José Eloízio da Costa – Professor do Departamento de Geografia da UFS

Um espectro sinistro ronda a Grande Aracaju: a falência do sistema de transporte urbano. Discussão sobre essa questão não falta. Propostas também não faltam. E seus principais protagonistas não enxergam que o sistema chegou ao seu limite. Sem constrangimento de dizer: Aracaju apresenta o pior sistema de transporte coletivo entre as capitais do Brasil. E como superar essa péssima reputação para uma cidade tão propalada como a de “melhor qualidade de vida” do país? Pelo quadro conhecido, efetivamente não existe solução.

Vamos ao básico: os veículos. E neles uma enxurrada de problemas, como os chassis envelhecidos onde são montadas carrocerias da era dos dinossauros. O problema não estaria apenas na estrutura capenga dos veículos, pior, essa estrutura é adaptada para levar mais passageiros por m², onde os bancos são arrancados para colocar mais usuários em pé e quando existem são duros, inseguros e desbotados. É lamentável o uso desses veículos onde o passageiro é tratado como gado, indo na direção aos solavancos dos veículos provocados justamente por alguns motoristas estúpidos. Para piorar, observa-se que os veículos mais novos operam nas linhas mais nobres da cidade e as “latas velhas” nas mais pobres. Simples, pobreza combina com desconforto, sofrimento, preconceito e humilhação no uso da cidade, afinal em Aracaju “quem anda de ônibus é pobre”. Nada mais estúpida e provinciana do que esta frase, além de possuir ranço fascista.

Situação de um dos veículos que fazem o transporte coletivo da capital. Foto: Igor David Sá

Situação de um dos veículos que fazem o transporte coletivo da capital. Foto: Igor David Sá

Soma-se a um fenômeno que é avassalador: a gratuidade do transporte. Não estou falando dos velhinhos que de direito possuem tal prerrogativa legal e ainda assim são humilhados, quando alguns brutamontes do volante sequer param quando eles são os únicos passageiros que pedem com a mão. Na verdade estou falando de um exército de dezenas de milhares de passageiros que inexplicavelmente não pagam passagens. Vou citar alguns: oficiais de justiça, empregados dos correios, acompanhante de deficientes físicos, acompanhante de idosos, empregados das empresas de ônibus, policiais militares, policiais civis, bombeiros, etc. Aliado a esse rol vem os inaceitáveis: os amigos do motorista, os familiares daqueles que citei anteriormente, a namorada dos condutores, seus familiares, etc. Ou seja, uma casta de pessoas, simplesmente porque fazem parte da “comunidade rodoviária” têm a prerrogativa de não pagar, reproduzindo o velho bordão da elite brasileira: “sabe com que está falando?”

 Digo sem medo de errar, que, em média, um terço dos passageiros de uma determinada viagem, por exemplo, Eduardo Gomes-Centro, não pagam passagens. Paralelo a isso temos o movimento do passe livre, que reivindica o uso gratuito do serviço sem dizer quem vai pagar. O Estado? Não é tradição e duvido que a PMA entre na arapuca da estatização do transporte urbano, face ao poder do capital das empresas de ônibus e seu lobby político.

Finalmente temos o tiro de misericórdia. Sob o lombo dos que pagam passagens, na maioria trabalhadores, estão todos estes atores sociais que utilizam a cidade gratuitamente, passando pelas empresas, pelos próprios condutores (onde muitos deles pensam que estão fazendo favor quando dirigem seus veículos), por determinadas categorias de servidores públicos, deficientes, familiares dos rodoviários, etc. etc. Ou seja, o que sobra é o passageiro pagar a tarifa, ser tratado como gado em gaiola de caminhão, suportar as chatices dos vendedores de bombons, ouvir as “agendas” de escalas dos motoristas e cobradores e para piorar, estar exposto aos constantes assaltos, ou seja, mais uma categoria privilegiada do sistema de transporte urbano de nossa cidade. Essa é a tragédia sem solução.

 

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