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Onde você deixa seu filho quando vai trabalhar?

Posted in Educação by micheletavares on 11/05/2010

Cresce a procura por creches devido ao aumento da participação feminina no mercado de trabalho

Por: Lorena Larissa

 

 

Andressa Rosa e sua filha Maria de Fátima Foto: Lorena Larissa

Todos os dias são assim: a pequena Maria de Fátima, 5 anos, passa o dia todo na creche e a mãe, Andressa Rosa que trabalha como diarista das 8h30 às 16h30, diz estar acostumada com esta rotina apesar de sentir muita falta da filha. Mas ela não tem outra opção já que precisa trabalhar para garantir o sustento da família.“Minha filha esta aqui na creche desde os quatro mêses de idade porque eu não tenho com quem deixá-la e essa foi a única opção que eu encontrei para poder trabalhar. Saudade a gente sente né, mais fazer o quê? O bom é que ela gosta de vir pra cá, gosta das ‘tias’, dos coleguinhas de sala e eu também não tenho do que reclamar, só tenho a falar coisas boas daqui”, diz ela.

Assim como Andressa, são muitas as mães que vivenciam esta mesma situação em nosso país, que força um grande contingente de mulheres a ausentar-se de casa para contribuir com o sustento familiar. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a força de trabalho feminina passou de 2,8 milhões para 22,8 milhões de pessoas entre 1940-1990, aumentando sua participação na população ativa do país de 19% para 35,5%. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) mostra que de 1989 até 1996 essa taxa cresceu aproximadamente 8,9%.

A maioria das mães que deixa seus filhos em creches é formada por mulheres que trabalham como empregadas domésticas, muitas delas ao menos possuem o ensino fundamental ou médio completo. As crianças são descritas como oriundas de classe social de baixa renda com carências afetivas, alimentares, culturais, emocionais e de lazer. Segundo Maria de Lourdes Santana, coordenadora e voluntária da creche Dom José Vicente Távora, a grande maioria das famílias atendidas pela instituição são da grande Aracaju (Laranjeiras, Riachuelo, São Cristovão). “Geralmente são crianças de origens humildes, muitas moram em vilas ou em habitações de apenas dois cômodos. São frutos de famílias desestruturadas, meninos criados por mães solteiras ou pela avó, ausentes da figura paterna, são vitimas de maus tratos, passam ou já passaram fome enfim, crianças carentes de um afeto, atenção, compreensão”, explica ela.

Foto: Lorena Larissa

A creche Dom Távora é uma instituição filantrópica que atende crianças de dois a cinco anos de idade, e juntamente com a Escola Estadual Euvaldo Diniz Gonçalves (crianças de seis a nove anos) oferece cuidados e educação aos filhos de mães que trabalham o dia inteiro, resolvendo assim o problema desses pais que não tem com quem deixar essas crianças. Hoje a creche atende a cerca de 180 crianças, é equipada com oito salas de aula, banheiros, quadra de esporte, cozinha, refeitório, almoxarifado, além do pátio onde os pequenos podem brincar, ver televisão, correr, pular amarelinha, etc. Em relação às vagas a diretora diferentemente do que estamos acostumados a ver no nosso país, afirma não ter problemas quanto a isso: “A creche está voltada para a mãe que trabalha, se for doméstica  traga uma declaração, se não for apresenta a carteira de trabalho, se existir vaga, o que acontece na maioria das vezes, a matricula logo é feita.”

Capacitação do Profissional

A questão da habilitação adequada do professor que atua nas creches é um dos pontos prioritários para quem vai procurar uma creche, tendo em vista a sua especificidade. Ainda hoje, no que diz respeito à formação dos professores na Educação Infantil, temos uma situação bastante complexa. Em termos de números, há ainda uma parcela de profissionais que atuam na Educação Infantil com a formação abaixo da desejada: incluindo o meio urbano e rural, temos de um total de 94.038 profissionais de creche,  1,2% (1.204) com o fundamental incompleto e 3,9% (3.714) com o fundamental completo. Nas pré-escolas, de um total de 309.881 profissionais, também incluindo o meio urbano e rural, são 0,3% (1.173) com o fundamental incompleto e 1,6% (5.170) com o fundamental completo. O que conseqüentemente só compromete a qualidade das ações desenvolvidas com e para as crianças, evidenciando também um descompromisso das políticas públicas com o exercício de uma profissão das mais importantes: o de professor (a) de crianças de até 6 anos. De acordo com o Censo Demográfico de 2000 do total de 15.756 docentes atuando em creches do nordeste, 874 possuíam ensino fundamental incompleto, 1.649 ensino fundamental completo, 12.070 médio completo e 1.163 superior completo, o que configura que cerca de 14% das funções docentes que atuam em creches no Brasil têm formação inferior ao ensino médio. Na creche Dom Távora os auxiliares contratados são todos estudantes de pedagogia nível superior não completo, e os professores do estado são todos pós- graduados.

Rotina de uma Creche e relacionamento com os pais

O que norteia a rotina diária de uma creche é a prática pedagógica adotada por ela. Cada elemento da rotina pretende proporcionar à criança uma experiência diferente, alternando entre atividades calmas e agitadas, individuais ou grupais. A educadora relata que a creche funciona em período integral, de segunda a sexta-feira. Em geral, as crianças chegam por volta das sete horas da manhã, e já vêm alimentadas de casa. Às nove horas eles lancham e vão para as atividades pedagógicas, às nove e meia todos tomam banho, escovam os dentes, vestem a roupinha e as onze vão para o refeitório almoçar. Logo após, vão para a sala onde dormem até as 13h30. Quando acordam lancham um suco, uma fruta e vão para as oficinas. A mesma consiste em aulas de ballet, música, pintura, aulas de educação infantil, religião, etc. Depois das oficinas eles trocam de roupa, jantam e vão para casa.

Foto: Lorena Larissa

O relacionamento da creche com os pais é de extrema importância. “São feitas reuniões pelo menos uma vez por mês com a presença de palestrantes que abordam temas diversos. Além disso contamos com o auxilio do conselho tutelar que ajuda a trabalhar com esses pais, para que haja uma conscientização das regras, principalmente no que diz respeito ao horário de entrada e saída dos alunos”, relata a diretora. É claro que é fundamental que exista uma interação entre a creche e a família, que as tarefas realizadas com as crianças sejam conhecidas e que os convites para a participação de determinadas atividades sejam atendidos pela família. Contudo, embora a comunicação seja freqüente, ainda não existe uma real integração creche- família, até mesmo por que muitos desses pais não têm tempo para ir nesses encontros, por conta de seus serviços.

Foto: Lorena Larissa

Problemáticas e o voluntariado

Vale ressaltar ainda as diversas problemáticas enfrentadas pelas creches do nosso estado. A necessidade de recursos materiais, humanos e financeiros são os principais pontos citados por Maria de Lourdes, coordenadora de uma dessas instituições. Ela sonha com a ampliação da creche e com a construção de um dormitório para as crianças que atualmente dormem em colchonetes espalhados pela sala, para proporcionar maior conforto e dignidade a essas crianças que ela trata como verdadeiros filhos. A diretora acredita que a educação na primeira infância é a base de tudo e que quando se dá uma educação desde cedo, é menos um na rua. “O poder público deveria investir mais na educação. Se cada um fizesse um pouquinho e se os governantes investissem mais nesses pequenos, amanhã pouco precisaria se investir tanto em presídios”, desabafa.

É importante notar que as instituições reconhecem a necessidade de inserir, em seu quadro de funcionários, profissionais de nível superior de várias especialidades tais como: psicólogos, pedagogos, assistentes sociais, nutricionistas e etc, para um melhor funcionamento de suas atividades. A Creche Dom Távora conta com a presença de uma pediatra e de uma psicóloga, todas voluntárias, mais ainda não tem uma nutricionista. A diretora relata a necessidade de se ter um cardápio, já que é ela, os professores e as próprias cozinheiras que montam o cardápio de acordo com o que se tem: “ A nutricionista aqui somos nós”, comenta.

A creche também conta com a presença de voluntários que ajudam na rotina da instituição Um estudante de economia da Universidade Federal de Sergipe que prefere não se identificar, é voluntario há três meses e diz desenvolver atividades recreativas com as crianças três dias na semana. Ele dá aulas de cidadania justamente para mudar a rotina de suas atividades didáticas. “Pelo que eu percebi, eles tinham uma vivência na comunidade em que eles moram que não é de muito bom agrado: muitas danças, mania de colocar apelidos, brincadeiras violentas para eles era muito normal. E eu como fiquei assustado com isso comecei a tentar ‘melhorá-los’, eu estou fazendo a minha parte e acho que não adianta você reclamar tanto do governo e da própria sociedade se você não faz nada para mudar o futuro das nossas crianças”, finaliza.

Foto: Lorena Larissa

Assim como Maria de Fátima, muitas outras crianças dividem a mesma experiência e a mesma carência afetiva. As crianças da creche expressam comportamentos variados e surpreendentes. Um fato muito comum quando se chega um visitante é que as crianças saem correndo ao seu encontro, puxam assunto, mostram um machucado, chamam para brincar, elas adoram abraçar, beijar e sentar no colo dos adultos, e em questão de segundos esses se tornam seus ‘tios’ e ‘tias’. Neste momento, esses pequenos em geral estão querendo além de uma atenção especial serem ‘tocados’. Qual criança não gosta de colo e aconchego? Esses meninos e meninas expressam-se como crianças capazes e disponíveis de oferecer o afeto que parecem reivindicar. Por isso é necessário que a sociedade se questione: até que ponto essa ausência materna nos primeiros anos de vida influencia no comportamento e no futuro desenvolvimento emocional e social dessas crianças?

 

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2 Respostas

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  1. alisson cauã said, on 14/12/2010 at 2:11 pm

    adorei muito os comentários

  2. liliane pereira said, on 14/12/2010 at 8:34 pm

    como ,quando posso mtricular meu filho nesta escola ele tem 5 anos
    quais os documentos necessários


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