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Artesãos ou Neo-Hippies?

Posted in Cultura, História by micheletavares on 14/04/2009
 
 

Como se autodenominam  pessoas que seguem o estilo de vida propagado pelos Hippies

Por Thayza Darlen Machado

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Através do movimento underground da contracultura eles destruíram inúmeras barreiras morais e ditaram regras que hoje fazem parte da cultura ocidental. Passados quase 50 anos desde que se tem idéia dos primeiros filetes de jovens indignados com o estilo de vida fomentado pelo sistema econômico e social da época, é comum a afirmação de que os hippies não existem mais e de que a sua ideologia se diluiu no tempo.

Datam-se os anos 50 como o marco de origem das iniciativas que posteriormente formaram o movimento. É quando a geração beatnick, jovens rebeldes, contagiados pelo orientalismo, e embalados pelo som do rock and roll,  ‘acorda’ para o condicionamento repressivo que a cultura capitalista propaga. Mas é mesmo durante a década de 60 que os hippies se firmam como grupo revolucionário. Seus adeptos: uma população jovem, de classe média, fruto do baby boom do pós-guerra.

Uma observação pouco acurada do que representou o movimento pode levar a afirmação precipitada de que aqueles jovens eram simplesmente crianças inocentes cheias de ideais utópicos que só pensavam em drogas e sexo. Por outro lado, uma análise aprofundada recairia na compreensão de que aquelas crianças inocentes, que adoravam o sexo e a droga, conseguiram abrir os olhos de toda uma geração através dos seus ideais utópicos. Essa perspectiva é muito bem explicitada nas palavras de Martin Lee, no documentário “Hippies”, produzido pelo canal fechado History Channel: “Havia um tipo de ‘experimento da orgia’ que ia além das drogas e do sexo. Era um experimento sobre um estilo de vida: experimentos em arte, expressão política – como expressar desaprovação pela política governamental, fosse pela guerra do Vietnã ou qualquer outra coisa”.

 

hippies-2-reduzido2Ainda segundo o vídeo, é em 21 de janeiro de 1966 em São Francisco, mais especificamente na rua Haight Ashbury, com a realização de um famoso festival financiado pela mídia, O The Trip’s Festival, que os hippies começam a se organizar em comunidades e chamar a atenção da mídia. Através desse espetáculo o LSD (ácido lisérgico) ganha popularidade e transforma-se no guia de libertação e expansão mental desses jovens. O psicodelismo torna-se característica particular do grupo. As sensações de efeito visual distorcido e do aguçamento das cores provocadas pela droga influenciaram a arte, a música e a concepção de mundo dos hippies. Além disso, como explica o escritor Peter Coyote, “para muitos, a droga era um meio de transcender, de nos fazer ir mais longe do que imaginamos ser capazes. De tentar fazer uma sociedade mais humana e aprazível”.

 

No Brasil, quando da mais intensa propagação dos ideais disseminados pelos hippies, estávamos já sob o domínio do Regime Militar. O veículo mais expressivo que deu voz ao movimento de contracultura foi o jornal O Pasquim, na coluna Underground, escrita por Luiz Carlos Maciel, de 1969 a 1971. Nela o jornalista apresentava artigos e análises sobre os acontecimentos mundiais que propagavam a contracultura. Porém, a parte majoritária do jornal, adepta de uma esquerda tradicional, não compactuava dos mesmos interesses do jornalista em relação ao tema, o que desencadeou a saída do mesmo em 1971.

Foi nessa mesma década de 70 que o cantor John Lennon anunciou o fim do “sonho”. Atualmente acredita-se que a filosofia hippie se esvaeceu. Que, como cita Claudio Prado, presidente do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital, em entrevista à jornalista Flávia Pardini: “Desapareceu o hippie de calça rasgada, porque a calça rasgada agora está na boutique”. Enaltecendo a apropriação da vestimenta e estilo hippies pela indústria da moda.

Remanescentes ou  afeiçoados?

Mas, se os hippies não existem mais, o que são aquelas pessoas que ganham a vida vendendo artesanato? Na maioria das vezes, eles se autodenominam artesãos, levam vida parcialmente alternativa, compactuam com a tecnologia e estão sempre atentos à manipulação do sistema. É o que explica o artesão Rodrigo Mago: “As pessoas vê a gente assim de cabelo grande e diz ‘olhe lá, um hippie!’.Eu não sou hippie. Eu não tenho dinheiro, nem uma Combi toda pintada. Eu vendo arte, vivo disso. Os hippies lá daquele tempo eram tudo cheio da grana. No festival lá de Woodstock os cantores mais famosos foram contratados com grana alta; eles bancavam tudo”. Na opinião de Rodrigo, os hippies da década de 60 eram jovens ricos que saíam de casa com seus carros coloridos. E que tão logo se desiludiam com o movimento, retornavam ao aconchego dos seus lares.

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Rodrigo Mago na praça Fausto Cardoso - Centro de Aracaju

Rodrigo começou a questionar-se sobre as imposições da sociedade ainda aos seis anos de idade, quando o seu pai lhe dizia que ele deveria cortar o cabelo porque assim deveriam fazer os homens. “Eu gostava do meu cabelo grande. Se a natureza deixava o meu cabelo crescer mesmo eu sendo homem, então eu não tinha que cortar”.  O seu primeiro contato com hippies deu-se entre os seis e sete anos, na Praça da Catedral, onde a mãe o deixava numa oficina de pintura para poder ir trabalhar: “eu ficava olhando aquele povo do cabelo grande, assim feito o meu. Mas, eu tinha medo de me aproximar. Um dia eu mostrei eles a minha mãe e ela me levou lá e comprou uma pulseira pra mim”, conta.  Rodrigo, hoje com 29 anos, saiu de casa aos 15 e mora na Chapada Diamantina. Acredita que a tecnologia pode ser uma grande aliada para encurtar as distâncias. “A internet é massa, permite que você fale com um monte de gente distante. Eu posso conversar com uma amiga minha lá do estrangeiro. Eu não posso fugir do sistema, eu só tenho que ter consciência do que ele quer de mim de verdade, e fazer com que eu use o que ele me oferece pra poder ferir ele”, defende.

 Outro caso bastante singular é o de Eduardo. Com o seu sorriso leve, barbicha alongada e discurso pacifista, há nove anos leva vida nômade. Habitou países como Bolívia, Peru, Argentina e, atualmente, o Brasil. Não fosse pelos traços andinos, cabelo negro e liso que teima em permanecer ajustado, e a sua posição decidida ao afirmar a morte da ideologia colorida, ele poderia ser encarado como um dos raros remanescentes da tribo revolucionária dos anos 60. Mas, é enfática a sua posição de que hippies não existem mais. “Aquela pureza, aquele amor de antes, não existe mais. As pessoas não miram mais as outras nos olhos. Não há comunidades vivendo em harmonia como houve naqueles tempos”, desabafa.

Por sua vez, o hippie Adriel acredita que os lendários hippies ainda existem. “Mesmo sendo poucos eles existem. Se você vive de arte, não tem uma casa pra morar, acha que a droga ajuda você a abrir a mente, quer um mundo de paz e amor, você é hippie. Eu sou hippie”, comenta.

Se existem ou não, hippies espalhados pelo mundo que compactuam com os mesmos ideais erigidos pelos jovens da década de sessenta, parece ser uma questão de ponto de vista. É fato, porém, que o movimento balançou e destruiu vários dos códigos culturais solidamente construídos pela velha cultura. E suas influências foram ainda mais além. Segundo professor e escritor americano, Stanford Fred Turner, em entrevista à Folha de São Paulo, os hippies, unificados na pessoa de Stewart Brant, tiveram grande influência na construção do modelo de internet: “Vamos imaginar a região de San Francisco em 1971, 1972. A era dos hippies, do rock and roll havia passado e San Francisco era o centro disso. O pessoal do computador, na época, estava fora da contracultura. Eles não eram “os bacanas”. Uma vez perguntei a um deles por que se aproximou de Brand. ‘Porque Stewart Brand arrumava namoradas’, comenta. Assim, Brand e a contracultura trouxeram um valor social que eles não tinham. Queriam ser legais, arrumar namoradas, ter estilo. Mais tarde, no início dos anos 80, quando a contracultura já havia morrido, pessoas como Brand se voltaram para os pesquisadores em computação -que passaram, então, a ser as pessoas “bacanas”- e os ajudaram a recuperar seu status cultural. 

Uma resposta

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  1. Edson Costa said, on 15/04/2009 at 3:34 am

    Oi, tudo bom? Estava em andanças pela net quando me deparei com seu blog… sinceramente, e o achei fantástico! De uma simplicidade madura e muito cativante.
    Eu também tenho um blog e, se me perdoar a audácia, pretendo um dia estudar Jornalismo.
    Retorne-me por e-mail, pois é sempre válido interagir com pessoas diferentes (mesmo que seja virtualmente) e pretendo acompanhar seu trabalho, se me permitires, claro!
    Cumprimentos e votos de sucesso!


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