Técnica de Produção, Reportagem e Redação Jornalística

Dengue, um alerta contínuo!

Posted in Saúde by micheletavares on 30/05/2009

                                                                            

Foto: Uiliane Costa

Foto: Uiliane Costa

 Hospitais lotados, milhares de  infectados. Os sergipanos  enfrentavam uma epidemia de dengue. Os casos mais graves dos últimos tempos, número de óbitos crescente  e a população assustada: este era o preocupante cenário em que se encontrava a saúde em Sergipe, em 2008. “A dengue é uma doença constante”, afirma o infectologista e coordenador do Núcleo de Doenças Transmissíveis do estado de Sergipe, Marco Aurélio Góes, alertando para a gravidade da doença e a necessidade de evitar o esquecimento, mesmo com a diminuição dos casos em 2009. Esclarecendo sobre os principais pontos polêmicos relacionados à dengue, Marco Aurélio aborda na entrevista desde as questões mais freqüentes até as mais complexas e curiosas.

 Por Daniele Melo e  Uiliane Costa

 

EmPauta UFSO que é a DENGUE?

 Marco Aurélio – A dengue é uma doença aguda que tem sintomas que já são bem conhecidos como: febre, dor de cabeça, dor no corpo, dor nos olhos, que na maior parte desses casos eles são altos resolutivos, quer dizer, que eles se resolvem somente com cuidados básicos como hidratação, uso de anti-térmicos, só que tem um pequeno percentual de casos  que ocorre complicações, o que pode levar o paciente até ao óbito.

EmPauta UFS – As complicações são devidas ao próprio organismo ou a doença?

 Marco Aurélio – Como toda doença não existe só um fator, tudo envolve diversos fatores, pode ser, é claro, o organismo de cada indivíduo responde de uma forma diferente, e em alguns casos, tornam-se mais agressivas essas respostas, mas também o tipo de vírus. Ás vezes o vírus que está circulando no nosso meio é mais agressivo, como o que vimos no ano passado, a ocorrência de casos mais graves. O problema não foi nem tanto a quantidade de casos, que foi grande também, mas sim a gravidade deles é claro que fatores ambientais são importantes também, a temperatura e a umidade, por exemplo, que favorecem a replicação do vírus e a multiplicação dos insetos transmissores, ocorrendo mais casos e cada vez mais fatores.

EmPauta UFS – Existe um horário de pico para o ataque do Aedes aegypti?

 Marco Aurélio – O que a gente tem é um maior risco de picadas pela fêmea do mosquito da dengue no inicio da manhã e à tardinha que é o período que ela sai pra fazer sua caçada. Só que isso não exclui outros horários, estamos falando de pico de maior probabilidade, só que as pessoas acham que estão protegidas em outros horários e não é assim, é mais comum que ela pique em áreas mais baixas, até 1 metro de altura.

EmPauta UFS – Qual período do ano é mais propicio ao desenvolvimento da DENGUE? Porque?

 Marco Aurélio – A Dengue é uma das doenças chamadas de sazonais, que segue algumas estações do ano. No Brasil a gente considera o verão, porque o verão tem umas chuvas…Aqui no nordeste a gente considera o primeiro semestre que é o período de chuva e calor.

EmPauta UFS – Quais a regiões mais atingidas no Brasil?

 Marco Aurélio – No mundo, a região mais atingida é justamente entre os trópicos (na região tropical), porque é uma doença típica das regiões tropicais, que é o vetor para ele se multiplicar…Ele precisa das condições de umidade e de calor. A dengue tem se concentrado, no mundo inteiro, nas grandes cidades e cidades de médio porte porque esse mosquito já se adaptou de tal forma ao ambiente urbano que favorece sua replicação. Nesses ambientes onde há muita gente pra ele picar, há facilidades também na oferta de criadouros, principalmente muitos reservatórios artificiais que é o predileto para ele. Não que o mosquito não se reproduza nos municípios menores, mas tudo isso contribui para que ele se adapte cada vez mais ao ambiente urbano e por isso a gente tem epidemias urbanas com alguma rapidez. É claro que diferente do acontece normalmente, a gente atende até em municípios pequenos, é um comportamento um pouco diferenciado que implica também das condições de desenvolvimento de cada município, as questões do lixo, do copinho que  pode acumular água, as lavanderias, o tanque.

EmPauta UFS – Uma pessoa pode ter DENGUE mais de uma vez?

 Marco Aurélio – A gente pode ter uma dengue pra cada vírus, se os quatro vírus estiverem circulando a gente pode ter quatro dengues na vida, que pra cada tipo de vírus da dengue (o dengue1, dengue2, dengue3 e o dengue4) existe uma resposta imunológica que é definitiva. Se tiver por um tipo de vírus, não vai ter mais por aquele sorotipo, mas você pode ter pelo outro. Por exemplo: no Brasil ainda não circula o dengue 4, mas mesmo quem já teve 3 dengues anteriores chegando o dengue 4 ainda poderá ter esse tipo.

EmPauta UFS – Qual a principal diferença entre a DENGUE hemorrágica e a DENGUE comum?

 Marco Aurélio – Estamos falando do vírus da dengue, dos quatro vírus. Eles podem causar desde uma doença leve até uma doença grave. Não é o tipo de vírus que determina a gravidade da doença apenas, por que os vírus multiplicam-se fazem algumas mutações e com isso algumas respostas do organismo podem ser mais agressivas.O tipo de vírus pode ajudar nisso dependendo do vírus que ta circulando, mas não é isso que vai definir. Então quando a gente fala dengue hemorrágica, ela pode ser causada pelo vírus da dengue 1,2,3 ou 4. A dengue hemorrágica é uma doença que no seu começo ela parece com a dengue comum, que tem aqueles sintomas clássicos e que naquele momento em que a pessoa deveria apresentar uma melhora clinica, o organismo começa a responder de uma forma tão exagerada que a pessoa apresenta manifestações hemorrágicas , a plaqueta começa a cair, a pressão a diminuir e a pessoa começa a ter uma piora clinica podendo levar a óbito. É isso que é preocupante por que como já teve varias vezes surtos da doença circulando no Estado, a população banalize e fala : ‘Ah é só dengue!…Você toma paracetamol, dipirona, liquido e pronto, acha que é tão simples e não toma os cuidados adequados, só indo ao medico quando o caso já está grave.

EmPauta UFS – No ano passado teve surto de DENGUE?

 Marco Aurélio – No ano passado foi uma epidemia de dengue, surto a gente usa geralmente quando é pra comunicar que esses números de casos estão em um certo lugar. A gente teve surtos em vários lugares o que a gente denomina de epidemia, um numero muito superior ao que se esperava tanto da forma comum, como da grave

EmPauta UFS – Então não se pode falar em erradicação da DENGUE?

 Marco Aurélio – Não, a gente fala de controle da dengue.Ela é uma doença que vai conviver muitos anos com a gente, tudo depende das condições climáticas também.O inseto sabe-se que é impossível erradicá-lo do meio humano.

EmPauta UFS – Existe alguma vacina que possa inibir a ação desse vírus?

 Marco Aurélio – Tem-se trabalhado muito com vacinas, agora em uma atualização que saiu no congresso de medicina tropical, as melhores propostas serão para mais de 8 anos, para se elaborar essa vacina, o que talvez fosse a solução para o problema. O grande empecilho para a vacina da dengue é que são quatro tipos de vírus, quando a gente tem uma dengue o outro tipo de dengue que podemos ter pode ser mais complicado, tem um risco maior de ser hemorrágica. Os estudos emperram um pouco nisso, ás vezes você vacinado para um vírus da dengue, continua ou até aumenta o risco de desenvolver uma dengue mais agravada, pelo outro tipo. Então, há tentativas de fazer uma vacina que a gente chama de conjugada, que contém os 4 tipos de vírus, mas existe uma dificuldade muito grande.

EmPauta UFS – Há alguma possibilidade de mutação da DENGUE?

 Marco Aurélio – As mutações ocorrem nas replicações que os vírus fazem com facilidade. Não de ter um novo tipo de dengue, só os quatro tipos mesmo, mas é diferente do vírus da gripe que modifica com muita freqüência, todo ano são vírus novos. O da dengue não!Ele tem pequenas mutações que dão uma maior virulência (capacidade de ele causar doença grave dentro do mesmo tipo de vírus).

EmPauta UFS – Por que alguns atestados de óbitos constam apenas como uma suspeita de DENGUE e não como um caso confirmado?

 Marco Aurélio – O atestado de óbito ele é um documento médico, quem preenche é o medico da assistência, o medico que assistiu o paciente de acordo com o que ele entendeu da doença, o que ele compreendeu que aquele quadro clinico significava. A gente tem atestados de óbitos que disseram que era dengue e na realidade não era dengue, outros que disseram que não era dengue, e na investigação era. O atestado é um documento que é necessário para enterrar a pessoa e ele é dado muitas vezes em período que nem todos os exames estão prontos ainda.Teve casos no ano passado mesmo que estavam como outro diagnostico, mas na investigação, na verificação da história, nos contatos, avaliando também os índices da quantidade de dengue que tem naquele município, alguns casos mesmo com atestado estando como outras doenças nas estatísticas entraram como caso de dengue, pois para gente interessa saber de que as pessoas estão morrendo. As famílias às vezes não compreendem bem isso, o que significa aquele atestado, por que a gente tem uma doença muito grave e que mata muito também que é muito parecida com a dengue que é a leptospirose e que ocorre neste período de chuvas, tem outra forma de transmissão, mas ela é muito parecida (causa sangramento, leva a óbito).Então alguns casos os exames deram positivos para leptospirose e tava no atestado como dengue, mas nas estatísticas a gente muda o dado por que o que importa é saber do que as pessoas estão morrendo pra poder intervir de maneira mais eficaz.

EmPauta UFS – Existe um exame especifico pra comprovar a DENGUE. Esse exame já está sendo feito aqui em Sergipe?

 Marco Aurélio – Sim, a gente tem classicamente a sorologia pra dengue, a pesquisa dos anticorpos para vírus da dengue (a célula de defesa), só que esse exame ele só positiva depois do sexto dia de doença, por que vai medir o anticorpo e ele vai surgindo aos poucos e depois do sexto dia ele começa a aparecer de forma elevada, quando o exame pode se tornar positivo.O Brasil está testando uma outra metodologia que é tentar identificar alguns fragmentos para o vírus, aí estaria recolhendo até o 3ºdia de doença, só pra realmente ver se consegue agilizar um pouco mais essa resposta do diagnostico. Mas temos que lembrar que a coisa mais importante independente de ter um exame laboratorial é o paciente ser bem assistido, o profissional examinar adequadamente, fazer orientações, às vezes a gente observa que muitos casos que evoluem de forma desfavorável é por que não teve os  cuidados adequados, tanto por parte dos pacientes como dos médicos.

EmPauta UFS – O senhor acha que a população tem consciência sobre o papel que ela tem na diminuição da doença?

 Marco Aurélio – Eu acho que a população está cada vez mais consciente e muda de atitude, mas a gente sabe que a mudança de atitude precisa está sempre com informação. Acho que informação todo mundo tem, todo mundo sabe como é que se previne, o que deve evitar, mas mudar o habito é difícil, a gente observa que depois de uma epidemia fica todo mundo muito sensibilizado.

EmPauta UFS – E quando se ameniza a epidemia as pessoas se esquecem?

 Marco Aurélio – Esse é o grande problema, esse é o medo que se tem, que as pessoas esqueçam e achem que a epidemia foi uma coisa do passado, e não, ela pode acontecer a qualquer momento se as atividades forem relaxadas.

EmPauta UFS – Há algum projeto de conscientização da população sendo executado no momento?

 Marco Aurélio – Tanto a mídia por conta própria como a secretaria do Estado, município, governo federal sempre intensificaram as informações sobre dengue a necessidade de mudanças de hábitos, mais é importante também está trabalhando com comunidades mais locais.

 EmPauta UFS – Do ponto de vista nacional o que é mais relevante a DENGUE ou a gripe suína? Por que?

 Marco Aurélio – A gente tem vários problemas com doenças transmissíveis e que todas são relevantes, só que em momentos diferentes. A dengue é relevante falar sempre, por que o ano todo tem dengue e o ano todo precisa está controlando o vetor, essa informação tem que estar constante.Outra informação diferente é o da gripe, a gripe é um vírus que ainda não circula no Brasil e que a gente trabalha com a vigilância para bloquear que ele penetre por aqui, precisa identificar todos os casos possíveis, colher exames para descartar e restringir o número de casos, para que ela não vire uma epidemia também no país. È um momento diferente. A dengue não, ela já circula, já é uma doença que tem no Brasil, e em praticamente todos os estados. A habilidade dela é diferente, é de controle, de tratamento, já nessa outra doença influenza A (H1N1) é uma medida de barreira que a gente faz. Momentos diferentes de se trabalhar uma doença, mas todas são importantes.

Por Trás do Picadeiro

Posted in Cultura by micheletavares on 29/05/2009

A Alegria não pode parar…

  

Margaret Pereira Costa - diretora geral do Circo Estoril

Margaret Pereira Costa - diretora geral do Circo Estoril

A atividade circense diminuiu consideravelmente nos últimos anos. Muitos circos faliram, outros tantos fecharam suas portas. A Internet, o vídeo-game e a televisão foram fatores que contribuíram para a queda na procura pelo circo. Para nos falar sobre o mundo circense conteporâneo e discutir como ainda é possível manter a alegria do espetáculo no picadeiro, entrevistamos a mineira de Uberlândia, Margaret Pereira Costa, cuja idade mantém em segredo, mas que está à frente na produção do espetáculo do circo português Estoril há sete anos, como diretora geral, desde a vinda deste ao Brasil.

 Por Juacy Castro e Pedro Ivo

 

EmPauta UFS: O que o “Estoril” representa na sua vida?

Margaret: Minha vida… [pausa]. Pois eu estou com ele desde que veio para o Brasil, há sete anos, e criei uma ligação familiar com ele.  Hoje eu não me vejo fora do Estoril.

EmPauta UFS: Qual a responsabilidade de estar há sete anos à frente na produção de um espetáculo circense?

Margaret: A responsabilidade é muito alta. Eu sou médica, eu sou delegada, eu sou prefeita, eu sou tudo!

EmPauta UFS: O circo ainda é uma atividade rentável?

Margaret: Hoje em dia não. Hoje é mais amor, porque as grandes empresas não nos dão suporte para trabalhar. Não temos isenção de nada, pelo contrário, por sermos procurados tudo é mais caro.

EmPauta UFS: Existe alguma forma de incentivo do Governo Federal com o circo?

Margaret:  Desde Tancredo (Neves) não. Agora se você chegar com um circo de fora, do exterior, eles te ajudam, te dão apoio, te dão tudo.

EmPauta UFS: Você entra ou já entrou em cena nos espetáculos ou trabalha apenas nos bastidores?

Margaret: Já entrei… eu era domadora de cachorros.

EmPauta UFS: É mais fácil trabalhar nos bastidores ou lá dentro do picadeiro?

Margaret: Lá dentro, lógico! Embora eu tivesse vergonha do público, aqui é muita correria, tem que controlar o orçamento, os gastos, o que se torna difícil quando não se tem um incentivo, um patrocinador.

EmPauta UFS: Existe alguma dificuldade em ser responsável por tantos artistas? Existem problemas com ego ou relacionamento?

Margaret: Não, aqui todos nós somos uma família, 24 horas por dia a gente convive junto, mas existem algumas briguinhas em vez de quando que passam rapidinho, coisa de 10 minutos no máximo.

EmPauta UFS: Em sua opinião o artista circense é valorizado? Seus salários são condizentes com seu desempenho no picadeiro?

Margaret: A maioria, principalmente no Globo (da morte)…

EmPauta UFS: Quais são as principais dificuldades enfrentadas pela atividade circense atualmente?

Margaret: Existe muita burocracia, principalmente para conseguir um espaço. Nós precisamos de um espaço 2500 metros quadrados e em espaço público fica muito difícil. Em particular é um gasto absurdo.

EmPauta UFS: E o mercado circense… O que falta para chegar ao ideal?

Margaret: Falta valorizarem mais. Pois o mundo circense muda, se torna diferente e está sempre trazendo novidades.

EmPauta UFS: Qual o público que ainda costuma frequentar o Circo?

Margaret: Crianças, idosos, jovens, todas as idades, toda faixa etária. Hoje em dia, no mundo mesmo, entretenimento para família mesmo não tem.

EmPauta UFS: Nos últimos anos a atividade circense caiu consideravelmente. Muitos circos faliram e outros fecharam suas portas… Qual é a perspectiva do “Estoril” para o futuro?

Margaret: [Pausa] É pedir a Deus que a televisão, a Internet, o vídeo game, não acabem com a cultura milenar que gera alegria à família. E que o publico valorize mais, não só o “Estoril”, mas os outros circos que também estão abandonados. 

EmPauta UFS: Com shoppings centers, vídeo game, Internet e TV a procura pelo circo caiu nos últimos anos. Quais são as estratégias para atrair o público?

Margaret: O globo (da morte) com 5 motos. O público adora.

EmPauta UFS: Já aconteceram falhas no durante espetáculo? Comente…

Margaret:  O espetáculo circense por ser ao vivo está sujeito a erros. Você ensaia e à noite, às vezes, acontece algum deslize. O menino errou as três voltas (triplo mortal no trapézio) ontem (quinta-feira, 14), quando acabou o espetáculo ele foi ensaiar e acertou todas suas tentativas.. mas pode na hora do espetáculo errar novamente.

EmPauta UFS: O circo para sustentar-se precisa estar sempre inovando. Como é feito a renovação do espetáculo?

Margaret: Procurando dar dinamismo, mostrar um espetáculo agradável, dar oportunidade ao público de ver um espetáculo que não pára. Circos em que os números demoram não são bons, então “Estoril” sempre quer ser rápido, dinâmico, jovem.

 EmPauta UFS: Existem ONG’s que tentam proibir o uso de animais nos espetáculos… O que você tem a dizer sobre isso?

Margaret: Eles são ridículos, eles acham que é fácil sustentar um elefante. Dando amor! Porque esse elefante cresceu junto com a gente, ela tem a idade do meu sobrinho. Eles acham que a gente maltrata, por exemplo, esse cachorro (o Nike) aqui… Se a gente fosse bater nele, não ficaria aqui (ela alisando o cachorro), mas se você dá amor, comida, carinho, água, tudo certinho para ele, qualquer animal por mais feroz fica pianinho.

EmPauta UFS: Neste atual espetáculo vocês contam com animais, como é feito o treinamento com eles?

Margaret: Eles não ensaiam, já sabem tudo. Os meninos sim ficam ensaiando durante o dia malabares, o trapézio, as meninas alguma dança, mas eles não… Teve um dia que mudaram a ordem de chamada, e o domador não estava pronto, ainda estava sem se vestir, quando o locutor chamou, ela (elefanta) entrou sozinha, fez tudo certinho, sem ninguém ali mandar nada.

EmPauta UFS: E existe algum tipo de cuidado especial na segurança do público?

Margaret: O público não corre risco que exija uma segurança especial, pois nós não temos animais selvagens, temos apenas animais exóticos. Quando se fala em animal selvagem pensam logo no leão, este por ser um animal carnívoro precisa de carne, e isso é ruim para o público, então nós temos, só temos animais exóticos…

EmPauta UFS: O que é feito depois que as cortinas se fecham e as luzes se apagam?

Margaret: Os meninos vão jogar bola, as meninas pegam alguns dvd’s para assistir, outros fazem comida, alguns jogam baralho.

EmPauta UFS: A vendagem de bilheteria é o suficiente para manter o Circo?

Margaret: Não, o circo não consegue se manter apenas com bilheteria, por isso nos intervalos gente vende refrigerante, pipoca para completar a renda.

EmPauta UFS: Como você vê essa concorrência com o ‘Circo da China – Piratas’ aqui em Aracaju sendo mais divulgados na mídia?

Margaret: Parabéns ao Ricardo Douglas (diretor) que fez um lançamento do Circo da China muito bonito!

EmPauta UFS: Esse número do globo da morte… Vocês realmente são os melhores do mundo?

Margaret: Somos! Inclusive recebemos esse premio nos Estados Unidos em 2004, por ser o primeiro circo do mundo a rodar com seis motos no globo da morte com diâmetro de 4,30m.  Hoje tem até com oito motos, mas o globo é enorme cabe até dez.

 EmPauta UFS: Ao longo dos sete anos que você está na direção teve alguma fase que marcou mais?

Margaret: Varias épocas, vários lugares. Em Foz do Iguaçu foi o lugar em que eu ganhei o título de cidadã, em Salvador foi o terreiro que eu lutei para conseguir, em Ilhéus o prefeito foi muito rude comigo e isso também marcou, enfim todas as cidades sempre marcam…

EmPauta UFS: Você não tem vontade de criar raízes no local só, sem ter que estar saindo de cidade em cidade?

Margaret:- Não. Todo dia fazer a mesma coisa, ir nos mesmos locais, eu não me acostumaria mais com isso.

EmPauta UFS: Algum integrante do circo já quis ficar em alguma cidade?

Margaret: Não. Pelo contrario tem uns que querem ir embora com a gente e eu não levo.

EmPauta UFS: Por quê?

Margaret: Alguns por serem menores de idade, outros por virem apenas por causa das meninas e não por vocação.

EmPauta UFS: Existem atividades sociais prestadas pelo “Estoril”?

Margaret: Sim. Aqui mesmo em Aracaju ontem (quinta-feira, 14) a gente foi ao Hospital de Câncer fazer malabares. Essas iniciativas trazem uma paz muito grande.

Posted in UFS by micheletavares on 28/05/2009

“Compreender o mundo e a mim mesmo”

Vestindo bermuda, camisa de algodão e calçando sandálias de dedos, o professor/doutor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Luiz Fernando Alves Barroso, recebeu a equipe do Em Pauta UFS em seu apartamento em Aracaju, em plena manhã de domingo, dialogando de maneira aberta e sincera o porquê escolheu a Mídia Gay como tema da sua dissertação de doutorado.

Por Eduardo Barreto ( eduardobarreto@ibest.com.br)

e Barbara Mendes ( babiit_@hotmail.com)

Em Pauta UFS: O que o motivou a fazer uma monografia sobre Mídia Gay?

Fernando Barroso com a primeira edição do Jornal do Nuances. Foto: Eduardo Barreto

Fernando Barroso com a primeira edição do Jornal do Nuances. Foto: Eduardo Barreto

Essa é uma história da minha vida pessoal, porque não fui para Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) em Março de 2003, já definido com esse tema de pesquisa. O meu tempo de estudo seria de quarto anos, no meu primeiro ano eu estava com outro tema pressuposto e me dei conta que não estava sendo produtiva a minha pesquisa nessa aérea, que era sobre Cultura Nordestina, algo como o moderno e o tradicional na mídia dessa região. A cada momento que tentava definir com maior precisão essa questão, me dava conta cada vez mais que este propósito não estava se ajustando ao que deveria ser, ou melhor, ao meu interesse. Então, em Dezembro de 2003, resolvi dá uma virada geral na minha condição de doutorando para mudar de tema; procurei o meu orientador e tive uma conversa com ele, pois não estava satisfeito com o meu rendimento e que para avançar em meu projeto de pesquisa era necessário mudar de tema, com isso modificaria para Imprensa Gay, a qual eu já era um leitor desse tipo de material e por está envolvido neste universo, pelo fato da minha condição pessoal de homossexualidade, eu poderia render.

Em Pauta UFS: Então houve uma identificação com sua vida pessoal?

Sim, houve uma identificação de trazer o tema para minha própria vida, por isso que eu considerei em fazer uma tese de doutorado sobre Imprensa Gay seria mais produtivo e mais prazeroso para mim.

Em Pauta UFS: Por que o Rio Grande do Sul como região de estudo?

Fui estudar na cidade de São Leopoldo, que fica na região metropolitana de Porto Alegre, na UNISINOS a qual é uma instituição muito consolidada no meio acadêmico do Rio Grande do Sul e porque já existiam programas de estudos sobre mídia e processos sociais. Professores, debates e as leituras que se faziam nessa universidade eram adequados para minha demanda de crescimento acadêmico, por se tratarem de estudos culturais, o qual, naquela época e até hoje, é a linha de pesquisa com a qual mais me identifico.

Em Pauta UFS: Como foram feitas as escolhas dos objetos de estudo, uma vez que o senhor teve que partir novamente do zero?

Em primeiro lugar eu tinha umas questões de ordem muito concretas, uma delas era o acesso às fontes, ou seja, aos dados que eu necessitava. Não poderia me propor, estando em Porto Alegre, coletar dados em São Paulo, Rio de Janeiro ou até mesmo no exterior, porque iria implicar em custos financeiros e de outras ordens, sendo tempo e dinheiro variáveis as quais não poderia perder de vista. Precisava fazer uma pesquisa cuja operacionalidade tivesse toda em minhas mãos. Na capital gaúcha existe um grupo de mobilização social pelos direitos dos homossexuais que é o Nuances, o qual produz um jornal cujo nome é Jornal do Nuances, eu já havia tido acesso à esse periódico e pensei por que não estudá-lo?! Em princípio pensei em fazer uma comparação do discurso dos jornais do Nuances com o do Lampião da Esquina, que é um jornal carioca e foi editado há 20 anos (final da década de 70 em meio à Ditadura militar) e que também trata da temática gay.  Acabei conseguindo todas as edições dos dois jornais, no decorrer do meu trabalho acabei me dedicando mais à publicação gaúcha, pois assim estaria me dedicando e detendo meu foco de investigação.

Em Pauta UFS: Quais eram as propostas do Jornal do Nuances?

No ponto de vista ideológico e cultural a principal característica do jornal era se colocar como um crítico das teses e das propostas hegemônica dos movimentos homossexuais brasileiro; eles consideram que esses movimentos, em um primeiro momento, eram muito autônomos com relação ao Estado e aos partidos políticos e com o passar do tempo foram perdendo essa autonomia e se atrelando aos partidos de esquerda e ao Estado, principalmente quando geridos pelo partido de esquerda, neste caso ao Partido dos Trabalhadores (PT). Então eles consideravam que os movimentos foram se compondo em organizações não governamentais (ONGS) e assim tendo acesso, via Ministério da Saúde, às políticas públicas de prevenção à AIDS, adquirindo recursos e mais recursos. Em contrapartida, essas instituições foram perdendo sua autonomia e se tornando ‘braço’ do Estado. O Nuances começou a se insurgir contra processo e a afirmar para o movimento homossexual brasileiro que ele deveria voltar ao seu estágio de autonomia em relação ao Estado e aos partidos e que o movimento não deveria partir para um processo de normalização, de domesticação; deveria sim, trazer suas propostas autônomas que eram garantir a sua cidadania e transformar a sociedade com essa contribuição homossexual e não seguir um modelo heterossexual.

Em Pauta UFS –  Como eram realizadas as edições do Nuances? Já que não havia tiragem regular do mesmo.

O jornal como uma ONG dependia diretamente de verba (doações e repasses), no qual seu maior parceiro é o Ministério da Saúde, porém sabemos que esses recursos que provêem  desses projetos são instáveis , eles viabilizavam a instituição e  com isso nem sempre tinham dinheiro suficientes para lançá-lo. Ele tem sua sede própria na no centro de Porto Alegre e a elaboração do jornal é feita, em grande parte por voluntários (que tem seus trabalhos fora do jornal), mas que também existem pessoas que dependem diretamente do jornal. Seus colaboradores são de classe média baixa e tem formação acadêmica em diversas aéreas, entretanto nenhum deles tem formação em comunicação social. No principio era assessorados por uma jornalista, com a escassez de recursos seu trabalho foi dispensado.

Em Pauta UFS –  Existe uma escassez de material que aborde a mídia gay?

O que a gente chama de mídia gay, mais especificamente imprensa gay, é que resulta dos movimentos das minorias ocorridos no final dos anos 60 como dos negros, mulheres, ecologistas e no qual os gays também fazem parte. Em 1969, na cidade de Nova York, no bairro de Greenwich, havia um bar chamado de Stonewall Inn e nele ocorreu uma batida policial, alegando que no local estava ocorrendo o consumo excessivo de álcool e drogas.  Pouco tempo depois do ocorrido foi descoberto que a ação dos policias era na verdade uma atitude de homofobia. Mesmo assim o público freqüentador daquele bar não cruzou os braços, resolveram então fazer uma ‘guerra’ contra essa atitude intolerante.  Começou uma mobilização muito grande em prol desse grupo, daí então surgem os primeiros jornais de natureza gay, eles eram feitos de forma artesanal e alguns outros com temáticas militantes. Mais recentemente essa imprensa foi se profissionalizando e deixando de lado o caráter artesanal e assumindo as regras do mercado vigente e assim os estudos feitos sobre essas  mudanças tem se dado conta dessa transformação.

Em Pauta UFS- No Nuances o seu leitor não é visto como um consumidor e sim como um cidadão.

Exatamente, porque o jornal não é produzido para ser vendido, não precisa disputar leitores em bancas de jornal, ele se insurge contra esse estereótipo dessa imprensa dominante e chega com uma versão oposta que é dá consciência e participação política, agindo como porta-voz do grupo de organização das minorias juntando a outros movimentos sociais numa concepção antiliberal e de superação do capitalismo. Ele não se volta para o consumismo, hedonismo, para a valorização do indivíduo, ou seja, valoriza o coletivo e aborda também outras temáticas como feministas, negros, etc.

Em Pauta UFS – O senhor foi bem aceito quando foi à procura dessas pessoas que fazem o Nuances? Houve algum receio por parte deles?

A sua pergunta é absolutamente correta e necessária.  Quando eu fui iniciar o trabalho a minha primeira tarefa era de apresentar-me ao grupo e possibilitar a conhecê-los, pedindo o apoio deles e à priori a coleção completa do jornal. Morando em Porto Alegre, sendo nordestino e professor de uma universidade dessa região, com outro sotaque, devo ter, e é natural que isso aconteça, despertado uma desconfiança entre aqueles militantes, por conta que eu poderia ser ao invés de um acadêmico, um espião de outra ONG ou até mesmo de uma organização do Estado, que de repente estaria se utilizando da questão da tese, um meio de me aproximar do grupo e buscar informações que poderia vir a prejudicá-los. Então precisava conquistar a confiança do grupo, e como ela foi conquistada? Não foi conquistada com palavras, mas com conduta, com a minha forma de trabalhar e de como me relacionava com eles. Diversas vezes participei de alguns congressos e com isso levava o Nuances para esses eventos, no qual eu anunciava ao grupo que o trabalho deles havia sido aceito nos encontros e ainda fazia questão de passar na sede para pegar alguns exemplares à serem distribuídos nos congressos. Com um desses exemplos e muita disciplina, fui ganhando a confiança do deles, fruto também da minha seriedade no que faço. Ah, um detalhe é que não os entrevistei no inicio da pesquisa, deixei para o final dela, pois estariam mais aberto e seguros com relação à mim, e com isso as informações poderia ser mais completas.

Em Pauta UFS – Depois que mudou de tema, quanto tempo durou o trabalho de pesquisa  até a sua apresentação?

Foram três anos, pois parti do zero (uma alfabetização de um tema novo, imprensa homossexual) para uma tese de doutorado, a qual iniciei em 2004 com o novo projeto em ação e em Fevereiro de 2007 a apresentei.

Em Pauta UFS – Como foi encarado o tema pela academia e pelos seus colegas?

Entre meus colegas eles não apresentaram reservas em relação ao tema, apresentaram sim, preocupação sobre a minha mudança de tema, perguntando se era isso que eu realmente queria ou se tratava de uma crise momentânea em relação ao meu projeto original. Essa preocupação é normal, pois qualquer objeto de pesquisa é desafiante e para um orientador maduro é indispensável a sua preocupação com o seu orientando, para que este não fique migrando todas as vezes que encontrar dificuldades no projeto e que deve compreendê-las e estudá-las e com isso seguir com seu projeto. Deste modo, mostrei que estava confiante e convicto com a minha mudança.

Em Pauta UFS – Existe o projeto de tratar sobre textos, com os alunos, de temáticas gay?

Depois que voltei de Porto Alegre e retomei minhas atividades como professor da UFS, o meu interesse, hoje, é avançar na pesquisa sobre imprensa gay e trazer esta questão para os meus alunos de graduação na forma de iniciação científica e de um grupo de pesquisa, e até mesmo para a pós-graduação no momento em que for constituído o curso de mestrado que está em processo de formalização junto as instância formais em que isso se dá. Então, o meu interesse é sair de um caso isolado, como o Nuances, e partir para um leque maior que nós compreendemos como mídia gay, em particular, mídia impressa, fazendo envolvimento entre mídia alternativa e a de mercado. Atualmente estou trabalhando com dois alunos em um projeto de iniciação científica com o jornal Lampião da Esquina e para isso estamos com trabalhos à serem apresentados na Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), que acontecerá em Curitiba no mês de Setembro e no de Ciências Sociais do Norte/Nordeste (CISO), que ocorrerá em Recife em Dezembro deste ano.

Em Pauta UFS – O senhor atingiu o objeto do trabalho?

Eu acredito que atingi sim, pois o objetivo era fazer o levantamento dos temas que o jornal discute, das posições que ele defende a respeito desses temas e uma explicação do porquê desses temas e dessas posições. Eles foram alcançados porque fiz uma leitura minuciosa e detalhada do jornal e levantei 69 temas que o jornal trata, desses comecei a recuperar textos nos quais o jornal se posiciona sobre cada um desses temas. Foi uma trabalheira enorme fazer esse levantamento.

Em Pauta UFS –Que temas eram esses, pode citar alguns?

Sim, eram variados, desde política, passando por cultura e comportamento.

Em Pauta UFS – O que fica da tese como experiência de vida para Fernando Barroso?

(suspiros) Uma experiência de vida maravilhosa, me favoreceu até como terapia, ao mesmo tempo em que ela me ajuda a compreender um universo exterior a mim ( que era da produção de um jornal) e no meu interior a minha sensibilidade e valores, ou seja, auxiliou a compreender o mundo e a mim mesmo.

“Luta e Construção”

Posted in Cultura, Educação, Política, Reflexão by micheletavares on 28/05/2009

Por Ivo Jeremias  e Joanne Mota

6

A democracia evoluiu historicamente através de intensas lutas sociais e, com frequência, também foi sacrificada em muitas dessas lutas. Nem sempre os movimentos sociais promovem a democracia, mas há uma tendência contemporânea a que muitos deles incorporem uma dimensão renovada de luta democrática, contribuindo para a ressignificação das práticas e teorias democráticas desenvolvidas a partir do século XVIII. Assim, as análises contemporâneas que tratam das relações entre movimentos sociais, sociedade e Estado nas transições democráticas é um fato que não deverá sair do debate, sobretudo quando questionamos e ampliamos as articulações possíveis entre democracia e sujeitos sociais, e as colocamos na agenda do dia para a discussão. Nesse contexto é que há 30 anos o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica da Rede Oficial do Estado de Sergipe (SINTESE) assume seu papel na luta pela construção de uma escola pública de qualidade. Este sindicato, que está em constante debate, ressalta seu papel na esfera política de discussão e convida à pauta sociedade civil, Judiciário, bem como os poderes Legislativo e Executivo. Essa movimentação tem o objetivo de dialogar diretamente com os governos, para que assim se tenha garantido uma escola pública de qualidade. Dessa forma, o sindicato espera construir uma escola pública gestada com base na democracia participativa, o que garantirá maior exercício da cidadania. Com esse discurso o SINTESE ganhou espaço em todo o Estado, tornando-se expressão da pluralidade de uma classe tão representativa para o desenvolvimento social. Em seu segundo mandato, a chapa “Resistência e Luta Sempre”, atualmente presidida por Joel Almeida, exerce ativamente a política construída no decorrer dos 30 anos de vida deste sindicato. EMPautaUFS conversou com o presidente do SINTESE, e ele ressaltou a importância das organizações sociais no desenvolvimento democrático de Sergipe.

Em 1960 surge a Associação de Professores, liderado por Agonaldo Pacheco. Sabendo que o momento histórico vivido era de ditadura militar, podemos dizer que o movimento nasce como forma a se contrapor a essa ação de coerção política?

JOEL ALMEIDA: Inicialmente, a luta dos professores e a organização começaram na informalidade, isso ainda na década de 50, a partir das normalistas, que eram as estudantes das escolas normais, aqui em Sergipe representadas pelas estudantes do instituto educacional Rui Barbosa. Só a partir da década de 60 foi que passamos a ter uma organização, a funcionar como uma entidade que congregava os professores e que lutava por direitos e por melhorias de condição de trabalho na esfera da Educação. Assim, surgiu a APMESE, que é a associação dos profissionais do magistério de Sergipe, como o período era de ditadura não havia possibilidade de os servidores públicos ainda formarem sindicatos. O servidor público não podia estar filiado a sindicato, eles poderiam estar vinculados em associações, estas que apresentavam um caráter recreativo, ou seja, era um ambiente de caráter aglomeratório para promover festas, recreação, lazer. Obviamente muitas pessoas que resistiam à ditadura naquela época, entenderam que aquele era o único espaço legitimado e legalizado pela ditadura para funcionar sobe aquelas condições. Alguns entraram nesse espaço para fazer mobililazação sem coerções, ou seja, mesmo tempo na perspectiva de aglomerar e de também fazer outro tipo de debate, ou seja, era aproveitar aquilo que a ditadura permitia que o trabalhador fizesse para você daí também constituir um foco de resistência a ditadura.5

O movimento sofreu restrições por parte do Governo Militar da época? Como se estabelecia as relações políticas?

JOEL ALMEIDA: Sim. Havia fiscalização, vigilância e até alguns atos repressivos, mas nada muito marcante que deixasse sinais profundos, porque era tudo feito muito veladamente. Como as associações não eram proibidas de forma ostensiva pela ditadura, eles aproveitavam o espaço para criar um espaço de persuasão dos associados, e assim ter outros tipos de luta na pauta da discussão. Ou seja, fazer outro tipo de luta. Mas lembro que tudo era muito disfarçado, não tinha uma organização ainda ostensiva em relação ao Regime Militar. Dessa forma, as associações conseguiam funcionar e politizar ao mesmo tempo.

O SINTESE participou do movimento Pró-democratização? Como se deu esse processo?

JOEL ALMEIDA: Sim. Nossos militantes participaram ativamente porque também nesse período a ditadura já era bem mais branda.

Nessa época já era o Sindicato ou ainda era a APIMESE?

JOEL ALMEIDA: Ainda era a APIMESE, porque o sindicato ele só surgiu a partir da nova Constituição, que foi promulgada em 1988. A partir daí foi que os servidores puderam se filiar em sindicatos e se organizar de maneira mais política nas questões sociais.

O que a nova constituição alterou para as associações?

JOEL ALMEIDA: Ela possibilitou que as associações se transformassem em sindicatos, isto é, nossa Constituição de 1988 permitiu que os servidores públicos pudessem se filiar a sindicatos. Os sindicatos têm um caráter representativo e reivindicatório, ou seja, muda a ótica política porque as associações não tinham um caráter representativo e reivindicatório. Através da associação não poderia ser feito reivindicações, era só um espaço para oferecer algum tipo de lazer ou atividade para o associado. Diferente do sindicato que passa a ter um espaço reivindicatório de livre manifestação.

A resposta da classe de professores de Sergipe na época em relação a transformação em sindicato foi boa?

JOEL ALMEIDA: Foi. Porque já se vivia o clima de sindicato naquela época. A partir de um determinado momento, mesmo antes de ter a transformação de associação em sindicato, as associações já passavam a funcionar, elas já tinham ultrapassado a barreira de fazer lazer ou assistencialismo. Na década de 80 as associações já funcionavam com um caráter reivindicatório. A transformação em sindicato foi mais uma legalização daquele tipo de ação, mas de fato ela já existia. Por exemplo, a APIMESE possuía um grupo interno de professores que reagiam à forma como a APIMESE fazia o debate com os trabalhadores. Assim, num d e terminado momento a associação passou a ter dois grupos a APIMESE e o CEPES.

1O que foi o CEPES ?

JOEL ALMEIDA: Era o Centro Estadual dos Professores de Sergipe. Ela funcionava como uma espécie de oposição a APIMESE. Oposição a partir de sua postura política. O CEPES tinha uma postura mais radicalizada, fazia criticas a ação da APIMESE que para eles era mais moderada em relação ao Governo. O CEPES já tinha um tipo de atuação mais de enfrentamento. Nessa época mesmo sem a permissão constitucional os servidores já exerciam plenamente esse caráter reivindicatório, até mesmo no nível de criarem outra associação, como criaram o CEPES. Em 1988 como era um avanço a transformação de associação em sindicato tanto a AP IMESE quanto o CEPES entendeu, naquele período, que as duas tinham que acabar. E aí surgiu o SINTESE.

A partir desta transformação como ficou o diálogo com o governo e as classes sociais?

JOEL ALMEIDA: Quem na verdade se transformou em SINTESE foi a APIMESE porque era o que estava legalizado na época da ditadura. A legalizada era a APIMESE, porém o CEPES era legitimado. Existe uma diferença do que é legal para o legítimo. Era legal porque a associação era a que era regularizada pelo Governo da época, já o CEPES não era regularizado junto ao Governo, mas a partir da atuação era a que conseguia reunir maior número de professores. Assim, a partir do momento que se consolidou a Redemocratização no Brasil quem assumiu o papel de sindicato foram as instituições legalizadas junto ao Governo, em nossa realidade quem obteve permissão para se tornar sindicato foi a APIMESE.

Houve uma fusão entre as duas associações para a formação do SINTESE?

JOEL ALMEIDA: Não houve fusão porque não havia identidade de pensamentos, mas havia um pensamento único de que era um avanço a transformação em sindicato. Portanto não havia motivo para se continuar com as dissidências que existiam na época da associação. Ele continuou sendo grupo de oposição porque foi a APIMESE que se transformou em SINTESE e não o CEPES, este passou a fazer oposição do SINTESE. Eles continuaram tendo divergências, mas eram divergências que a partir da Constituição, elas poderiam ser legitimadas, pois abriam a pauta para o debate. Outro fator determinante após a legitimação de sindicato foi a criação de um estatuto, um estatuto que apresentasse prerrogativas de eleição, o que conferiu ao sindicato um processo mais democrático de participação dos filiados, inclusive um processo democrático também de sucessão.

Havia alguma participação política entre esses grupos com algum partido?

JOEL ALMEIDA: A nossa origem bem como de outros sindicatos no Brasil é partidária. Na verdade os sindicatos do Brasil têm origem partidária, não há organização dos trabalhadores porque esta se deu antes dos partidos, mas a partir do momento do surgimento do PT e dos partidos de esquerda, pôde-se perceber a vazão dos sindicatos, sobretudo os sindicatos de concepção política mais de esquerda e origem partidária. O SINTESE era um grupo ligado ao PC do B e o grupo que era de oposição ao SINTESE era filiado ao PT. A raiz do sindicalismo no Brasil, do sindicalismo moderno nascido na década 1980, tem raiz partidária no Brasil inteiro.

Atualmente os movimentos sociais têm sofrido muito com a marginalização feita pelos meios de 7comunicação de massa, um exemplo simples é do MST (Movimento sem terra). Qual a posição do sindicato diante desta problemática? O SINTESE sofre com a mídia?

JOEL ALMEIDA: Tem um processo histórico no Brasil antes da ditadura e pós- ditadura de tentar anular, deslegitimar ou mesmo criminalizar as organizações dos trabalhadores. O Brasil é um país que tem uma elite com muita força e a organização dos trabalhadores, sobretudo a organização dos trabalhadores de esquerda, que estimulam a luta de classes sofre com deturpadas publicizações. Portanto qualquer organização dos trabalhadores que tenha o objetivo de fazer luta de classe, ou seja, que para o trabalhador ter mais é preciso que quem tenha mais tenha menos, notamos sempre um ataque muito brutal da elite, seja de ordem repressiva, seja de ordem difamatória. Como essa ação repressiva os movimentos sociais, e nós sindicato, sofremos um desgaste muito grande frente à sociedade, que muitas vezes está alienada ao que acontece. Assim, onde tiver sindicalismo combativo de esquerda, que tenha uma postura de fazer luta de classe, de querer que o trabalhador avance na concepção política, aí você vai ter um sindicalismo que faz enfrentamento com o poder constituído, com a elite, com conglomerado de comunicação, e isso acarreta em uma reação pesada contra nossas organizações.

O Senhor acha que o SINTESE fica prejudicado pela mídia com a cobertura das manifestações que vocês fazem?

JOEL ALMEIDA: O SINTESE é um sindicato que tem uma postura de esquerda, que faz enfrentamento com o poder público, e fazer enfrentamento com o poder público tem dois vieses. O primeiro viés é que em um determinado momento conjuntural pode interessar determinadas ações. O SINTESE hoje faz oposição ao governo Déda, que foi um governo que o SINTESE ajudou a eleger. Isso faz confusão na cabeça das pessoas. Tem político de oposição que se interessa porque isso da visibilidade, da cobertura porque o interesse é político, o interesse não é porque eles estão achando ou querendo que a educação melhore. Ou seja, interessa politicamente que se tenha o desgaste do opositor para que fique mais fácil a chegada deles ao poder. Para determinado grupo político aquela ação pode ser coberta de forma a que o favoreça. A nossa luta é por uma Educação pública de qualidade, mas aquela visibilidade que eles estão dando ali muitas vezes não é para isso. É para desgastar o que está no poder. Ao mesmo tempo você pode ter outro meio de comunicação que vai fazer uma cobertura que seja critica porque àquele dali interessa os resultados alcançados. A ação dos trabalhadores quando se trata de poder público depende muito da conjuntura, e depende muito do interesse político do dono do meio de comunicação. A forma como é dada a visibilidade, seja para criticar ou para elogiar, ao movimento depende muito do interesse político do dono do meio de comunicação. E num determinado momento pode ser favorável a nossa luta ou não e aí nós temos que conviver com estes cenários. Eu tenho que conviver com minha pauta de reivindicações, com aquilo que a gente pensa que tem que ser a escola pública e saber, ao mesmo tempo, que você vai ter gente ali que a preocupação não é essa. Hoje por exemplo, eu vejo muito claramente que existe uma postura nacional de criminalizar o professor, de tratá-lo como descompromissado, como o culpado pelo fracasso da educação pública e a gente tenta superar e tentar fazer o debate levando por outro viés até para nossa própria defesa. Tem um sentimento do poder político nacional de que a ação dos professores e sua mobilização desgasta profundamente o que estão no poder e a alternativa para isso é deslegitimar os professores perante a população.

2

Dando uma olhada nas reivindicações que o SINTESE fez nos últimos dois anos (2008 – 2009), destacamos duas: a progressão vertical, que foi pauta ano passado, e o piso nacional, que começou no ano passado e se estende até agora. Como andam as discussões com o governo? E qual seria o piso ideal para os professores?

JOEL ALMEIDA: Primeiro, a progressão vertical, para nós, foi um dos capítulos mais bonitos na história do SINTESE. O que ocorre com os professores? Nós temos uma atuação diferenciada em relação aos outros profissionais, porque a Constituição e a LDB permitem que os professores possam lecionar a partir do nível médio, ou seja, eles freqüentam a Escola Normal, que é uma escola de Ensino Médio, e passam a ser professores, lecionando na antiga pré-escola, hoje Educação Infantil, até as quatro primeiras séries do ensino fundamental. E nós temos a outra realidade, que é a dos professores que são formados pelas Universidades e Faculdades. No Brasil, o professor amplia a sua formação, mas continua sendo professor não há uma mudança de cargo. E foi essa a nossa luta em relação à progressão vertical, porque o poder público e o Estado provocaram a Justiça, no sentido de que o professor, que tem o nível médio, mesmo se adquirisse o Nível Superior, não poderia mudar o seu nível na esfera de trabalho. Alegavam que isso era uma mudança de cargo, que os professores estariam deixando um cargo e indo para outro, mas eles ainda eram professores. Veja bem, um cidadão estudou na Escola Normal, estava habilitado para trabalhar com turma de Infantil e de 1ª a 4ª série, ele foi para a universidade e fez o curso de Pedagogia, o curso de Pedagogia, que possibilita o profissional lecionar com alunos da 1º a 4º série. Então, ele continuaria trabalhando na mesma escola com os mesmos alunos, estava apenas reivindicando que o nível dele fosse mudado porque ele já havia conseguido formação alegava que aquilo era uma mudança de cargo. Bom, e o que aconteceu? A Procuradoria Geral do estado não queria apenas invalidar isso, mas fazer com que os professores que já tivessem conseguido essa alteração voltasse ao nível médio. E isso requereu de nós uma mobilização muito grande, e essa foi a maior que o estado de Sergipe viu até hoje, com 8 mil pessoas, entres elas professores, trabalhadores e cidadãos. Muito gratificante. Essa união forçou o Tribunal de Justiça a se debruçar mais cuidadosamente sobre o caso, e que avaliasse as reivindicações da categoria com maior cautela. Assim, os desembargadores do Estado passaram a partir desse momento a ter um olhar mais acurado na votação, ter um olhar mais crítico. Isso garantiu a nós, categoria dos professores, a vitória com a constitucionalidade reconhecida da progressão.

E o piso salarial?

JOEL ALMEIDA: Para o SINTESE o piso é uma luta de mais de 30 anos. Os professores no Brasil inteiro já 4reivindicavam melhor reconhecimento pelo seu trabalho, e hoje entendem que a situação do professorado neste item não pode mais continuar. Por exemplo, os municípios da região Nordeste sofrem muito com a falta de estrutura do nosso Estado. Porém, é importante destacar que com a implantação do FUNDEF (Fundo de Manutenção de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério) em 1996, hoje conhecido como FUDEB (Fundo de Manutenção de Desenvolvimento Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), já melhorou muito, mas há ainda uma longa caminhada para um real melhora da Educação no Estado, e conseqüentemente no Brasil. É importante dizer que piso se refere ao nível médio, porque o piso é fixado para o nível médio e a carreira de cada estado fixa o superior. Sobre este último ainda estamos em fase de discussão, pois ao fixar o nível médio, o Estado precisava manter os patamares de carreira para garantir o nível superior. Eu até reconheço que essa diferença, no Brasil, é a mais alta, geralmente a diferença do nível médio para o superior na maioria dos estados é de 50%, mas em Sergipe é 73%. No entanto, o debate sobre o piso ainda não acabou, e nós professores estamos em forte mobilização. Pois ao se aplicar o piso de R$ 950 no Nível Médio, automaticamente, de acordo com a nossa estrutura de carreira, essa diferença seria repassada para o professor de nível superior e esse é um problema. O Estado só fez como abono, chegar aos R$ 950 para o nível médio, mas o questão do nível superior continua no mesmo lugar. E ainda está em discussão.

Sendo o governo, nosso atual governo ligado a um movimento sindical. Qual a opinião do SINTESE sobre as relações com as demais classes sociais? Há um desapontamento por parte dos movimentos sindicais hoje em Sergipe em relação ao atual governo?

JOEL ALMEIDA: O governo de agora, é um governo que foi gestado pelo PT, por um partido que resistiu profundamente à ditadura. O Marcelo Déda é um dos ícones do partido, inclusive nacionalmente, acompanhou o surgimento do PT, o surgimento dos sindicatos, foi advogado dos sindicatos. Mas penso que a história vai fazendo com que as pessoas repensem e alterem suas posturas. Entendemos que a nossa avaliação em relação ao governo Déda é a seguinte: Foi um governo que para chegar a poder, precisou fazer muitas concessões, fazer alianças com grupos de centro e de direita. Ou seja, Marcelo Déda não chegou sozinho ao poder, portanto ele fez concessões de toda ordem e não adota na sua relação com os servidores a mesma postura, isto é, a de um governante que dialoga claramente com as classes. Sabemos que um governante também tem os seus limites, que muitas vezes, conjunturalmente, não pode atender a tudo que é reivindicado pelos movimentos sindicais. Mas, as coisas precisam ser bem explicadas, maturadas, o diálogo precisa ir à exaustão até chegar a um consenso.

3Essa falta de diálogo já vem de Governos anteriores?

JOEL ALMEIDA: Sim, isso é histórico. E deve-se ressaltar que Sergipe sofreu uma alteração de ordem política muito importante em 2006. Pois era até então o único estado no Brasil em que as experiências de governo foram de direita, originadas da elite, seja esta política ou financeira. Com a entrada de Marcelo Déda essa realidade mudou. Para exemplificar, podemos citar os últimos três governadores, Valadares foi um governo que veio da elite, Albano também. A raiz de João Alves não é de elite, mas ele adentrou na elite a partir do empresariado. Déda é que foge completamente a essa lógica, ele acaba sendo um divisor de águas, embora tenha feito aliança com os setores da elite de Sergipe, mas a figura dele não é de alguém que vem de um conglomerado industrial, nem político, empresarial ou de comunicação. Marcelo Déda é um profissional liberal, entrou na política e conseguiu, através do seu carisma pessoal, chegar a ser governador. História similar com a do nosso atual presidente Lula. Por isso que havia, e há, uma expectativa muito grande em relação ao governo Déda, porque é o que surge de uma raiz diferente de todos os outros.

Diante da origem do atual Governo, a expectativa por parte da sociedade é muito grande. Então reestruturar um setor que vige há muito anos não seria uma difícil tarefa?

JOEL ALMEIDA: Isso é verdade. Também não queremos dizer que é fácil. É mais difícil porque você tem que ter mais diálogo entre as partes interessadas – sociedade, elite, Governo – para se manter no poder. No entanto, o governante não pode voltar às costas para os trabalhadores, a cobrança para ele vai ser muito maior, por que ele veio do povo e chegou ao poder através do povo. É como o sindicalista que passou a vida inteira no sindicato reivindicando,quando ele vai para o poder, esse será é cobrado mais do que qualquer outra pessoa. Não tem jeito, aos que cobram mais, a cobrança será maior, não tenho dúvida disso. E acho que Marcelo Déda peca nisso, e essas contradições acabam gerando crises entre o Governo e as instituições organizadas da sociedade civil.

E quanto às reivindicações, existe uma pauta mais urgente atualmente?

JOEL ALMEIDA: Hoje a discussão é em relação ao piso para o nível superior, porque o debate que nós focalizamos aqui em Sergipe é o do piso. Mas, temos outras demandas de projetos. Um deles é sobre as estruturas das nossas escolas, os prédios públicos estaduais estão numa situação precária. E esta é uma reivindicação antiga e que ocorre em Sergipe há muito anos. Assim, o SINTESE espera que as próximas reivindicações atendidas pelo Governo sejam para proporcionalizar o piso para o nível superior e criar um programa fixo de reestruturação de nossas escolas. Para tanto, o SINTESE espera que o Governo atenda a solicitação de implantar o mecanismo de gestão democrática, por exemplo. Porém, estamos próximos de 2 anos e meio de governo e até agora as nossas escolas não receberam a atenção devida e continuam sendo administradas por gerenciamento político, ou seja, os diretores são nomeados através de indicação política. Essas e outras situações é que alimentam a força sindical do professorado em Sergipe. E é com esse combustível que o SINTESE pretende continuar sua luta em construir, junto com as outras esferas sociais, uma Educação mais justa para Sergipe. C

“Bravo!”

Posted in Cultura by micheletavares on 28/05/2009

Em entrevista ao EmpautaUFS, o maestro da Orquestra Sinfônica de Sergipe fala de rotina, formação profissional e até de comprometimento com o serviço público. Ainda adianta algumas expectativas, como a montagem de uma ópera no Estado.

Por Gustavo Costa

Maestro Guilherme Mannis

Maestro Guilherme Mannis

Criada na década de 80, a Orquestra Sinfônica de Sergipe (ORSSE) tem conquistado seu lugar entre as grandes orquestras do Brasil inteiro, até mesmo em pólos consagrados da música erudita, como Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, onde foram realizadas apresentações durante 7 e 17 de maio na Turnê Brasil.

O maestro Guilherme Mannis, Regente Titular e Diretor Artístico da ORSSE e “sergipano” de São Paulo, como ele mesmo diz, nos conta a respeito da recepção do público por todo o Brasil, de problemas enfrentados no início de sua gestão até hoje e principalmente das conquistas como os Projetos ‘Sinfonia do Saber’, que leva crianças e jovens de escolas públicas ao Teatro Tobias Barreto, ‘Domingo no Parque’, com apresentações ao ar livre no cair da tarde, além de concertos no interior do Estado.

A Orquestra, que é considerada pelo próprio Governador Marcelo Déda ‘uma das jóias da coroa’ do Estado, tenta hoje criar um novo público, sem deixar de lado a erudição da música clássica, mas mostrando que a arte é acessível a todos. Com este objetivo, músicos são diariamente cobrados a manter uma grande disciplina de estudo, dedicação e perseverança. Tudo isso para driblar os problemas com a falta de divulgação e publicidade.

EmpautaUFS: Qual a rotina diária dos músicos da ORSSE?

Guilherme Mannis: Na verdade são várias rotinas. O que a gente tenta trabalhar é a questão de se instituir na Sinfônica de Sergipe um ritmo de trabalho de alto profissionalismo. E isso significa que tem que ser feita uma rotina de trabalho séria. Portanto, desde 2007 nós implantamos uma temporada anual, com concertos pré-determinados no início do ano, e todo o cronograma da Orquestra é feito de acordo com esses eventos.

A partir disso, definimos ensaios diários, das 9 às 12 horas, deixando o resto do dia livre, para que os músicos aprendam as partituras e venham para os ensaios preparados. Porém, há dias que é necessário que se faça dois ensaios, um pela manhã e outro pela noite. Geralmente, nos dias subseqüentes aos concertos, há folga para que os músicos tenham tempo para estudar e conhecer novos repertórios. Este mês, por exemplo, tivemos uma turnê pelo Brasil e houve algumas folgas depois das apresentações, para os artistas poderem se recuperar e também já começarem a estudar o próximo repertório.

Portanto, existe uma política de alto rendimento, em que os integrantes da Orquestra são muito exigidos.

EmpautaUFS: Quantos músicos sergipanos e quantos de fora do Estado são integrantes do corpo de músicos?

G. M.: Depende do seu conceito de sergipano (risos). Tem o sergipano que nasceu no Rio de Janeiro e veio pequeno morar aqui, tem o sergipano que é de Natal, mas começou a estudar violino aqui, tem o sergipano que chegou a dois anos atrás de São Paulo, como eu. Eu acho essa questão irrelevante, já que você irá encontrar músicos sergipanos em quase todas as Orquestras brasileiras de ponta. A música é muito universal. Mas se você considerar aqueles que passaram toda a infância em Sergipe, você terá aproximadamente 20 pessoas na Orquestra, mais umas 30 de outras cidades do nordeste e umas 10 de outros lugares, como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, etc.

Orquestra durante ensaio

Orquestra durante ensaio. Foto: Gustavo Costa

EmpautaUFS: Existe muita concorrência no estado para ocupar um lugar na ORSSE?

G. M.: Sim, a concorrência tem aumentado com a possibilidade da Orquestra alçar voos muito grandes, de fazer turnês e estar em evidência no cenário nacional atualmente.

O que falta especificamente em Aracaju, é um curso de música que consiga formar instrumentistas que possam integrar a orquestra. Até agora, os cursos do Conservatório de Música de Sergipe ainda não apontam nada nesse sentido, e o mesmo acontece com a Universidade Federal de Sergipe, onde os cursos que existem ou são de licenciatura, voltados para o colégio, seguindo a nova diretriz do MEC, de fazer voltar a música nas escolas, ou são voltados para o ensino básico de música sem muitas intenções profissionalizantes. Outro absurdo é que músicos da ORSSE são proibidos de dar aula no Conservatório, por não poderem acumular cargos no Estado. Considero um absurdo porque aqui teríamos ótimos professores para o Conservatório e isto não atrapalharia o desempenho desses profissionais.

EmpautaUFS: Quais são os critérios analisados para se tornar parte da Sinfônica de Sergipe?

G. M.: O critério principal é competência de performance. A pessoa traz um repertório de confronto que nós escolhemos para ver como ela se desenvolve, ela apresenta a obra, e estando acima da média, ela ingressa na Sinfônica.

EmpautaUFS: Todo mundo sabe que no Brasil de um modo geral, músicos eruditos e outros artistas que movimentam a cultura não possuem um apoio financeiro a altura de sua importância, dedicação e estudo. O que o Sr. acha portanto, que motiva esses artistas?

G. M.: O nosso ponto de vista desde o início é de que músico que fica parado reclamando e querendo dinheiro é um incoerente e não vale um tostão. Então o que nós queremos é mostrar através dos nossos projetos, como ‘Domingo no Parque’,  ‘Sinfonia do Saber’ e os concertos no interior, que a música clássica é importante por ser parte integrante de toda uma afirmação cultural de uma sociedade. Isso está muito claro agora em 2009 com essa terceira temporada anual e a turnê de muito sucesso.

Eu ficaria muito preocupado se não tivéssemos resposta perante a isso, mas nós temos. O apoio a Orquestra tem sido crescente e realmente nos deixa contente.

EmpautaUFS: Existe algo especial que você enxerga nos músicos daqui, que você não viu em outros lugares?

G. M.: A característica principal dos músicos da nossa orquestra que foi explicitada nessa turnê, é que são músicos jovens, mas sem o caráter experimental. Ou seja, nós temos na Sinfônica de Sergipe, um contingente muito grande de jovens músicos profissionais. Esse conjunto dá à Orquestra, uma vivacidade muito grande. Assim, toda apresentação demonstra muita energia por parte do grupo.

EmpautaUFS: Como a ORSSE enxerga atualmente a receptividade do público sergipano, incluindo as apresentações dos projetos ‘Sinfonia do Saber’, ‘Domingo no Parque’ e os concertos no interior do estado?

G. M.: A representatividade é muito boa. A aceitação é 100%. Eu acho que o que falta ainda é um pouco de publicidade, com o propósito de mostrar para o público que esta é uma arte acessível, que vir

"Rotina de trabalho de alto profissionalismo."

"Rotina de trabalho de alto profissionalismo." Foto: Gustavo Costa

ao teatro não é para pessoas especiais. Enfim, o nosso mote é sempre tornar a nossa produção acessível, e não popularizá-la. Não queremos nos desviar da proposta artística para tentar atingir um público, mas sim chegar para ele e convidá-lo a assistir a Orquestra. Devemos criar um novo público que tenha interesse no que a gente faz. Afinal, a música clássica é uma companheira para toda a vida, como a literatura, o cinema e as grandes artes.

EmpautaUFS: As apresentações atualmente acontecem na maior parte das vezes, no Teatro Tobias Barreto, que possui uma capacidade de 1328 lugares, a preços populares de R$ 10 inteira e R$ 5 meia. O que falta ainda, para haver “briga” pelos ingressos, como acontece em outros estados, a exemplo de RJ e SP?

G. M.: É preciso levar em consideração que Aracaju tem aproximadamente 500 mil habitantes. Se você somar a Grande Aracaju, serão quantos, 700 mil? Na Grande São Paulo são 20 milhões. No Rio de Janeiro, um grande contingente. Em Belo Horizonte, a mesma coisa. Portanto, se você pensar que a orquestra colocou no parque da sementeira no ano passado 3500 pessoas, e que multiplicando isso por 20, que seria a proporção entre São Paulo e Aracaju, teríamos um público em São Paulo de no mínimo 60 ou 70 mil pessoas. Por isso, num Estado pequeno como o nosso, um público de 1000 ou 1300 pessoas é excepcional. O que falta para que o Teatro fique completamente lotado é publicidade, divulgação.

EmpautaUFS: Você acha que a música erudita possui um bom espaço na mídia e nos cadernos de cultura dos jornais sergipanos?

G. M.: Acho que até possui, mas acredito que falta realmente investimento em publicidade. No Rio de Janeiro por exemplo, é possível ver ônibus nas ruas com propagandas da OSB (Orquestra Sinfônica Brasileira). Em qualquer livraria de São Paulo é fácil achar uma filipeta da OSESP. Então se não há essa cultura, fica complicado para que as pessoas saibam que há concertos, e quais são seus dias e horários.

EmpautaUFS: Em novembro de 2007, foi divulgado no portal Infonet uma nota da Comissão Representativa dos Músicos da ORSSE que denunciava que estariam havendo alguns problemas administrativos envolvendo a escolha da banca avaliadora dos coralistas. Como o Maestro Guilherme Mannis e a própria Orquestra deram a volta por cima desse problema?

G. M.: Bom… (pausa) Primeiramente nunca admitimos ter havido problema e sim, vimos que essa questão estava ligada a interesse político frente a própria administração. Segundo, ela tinha uma intenção de desestabilizar a administração da orquestra e por fim, eram notícias notadamente infundadas. Demos a volta por cima usando trabalho como resposta. Continuamos com o nosso propósito de fazer música boa, de qualidade, sem pensar em interesses pessoais de fulano ou sicrano que estavam reclamando por estarem trabalhando além do que ele achava que deveria. São pessoas que como funcionários públicos, achavam que estavam no Estado para se encostar. Um músico no Estado tem que trabalhar e não usar seu cargo como escora. Estes que não assumiram seu compromisso, que não estavam interessados em construir o trabalho em Sergipe, que inclusive vinham de outros estados ganhar dinheiro de forma nada satisfatória, sofreram atitudes sérias e foram completamente isolados. E o resultado está aí: uma turnê de excelente qualidade, a ORSSE recebendo críticas positivas do Brasil inteiro. Tudo isso por que a casa foi arrumada.

Noite especial no Teatro Tobias Barreto.

Noite especial no Teatro Tobias Barreto. Foto: Peterson Rosa

EmpautaUFS: Na sua chegada, o que foi preciso ser feito, para que a ORSSE alavancasse nessa rota de ascensão que ela se encontra hoje?

G. M.: Foi preciso previsibilidade, portanto quando nós instituímos as temporadas, durante o ano nós sabíamos com 3 a 7 meses de antecedência o que iríamos fazer. Isso ajudou muito durante todo o ano. Outro ponto foi o cumprimento dessas temporadas. Todos os solistas convidados para tocar conosco vieram, e participaram dos concertos, além disso, são músicos que trocam experiências com a Sinfônica de Sergipe e dão aulas que capacitam nossos músicos. Outra questão foi a solução desses problemas internos que atravancavam o dia-a-dia da orquestra, a exemplo do que você mesmo mencionou, em 2007. Sem esses problemas de relacionamento dentro da orquestra, pudemos voltar a sentir prazer em fazer música, vontade de vir para o ensaio com desejo de tocar e fazer um excelente trabalho.

Então essa série de fatores, como o coleguismo, o profissionalismo, somados à adoção por parte do Governo de alguns projetos, como a Turnê Brasil, e o próximo show do Michel Legrand que contribuem para que a orquestra cresça mais e mais.

EmpautaUFS: Como foi a receptividade do público em Curitiba, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, na turnê desse ano?

G. M.: Em Curitiba nós tivemos uma receptividade muito além do que esperávamos. Foi muito surpreendente que no primeiro concerto da Orquestra, as pessoas ficaram muito impressionadas com a nossa produção. Os músicos encararam com o maior profissionalismo, com a maior capacidade, deram 100% de si e por isso a apresentação foi um grande sucesso. Todos aplaudiram de pé, tocamos três bis e eu voltei várias vezes ao palco.

No Rio foi um grande sucesso, com a Sala Cecília Meirelles completamente lotada, o público totalmente extasiado, isso sem pensar que o Rio de Janeiro é uma cidade que tem música clássica desde a época de D. João VI, com a Capela Real.

Assim também foi em Brasília, mas a consagração foi na Sala São Paulo, com um público grandioso. Ao fim do concerto nós tocamos quatro bis e eu voltei ao palco onze vezes. O mais interessante foi que os próprios músicos da orquestra vieram me falar que nunca o Teatro Tobias Barreto esteve tão cheio quanto a Sala São Paulo para assistir a Sinfônica de Sergipe. (risos)

Foi algo muito gratificante, mostra que o nosso trabalho está no caminho certo, tivemos críticas altamente positivas de pessoas muito importantes como Luis Paulo Horta (Jornal ‘O Globo’) e Leonardo Martinelli (‘Revista Concerto’) que opinam muito sobre música no Brasil.

EmpautaUFS: Agora que cada vez mais a ORSSE tem se consagrado como uma grande Orquestra no Brasil, existe um projeto para a gravação de um CD?

G. M.: Este ano teremos a gravação de um CD da ORSSE dedicado às obras de Villa-Lobos. Mas é importante frisar que não será um material promocional, que o banco esta doando ou que é feito para distribuição. Será um material profissional, feito por uma gravadora e será vendido nas lojas pelo Brasil inteiro.

"Nosso trabalho está no caminho certo."

"Nosso trabalho está no caminho certo." Foto: Peterson Rosa

EmpautaUFS: Em Novembro de 2004, sob a regência do Maestro Gladson Carvalho, foi realizado no Teatro Tobias Barreto a apresentação completa do Réquiem k 626 de Mozart. Tempos depois, sob a regência do Maestro Ion Bressan, foi realizada a apresentação completa da 9ª Sinfonia de Beethoven. Foram duas noites para ficar na memória do público sergipano. Logicamente, assim como também as apresentações de Scheherazade de Korsakov, 5ª Sinfonia e Abertura 1812 de Tchaikovsky, 8ª Sinfonia de Dvorak, Pedro e o Lobo de Prokofiev , Prélude à l´après-midi d´un faune de Debussy, Bachianas n° 6,  todas sob a sua regência. Existem projetos para a realização de grandes noites como essas? Quem sabe uma ópera, já que o Sr. possui  experiência com montagens de ópera, a exemplo de “O Anjo Negro” de João Guilherme Ripper?

G. M.: Nós tentamos fazer de todos os concertos da temporada uma grande noite. Não importa se temos um público pequeno ou grande. A nossa proposta é sempre tocar como se fosse o último concerto, com grande profissionalismo, com imensa vontade. Existem por exemplo, algumas produções que eu destaco que não tiveram muito público, mas que mesmo assim obtiveram um resultado incrível, como a 4ª e a 6ª sinfonia de Tchaikovsky, muitas sinfonias de Beethoven, fizemos um Festival Tchaikovsky no ano passado, tivemos o concerto para piano e o concerto para violino, que foram incríveis.

São muitas noites e nós não temos distinção entre elas. Não elegemos determinados dias para ter um concerto especial, até porque se fosse assim, os outros dias seriam muito abaixo da média.

Dessa temporada, o que eu posso garantir é que teremos alguns momentos especiais como agora próximo dia 11 de junho, dia de Corpus Christi, quando apresentaremos uma missa muito pouco tocada no Brasil, que é a missa de Santa Cecília do José Maurício Nunes Garcia, que foi um compositor da época da Capela Real e foi talvez o grande compositor brasileiro depois de Villa-Lobos. Juntamente com a Missa de Santa Cecília, vamos fazer as Bacchianas Brasileiras nº 3 (de Heitor Villa-Lobos) com solos do Daniel Freire (regente do Coro Sinfônico da ORSSE).

Uma semana depois, nós teremos a presença de Michel Legrand, que é um grande maestro francês que vem reger a ORSSE e irá trazer a mulher dele, que é talvez uma das melhores harpistas do mundo, a Catherine Michel. Será uma noite totalmente dedicada à música francesa e à celebração do Ano da França no Brasil.

Além disso, teremos esse ano uma 9ª Sinfonia de Beethoven aglutinando alguns coros da cidade, em Outubro será realizado o concerto d’As Quatro Estações com Daniel Guedes, que é um ás do violino, o concerto duplo para violino e violoncelo de Brahms, as Bacchianas Brasileiras nº 4 de Villa-Lobos em comemoração aos 50 anos de falecimento dele… Enfim, são muitos e muitos eventos, além de muitos regentes convidados, que como já havia dito, são muito importantes para que a orquestra entre em contato com outros pontos de vista que não sejam somente os do regente titular.

Quanto à possibilidade de realizar uma ópera, é preciso que o patrocínio saia, pois uma ópera é um evento de alto custo, que envolveria muito a produção sergipana e alguns diretores de São Paulo ou de outros centros operísticos brasileiros. Estes seriam responsáveis por capacitar todo o staff local para esta realização. Até porque a produção envolveria cenários, figurinos, iluminação, além da preparação musical. Tudo isso envolve realmente um grande número de pessoas e um custo alto, mas que se reverte completamente para o Estado, de forma que estes profissionais se tornariam preparados para participar de outras montagens futuras.

“No sítio das águas a cidade dos aterros”

Posted in Ciência e Tecnologia, Cidade, Cultura, História by micheletavares on 27/05/2009

Por Allana Andrade (allanarafaela@gmail.com ) e
Nikos Elefthérios (nikos.grego@gmail.com)

maria augusta

Professora Maria Augusta Mundim Vargas. Foto: Allana Andrade

Após assistir uma palestra com a professora sobre a relação do homem com a natureza e  seu entendimento com a mesma, acrescentando a preocupação com o meio ambiente e a crescente expansão de Aracaju, nos sentimos motivados a compartilhar e aprofundar esse tema, com um enfoque diferenciado, tocando em pontos pouco abordados como a falta de conhecimento da área que foi aterrada em nossa capital e a interferência da construção de barragens na água do rio São Francisco, no trecho que passa pelo estado de Sergipe.

Para tanto, a equipe do Em Pauta UFS entrevistou Maria Augusta Mundim Vargas (*), professora voluntária do Departamento de Geografia e dos Núcleos de Pós-Graduação em Geografia (NPGEO) e de Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA), que além dessas questões discorreu sobre o meio ambiente no litoral sergipano, a revitalização do Baixo São Francisco, além de temas como: sociedade, cultura e desenvolvimento urbano em Sergipe.

Em Pauta UFS: Como e quando a senhora iniciou seu trabalho com o meio ambiente?

Maria Augusta Mundim Vargas: Eu trabalho com meio ambiente desde Estocolmo 72a década de 70. Em órgãos de meio ambiente desde 1975, numa época em que pouco se falava ou quase não se falava em meio ambiente. Foi logo depois da “Estocolmo 72”. Mas a preocupação era conhecer, fazer o diagnóstico do meio ambiente, […], nesta época eu morava em Minas Gerais. Quando mudei para Sergipe, na década de 80, comecei a trabalhar desenvolvendo pesquisas na Administração Estadual do Meio Ambiente (ADEMA), órgão recém criado em Sergipe, com a função de organizar a relação do poder executivo estadual com o meio ambiente.

Em Pauta UFS: Quais as principais pesquisas realizadas com a sua colaboração na ADEMA?

Maria Augusta: Na ADEMA realizamos dois grandes trabalhos. O primeiro, foi o “Zoneamento Ecológico do Estado”, que considero um marco para Sergipe. E o outro, foi um estudo muito completo dos manguezais, do caranguejo-uçá (que é uns dos produtos mais importantes da região, que está incorporado na alimentação e cultura dos sergipanos) e sobre os caranguejeiros. Tiveram outros estudos, sobre a desertificação, resíduos de lixo no município, mas acho esses dois os mais importantes.

Em Pauta UFS: Quando a senhora resolveu voltar para a academia?

Maria Augusta: Enquanto trabalhava na ADEMA pesquisando, senti uma necessidade muito forte de continuar a minha formação. Eu sentia “sede” da academia. Foi quando comecei a fazer mestrado na UFS, sendo inclusive da primeira turma do curso de mestrado que a universidade criou. “A natureza das políticas no sertão sergipano”, foi o tema. Colocando na natureza das políticas, um duplo sentido, o da natureza das políticas e das políticas agindo sobre a natureza. Uma vez na academia, não quis mais sair, então fiz uma opção de vida e larguei o trabalho como técnica na ADEMA optando por ser professora de graduação e mestrado na UFS, dando aulas em disciplinas ligadas à natureza como: Planejamento Ambiental, Biogeografia, Leituras de ECO-92 Cartas, além do tema de    mestrado. Meu doutorado foi iniciado na França, com o professor Ignacy Sachs, um estudioso que apresentou trabalhos sobre eco-desenvolvimento e desenvolvimento sustentável tanto na “Estocolmo 72” quanto na “ECO-92”, porém foi concluído em Rio Claro (São Paulo), novamente com um tema ligado à natureza. Dessa vez estudei todo o Baixo São Francisco, focando na vida das pessoas que moram na região ribeirinha, a forma como viam as mudanças realizadas nele, de que maneira absorviam as políticas que alteravam o meio ambiente, além do papel da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF) neste trecho.

Em Pauta UFS: Você e outros pesquisadores criaram um mestrado interinstitucional. Como é esse projeto?

Maria Augusta: Após terminar o doutorado, eu, o professor Rodrigo Ramalho, de Alagoas e a professora Vania Fonseca, começamos a discutir a criação de um mestrado em desenvolvimento relacionado ao meio ambiente, mas queríamos fazer um projeto diferente, que agregasse outras instituições. Era um mestrado interinstitucional e regional onde o que se lecionasse aqui na UFS fosse ensinado, por exemplo, na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). A palestra que vocês assistiram era a aula inaugural das turmas de mestrado que ensinei no período entre 1995 e 2007. Nesta aula eu desconstruía o conceito de natureza. Porque a natureza é natural, mas o conceito dela é algo construído culturalmente. No mestrado, mostrava que cada pessoa podia contribuir para uma mudança, de postura, de ação, de mudança de costume. A visão romântica da natureza, por exemplo, é a de pessoas que não possuem respeito pela natureza, que estão longe dela, que ficam idealizando. No caso das oficinas, eu faço tanto para crianças de 5ª série como para adultos, estive em Goiânia recentemente e apresentei essa palestra no mestrado, porque acho importante a gente quebrar, desconstruir esse conceito.

Em Pauta UFS: Qual é a relação dos sergipanos com o meio ambiente?

Maria Augusta: Essa relação entre sergipanos com Sergipe, não é diferente da dos paulistas com São Paulo, ou em outros estados. Vou fazer um panorama geral sobre esse assunto. Essa relação mantém-se na utilização da natureza como um recurso, mas um recurso de exploração, que vem fazendo com que espécies desapareçam, além de sua utilização para a geração de lucros. O que difere uma região da outra é uma tomada maior ou menor de conscientização e normatização dos meios. Tomamos como exemplo movimentos de artistas ou a opinião de pessoas da área, como nas reportagens que vi, há alguns dias, em que artistas levaram para o congresso um número grande de assinaturas para que seja barrada a ocupação da Amazônia, utilizem-na de forma sustentável e que empresas internacionais parem de explorar madeira de qualquer forma e passem para a exploração sustentável. Além disso, a verba destinada a secretarias como da cultura e do meio ambiente (em Aracaju não existe a de meio ambiente) é inferior àquelas recebidas por outras secretarias, gerando um problema, pois necessita de muito investimento para os projetos.

Em Pauta UFS: E na cidade de Aracaju como se dá essa relação?

Maria Augusta: Aracaju foi uma cidade planejada entre rios, por causa do porto, em uma área com água em abundância. Localizada à beira do rio Sergipe e tendo como limite sul o rio Vaza Barris, com um emaranhado de canais ao redor, um cenário típico de estuário tropical. Nessa época a idéia do racionalismo, do progresso, que o meio ambiente deveria ser “vencido pela técnica” era o que predominava. Surgiu então, a idéia da técnica vencer através do aterro e começaram a aterrar. Eu digo que “no sítio das águas a cidade dos aterros”, pois a cidade foi criada a partir de aterros. Nós temos

montagem

A Orla de Atalaia em diferentes épocas. http://www.aracaju.se.gov.br/154anos

um padrão de ocupação mais próximo ao séc. XIX. Mas de que forma podemos manter um padrão de ocupação que está mais próximo do século XIX, se estamos em 2009? Isso é inaceitável! Portanto coloco dois marcos nesse processo:

Na década de 70: com o boom da urbanização do Brasil em um dos estudos mais importantes feitos na capital, dizia-se que para pensar a expansão de Aracaju era preciso pensar a drenagem da cidade, a macro drenagem.

Na década de 90: Participei do chamado Plano Diretor de Aracaju. Este pensava em consolidar a malha na cidade que já estava habitada ou planejar a ida para a zona de expansão, que assim é chamada até hoje, área que vai do Aeroporto até o Mosqueiro. A expansão em Aracaju só poderia ser liberada depois de um estudo sobre a macro-drenagem porque a região possui problemas com canais paralelos ao mar e não há como simplesmente construir sem saber para onde essa água vai escoar.

Exatamente como está acontecendo agora com as chuvas, não tem chovido mais do que o normal, só houve um pequeno aumento pluviométrico, mesmo assim estamos tendo problemas. Uma coisa é mudar, ter a consciência, e a outra é agir em conjunto, juntar a sociedade e as esferas municipal e estadual.O que ocorre é o poder público à reboque doa acontecimentos e assim não tem órgão que dê conta de Aracaju, de Sergipe e do país.

Em Pauta UFS: Como se deu os aterros realizados em Aracaju principalmente no Bairro 13 de Julho e no Jardins?

Maria Augusta: Onde hoje é a beira do rio do Bico do Pato (local da armação da árvore de Natal) até a foz era uma praia. Começou o aterramento dos canais que iam do Augusto’s para o rio. Aterraram o mangue, sem ter para onde escoar, a água “arrastou” a avenida e a praça inteira, temos um exemplo de aterro “vivo” dentro de nossa cidade. O problema foi que, tudo que o rio tirou dali, como as pedras, ele depositou no Havaizinho próximo ao projeto Tamar, causando o afastamento do mar, pois estuários têm dessas mudanças. O shopping e o bairro Jardins, não existiam, a área era coberta por manguezais, existiam fazendas na região da Praça da Imprensa e próximas à Av. Hermes Fontes. Onde hoje é a Pizzaria Tarantella e a Escola Parque de Sergipe eram sedes das fazendas, sendo que, ainda vemos casas com arquitetura e resquícios de fazenda. No lugar da Nova Saneamento existiam apenas dunas com inúmeros pés de mangaba.

Em Pauta UFS: Então Aracaju não foi uma cidade planejada como as pessoas falam?

Maria Augusta: Aracaju foi projetada no passado, tendo apenas o que hoje é o centro da cidade realmente planejado e construído em forma de um

tabuleiro de xadrez. Depois disso o crescimento da cidade seguiu de maneira desordenada, sem acompanhamento ou controle, por falta de dados e estudos reais. Apenas em 1979 fizeram o primeiro sobrevôo em nossa cidade, para conhecer a região, mas não sabiam como chegar àquela realidade. Os responsáveis pegavam um mapa da cidade na prefeitura apenas com as quadras e avenidas desenhadas, não tinham noção de morros, lagoas e curvas de nível. O mesmo acontecia na zona de expansão, lá é como uma lâmina, uma fitinha muito estreita do mar, repleta de canais, com lagoas por todo o caminho, então não é só construir, temos que planejar para onde a água vai depois. O mapeamento de curvas de nível só foi realizado em 2000 (no primeiro governo Déda).

Em Pauta UFS: Quais são os impactos da transposição do Rio São Francisco em Sergipe?

Maria Augusta: A transposição não atinge Sergipe porque antes de chegar aqui a água passa pelas usinas de Paulo Afonso e Xingó. A discussão da transposição é histórica, vem desde os tempos do império colonial (quando viam o rio como um “oásis”, o “Nilo brasileiro”), até a construção de barragens para a geração de energia que não seria para o Nordeste, a agroindústria com a CODEVASF, a irrigação e modernização da área. A questão da transposição não é transpor o rio, e sim criar o projeto de irrigação que é algo caro. Isso tudo depende do cunho político. Pois tem uma realidade a ser feita, mas até chegar a melhorar a qualidade de vida da população vai demorar. Sergipe fica com o final do rio, recebendo uma água dura, “sem vida”, pois é uma água de barragem. Isso afeta a fauna, pois os peixes da piracema não conseguem subir para se reproduzir. Com a construção das barragens sobrou para nosso estado uma água cada vez mais sem vida, onde os ribeirinhos têm estranheza e não reconhecem o rio, não sabem lidar com ele. Além disso, há a perda da força do rio, que fica para a erosão e causa o adentramento do mar quando se encontram. O projeto de revitalização do Baixo São Francisco é a grande reivindicação de Sergipe e dos sergipanos, sobretudo dos ribeirinhos. Na cidade de Propriá se fazia uma semana de cultura e identidade, onde toda a representação política e cultural se encontrava para discutir o Baixo São Francisco.

Em Pauta UFS: Quais são os problemas enfrentados pelo rio São Francisco? E o que devemos fazer?

Maria Augusta: São vários os problemas, como o esgotamento sanitário

http://www.canoadetolda.org.br

Área do Baixo São Francisco. http://www.canoadetolda.org.br

nas bacias, os fazendeiros que barram os afluentes dos rios que passam em suas terras, desmatando próximo para pastagens, desviando e represando a água. Além disso, tem muitas cidades próximas às margens que polui com esgotos a exemplo de Propriá e Penedo.

Precisamos revegetar para continuar construindo, pois o rio está debilitado depois da construção da usina de Xingó, cuidar das bacias e realizar trabalhos que envolvam secretarias de agricultura, educação e pesquisa.

(*) Graduada em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1974), mestrado em Geografia pela Universidade Federal de Sergipe (1988) e doutorado em Geografia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1999).

Entendendo o funcionamento interno da BICEN

Posted in Educação, UFS by micheletavares on 27/05/2009

Rosa Vieira, diretora da Biblioteca Central há oito anos, explica como acontece o processamento técnico dos livros, apresenta alguns dos problemas pelos quais a BICEN passa e diz o que podemos esperar desse sistema no futuro

Por Carol Correia (quatrobailarinas@gmail.com)

Desde 11 de agosto de 1979 a Biblioteca Central (BICEN) da Universidade Federal de Sergipe está em funcionamento. Hoje, com um acervo de 150.071 livros, o mesmo espaço físico desde que foi inaugurada, uma quantidade de alunos muito maior, a BICEN passa por dificuldades para atender os seus frequentadores.

Rosa Vieira e os livros na fila para serem etiquetados

Rosa Vieira e os livros na fila para serem etiquetados

Para entender como o seu sistema interno funciona dentro de condições desfavoráveis, conversamos com Rosa Vieira, que há oito anos é diretora da biblioteca. Formada em Biblioteconomia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) com especialização em Gestão da Biblioteconomia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Rosa trabalha há 39 anos na biblioteca da UFS, sendo cinco anos de bibliotecária nas bibliotecas setoriais, quando a BICEN ainda não havia surgido.

Em Pauta UFS – No que consiste o processamento técnico?

Rosa Vieira – Ele envolve a compra dos livros – a licitação, a ordenação de despesa, etc – a mercadoria é conferida com as notas fiscais, é carimbada, acontece a magnetização, que é aquele código de barras colado no livro. Depois disso, inserimos o livro no sistema integrado do qual a BICEN está associada, a Rede Pergamum, onde podemos encontrar dados de livros no formato bibliográfico. Assim, com as informações que já estão lá, podemos copiar e colar os dados dos livros para agilizar a catalogação. Depois dessa parte, a etiqueta é impressa, colada e o livro é mandado para o acervo.

Em Pauta UFS – Como é feita a catalogação?

RV – A gente tem uma planilha com categorias a serem preenchidas, como título do livro, autor, ano de publicação, assunto. Também temos a tabela decimal universal, que é uma tabela usada pelos bibliotecários para fazer a identificação do livro. Por exemplo: o número de cima indica de qual área do conhecimento o título pertence; em baixo, está o nome do autor do livro de forma codificada. Essa tabela nos ajuda a fazer a organização nas prateleiras.

Em Pauta UFS – E como se dá a organização interna para que o processo seja feito?

RV – Primeiro, nós separamos os livros por área (exatas, humanas, saúde) e cada estagiário ou funcionário se dedica a inserir os dados dos livros nas planilhas. Porém, não temos funcionários para se dedicar exclusivamente a essa atividade, eles tem que parar para fazer outras coisas mais urgentes, como, por exemplo, a catalogação das monografias. Depois que uma parte é feita, o livro fica esperando que o estágio seguinte seja executado.

Em Pauta UFS – Todo o processo, desde o início, quando um livro chega, até o momento em que ele é disponibilizado no acervo, leva quanto tempo?

RV – É um processo demorado, pois envolve muitas pessoas e a quantidade de funcionários não é adequada para o porte que a biblioteca tem hoje. Nós estamos dando prioridade aos livros que chegam pelo PROQUALI, o programa para o qual a universidade paga em troca dos livros. Nosso objetivo agora é catalogar os livros que chegaram de 2008. Por isso, no momento nem estamos aceitamos doações, caso contrário, a situação se complicaria ainda mais. Além do mais, há também o problema do espaço físico, que está muito pequeno.

Em Pauta UFS – Muitos professores se queixam de que quando eles solicitam um livro, o processo todo pelo qual ele deve passar até que esteja disponível para os alunos é tão lento que às vezes o conteúdo da obra perde parte da sua serventia.

RV – A gente sabe disso. Realmente é demorado, mas não tem como trabalhar mais rápido. Apesar de a BICEN ter crescido, o número de pessoas não aumentou. A Divisão de Processos Técnicos deveria ter no mínimo 10 pessoas para se dedicar somente a esta atividade. No entanto, nela há sete funcionários para dar conta dessa e de outras funções. Precisamos de bibliotecários, de máquinas, de auxiliares.

Em Pauta UFS – A equipe da BICEN necessita de qual formação? E no caso dos estudantes?

A diretora da BICEN identificando dados do PROQUALI

A diretora da BICEN identificando dados do PROQUALI

RV – Todos aqui são formados em Biblioteconomia e entraram através de concursos públicos. Os estagiários são encaminhados pela Reitoria Estudantil e são de qualquer curso, basta estarem no programa. Agora que a UFS oferece o curso de Biblioteconomia, acho que iremos optar por esse estudante.

Em Pauta UFS – Houve alguma mudança na BICEN a partir da fase de expansão da UFS?

RV – Com a expansão, a universidade e, conseqüentemente, a biblioteca tiveram que suportar mais gente, com mais trabalho. Foi só essa a diferença que a expansão trouxe para a BICEN. Ás vezes eu vejo as pessoas fazendo filas enormes em certos horários para pegarem os livros. Eu fico até com vergonha por causa desse tipo de situação, mas é a estrutura que não permite que trabalhemos melhor. A gente sempre tenta tomar providências, pedir, fazer ofícios para o reitor apresentando a deficiência das máquinas, mas de nada adianta. Há um projeto que está em andamento desde janeiro deste ano para aumentar o espaço físico, mas mesmo assim é pouco e só começou agora, ou seja, um atraso muito grande.

Em Pauta UFS – O que a BICEN aguarda para o futuro?

RV – Há um projeto, que ainda está no papel, que prevê a construção de um mezanino, crescimento do espaço físico na parte dos fundos, elevadores e acesso para deficientes. Espero que ele seja executado o mais rápido possível, pois é muito complicado trabalhar com uma mesma estrutura, sendo que a quantidade de alunos triplicou.

(DES)MEMÓRIA

Posted in História, Política by micheletavares on 27/05/2009
Goisinho.

Goisinho.

Por Bárbara Nascimento (babi_nascoli@yahoo.com.br) e Henrique Maynart (h_maynart@yahoo.com.br)

“O medo seca a boca, molha as mãos e mutila. O medo de saber nos condena a ignorância; o medo de fazer nos reduz a impotência. A ditadura militar, medo de escutar, medo de dizer, nos converteu em surdos e mudos. Agora a democracia, que tem medo de recordar, nos adoece de amnésia; mas não se necessita ter Sigmund Freud para saber que não existe o tapete que possa ocultar a sujeira da memória.” (A desmemória/2 – Eduardo Galeano).

 

“Passei 21 dias no 28º BC. A alegação era de que eu fazia parte do Partido Comunista Brasileiro.”

Preso durante o período mais cruel e truculento da história política brasileira – a Ditadura Militar, Antônio José de Góis, o Goisinho, militante do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) fala sobre a Lei de Anistia e os seus poucos avanços em 30 anos.

EmPauta: Como o senhor adentrou na militância política?

GOISINHO: Entrei na política no processo de retomada de luta contra a Ditadura Militar – início dos anos 70, no movimento estudantil. Um momento em que praticamente tudo era proibido. O decreto 477* impedia qualquer atividade estudantil, de professores e de funcionários. Nosso objetivo era somar força com todos os cidadãos que lutavam pela redemocratização ou democratização no país, realmente nunca tivemos uma democracia.

EP: O que foi o episódio da Operação Cajueiro** do carnaval de 1976?

G: Quando foi anunciada a abertura política lenta e gradual do governo Geisel, a Esquerda Armada já tinha sido eliminada do contexto político nacional. O que acontece é um processo de desmantelamento das organizações ainda existentes (movimento estudantil, sindical e de partidos políticos clandestinos), principalmente com a morte de lideranças do Partido Comunista Brasileiro (Vladimir Herzog, Manoel Filho). A abertura política deu-se, na verdade, porque o regime ditatorial já não era mais possível do ponto de vista político e econômico. Então, lançam um acordo político para que não houvesse um avanço de massas. Dentro desse quadro foi aprovada a Lei de Anistia. Lei que até hoje está em vigor sem os devidos reparos, mesmo sem ter validade alguma nos fóruns internacionais, porque é uma lei que fere os direitos humanos. A lei brasileira diz que a tortura é crime inafiançável, imprescritível e não anistiável. Como podemos ter uma lei Anistia que fere a tudo isso? A lei de Anistia deveria pelo menos cumprir com quatro aspectos: a verdade dos fatos, a reparação, a justiça e as mudanças constuticionais e nós ainda estamos ‘capengando’ na reparação, que não corresponde às injustiças ocorridas naquele período.

EP: Como o senhor avalia a abertura dos arquivos da ditadura militar e o posicionamento do Governo Federal?

G: A censura aos documentos é coisa absurda. Os documentos servem para que se conheça a realidade e se apurem os fatos. Corremos o sério risco de ter esses documentos nas mãos de poucos. Esses dados quando não são de acesso ao público servem para atender a interesses de alguns. Naturalmente o que deveria haver era a concessão de quem sofreu tortura para a abertura desses documentos. E hoje quem mais procura essa documentação são justamente os que foram vitimados. Estudos mostram que onde se apuram esses fatos (casos do Chile, Argentina, Peru) a democracia está mais consolidada. Qual o jovem brasileiro que hoje conhece a história da ditadura militar? Não existem espaços nas escolas para se discutir isso. O que existe é uma contradição; o ministério da justiça fala de uma forma, o governo de outra. Se o governo tem vontade, apuram-se os fatos, mas essa vontade política não é demonstrada.

EP: E a mídia? Qual o papel da imprensa nesse contexto?

G: A mídia coloca isso como sendo revanchismo dos movimentos sociais. A imprensa cumpre o papel novamente de estar ao lado do Estado. Em vez de auxiliar na clareza do processo.

EP: Qual é a diferença fundamental entre os processos de redemocratização do Chile, da Argentina se comparados ao do Brasil?

G: Nós tivemos uma eleição indireta mesmo com o fim da ditadura. Um país quando passa por uma transformação a primeira coisa é a criação de uma constituinte, a do Brasil só veio em 1988. Os setores conservadores que participaram da ditadura assumiram o poder. Ainda hoje temos no governo pessoas que sustentaram a ditadura militar, seja no parlamento, no judiciário, no executivo.

EP: Ultimamente temos acompanhado uma explosão de produtos da indústria cultural que falam sobre o período ditatorial, principalmente do ano de 68. Até que ponto essas produções auxiliam ou atrapalham o esclarecimento do processo?

G: Se usada a verdade são instrumentos importantes. Mas, infelizmente poucos setores da sociedade vão conhecer, são produções independentes. Fica realmente nós falando para nós. Toda pesquisa, estudo, matéria que sai sobre a ditadura é de fundamental importância. Porque aparentemente a ditadura mais parece um período em branco de nossa história, pouco se quer falar sobre. Se perguntarmos quem foram os presidentes do Brasil de 1965 a 1985, dificilmente alguém diz, mas se perguntarmos que foi Getúlio Vargas, Juscelino (…). Então se procura até esconder e mídia dá pouca importância, só faz uma análise geral dizendo que foi um período de importante crescimento da economia brasileira.

EP: O senhor foi recentemente anistiado dentre outros, Benedito Figueiredo, João Augusto Gama, Poeta Mário Jorge. Quais são as limitações e o papel que a Comissão de Anistia pode cumprir no processo de redemocratização de fato do país?

G: A comissão do Ministério da Justiça tem muitas deformações. Desde a Lei de Anistia até a sua aplicabilidade. A lei pode ser interpretada de maneiras diferentes a depender da formação da Comissão de Anistia. A Lei de Anistia não repara dor, sofrimento, não existe lei que seja capaz disso. A reparação é de perdas que você teve na sua vida profissional, intelectual e até física. E a lei não está sendo interpretada dessa forma. Eu pedi equiparação salarial dos vinte e seis anos que passei no Banco do Estado de Sergipe e não tive os mesmos direitos que os outros funcionários, eu tive perdas durante toda a minha vida funcional. Eu me formei em Economia em 1977, o Banco não tinha nem quadros. Todos os formandos daquela época foram admitidos como técnicos do Banco, eu nunca fui. Eu requeiro isso, essa reparação. Quem era que te daria um emprego em empresas privadas? E nos órgãos públicos era necessário um atestado de bons antecedentes, um documento da ditadura. E de forma errônea foi reparado o tempo que eu passei preso e nãos os prejuízos que tive em minha vida profissional. A reparação é dada, equivocadamente, a contar da data em que você foi preso até o ano de 1979, ano da Anistia. Ao passo que pessoas que defenderam a ditadura foram indenizadas e recebem o que o ministro do supremo recebe – salário máximo. E muitos vitimados estão até hoje sem ser reparados. O que falta é o Estado assumir suas responsabilidades, assumir que é culpado e reparar os danos causados. Não se pode admitir que pessoas que foram braços da ditadura sejam indenizadas. O caso mais citado desse país é o de Carlos Heitor Cony, que durante a ditadura fez editorial defendendo esse sistema e hoje recebe aposentadoria de uns 20 mil reais.

EP: Em relação alguns atores daquele momento político, que hoje se utilizam do fato de ter sido preso, torturado de forma meramente eleitoreira.

G: Não da para se imaginar que em 1968 se faça um encontro para estudantes sem que os agentes da repressão tenham conhecimento. Deslocar cinco mil estudantes para Ibiúna sem ser percebido pela polícia seria impossível. A prisão realmente foi em massa, por felicidade de o momento não ser de tanta truculência e tortura. Muitas dessas pessoas que estão no congresso nem sequer foram mais militar em movimento estudantil. A maioria estava lá por questões diversas. Você vê o que é o José Serra hoje em dia. (risos).

EP: Como o senhor avalia o papel da imprensa naquele momento e qual o papel que ela cumpre na atualidade? A Folha de São Paulo participou ativamente da Operação Bandeirante***, e, nos trinta anos da Lei de Anistia, lança um editorial chamando a Ditadura de Ditabranda.

G: Com raríssimas exceções, todos (meios de comunicação) apoiaram a ditadura. Inclusive, há aqueles que institucionalizaram o golpe, caso da Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Globo, que cresce o seu monopólio graças ao regime.  O que a Folha de São Paulo quer? Negar toda a história que ocorreu e que ela apoiou. E essa imprensa é a mesma que nós temos hoje com seus mesmos proprietários; Nenhum deles vão dar espaço para que se discuta seriamente essa questão. A democracia que temos no Brasil é eleitoreira, não existe liberdade de imprensa. O que a mídia reproduz? Simplesmente o que os grupos econômicos têm interesse. Concessões públicas nas mãos de políticos, um verdadeiro monopólio. Com os Franco no caso de Sergipe, os Magalhães na Bahia. Que democracia é essa que nos temos?

EP: Quais são as condições reais e objetivas que o povo brasileiro precisa construir para que exista uma anistia de fato ao que aconteceu no regime militar?

G: Hoje você não o Estado, a universidade, o movimento estudantil discutindo os problemas da sociedade. Nós estamos vivendo uma crise geral, uma crise ética, moral, econômica, política e não se nada. Ninguém quer discutir isso. Muitas vezes quando você vai discutir isso, vem alguém e diz: “Esquece! Pra que discutir essa questão?” Essa questão não atinge a sociedade, o que atinge é a pobreza, a fome, a violência, a falta de educação e de saúde. Dentro de um contexto você pode até discutir isso, porque você está discutindo a postura que tem o Brasil. Porque tortura é um crime imprescritível, inafiançável e ninguém está na cadeia no estado brasileiro por ter torturado alguém. Então, precisamos de um envolvimento muito grande, de uma consciência e de educação também. O Brasil precisa de uma revolução na educação. Infelizmente, o próprio movimento que contribuiu para essa democratização do país está atrelado ao Estado, que é o movimento sindical. Nós temos a dita esquerda brasileira no poder e o que temos é 1% de reajuste salarial, numa inflação de 5%. Você comunista no poder e você tem plano diretor de Aracaju enterrado por interesse das empresas. Uma loucura.

EP: Hoje é muito mais interessante discutir anistia dos que foram executados, dos que passaram por homicídio premeditado, dos que foram torturados na cadeia. Qual é a discussão que tem que ser feita em paralelo? A tortura de 30 anos atrás dói do mesmo jeito que a tortura que a gente tem hoje.

G: A gente não discute isso porque quem está lá é pobre e preto. A anistia política atingiu a todas as classes sociais, mas muito mais a classe média do que o povão. Você via operário, mas você tinha uma parcela significativa da classe média. Bota-se uma algema num banqueiro e temos uma crise nacional entre o judiciário, executivo e o legislativo. E do povo torturado na cadeia, quem fala? Ninguém abre o bico.

EP: Nós podemos dizer que temos trinta anos de quê?

G: Trinta anos de luta para que se avance e se tenha uma sociedade democrática. Há altos e baixos, mas é um processo que vem se avançando.  Agora com a crise, vem a perda dos direitos sociais, de emprego (perda de plano de saúde, que o trabalhador não tem dinheiro para pagar), o que aumenta a demanda da saúde publica que não dá resposta. Então, eu vejo que a gente tem abertura para a discussão de um processo democrático, mas não vivemos nele. Falta motivação da sociedade brasileira para discutir esses aspectos sociais e realmente avançar. Somos um país rico nos recursos naturais. Nós temos alternativas energéticas e nós não aproveitamos isso. Eu acho que falta educação! Sem educação, sem ciência, sem isso nós vamos continuar a vender a matéria-prima, para eles fazerem e ganhar dinheiro do outro lado.

* Define infrações disciplinares praticadas por professores, alunos, funcionários ou empregados de estabelecimentos de ensino público ou particulares, e dá outras providências.

** A repressão mais brutal vivida pelo PCB de Sergipe, levando à prisão a maioria dos seus militantes, estudantes, líderes do movimento sindical.

*** A Operação Bandeirante (OBAN) foi um centro de informações, investigações e de torturas montado pelo Exército do Brasil em 1969.

Um papo sobre educação pública

Posted in Uncategorized by micheletavares on 27/05/2009
 

 

 

 

 

Profª. Maria Cristina Santos

Profª. Maria Cristina Santos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

por Matheus Albuquerque Fortes

e Carlos Vitor Torres Martins

 

A Profª. Maria Cristina Santos é diretora da unidade escolar Colégio Estadual Barão de Mauá, situada a Rua José Araújo Neto, 119, no Conjunto Residencial Jornalista Orlando Dantas. Diretora há dois anos e meio e trabalhando no ensino público há quase 20 anos, a profª Maria Cristina, em uma breve conversa, falou sobre como é ser gestora numa unidade pública de ensino, os lados positivos e negativos da profissão, suas perspectivas com a política de cotas e a educação pública no estado de Sergipe.
 

 

 

 

 

 

 

Como é trabalhar como diretora numa escola pública? Quais os lados positivos e negativos dessa ocupação?

O lado positivo é que você tenta desenvolver um projeto de melhorias para contribuir com o aluno. O lado negativo é você ter que enfrentar muitos obstáculos para fazer seu trabalho de forma satisfatória. Aqui, a escola funciona como um grande sistema e quando algum item falta, todo o sistema se prejudica. Um exemplo comum é quando algum professor falta, e é um desafio manter os alunos na sala de aula.

 

 

O que levou a senhora a trabalhar na área de educação?
Quando eu ainda era estudante, consegui um emprego no MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Fiquei apaixonada pelo compromissso e o trabalho que aquelas pessoas desenvolviam. Gostei tanto, que descobri minha vocação lá. Deixei de fazer o vestibular para Economia e fiz para Pedagogia, me formando pela UFS em 1984 e desde então trabalhando na área de educação.
 

 

Houve algum momento na sua carreira profissional, que a senhora pensou em abandonar essa área de ensino?
Já houve sim, mas nunca levei a sério a idéia de abandonar. Todos os dias há problemas que eu, como diretora, tenho que enfrentar, como a falta de algum professor ou desentendimentos dos alunos com funcionários entre muitos os outros. Mas no dia seguinte, esses mesmos meninos que me deram dor-de-cabeça no dia anterior, me fazem um agrado que me fazem sentir muito feliz de trabalhar aqui. Acho que realmente tenho vocação para a Educação, mesmo que ainda queira deixar de trabalhar como diretora.
 

 

Como a senhora vê o panorama do ensino público no estado de Sergipe?
Acho que atualmente, a escola pública começa a aparecer com certo destaque. De uns cinco anos para cá, começou a se investir mais na educação pública, e isso é visível no índice de aprovação da UFS, que nós usamos como principal medidor. Ano passado, 21 alunos foram aprovados no vestibular da UFS, alguns deles em cursos concorridos como Enfermagem ou Administração. O maior problema na educação pública hoje em dia, é a desvalorização da mesma. Deve-se valorizar mais os profissionais dessa área e fazer constantes avaliações dos servidores. Quando falo servidores, não me refiro somente aos professores, mas a todos que trabalham no colégio. Desde a diretora, passando por aqueles que trabalham na secretaria, na coordenação indo até os professores. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas devo admitir que tivemos muitos êxitos nesses últimos anos.
 

 

Como a senhora vê a política de cotas que estará sendo instalada na UFS a partir desse ano? Quais são os erros e acertos dessa política, para a senhora?
Para mim é um mal-necessário. As cotas só existem devido as deficiências do ensino público. Enquanto não houver uma política de melhorias do ensino realmente eficaz, essa será a única alternativa que os alunos daqui terão para serem incluidos no ensino superior. Deve-se dar oportunidades a esses meninos, pois se não há algo que levante sua estima, eles serão levados por outros caminhos mais perigosos que os levará a criminalidade, entre outros problemas sociais. Porém, eu não defendo as cotas raciais, somente aquelas que beneficiem os alunos da escola pública como um todo, sem distinção de cor.
 

 

O colégio Barão de Mauá desenvolve algum tipo de atividade extra-classe exclusivamente para os alunos?
 
 

 

Trabalhamos com três programas do Governo Federal que a escola adotou: o “Escola Aberta” é um programa que funciona nos finais-de-semana no qual há oficinas de full contact, capoeira, futsal e arte em graffiti. O objetivo é desenvolver o espírito de solidariedade e afastar os alunos da violência urbana além de criar um vínculo maior com eles; o “Mais Educação” é desenvolvido com alunos da 7ª e 8ª séries. Eles retornam ao colégio no 2º turno para desenvolver atividades recreativas e reforço escolar; e também temos o programa “Cidadania e Paz” que desenvolve conferências e palestras voltadas para os alunos que tem o objetivo de discutir a civilidade e trabalhar melhor o comportamento do aluno. Nosso colégio foi pioneiro na implatação dos três programas. Além desses, há passeios que leva os alunos para a Fazenda Caju (para estudo do meio ambiente), entre outros patrocinados pelo governo.

 

 

 

“O impresso ainda é o melhor veículo de transmissão de idéias e de análises profundas.”

Posted in Cultura, Educação, Jornalismo by micheletavares on 26/05/2009
O professor e jornalista Carlos Eduardo Franciscato em entrevista concedida ao site “Nós da comunicação”

O professor e jornalista Carlos Eduardo Franciscato em entrevista concedida ao site “Nós da comunicação”

De forma bastante otimista, o jornalista e professor, da Universidade Federal de Sergipe,  Carlos Eduardo Franciscato, opina sobre o futuro do jornal impresso, as possibilidades do jornalismo no ambiente virtual e a situação das empresas sergipanas de impresso.
Por Thayza D. Machado (dmthayza@gmail.com)

“Professor, faço a disciplina Técnicas de Produção e Reportagem Jornalística com a professora Michele. E, como atividade, devo produzir uma entrevista. Resolvi falar sobre a crise atual que vem enfrentando o jornalismo impresso. O senhor poderia ser meu entrevistado?”. Foi dessa forma que, timidamente, convidei o professor.

Franciscato é jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe, doutor e mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia e atual presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPjor). Sua disponibilidade imediata com o “Sim, podemos começar?” me deixou ainda mais segura sobre a escolha da fonte ao passo que ensinou, na prática, o que os livros já haviam alertado: O jornalista deve estar sempre preparado. Eu não estava. Dois dias depois, entrevistava o professor Franciscato. A fluidez do discurso, o freqüente sorriso entremeando as explanações, ajudara a estudante de jornalismo a dissipar o nervosismo.

A seguir, o professor discorre acerca do futuro do jornal impresso, as possibilidades do jornalismo no ambiente virtual e a situação das empresas jornalísticas de impresso no estado.

EmpautaUFS: O fechamento de empresas jornalísticas que trabalham com impresso, tais como o Rock Montaim News e o Seatle Post-Inteligencer, acelera o debate sobre um possível fim do jornal impresso. Qual a visão do senhor em relação ao fato?

Carlos Franciscato: Nós temos nestes anos recentes, realmente, uma avaliação de quanto tempo nós teremos os jornais impressos no modelo que nós conhecíamos até a virada do século. De fato ele vem se transformando tão drasticamente que está perdendo a sua identidade tradicional. As empresas de jornal impresso não são apenas empresas de jornal impresso, são ofertadoras de serviço: elas ofertam serviços de informação; elas sabem que essa é a transição que elas têm que fazer. Então não é apenas se dedicar a produzir o jornal, eu tenho que produzir serviços múltiplos de informação para diversos clientes e assim ir disseminando, distribuindo o seu elemento central, que é a informação jornalística de qualidade, por diversos meios. Isso quer dizer: o jornal impresso vai deixar de existir? A longo prazo é bastante provável. A curto e médio prazos também não podemos ser tão radicais. Mas, a tendência, o movimento, a eficiência de outros suportes, particularmente o uso da internet, está tirando o fôlego do jornal impresso. O que não quer dizer que a empresa jornalística que produz o jornal impresso estará desaparecendo. Não. Ela está se transformando, ela está pluralizando os modos como ela produz e oferta informação jornalística para os seus leitores.

EmpautaUFS: A distribuição de jornais gratuitos em várias partes do mundo representa algo sobre essa transformação?

Carlos Franciscato: O jornal gratuito impresso mostra como não é fácil você fazer uma previsão única sobre o futuro do jornal. “Ah, o jornal vai acabar por que tem a internet”. Não! O jornal se transformou. Tem um novo produto, que não era pensado com tanta importância quando ele se criou. Então nos últimos dez anos se criou um… algo como um subproduto, que é um jornal menor, de menos importância. Mas, ele continua sendo um jornal impresso; ele continua sendo algo relevante na vida das pessoas. Uma forma de acesso à informação – gratuita, de circulação em metrôs, por exemplo, em que a pessoa, na sua meia hora de circulação, vai ler o jornal. “Ah, mas isso no conceito de jornalismo online talvez seja precário”. Mas, é um modo como o jornalismo se transforma para continuar existindo, continuar chegando às pessoas. Então, o jornal gratuito é um bom exemplo de que não adianta nós sermos apressados para dizer que o jornal impresso vai acabar porque é caro, é pesado, de difícil manipulação, de circulação. Não. O jornal gratuito está dizendo. É uma forma leve, fácil, ágil e barata de ter informação. Por tanto, não vamos supor que o jornal impresso esteja imediatamente acabando. Não. Pode se transformar – drasticamente, inclusive. O jornal gratuito, de metrô, de meia hora, é uma mudança drástica, mas é jornal impresso ainda.

EmpautaUFS: Muitos jornalistas citam como alternativa para que o jornal impresso continue atuante uma reestruturação na sua forma de abordagem. As matérias teriam que ser mais analíticas e profundas, já que o “furo” não faz mais sentido p/ o impresso. Na visão do senhor essa alternativa procede?

Carlos Franciscato: O impresso ainda é o melhor veículo de transmissão de idéias e de análises profundas. Você não só lê no sentido do papel, da letra, mas, você interage com a informação de uma forma mais densa, mais concentrada e mais qualificada. Realmente ainda não mudamos para um outro padrão. O rádio não consegue fazer isso, a televisão não consegue fazer isso, e a internet AINDA não consegue fazer isso. A internet é uma das novas lógicas de produção de informação jornalística. O jornalismo online é aquele que mais está prometendo criar novas narrativas para produzir jornal, conteúdo jornalístico de qualidade. Mas hoje, um texto denso, difícil, a melhor forma de você apreendê-lo, de você interagir com ele, é no texto do jornal impresso. Então isso finaliza o quê? Se o melhor que o jornal impresso tem é a qualidade, a densidade, a capacidade de análise, então é isto que vai dar força, vigor e vai dar a razão de ser do jornal impresso. Mas não é um argumento fácil de resolver porque também não quer dizer que a leitura de conteúdos densos esteja em expansão entre as pessoas. Nós podemos ter vários tipos de movimentos paralelos: um deles é de que as pessoas estejam reduzindo seu interesse por notícias densas. Então não adianta você produzir um noticiário denso se isso não representa a maioria do interesse do leitor. Então vamos ter cuidado: Ah não, a partir de agora os jornais impressos têm que fazer só matérias jornalísticas analíticas e profundas. Devagar com isso, porque você pode limitar muito o alcance da leitura do teu jornal. A maioria pode não querer a leitura desse texto denso porque não tem tempo, porque está satisfeito com essas notícias rápidas e breves…

EmpautaUFS: Mas, então o jornal não deve buscar certa reestruturação para, digamos, competir com essa nova mídia?

Carlos Franciscato: Não, ele tem. Ele está se transformando. Primeira transformação dele: de não ficar preso ao seu formato impresso. É você se desdobrar em online, você casar os serviços. Mostrar que você é uma instituição jornalística, uma organização que produz informação jornalística de qualidade. Isso é bom. E aí você vê qual é o teu suporte. Continua como impresso por uma série de questões estratégicas, porque, na verdade, o jornal sempre existiu como impresso e enterrar de vez e se transformar de vez em internet é uma mudança que muitas vezes não precisa ser tão apressada. Eu não vou deixar de existir porque não vou mais produzir notícias no papel. Não! Eu vou existir porque as pessoas sabem que nós produzimos informação de qualidade. E a partir daí eu vou diversificar as formas de ofertar essa informação para o leitor. Que pode ser continuar preservando o jornal impresso. Agora, não é do tipo: “eu faço só jornal impresso e não vou aceitar outro tipo de produto”. Não. Creio que é uma estratégia equivocada. Eu acho que o contrário é mais inteligente.

EmpautaUFS: O papel social do jornal impresso é alterado com essa crescente valorização do ambiente virtual?

Carlos Eduard Franciscato: O núcleo central da informação qualificada sobre a sociedade, aquela idéia de que jornalismo analítico com o bom texto de reportagem de fundo eu só vou encontrar no jornal impresso. Ele continua sendo isso. Mas, esse status privilegiado ele está perdendo. Isso é proporcionalmente menos importante. Na internet, com as suas novas ferramentas, tem-se muito produto qualificado disponível para as pessoas. Então, os novos leitores têm a opção de, se acharem conveniente, utilizar a internet como padrão de jornalismo de qualidade. Os bons portais são muito eficientes, tem oferta de banco de dados, e material em profusão. Tem muita coisa! A internet vai ser sempre isso. Vai ser esse universo de coisas caóticas. Então é você qualificar as ferramentas para que o uso das informações que são boas possam ser destacadas pelo leitor dessa profusão caótica. Então, de fato, o jornal impresso, há 20/30 anos atrás era o grande mecanismo de repercussão pública das informações. Quer dizer: saía na capa do jornal às seis da manhã nas bancas e dava aquele impacto social. Hoje o impacto social é menor porque nos sites você já tem esse produto informativo, esse serviço informativo. Então você diversificou a oferta e, proporcionalmente, diminui a importância de um veículo apenas.

EmpautaUFS: Mas, a recente crise que o New York times vem enfrentando, de alguma forma alerta sobre a dificuldade de se manter ativo um site com jornalismo de boa qualidade…

Carlos Eduardo Franciscato: Uma coisa interessante é que, quando a internet surgiu (ainda bem que foi assim) as empresas perceberam que era um movimento necessário de crescimento: “nós temos que ter a nossa face online do conteúdo”. Mas o modelo de negócio da internet não é um modelo fácil. É um modelo mais difícil do que aquele modelo tradicional de jornalismo impresso em que você vendo o jornal. O jornal tal custa dois reais: você pode assinar, comprar em bancas ou tomar emprestado. Tudo muito simples, muito direto. A internet surgiu com uma nova lógica. Uma lógica que desafia as empresas comerciais tradicionais porque é uma lógica aberta. É algo que ainda está se configurando. Por isso hoje se pensa em um novo modelo de negócio. Por exemplo: você entra em um site como o UOL, vê a manchete, e para você ler aquela matéria teria que comprá-la isoladamente; pagaria 50 centavos por ela, mas veja bem: para fazer essa compra pela internet exigi-se a eficiência daquilo que a gente chama de micropagamento, que a internet ainda não administrou. Quer dizer, eu tenho que entrar em um formulário para registrar número de cartão de crédito, para assegurar que o sistema seja seguro, entre outras coisas, e gasto 15 minutos para pagar cinqüenta centavos e só então ler a notícia. Não faz sentido.

EmpautaUFS: E as pessoas já estão habituadas a ler essas matérias gratuitamente…

Carlos Eduardo Franciscato: Então, é um dos desafios. Vários sites já tentaram fechar conteúdo. Mas, não conseguem manter fechados. É uma tentativa de rentabilização indireta, mas, assim… essa notícia de serviço público do dia-a-dia é uma notícia aberta. Realmente isto acho que os jornais, em termos de rentabilidade, eles não conseguem vender notícia na internet.

EmpautaUFS: A migração de empresas de jornal impresso para edições exclusivamente online, e o constante corte de recursos humanos advindos do fato, chega a mexer na estrutura da profissão do jornalista?

Carlos Eduardo Franciscato: Sim. Esse é um dos desafios hoje, inclusive, na formulação das diretrizes curriculares. Qual é o novo perfil de jornalista que se queira colocar a partir dos critérios de qualidade. Mas vai partir das demandas pelo perfil profissional. O que as empresas querem que o jornalista faça dentro de uma empresa. Aí vem uma discussão muito problemática do jornalismo multimídia, que é formar o profissional para operar várias ferramentas ao mesmo tempo ou de forma complementar. Isto, enfim, é muito imprevisível em termos do resultado real disto para a atividade profissional e para a qualidade do conteúdo jornalístico. Será que nós estamos qualificando o jornalista e permitindo que o jornalista haja com qualidade, tornando ele multifuncional no mesmo ambiente ele tem que operar com vários tipos de linguagens e ferramentas. Isso a tecnologia está sinalizando como questão de curto prazo. Mas temos aí uma questão com grandes e profundos problemas.

EmpautaUFS: A noção de “temporalidade jornalística”, termo recorrente no livro do senhor (A Fabricação do Presente, Editora UFS), é alterada pela internet? Se sim, de que forma essa alteração meche com a visão do leitor em relação ao jornal impresso?

Carlos Eduardo Franciscato: Há 20 anos, qual era o momento sublime de você ter acesso a informações jornalísticas do dia-a-dia? Era o início da manhã com a circulação de jornais.. Essa lógica mudou profundamente porque o que a internet oferece é atualização contínua. É você ter acesso continuado às informações independente do início da manhã. Então, muda a relação temporal: é o tempo das pessoas, a gente se vincula mais diretamente com o tempo dos eventos; quando os eventos acontecem nós estamos mais próximos dessa ocorrência, desse tempo de ocorrência. Há uma administração do tempo de leitura. Não ficamos presos. Porque o jornal chega às seis da manhã eu tenho que sentar ali e passar duas horas lendo o jornal. Não, eu faço a minha administração do tempo, do meu uso de tempo e a minha relação com o factual e com a memória que os bancos de dados têm: a partir de uma tragédia eu posso buscar textos memoriais, textos jornalísticos que falam de um passado e aí eu vou interpretando, com minha leitura individual, aquele fato presente. Então, a internet, ao ofertar conteúdo, amplia a possibilidade de as pessoas entenderem os fatos. A internet não só desencadeou como continua a desencadear a noção de temporalidade. E a idéia de atualização contínua é fundamental.

EmpautaUFS: Podemos afirmar que a internet desencadeou uma nova revolução nos hábitos de leitura? De que forma?

Carlos Eduardo Franciscato: Isso é fundamental, a idéia de jornalismo em tempo real, que é um termo que até não usamos mais com tanta freqüência. Mas a sua relação com o evento agora é de quase instantaneidade mesmo. Aconteceu, você já está com um banco informativo à sua disposição para você consultar. Então, isso muda radicalmente; acho que essa é a mudança mais radical. Segunda mudança radical é a diversidade da oferta. A internet diversifica a oferta de conteúdo em um grau muitíssimo, exponencialmente maior que qualquer outra mídia oferecia: é a variedade de acesso. Hoje você quer, de manhã, ler noticiário sobre Aracaju. Há 15 anos você dependia de 1, 2, 3 rádios, e uma ou duas estações de televisão. Hoje não. Hoje você tem pelos menos umas 20 ou trinta instituições produzindo informação. As tradicionais continuam, mas a internet é um espaço fértil p/ quem quer publicar.

EmpautaUFS: Há alguma prática substancial ao jornalismo que é alterada no jornalismo online?

Carlos Eduardo Franciscato: A prática fundamental é a da publicação: como você vai preparar o material para torná-lo disponível ao leitor. Então esse é o elemento central, porque os conceitos basilares do jornalismo continuam os mesmos: então, a apuração, a exatidão, a qualidade de informação, pluralidade, tudo isto está preservado, isso é transposto para qualquer mídia jornalística. Mas, o modo como você oferta o conteúdo, torna o conteúdo disponível e o tipo de narrativa para fazer esse conteúdo ficar compreensível isso se modifica radicalmente. Um exemplo: a internet trabalha como nenhuma outra mídia uma nova ferramenta chamada infografia, que é a combinação da informação jornalística com elementos de animação, com elementos de movimento, com elementos de imagens em movimento, uma construção visual da informação.

EmpautaUFS: A crise no jornalismo impresso de alguma forma indica uma possível crise no próprio jornalismo e em sua atividade?

Carlos Eduardo Franciscato: Não a crise do jornalismo impresso, mas, as novas tecnologias estão tornando o espaço público de circulação da informação mais acessível para os produtores, não só acesso de leitura, que é uma coisa democrática, boa, mas acesso de produção. Isso também é um lado que considero bom, o fato de as pessoas poderem usar a internet para conversar, para trocar informação. E isto está mexendo estruturalmente com uma lógica anterior tradicional que nós tínhamos. Agora as pessoas percebem que elas criam suas próprias redes sociais. E elas trocam informação diretamente. Então isso, claro, coloca certa preocupação porque a gente acha que a troca de informação é sempre saudável, a comunicação é sempre saudável, mas, os requisitos para fazer um bom produto jornalístico não são preservados naturalmente nessas trocas de conversação comum entre as pessoas. O que a gente tem tentado mostrar é que o jornalismo continua sendo essencial porque não tem outra instituição social que faça a tarefa que o jornalista e que as instituições jornalísticas fazem. Há outras trocas de informação, de comunicação saudáveis, mas elas não substituem o jornalismo no seu rigor e na sua qualidade de atividade.

EmpautaUFS: Essa nova onda conhecida por “jornalismo cidadão” pode diminuir a importância do jornalista, na visão das pessoas…?

Carlos Eduardo Franciscato: Na visão das pessoas talvez diminua. Na visão das pessoas! Têm-se várias razões: “ah, porque eu não confio numa grande empresa para fazer jornalismo com compromisso social”, “ah, porque a Folha de São Paulo é uma grande empresa, quer ganhar dinheiro, então eu não confio que ela vá fazer…”. Eu acho isso uma visão simplória. Mas, enfim, pessoas podem se juntar para tentar, politicamente, enfrentar a lógica do grande conglomerado empresarial. Elas pensam: “nós podemos fazer a nossa comunicação cidadã sem vocês. Ponto final”. Acho que no conjunto, no final das coisas, nós temos que confiar nas boas instituições jornalísticas, aquelas que fazem jornalismo de qualidade. Eu acho que o jornalismo cidadão é um voluntariado bonito, mas as pessoas não fazem jornalismo de qualidade, porque elas fazem relatos sobre situações que elas tem acesso. O que é bom, é saudável, democratiza o acesso a quem fala. Mas isto não é um recorte jornalístico de qualidade, isso exige competência e habilidade para o ofício. Então as pessoas não naturalmente nascem com essas habilidades. Por isso que a gente acha que as escolas são fundamentais para preparar as pessoas para cumprir bem suas habilidades.

EmpautaUFS: As empresas sergipanas de jornalismo impresso se mostram atentas às transformações que enfrentam o setor?

Carlos Eduardo Franciscato: Não. Parcialmente. Muito vagarosamente, apenas. Porque elas vêm de uma herança negativa de não ter lógicas de mercado radicais. Mas a lógica de mercado não é tão perversa, ela torna acessível às pessoas o produto, então, quando você vai numa banca de revista de manhã e encontra uma diversidade de jornais, você tem ali uma lógica de mercado, está ali a banca de venda, escolha aquilo que você acha melhor ou que mais lhe aproveitaria. E essa lógica de competição, de concorrência, que faz com que o jornalismo melhore um pouco, as empresas jornalísticas aqui de Sergipe nunca incorporaram com muito entusiasmo. Idéias de um empresariado tacanho que acha que não se ganha dinheiro comercialmente com comunicação, que se pode ganhar indiretamente, em relações com o estado – algumas escusas. Esses vícios antigos de mau empresariado permanecem. Elas não são agressivas para tentar conquistar o leitor: você vê propagandinha do jornal tal, lê no jornal, assina e coisa e tal, mas, um esforço engajado de ir às ruas pra mostrar que você tem um produto de qualidade, um investimento de se vincular ao público e fazer com que o público gere rentabilidade para o jornal é muito fraco.

EmpautaUFS: Mas… Em relação à interação com ferramentas on-line, o Sr. acredita que elas estão atentas?

Carlos Eduardo Franciscato: Elas criaram os sites tardiamente, muito tardiamente. E porque são tacanhos, acreditam que os sites podem tirar leitor do impresso. Mas, pelo contrário, o site pode ampliar o vínculo do leitor com a instituição, com a organização. O importante, o fundamental, é você preservar, ampliar o vínculo com o seu leitor, isto que é a chave, e não se fechar. “Não, eu não posso botar na internet porque vai mais gente ler e não vai comprar jornal”. Isso é uma visão atrasada que  a tecnologia vai passar por cima, então o jornal que se fechar para não chegar ao leitor, a não ser por venda de jornal impresso, o que é uma visão atrasada, esse corre risco de ser extinto.

EmpautaUFS: Temos alguma boa referência sergipana na área do jornalismo online?

Carlos Eduardo Franciscato: Os sites dos jornais eu acho todos eles fracos. Eles trabalham com muita precariedade e não investem para que essa precariedade seja superada, por entender aquelas lógicas de que o site vai competir com o jornal impresso. Isso é uma visão atrasada. Tem que se superar, arranjar estratégias para superar esse risco.