Técnica de Produção, Reportagem e Redação Jornalística

Posted in UFS by micheletavares on 28/05/2009

“Compreender o mundo e a mim mesmo”

Vestindo bermuda, camisa de algodão e calçando sandálias de dedos, o professor/doutor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Luiz Fernando Alves Barroso, recebeu a equipe do Em Pauta UFS em seu apartamento em Aracaju, em plena manhã de domingo, dialogando de maneira aberta e sincera o porquê escolheu a Mídia Gay como tema da sua dissertação de doutorado.

Por Eduardo Barreto ( eduardobarreto@ibest.com.br)

e Barbara Mendes ( babiit_@hotmail.com)

Em Pauta UFS: O que o motivou a fazer uma monografia sobre Mídia Gay?

Fernando Barroso com a primeira edição do Jornal do Nuances. Foto: Eduardo Barreto

Fernando Barroso com a primeira edição do Jornal do Nuances. Foto: Eduardo Barreto

Essa é uma história da minha vida pessoal, porque não fui para Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) em Março de 2003, já definido com esse tema de pesquisa. O meu tempo de estudo seria de quarto anos, no meu primeiro ano eu estava com outro tema pressuposto e me dei conta que não estava sendo produtiva a minha pesquisa nessa aérea, que era sobre Cultura Nordestina, algo como o moderno e o tradicional na mídia dessa região. A cada momento que tentava definir com maior precisão essa questão, me dava conta cada vez mais que este propósito não estava se ajustando ao que deveria ser, ou melhor, ao meu interesse. Então, em Dezembro de 2003, resolvi dá uma virada geral na minha condição de doutorando para mudar de tema; procurei o meu orientador e tive uma conversa com ele, pois não estava satisfeito com o meu rendimento e que para avançar em meu projeto de pesquisa era necessário mudar de tema, com isso modificaria para Imprensa Gay, a qual eu já era um leitor desse tipo de material e por está envolvido neste universo, pelo fato da minha condição pessoal de homossexualidade, eu poderia render.

Em Pauta UFS: Então houve uma identificação com sua vida pessoal?

Sim, houve uma identificação de trazer o tema para minha própria vida, por isso que eu considerei em fazer uma tese de doutorado sobre Imprensa Gay seria mais produtivo e mais prazeroso para mim.

Em Pauta UFS: Por que o Rio Grande do Sul como região de estudo?

Fui estudar na cidade de São Leopoldo, que fica na região metropolitana de Porto Alegre, na UNISINOS a qual é uma instituição muito consolidada no meio acadêmico do Rio Grande do Sul e porque já existiam programas de estudos sobre mídia e processos sociais. Professores, debates e as leituras que se faziam nessa universidade eram adequados para minha demanda de crescimento acadêmico, por se tratarem de estudos culturais, o qual, naquela época e até hoje, é a linha de pesquisa com a qual mais me identifico.

Em Pauta UFS: Como foram feitas as escolhas dos objetos de estudo, uma vez que o senhor teve que partir novamente do zero?

Em primeiro lugar eu tinha umas questões de ordem muito concretas, uma delas era o acesso às fontes, ou seja, aos dados que eu necessitava. Não poderia me propor, estando em Porto Alegre, coletar dados em São Paulo, Rio de Janeiro ou até mesmo no exterior, porque iria implicar em custos financeiros e de outras ordens, sendo tempo e dinheiro variáveis as quais não poderia perder de vista. Precisava fazer uma pesquisa cuja operacionalidade tivesse toda em minhas mãos. Na capital gaúcha existe um grupo de mobilização social pelos direitos dos homossexuais que é o Nuances, o qual produz um jornal cujo nome é Jornal do Nuances, eu já havia tido acesso à esse periódico e pensei por que não estudá-lo?! Em princípio pensei em fazer uma comparação do discurso dos jornais do Nuances com o do Lampião da Esquina, que é um jornal carioca e foi editado há 20 anos (final da década de 70 em meio à Ditadura militar) e que também trata da temática gay.  Acabei conseguindo todas as edições dos dois jornais, no decorrer do meu trabalho acabei me dedicando mais à publicação gaúcha, pois assim estaria me dedicando e detendo meu foco de investigação.

Em Pauta UFS: Quais eram as propostas do Jornal do Nuances?

No ponto de vista ideológico e cultural a principal característica do jornal era se colocar como um crítico das teses e das propostas hegemônica dos movimentos homossexuais brasileiro; eles consideram que esses movimentos, em um primeiro momento, eram muito autônomos com relação ao Estado e aos partidos políticos e com o passar do tempo foram perdendo essa autonomia e se atrelando aos partidos de esquerda e ao Estado, principalmente quando geridos pelo partido de esquerda, neste caso ao Partido dos Trabalhadores (PT). Então eles consideravam que os movimentos foram se compondo em organizações não governamentais (ONGS) e assim tendo acesso, via Ministério da Saúde, às políticas públicas de prevenção à AIDS, adquirindo recursos e mais recursos. Em contrapartida, essas instituições foram perdendo sua autonomia e se tornando ‘braço’ do Estado. O Nuances começou a se insurgir contra processo e a afirmar para o movimento homossexual brasileiro que ele deveria voltar ao seu estágio de autonomia em relação ao Estado e aos partidos e que o movimento não deveria partir para um processo de normalização, de domesticação; deveria sim, trazer suas propostas autônomas que eram garantir a sua cidadania e transformar a sociedade com essa contribuição homossexual e não seguir um modelo heterossexual.

Em Pauta UFS –  Como eram realizadas as edições do Nuances? Já que não havia tiragem regular do mesmo.

O jornal como uma ONG dependia diretamente de verba (doações e repasses), no qual seu maior parceiro é o Ministério da Saúde, porém sabemos que esses recursos que provêem  desses projetos são instáveis , eles viabilizavam a instituição e  com isso nem sempre tinham dinheiro suficientes para lançá-lo. Ele tem sua sede própria na no centro de Porto Alegre e a elaboração do jornal é feita, em grande parte por voluntários (que tem seus trabalhos fora do jornal), mas que também existem pessoas que dependem diretamente do jornal. Seus colaboradores são de classe média baixa e tem formação acadêmica em diversas aéreas, entretanto nenhum deles tem formação em comunicação social. No principio era assessorados por uma jornalista, com a escassez de recursos seu trabalho foi dispensado.

Em Pauta UFS –  Existe uma escassez de material que aborde a mídia gay?

O que a gente chama de mídia gay, mais especificamente imprensa gay, é que resulta dos movimentos das minorias ocorridos no final dos anos 60 como dos negros, mulheres, ecologistas e no qual os gays também fazem parte. Em 1969, na cidade de Nova York, no bairro de Greenwich, havia um bar chamado de Stonewall Inn e nele ocorreu uma batida policial, alegando que no local estava ocorrendo o consumo excessivo de álcool e drogas.  Pouco tempo depois do ocorrido foi descoberto que a ação dos policias era na verdade uma atitude de homofobia. Mesmo assim o público freqüentador daquele bar não cruzou os braços, resolveram então fazer uma ‘guerra’ contra essa atitude intolerante.  Começou uma mobilização muito grande em prol desse grupo, daí então surgem os primeiros jornais de natureza gay, eles eram feitos de forma artesanal e alguns outros com temáticas militantes. Mais recentemente essa imprensa foi se profissionalizando e deixando de lado o caráter artesanal e assumindo as regras do mercado vigente e assim os estudos feitos sobre essas  mudanças tem se dado conta dessa transformação.

Em Pauta UFS- No Nuances o seu leitor não é visto como um consumidor e sim como um cidadão.

Exatamente, porque o jornal não é produzido para ser vendido, não precisa disputar leitores em bancas de jornal, ele se insurge contra esse estereótipo dessa imprensa dominante e chega com uma versão oposta que é dá consciência e participação política, agindo como porta-voz do grupo de organização das minorias juntando a outros movimentos sociais numa concepção antiliberal e de superação do capitalismo. Ele não se volta para o consumismo, hedonismo, para a valorização do indivíduo, ou seja, valoriza o coletivo e aborda também outras temáticas como feministas, negros, etc.

Em Pauta UFS – O senhor foi bem aceito quando foi à procura dessas pessoas que fazem o Nuances? Houve algum receio por parte deles?

A sua pergunta é absolutamente correta e necessária.  Quando eu fui iniciar o trabalho a minha primeira tarefa era de apresentar-me ao grupo e possibilitar a conhecê-los, pedindo o apoio deles e à priori a coleção completa do jornal. Morando em Porto Alegre, sendo nordestino e professor de uma universidade dessa região, com outro sotaque, devo ter, e é natural que isso aconteça, despertado uma desconfiança entre aqueles militantes, por conta que eu poderia ser ao invés de um acadêmico, um espião de outra ONG ou até mesmo de uma organização do Estado, que de repente estaria se utilizando da questão da tese, um meio de me aproximar do grupo e buscar informações que poderia vir a prejudicá-los. Então precisava conquistar a confiança do grupo, e como ela foi conquistada? Não foi conquistada com palavras, mas com conduta, com a minha forma de trabalhar e de como me relacionava com eles. Diversas vezes participei de alguns congressos e com isso levava o Nuances para esses eventos, no qual eu anunciava ao grupo que o trabalho deles havia sido aceito nos encontros e ainda fazia questão de passar na sede para pegar alguns exemplares à serem distribuídos nos congressos. Com um desses exemplos e muita disciplina, fui ganhando a confiança do deles, fruto também da minha seriedade no que faço. Ah, um detalhe é que não os entrevistei no inicio da pesquisa, deixei para o final dela, pois estariam mais aberto e seguros com relação à mim, e com isso as informações poderia ser mais completas.

Em Pauta UFS – Depois que mudou de tema, quanto tempo durou o trabalho de pesquisa  até a sua apresentação?

Foram três anos, pois parti do zero (uma alfabetização de um tema novo, imprensa homossexual) para uma tese de doutorado, a qual iniciei em 2004 com o novo projeto em ação e em Fevereiro de 2007 a apresentei.

Em Pauta UFS – Como foi encarado o tema pela academia e pelos seus colegas?

Entre meus colegas eles não apresentaram reservas em relação ao tema, apresentaram sim, preocupação sobre a minha mudança de tema, perguntando se era isso que eu realmente queria ou se tratava de uma crise momentânea em relação ao meu projeto original. Essa preocupação é normal, pois qualquer objeto de pesquisa é desafiante e para um orientador maduro é indispensável a sua preocupação com o seu orientando, para que este não fique migrando todas as vezes que encontrar dificuldades no projeto e que deve compreendê-las e estudá-las e com isso seguir com seu projeto. Deste modo, mostrei que estava confiante e convicto com a minha mudança.

Em Pauta UFS – Existe o projeto de tratar sobre textos, com os alunos, de temáticas gay?

Depois que voltei de Porto Alegre e retomei minhas atividades como professor da UFS, o meu interesse, hoje, é avançar na pesquisa sobre imprensa gay e trazer esta questão para os meus alunos de graduação na forma de iniciação científica e de um grupo de pesquisa, e até mesmo para a pós-graduação no momento em que for constituído o curso de mestrado que está em processo de formalização junto as instância formais em que isso se dá. Então, o meu interesse é sair de um caso isolado, como o Nuances, e partir para um leque maior que nós compreendemos como mídia gay, em particular, mídia impressa, fazendo envolvimento entre mídia alternativa e a de mercado. Atualmente estou trabalhando com dois alunos em um projeto de iniciação científica com o jornal Lampião da Esquina e para isso estamos com trabalhos à serem apresentados na Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), que acontecerá em Curitiba no mês de Setembro e no de Ciências Sociais do Norte/Nordeste (CISO), que ocorrerá em Recife em Dezembro deste ano.

Em Pauta UFS – O senhor atingiu o objeto do trabalho?

Eu acredito que atingi sim, pois o objetivo era fazer o levantamento dos temas que o jornal discute, das posições que ele defende a respeito desses temas e uma explicação do porquê desses temas e dessas posições. Eles foram alcançados porque fiz uma leitura minuciosa e detalhada do jornal e levantei 69 temas que o jornal trata, desses comecei a recuperar textos nos quais o jornal se posiciona sobre cada um desses temas. Foi uma trabalheira enorme fazer esse levantamento.

Em Pauta UFS –Que temas eram esses, pode citar alguns?

Sim, eram variados, desde política, passando por cultura e comportamento.

Em Pauta UFS – O que fica da tese como experiência de vida para Fernando Barroso?

(suspiros) Uma experiência de vida maravilhosa, me favoreceu até como terapia, ao mesmo tempo em que ela me ajuda a compreender um universo exterior a mim ( que era da produção de um jornal) e no meu interior a minha sensibilidade e valores, ou seja, auxiliou a compreender o mundo e a mim mesmo.

Uma resposta

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  1. maria siliprandi said, on 28/05/2009 at 8:43 pm

    Como participante/expectadora de perto, com um certo apoio logístico familiar do Fernando, só tenho a parabenizá-lo e dizer que realmente a dedicação dele foi imensa. No tempo em que morou em PAlegre só sabíamos que o nome dele era “trabalho”!


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