Técnica de Produção, Reportagem e Redação Jornalística

“Bravo!”

Posted in Cultura by micheletavares on 28/05/2009

Em entrevista ao EmpautaUFS, o maestro da Orquestra Sinfônica de Sergipe fala de rotina, formação profissional e até de comprometimento com o serviço público. Ainda adianta algumas expectativas, como a montagem de uma ópera no Estado.

Por Gustavo Costa

Maestro Guilherme Mannis

Maestro Guilherme Mannis

Criada na década de 80, a Orquestra Sinfônica de Sergipe (ORSSE) tem conquistado seu lugar entre as grandes orquestras do Brasil inteiro, até mesmo em pólos consagrados da música erudita, como Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, onde foram realizadas apresentações durante 7 e 17 de maio na Turnê Brasil.

O maestro Guilherme Mannis, Regente Titular e Diretor Artístico da ORSSE e “sergipano” de São Paulo, como ele mesmo diz, nos conta a respeito da recepção do público por todo o Brasil, de problemas enfrentados no início de sua gestão até hoje e principalmente das conquistas como os Projetos ‘Sinfonia do Saber’, que leva crianças e jovens de escolas públicas ao Teatro Tobias Barreto, ‘Domingo no Parque’, com apresentações ao ar livre no cair da tarde, além de concertos no interior do Estado.

A Orquestra, que é considerada pelo próprio Governador Marcelo Déda ‘uma das jóias da coroa’ do Estado, tenta hoje criar um novo público, sem deixar de lado a erudição da música clássica, mas mostrando que a arte é acessível a todos. Com este objetivo, músicos são diariamente cobrados a manter uma grande disciplina de estudo, dedicação e perseverança. Tudo isso para driblar os problemas com a falta de divulgação e publicidade.

EmpautaUFS: Qual a rotina diária dos músicos da ORSSE?

Guilherme Mannis: Na verdade são várias rotinas. O que a gente tenta trabalhar é a questão de se instituir na Sinfônica de Sergipe um ritmo de trabalho de alto profissionalismo. E isso significa que tem que ser feita uma rotina de trabalho séria. Portanto, desde 2007 nós implantamos uma temporada anual, com concertos pré-determinados no início do ano, e todo o cronograma da Orquestra é feito de acordo com esses eventos.

A partir disso, definimos ensaios diários, das 9 às 12 horas, deixando o resto do dia livre, para que os músicos aprendam as partituras e venham para os ensaios preparados. Porém, há dias que é necessário que se faça dois ensaios, um pela manhã e outro pela noite. Geralmente, nos dias subseqüentes aos concertos, há folga para que os músicos tenham tempo para estudar e conhecer novos repertórios. Este mês, por exemplo, tivemos uma turnê pelo Brasil e houve algumas folgas depois das apresentações, para os artistas poderem se recuperar e também já começarem a estudar o próximo repertório.

Portanto, existe uma política de alto rendimento, em que os integrantes da Orquestra são muito exigidos.

EmpautaUFS: Quantos músicos sergipanos e quantos de fora do Estado são integrantes do corpo de músicos?

G. M.: Depende do seu conceito de sergipano (risos). Tem o sergipano que nasceu no Rio de Janeiro e veio pequeno morar aqui, tem o sergipano que é de Natal, mas começou a estudar violino aqui, tem o sergipano que chegou a dois anos atrás de São Paulo, como eu. Eu acho essa questão irrelevante, já que você irá encontrar músicos sergipanos em quase todas as Orquestras brasileiras de ponta. A música é muito universal. Mas se você considerar aqueles que passaram toda a infância em Sergipe, você terá aproximadamente 20 pessoas na Orquestra, mais umas 30 de outras cidades do nordeste e umas 10 de outros lugares, como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, etc.

Orquestra durante ensaio

Orquestra durante ensaio. Foto: Gustavo Costa

EmpautaUFS: Existe muita concorrência no estado para ocupar um lugar na ORSSE?

G. M.: Sim, a concorrência tem aumentado com a possibilidade da Orquestra alçar voos muito grandes, de fazer turnês e estar em evidência no cenário nacional atualmente.

O que falta especificamente em Aracaju, é um curso de música que consiga formar instrumentistas que possam integrar a orquestra. Até agora, os cursos do Conservatório de Música de Sergipe ainda não apontam nada nesse sentido, e o mesmo acontece com a Universidade Federal de Sergipe, onde os cursos que existem ou são de licenciatura, voltados para o colégio, seguindo a nova diretriz do MEC, de fazer voltar a música nas escolas, ou são voltados para o ensino básico de música sem muitas intenções profissionalizantes. Outro absurdo é que músicos da ORSSE são proibidos de dar aula no Conservatório, por não poderem acumular cargos no Estado. Considero um absurdo porque aqui teríamos ótimos professores para o Conservatório e isto não atrapalharia o desempenho desses profissionais.

EmpautaUFS: Quais são os critérios analisados para se tornar parte da Sinfônica de Sergipe?

G. M.: O critério principal é competência de performance. A pessoa traz um repertório de confronto que nós escolhemos para ver como ela se desenvolve, ela apresenta a obra, e estando acima da média, ela ingressa na Sinfônica.

EmpautaUFS: Todo mundo sabe que no Brasil de um modo geral, músicos eruditos e outros artistas que movimentam a cultura não possuem um apoio financeiro a altura de sua importância, dedicação e estudo. O que o Sr. acha portanto, que motiva esses artistas?

G. M.: O nosso ponto de vista desde o início é de que músico que fica parado reclamando e querendo dinheiro é um incoerente e não vale um tostão. Então o que nós queremos é mostrar através dos nossos projetos, como ‘Domingo no Parque’,  ‘Sinfonia do Saber’ e os concertos no interior, que a música clássica é importante por ser parte integrante de toda uma afirmação cultural de uma sociedade. Isso está muito claro agora em 2009 com essa terceira temporada anual e a turnê de muito sucesso.

Eu ficaria muito preocupado se não tivéssemos resposta perante a isso, mas nós temos. O apoio a Orquestra tem sido crescente e realmente nos deixa contente.

EmpautaUFS: Existe algo especial que você enxerga nos músicos daqui, que você não viu em outros lugares?

G. M.: A característica principal dos músicos da nossa orquestra que foi explicitada nessa turnê, é que são músicos jovens, mas sem o caráter experimental. Ou seja, nós temos na Sinfônica de Sergipe, um contingente muito grande de jovens músicos profissionais. Esse conjunto dá à Orquestra, uma vivacidade muito grande. Assim, toda apresentação demonstra muita energia por parte do grupo.

EmpautaUFS: Como a ORSSE enxerga atualmente a receptividade do público sergipano, incluindo as apresentações dos projetos ‘Sinfonia do Saber’, ‘Domingo no Parque’ e os concertos no interior do estado?

G. M.: A representatividade é muito boa. A aceitação é 100%. Eu acho que o que falta ainda é um pouco de publicidade, com o propósito de mostrar para o público que esta é uma arte acessível, que vir

"Rotina de trabalho de alto profissionalismo."

"Rotina de trabalho de alto profissionalismo." Foto: Gustavo Costa

ao teatro não é para pessoas especiais. Enfim, o nosso mote é sempre tornar a nossa produção acessível, e não popularizá-la. Não queremos nos desviar da proposta artística para tentar atingir um público, mas sim chegar para ele e convidá-lo a assistir a Orquestra. Devemos criar um novo público que tenha interesse no que a gente faz. Afinal, a música clássica é uma companheira para toda a vida, como a literatura, o cinema e as grandes artes.

EmpautaUFS: As apresentações atualmente acontecem na maior parte das vezes, no Teatro Tobias Barreto, que possui uma capacidade de 1328 lugares, a preços populares de R$ 10 inteira e R$ 5 meia. O que falta ainda, para haver “briga” pelos ingressos, como acontece em outros estados, a exemplo de RJ e SP?

G. M.: É preciso levar em consideração que Aracaju tem aproximadamente 500 mil habitantes. Se você somar a Grande Aracaju, serão quantos, 700 mil? Na Grande São Paulo são 20 milhões. No Rio de Janeiro, um grande contingente. Em Belo Horizonte, a mesma coisa. Portanto, se você pensar que a orquestra colocou no parque da sementeira no ano passado 3500 pessoas, e que multiplicando isso por 20, que seria a proporção entre São Paulo e Aracaju, teríamos um público em São Paulo de no mínimo 60 ou 70 mil pessoas. Por isso, num Estado pequeno como o nosso, um público de 1000 ou 1300 pessoas é excepcional. O que falta para que o Teatro fique completamente lotado é publicidade, divulgação.

EmpautaUFS: Você acha que a música erudita possui um bom espaço na mídia e nos cadernos de cultura dos jornais sergipanos?

G. M.: Acho que até possui, mas acredito que falta realmente investimento em publicidade. No Rio de Janeiro por exemplo, é possível ver ônibus nas ruas com propagandas da OSB (Orquestra Sinfônica Brasileira). Em qualquer livraria de São Paulo é fácil achar uma filipeta da OSESP. Então se não há essa cultura, fica complicado para que as pessoas saibam que há concertos, e quais são seus dias e horários.

EmpautaUFS: Em novembro de 2007, foi divulgado no portal Infonet uma nota da Comissão Representativa dos Músicos da ORSSE que denunciava que estariam havendo alguns problemas administrativos envolvendo a escolha da banca avaliadora dos coralistas. Como o Maestro Guilherme Mannis e a própria Orquestra deram a volta por cima desse problema?

G. M.: Bom… (pausa) Primeiramente nunca admitimos ter havido problema e sim, vimos que essa questão estava ligada a interesse político frente a própria administração. Segundo, ela tinha uma intenção de desestabilizar a administração da orquestra e por fim, eram notícias notadamente infundadas. Demos a volta por cima usando trabalho como resposta. Continuamos com o nosso propósito de fazer música boa, de qualidade, sem pensar em interesses pessoais de fulano ou sicrano que estavam reclamando por estarem trabalhando além do que ele achava que deveria. São pessoas que como funcionários públicos, achavam que estavam no Estado para se encostar. Um músico no Estado tem que trabalhar e não usar seu cargo como escora. Estes que não assumiram seu compromisso, que não estavam interessados em construir o trabalho em Sergipe, que inclusive vinham de outros estados ganhar dinheiro de forma nada satisfatória, sofreram atitudes sérias e foram completamente isolados. E o resultado está aí: uma turnê de excelente qualidade, a ORSSE recebendo críticas positivas do Brasil inteiro. Tudo isso por que a casa foi arrumada.

Noite especial no Teatro Tobias Barreto.

Noite especial no Teatro Tobias Barreto. Foto: Peterson Rosa

EmpautaUFS: Na sua chegada, o que foi preciso ser feito, para que a ORSSE alavancasse nessa rota de ascensão que ela se encontra hoje?

G. M.: Foi preciso previsibilidade, portanto quando nós instituímos as temporadas, durante o ano nós sabíamos com 3 a 7 meses de antecedência o que iríamos fazer. Isso ajudou muito durante todo o ano. Outro ponto foi o cumprimento dessas temporadas. Todos os solistas convidados para tocar conosco vieram, e participaram dos concertos, além disso, são músicos que trocam experiências com a Sinfônica de Sergipe e dão aulas que capacitam nossos músicos. Outra questão foi a solução desses problemas internos que atravancavam o dia-a-dia da orquestra, a exemplo do que você mesmo mencionou, em 2007. Sem esses problemas de relacionamento dentro da orquestra, pudemos voltar a sentir prazer em fazer música, vontade de vir para o ensaio com desejo de tocar e fazer um excelente trabalho.

Então essa série de fatores, como o coleguismo, o profissionalismo, somados à adoção por parte do Governo de alguns projetos, como a Turnê Brasil, e o próximo show do Michel Legrand que contribuem para que a orquestra cresça mais e mais.

EmpautaUFS: Como foi a receptividade do público em Curitiba, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, na turnê desse ano?

G. M.: Em Curitiba nós tivemos uma receptividade muito além do que esperávamos. Foi muito surpreendente que no primeiro concerto da Orquestra, as pessoas ficaram muito impressionadas com a nossa produção. Os músicos encararam com o maior profissionalismo, com a maior capacidade, deram 100% de si e por isso a apresentação foi um grande sucesso. Todos aplaudiram de pé, tocamos três bis e eu voltei várias vezes ao palco.

No Rio foi um grande sucesso, com a Sala Cecília Meirelles completamente lotada, o público totalmente extasiado, isso sem pensar que o Rio de Janeiro é uma cidade que tem música clássica desde a época de D. João VI, com a Capela Real.

Assim também foi em Brasília, mas a consagração foi na Sala São Paulo, com um público grandioso. Ao fim do concerto nós tocamos quatro bis e eu voltei ao palco onze vezes. O mais interessante foi que os próprios músicos da orquestra vieram me falar que nunca o Teatro Tobias Barreto esteve tão cheio quanto a Sala São Paulo para assistir a Sinfônica de Sergipe. (risos)

Foi algo muito gratificante, mostra que o nosso trabalho está no caminho certo, tivemos críticas altamente positivas de pessoas muito importantes como Luis Paulo Horta (Jornal ‘O Globo’) e Leonardo Martinelli (‘Revista Concerto’) que opinam muito sobre música no Brasil.

EmpautaUFS: Agora que cada vez mais a ORSSE tem se consagrado como uma grande Orquestra no Brasil, existe um projeto para a gravação de um CD?

G. M.: Este ano teremos a gravação de um CD da ORSSE dedicado às obras de Villa-Lobos. Mas é importante frisar que não será um material promocional, que o banco esta doando ou que é feito para distribuição. Será um material profissional, feito por uma gravadora e será vendido nas lojas pelo Brasil inteiro.

"Nosso trabalho está no caminho certo."

"Nosso trabalho está no caminho certo." Foto: Peterson Rosa

EmpautaUFS: Em Novembro de 2004, sob a regência do Maestro Gladson Carvalho, foi realizado no Teatro Tobias Barreto a apresentação completa do Réquiem k 626 de Mozart. Tempos depois, sob a regência do Maestro Ion Bressan, foi realizada a apresentação completa da 9ª Sinfonia de Beethoven. Foram duas noites para ficar na memória do público sergipano. Logicamente, assim como também as apresentações de Scheherazade de Korsakov, 5ª Sinfonia e Abertura 1812 de Tchaikovsky, 8ª Sinfonia de Dvorak, Pedro e o Lobo de Prokofiev , Prélude à l´après-midi d´un faune de Debussy, Bachianas n° 6,  todas sob a sua regência. Existem projetos para a realização de grandes noites como essas? Quem sabe uma ópera, já que o Sr. possui  experiência com montagens de ópera, a exemplo de “O Anjo Negro” de João Guilherme Ripper?

G. M.: Nós tentamos fazer de todos os concertos da temporada uma grande noite. Não importa se temos um público pequeno ou grande. A nossa proposta é sempre tocar como se fosse o último concerto, com grande profissionalismo, com imensa vontade. Existem por exemplo, algumas produções que eu destaco que não tiveram muito público, mas que mesmo assim obtiveram um resultado incrível, como a 4ª e a 6ª sinfonia de Tchaikovsky, muitas sinfonias de Beethoven, fizemos um Festival Tchaikovsky no ano passado, tivemos o concerto para piano e o concerto para violino, que foram incríveis.

São muitas noites e nós não temos distinção entre elas. Não elegemos determinados dias para ter um concerto especial, até porque se fosse assim, os outros dias seriam muito abaixo da média.

Dessa temporada, o que eu posso garantir é que teremos alguns momentos especiais como agora próximo dia 11 de junho, dia de Corpus Christi, quando apresentaremos uma missa muito pouco tocada no Brasil, que é a missa de Santa Cecília do José Maurício Nunes Garcia, que foi um compositor da época da Capela Real e foi talvez o grande compositor brasileiro depois de Villa-Lobos. Juntamente com a Missa de Santa Cecília, vamos fazer as Bacchianas Brasileiras nº 3 (de Heitor Villa-Lobos) com solos do Daniel Freire (regente do Coro Sinfônico da ORSSE).

Uma semana depois, nós teremos a presença de Michel Legrand, que é um grande maestro francês que vem reger a ORSSE e irá trazer a mulher dele, que é talvez uma das melhores harpistas do mundo, a Catherine Michel. Será uma noite totalmente dedicada à música francesa e à celebração do Ano da França no Brasil.

Além disso, teremos esse ano uma 9ª Sinfonia de Beethoven aglutinando alguns coros da cidade, em Outubro será realizado o concerto d’As Quatro Estações com Daniel Guedes, que é um ás do violino, o concerto duplo para violino e violoncelo de Brahms, as Bacchianas Brasileiras nº 4 de Villa-Lobos em comemoração aos 50 anos de falecimento dele… Enfim, são muitos e muitos eventos, além de muitos regentes convidados, que como já havia dito, são muito importantes para que a orquestra entre em contato com outros pontos de vista que não sejam somente os do regente titular.

Quanto à possibilidade de realizar uma ópera, é preciso que o patrocínio saia, pois uma ópera é um evento de alto custo, que envolveria muito a produção sergipana e alguns diretores de São Paulo ou de outros centros operísticos brasileiros. Estes seriam responsáveis por capacitar todo o staff local para esta realização. Até porque a produção envolveria cenários, figurinos, iluminação, além da preparação musical. Tudo isso envolve realmente um grande número de pessoas e um custo alto, mas que se reverte completamente para o Estado, de forma que estes profissionais se tornariam preparados para participar de outras montagens futuras.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: