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Se tiver intérprete, eu agradeço!

Posted in Educação by micheletavares on 03/06/2009

Tânia em sala de aula, ao lado a professora Margarida (Foto: Barbara Juliana)

Tânia em sala de aula, ao lado a professora Margarida (Foto: Barbara Juliana)

Por Barbara Juliana

A estudante do ensino médio, Tânia Santos, 39 anos, é instrutora de Linguagem Brasileira de Sinais (LIBRAS), do Colégio Estadual 11 de Agosto, cuja pedagogia de ensino é direcionada para estudantes surdos. Ela recebe uma bolsa do Estado de Sergipe para ensinar a linguagem de sinais a crianças e adolescentes surdos nas escolas.

Tânia, que também é deficiente auditiva, sabe o quanto é importante a presença de um instrutor de libras na sala de aula, facilitando a comunicação entre professor e o aluno deficiente auditivo. Por isso, ela foi convidada pela professora de libras Margarida Maria para dar uma aula especial aos alunos do curso de Pedagogia.

Em sala de aula, Tânia mostrou desenvoltura: riu muito, brincou , contou estórias e fez um aquecimento com os alunos: pediu pra que a turma fizesse um círculo em torno dela e exercitassem as mãos para praticar a linguagem de sinais. Com todo mundo aquecido, ela então ensinou como é que “diz” em libras membros da família como pai, mãe, filho etc. Mostrou e repetiu como é o gesto certo das mãos, para ninguém errar.

Depois da aula, Tânia conversou com nossa equipe de reportagem sobre as limitações do deficiente auditivo pela falta de intérpretes em libras nas escolas, uma vez que a disciplina tornou-se obrigatória para o curso de Pedagogia somente no ano passado e comentou sobre seus planos: prestar vestibular para Pedagogia e depois fará uma Pós-Graduação, seguindo pelo Mestrado e Doutorado. A professora Margarida foi intermediadora da conversa, e traduziu em libras as perguntas e respostas.

EmPautaUFS: Como deficiente auditiva, qual a dificuldade você encontrou na educação?

Tânia: A dificuldade maior é a falta de intérprete em libras nas salas de aula, a professora fala, fala, e não tem comunicação, não tem sentido e só com ajuda de intérpretes fica fácil aprender as matérias e entender o contexto do tema. O intérprete explica e eu agradeço.

EmPautaUFS: Professora Margarida, como a senhora caracteriza a atuação de Tânia em sala de aula?

Margarida : A presença da Tânia em sala de aula é importante para que os alunos possam viver a língua de libras em ação, em movimento e, para que os alunos vivenciem o contato com o deficiente auditivo.

EmPautaUFS: Além da falta de intérpretes nas escolas, há outros motivos que dificultam o acesso dos deficientes auditivos desde o Ensino Fundamental ao Superior?

Tânia: Tem sim. Pessoas ouvintes que não gostam de ajudar aos surdos, não há comunicação é muito difícil, não tem como se expressar; a pessoa surda se sente sozinha e isolada.  O pai e a mãe não sabem ensinar o dever de casa e quando eles tentam explicar só fico olhando sem entender nada, então me entristeço, porque a família tem preconceito com o filho deficiente auditivo, não aceitam, e as pessoas nas ruas também têm preconceito. A falta de comunicação é o abismo que afasta os surdos da escola e, claro, futuramente do ensino superior.

EmPautaUFS: Em sua opinião, o que falta nas instituições de ensino básico e superior do Brasil?BOX

Tânia: Se a escola regular tivesse intérpretes, o deficiente auditivo teria menos dificuldade de se desenvolver na escola, aprenderia como qualquer ouvinte e posteriormente ingressaria numa universidade. Falta professor que faça uma ponte entre a informação e o aluno deficiente auditivo; professores que entendam as características da pessoa surda e como ele compreende as coisas. Quando nas escolas não tem esse ensino direcionado para os surdos, com certeza irá comprometer o aprendizado desses alunos e, consequentemente, de chegar ao nível superior. O que falta nas universidades são apenas intérpretes em linguagem de sinais.

EmPautaUFS: Professora, qual a importância das libras como matéria obrigatória na grade do curso de pedagogia?

Margarida: O conhecimento sobre a Linguagem Brasileira de Sinais (LIBRAS) pelos futuros profissionais em educação é importante para que eles tenham um olhar diferenciado para a diversidade. Quando a gente sai da universidade temos a impressão que vamos encontrar uma sociedade homogênea, todo mundo com o mesmo nível e a mesma capacidade, é isso que a gente vê na maioria das literaturas. Com o conhecimento inicial de libras, o profissional sai consciente de que ele vai encontrar diferenças nas salas de aula. Quando ele se deparar com criança não só deficiente auditiva, mas visual ou portadora de necessidades especiais, ele passará a entender e aprenderá a lidar com as diferenças. Para o aluno de pedagogia é importante que ele conheça e conviva com pessoas como Tânia para melhor se adaptar a crianças portadoras de deficiência auditiva nas escolas. Aprender libras na universidade é trazer a realidade e consciência da diversidade. É preparar o aluno pra vida!

Uma resposta

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  1. Valéria Simplício said, on 19/11/2009 at 5:31 pm

    De grande relevância sua reportagem para conscientização da sociedade acerca da LIBRAS e da pessoa surda!
    A título de contribuição, a LIBRAS não é só uma linguagem, é “LÍNGUA” (LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais); os itens lexicais não são “GESTOS”, são “SINAIS”; a LIBRAS não é obrigatória somente no curso de Pedagogia, mas em todas as licenciaturas e no curso de Fonoaudiologia; o termo “DEFICIENTE AUDITIVO” não é adequado para se referir às “PESSOAS SURDAS” OU “PESSOAS COM DEFICIÊNCIA AUDITIVA”.

    Abraços e parabéns!!

    Valéria Simplício
    Professora de LIBRAS da Faculdade São Luís de França


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