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A universidade planta preconceitos?

Posted in Educação, Política, UFS by micheletavares on 08/06/2009

 

Sonia Meire no debate sobre opressões, na UFS

Por Vinícius Oliveira

A Universidade sempre foi conhecida pela liberdade do livre pensamento e manifestações de diversas correntes teóricas e ideológicas. Entretanto, nos últimos dias apareceram manifestações de cunho racista e homofóbicos na Universidade Federal de Sergipe. Foram encontradas no Departamento de Geografia frases como “Lugar de preto é na senzala”. Já no Departamento de História um cartaz nazista. Dentro desse contexto, o coletivo de movimento estudantil “Barricadas fecham ruas porém abrem caminhos” resolveu fazer um debate sobre “Preconceito e a Universidade” e convidaram a professora e mestra do Departamento de Educação da UFS, Sônia Meire.  Logo após o debate, ela  nos cedeu uma entrevista exclusiva sobre o tema.

 

EmPauta UFS: Como a senhora encara esses tipos de expressões preconceituosas dentro da Universidade Federal de Sergipe, nesse contexto de entrada das cotas sociais e étnicas?

Sônia Meire: Essas manifestações expressam claramente um processo contraditório dentro da Universidade. O aumento quantitativo sem o aumento qualitativo. A partir do principio que a Universidade deveria gerar debates, esse crescimento não vem conexo com o aumento de discussões sobre os diversos temas do conhecimento. Então expressões escancaradas, porque existem manifestações de preconceito à todo tempo dentro da universidade, quando o professor discrimina o estudante, quando o professor homossexual não é tratado da mesma forma, começam a aparecer. Mas o pior são elas serem naturalizadas.  

EM: Esse preconceito tem alguma relação com a educação? SM: A formação da universidade brasileira tem raízes na formação judaíco-cristã, mas específica à Igreja Católica. Essa raiz dentro do Brasil expressa uma corrente de pensamento muito claro, a do colonizador Podemos observar a partir do momento que no ensino convencional vemos que a história dos povos colonizados, como os índios e comunidades africanas começam a partir do seu encontro com o colonizador. Mas a forma mais cruel de colonizaçã.o se dá através da linguagem. A educação é um ato político, já dizia Paulo Freire. O que os jesuítas faziam com os índios para eles eram educação. Educação deve servir para a emancipação e cada vez menos esse debate chega à Universidade e particularmente raramente dentro da nossa universidade de Sergipe. Tem um livro que expressa claramente esse papel da Educação.

 EM: Qual livro? 

 SM: “Educação e Emancipação” Theodore Adorno.   

 EM: Qual a importância da linguagem nesse contexto?

 SM: A linguagem expressa toda a cultura de um povo. A partir do momento que começamos a estudar os outros povos sem conexão com sua língua de origem. O estudo torna-se acético, sem subjetividade,e muitas vezes encaixa-se na lógica do colonizador a partir do momento que ela é contada na sua linguagem, a através dos seus símbolos e da sua relação de poder.

 EM: A expressão do preconceito já está superada dentro do seio da nossa sociedade atual?

Debate organizado pelo Coletivo de movimento estudantil "Barricadas fecham ruas porém abrem caminhos" lota o auditório da Universidade Federal de Sergipe Debate organizado pelo Coletivo de movimento estudantil “Barricadas fecham ruas porém abrem caminhos” lota o auditório da Universidade Federal de Sergipe

 

 SM: Estamos vivendo em uma sociedade capitalista. E o capitalismo é nada mais nada menos que a exploração do ser humano pelo ser humano. Toda forma de exploração gera lucros dentro do seio desse sistema. Do mesmo jeito que o tratamento com os negros e índios nos séculos passados geravam lucros para uma classe dominante, a sociedade capitalista de hoje legitima as várias formas de opressões, como o machismo, o racismo e a homofobia. Fazendo um recorte para dentro do Brasil, nós fomos “educados” na lógica do colonizador europeu, tanto a escola, como a universidade, como os meios de comunicação, como o Direito legitimam a opressão. Temos o colonizador dentro de nós, em maiores ou menores proporções. Mas isso não impede que lutemos pela superação de todas as formas de opressão e pela emancipação humana.

 EM: As razões do preconceito começam a ficar mais claras, mas como a professora encara que alguns professores ligarem essas manifestações racistas e homofóbicas ao movimento estudantil marxista?

barricas3 SM: O grande preconceito que a universidade carrega dentro da lógica do colonizador é o preconceito ideológico. Qualquer discurso que se contraponha a ordem dominante é colocado como discurso “puramente ideológico”, sem qualquer denotação teórica e cientifica.Como se o discurso da classe dominante também não fosse ideológico. E como o movimento estudantil marxista hoje é o único que se contrapõe a essa lógica de pensamento, de expansão e de sociedade, a criminalização ideológica do mesmo tem interesses escusos que é de calar ou deslegitimar o movimento. Mas se os mesmos que se dedicassem a estudar um pouco mais o marxismo, e a corrente ideológica desses movimentos saberia que eles se contrapõe e são os que tem mais debates nas áreas de combate aos preconceitos.

 EM: E o que deve ser feito para que o preconceito dentro da universidade seja superado?

 SM: Paulo Freire dizia que existem dois tipos de “tolerância”. A tolerância, no conceito judaico-cristã com o suportar o diferente, mas no sentido de superioridade em relação ao outro.O outro é suportável porque é inferior. No sentido de Paulo Freire, ele coloca que a tolerância deve ser aquela que vive com o diferente e tenta entendê-lo a partir de seus valores, e do respeito mutuo entre as partes, sem relação de superioridade. É a tolerância de Paulo Freire que deve ser alimentada nos corações e no pensamento dentro dos serem humanos. E por essa tolerância , que não é passiva, que não devemos aceitar nenhuma espécie de preconceito dentro da Universidade, e algo deve ser feito. As entidades devem se pronunciar, a universidade deve se mover e não deixar que a intolerância seja mais um dos pilares da universidade.  

Uma resposta

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  1. Liesse Costa said, on 02/12/2009 at 2:38 pm

    Vinicios, adorei o trabalho, continue assim. Precisamos de pessos como você, que sabe relacionar um tema polêmico, como o Preconceito!

    Sucesso!


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