Técnica de Produção, Reportagem e Redação Jornalística

por Jackeline Guimarães

Posted in Uncategorized by micheletavares on 09/06/2009

Eduardo Bittencourt Hernandez

Professor –Técnico de Jiu-Jitsu

Faixa Preta 2º Dan – Peso Médio

36 anos, carioca.

Seminário em Poznan

Seminário em Poznan

Esposo da obstetra Jaqueline e pai da pequena Natália, Eduardo Hernandez tem um currículo extenso e invejável. Ministrou aulas em mais de dez centros de treinamento, dentre eles o renomado Centro de treinamento Strauch de Jiu-Jitsu – RJ – e em países como: Finlândia, França e Polônia. Com mais de dez eventos ministrados em arbitragem e seminários, além de cursos de Defesa Pessoal, de Atualização Técnica e Pedagógica em artes marciais e do Seminário de Jiu-Jitsu Alexandre Paiva, Hernandez foi Campeão das Copas Hilton (BH – 1994), Pitbull Teresópolis (1994), Paes (1995), Oriente (1996), Condor (1996), Oriente (1997), Linjji (1999), das Taças Cidade Niterói em 94 e 95, entre outros. Além de vice no estadual do Rio em 94 e 95.

Com mais de 20 anos de tatame, o carioca já ganhou cidadania aracajuana e daqui não pretende emigrar. O bom humor ecoa, apesar da aparência fechada. Basta trocar duas palavras e o seu sorriso já aflora. Bastante exigente e disciplinado, Eduardo não admite deslizes durante as aulas, e para dinamizá-las, o som do Hip-Hop toma conta. Parece um ringue. E quem para para ver, não desgruda os olhos. O sotaque carioca ainda flui e é com esse jeito bem descolado que ele concede uma entrevista.


Jackeline – Como ocorreu a ponte aérea Rio de Janeiro – Aracaju?

Eduardo – Há mais de 10 anos, um amigo sergipano me chamou para dar aula em Aracaju. Fiz essa ponte área umas três vezes, e na última fiquei. Já gostei logo de cara da cidade, tanto que já nem sinto falta do Rio. No começo foi muito difícil, mas hoje isso “tá” bem resolvido. Construí uma família, fiz meu nome no esporte e até penso em montar uma academia de Jiu-Jitsu. Mas tenho de avaliar com calma. Não adianta montá-la em qualquer lugar, mesmo que tenha um profissional bem qualificado. Uma boa localização é fundamental para seu sucesso.

Jackeline – Há um plano de aula específico para que os jiujitsuokas tenham conhecimento acerca dos princípios do Jiu-Jítsu a fim de incrementá-los à vida pessoal e social do praticante?

Eduardo – Não. Mas sempre que a mídia aborda algum tema relacionado ao Jiu-Jítsu, discuto sobre seus princípios: autodefesa, equilíbrio, bom senso. O jiu-jítsu é um estilo de vida. Mas só uma meia dúzia pensa assim. Existem quatro tipos de pessoas que praticam o jiu-jítsu: quem busca a autodefesa, os que apenas querem falar que treinam, os que buscam competir profissionalmente e os que treinam para brigar na rua – esse tipo “tá” fora da minha aula.

Jackeline – Já precisou utilizar-se da arte como legítima defesa ou já ouviu relatos a respeito?

Eduardo – Já precisei usar quando um ladrão queria roubar meu relógio em Guarajuba (BA). Mas não usei. Ele deu um tiro em minha direção e até hoje não sei como aquela bala não me acertou. (risos) “Com pólvora não se brinca” – diz ele. Se tiver de usar algum dos golpes, é preciso muita cautela. Geralmente os jiujitsuokas não têm muito êxito. Conheço caras que ficaram paraplégicos. Por isso recomendo não reagir. Só que nós que treinamos, temos uma autoconfiança muito grande. Esse que é o problema. Uma coisa é eu estar no treino, tomar um golpe e perder a luta. Outra coisa é eu arriscar minha vida por causa de um objeto. Na maioria dos casos, quando não há abordagem com arma de fogo, os lutadores (vítimas) conseguem dominar o oponente. Mas a experiência me ensinou que a gente treina para não lutar.

Jackeline – Por que a figura de um pitbull no kimono?

Eduardo – È a marca do kimono. Não tem nada a ver com a associação “pitiboys – Jiu-Jítsu”. O significado da palavra Jiu-Jítsu é arte suave.

Jackeline – O que você acha da associação do esporte aos atos de vandalismo praticados pelos pitiboys?

Eduardo – Isso é um desrespeito ao esporte. Muitos deles treinam um ou dois meses e põem uma camisa do Jiu-Jítsu para intimar e fazer arruaças. Daí a mídia cai em cima. Mas esse tipo é a minoria. Há campeonatos, por exemplo, que reúnem mais de quatro mil lutadores, mas não são tão difundidos como quando um lutador briga na rua. Tem um personagem marginal na novela das oito que diz que faz jiu-jítsu e tem preconceito com idosos e pessoas de outras raças, praticando atos ilícitos. Quem tá em casa acha que o esporte é realmente isso e jamais colocará o filho para fazê-lo. Ou seja, o modo como a mídia aborda o Jiu-Jitsu é essencial para a formação de opinião dos indivíduos. Pitiboy hoje em dia é qualquer vândalo. Não tem nada a ver com o Jiu-Jitsu. Tem muita gente que não sabe que nos Emirados Árabes o Jiu-Jitsu é uma matéria obrigatória nas universidades e que eles importaram 50 professores de Jiu-Jitsu brasileiros para morar em Dubai. Isso a mídia não relata – indigna-se.

Jackeline – Dá para notar, durante as aulas, quando o aluno realmente tem admiração pelo esporte e por isso o pratica ou quando é simplesmente par aprender os golpes e usá-los discriminadamente para fazer o mal?

Eduardo – Dá sim. Mas acho que isso nunca aconteceu comigo. Até porque a galera que me procura já conhece meu trabalho.

Jackeline – A Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ) e as academias de Jiu-Jítsu, no seu caso a Alliance, infligem alguma penalidade aos jiujitsuokas infratores? Qual a posição delas perante esse assunto?

Eduardo – Como são muitos os praticantes, fica difícil reprimir. Há dois campeonatos atrás, aqui em Aracaju, um aluno foi eliminado da disputa e da academia onde treinava por desrespeitar os princípios do Jiu-Jitsu. Quando notificado esse tipo de problema, há sim punição. Acredito que ela deva partir do professor na própria academia e ser comunicada à Confederação e à Federação, para que o lutador envolvido em brigas seja eliminado e bloqueado das academias. Mas, para tanto, é preciso que sejamos notificados.

Jackeline – Como é feita a troca de faixas? Há uma periodicidade regular?

Eduardo – Antes não havia, mas a academia ao qual sou afiliado, a Alliance, propôs todo final de ano haver a troca de faixas. O aluno, para participar dela, é avaliado pelo professor com o qual treina, para ver se está apto a progredir na faixa. Ou seja, todo aquele que participa do exame já tem em mente que será congratulado com a faixa superior, a qual segue uma ordem crescente: Branca, Amarela, Laranja, Verde, Azul (permanência mínima de 24 meses), Roxa, Marrom, Preta, Coral e Vermelha (só os criadores do Jiu-Jitsu brasileiro detém o seu 10º Dan).

Graduação de Faixa em Poznan (Polônia)

Graduação de Faixa em Poznan (Polônia)

Jackeline – Poderia falar sobre o acidente?

Eduardo – Sim. Foi há seis anos, estava saindo da academia de moto e o acidente aconteceu. Bati a cabeça de frente com o poste e tive traumatismo craniano e facial. Do pescoço pra baixo eu não tive um só arranhão, mas o contrário…Tomei mais de 50 pontos na cabeça. Um diadema de pontos que vai de orelha a orelha. Tenho também abaixo dos olhos e na boca. Desloquei o maxilar, perdi seis dentes, parte da visão periférica e o senso olfativo por completo. Meu rosto ficou muito deformado.

Jackeline – Isso quer dizer que você não sente o cheiro de nada?

Eduardo – De nada. Por isso tenho de caprichar ainda mais no perfume, já que eu não tenho o senso. Minha mulher não reclama – brinca ele.

Jackeline – O que mudou em sua vida após a recuperação? Há uma explicação médica relacionada à prática do esporte que viabilizou sua recuperação?

Eduardo – Quando recuperei a memória, fiquei muito inseguro quanto a minha volta aos tatames. Afinal, dediquei toda minha vida em cima deles e desestruturar-me-ia todo se eu não pudesse mais voltar. Várias vezes me “pegava” pensando que era só isso que eu sabia e que gostava de fazer. Voltei a dar aulas cerca de seis meses depois. Mas treinar, demorei um pouco mais, visto que eu temia machucar o rosto. Hoje, após minha recuperação, eu sou um cara mais tranquilo, mais cauteloso e atento ao que me proponho a fazer. Segundo análise médica, o fortalecimento do meu pescoço e do meu abdômen, graças ao Jiu-Jitsu, contribuiu muito para evitar uma fatalidade maior.

Seminário na Finlândia

Seminário na Finlândia

Jackeline – De que modo surgiu o convite para ministrar o curso, na França, para o chefe de segurança de Yves Saint-Laurent, na Polônia e na Finlândia? Como foi a experiência?

Eduardo – Fui convidado por Alexandre Paiva – fundador da Alliance Jiu-Jitsu. Foi uma experiência tão legal quanto as outras, principalmente pelo fato de conhecer outras pessoas, lugares, costumes, enfim, uma outra cultura, além de ganhar respaldo profissional, claro. Os estrangeiros te tratam com muito respeito e honra, o que de uma certa maneira você se sente muito gratificado, muito valorizado por isso.

Jackeline – Foi árdua a experiência de lecionar tais aulas em outra língua?

Eduardo – Quando viajei, eu já tinha uma noção, mas nada parecido com essa experiência. Foi um mês na Finlândia e um mês na França. Mas nos três países o idioma era o inglês. Ministrando as aulas e praticando o dia todo o idioma, ficou muito mais fácil de assimilá-lo. Fluía muito natural.

Jackeline – Você visitou o lugar onde ocorreu o Holocausto em Lublin Qual a sensação de vivenciar o local onde milhares de crianças, adultos e idosos morreram em função de uma seita racista e imoral?

Campo de Concentração em Lublin (Polônia)

Campo de Concentração em Lublin (Polônia)

Eduardo – Por um lado é interessante você estar ali, num lugar que você só ouvia falar ou lia algo a respeito de maneira bem longínqua e, depois, poder estar vivenciando a hecatombe de 70 anos atrás. Mas por outro, é muito triste e intrigante imaginar o que os judeus passaram ali.

Jackeline – O Jiu-jitsu brasileiro é o mais difundido? O que o distingue do japonês?

Eduardo – Na verdade o Jiu-Jitsu brasileiro é o Jiu-Jitsu. Foram os japoneses quem aprimoraram as técnicas da arte com a gente. Pois foi Carlos Gracie, ao modificar as regras internacionais do jiu-jitsu japonês nas lutas que ele e os irmãos realizavam, que iniciou o primeiro caso de mudança de nacionalidade de um esporte na história esportiva mundial. Anos depois, a arte marcial japonesa passou a ser denominada de jiu-jitsu brasileiro, sendo exportada para o mundo todo, inclusive para o Japão. Hoje é o esporte individual que mais cresce no mundo.

Jackeline – O Judô brasileiro tem destaques como Rogério Sampaio, Tiago Camilo, João Derly, Luciano Corrêa, medalhistas de Ouro no Pan, nas Olimpíadas, no campeonato mundial. Quem, entretanto, representaria a alta classe do jiu-jítsu?

Eduardo – Alexandre Paiva (Campeão mundial em 1999); Ricardo de la Riva – detentor da lendária “Guarda de la Riva” que aliada a um estilo de luta clássico e ofensivo transformou-o em uma das maiores referências vivas do esporte. Um dos grupos de alunos que o Mestre treina é os Rangers, grupo de elite da Marinha Americana, que todo ano o contrata para atualizar as técnicas de combate no solo de seus melhores oficiais; Rickson Gracie (Faixa Preta 7º Dan); Royler Gracie (Faixa preta 6º Dan – Tetracampeão mundial) e Rolker Gracie (Faixa vermelha e preta 7º Dan – Tri Campeão da Copa Linjji).

Jackeline – O jiu-jitsu é uma arte marcial como o judô, o boxe, o karatê que têm espaço nas Olimpíadas, no Pan. Por que o mesmo não ocorre com o Jiu-Jítsu?

Eduardo – Não tenho muita certeza, mas parece que para ser um esporte olímpico tem de ter um número mínimo de praticantes e de abrangência de países. O Jiu-Jitsu tem, só que apenas no Brasil.

Jackeline – Como se posiciona a CBJJ sobre esse imbróglio?

Eduardo – Ela realmente não faz muita pressão nesse quesito. Ela tem respaldo, já conseguiu conquistas bastante significativas, e pronto. Acho que pra ela, até agora, é o suficiente.

Jackeline – Qual a discrepância entre Judô, Jiu-Jítsu e Submission?

Eduardo – No Judô a luta é em pé e os judocas não raspam, não passam guarda e não “baianam”. Já no Jiu-Jitsu os jiujitsuokas não costumam executar projeções de quadril e há um maior aprimoramento das lutas no chão e de golpes de finalização e o Submission é o Jiu-jitsu sem kimono.

Jackeline – Para ser docente é necessário obter a faixa preta, certo? É regulamentada a mudança de faixa em todas as academias?

Eduardo – Correto. O docente tem de ser graduado por uma academia e possuir no mínimo a faixa preta. Cada academia tem sua regulamentação desde que não destoa da regulamentação da CBJJ.

Jackeline – Tem outros planos para sua carreira?

Eduardo – Não. Pretendo continuar sendo professor e robustecer ainda mais o meu currículo.

Jackeline – Um ídolo…

Eduardo – Rickson Gracie. O mais vitorioso membro da renomada família Gracie no Jiu-Jitsu, considerado por muitos uma lenda da “arte-suave”. Possuía uma impressionante técnica de derrubar o oponente, anulando-os facilmente sempre por nocaute ou finalização.

Jackeline – Ainda retorna para o Rio de janeiro?

Eduardo – Não. Só a passeio.

Uma resposta

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  1. Nathalia said, on 19/12/2009 at 1:41 am

    Paai *-*


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