Técnica de Produção, Reportagem e Redação Jornalística

Cristiano Lucarelli, ‘calciatore guerrigliero’

Posted in Perfil by micheletavares on 10/06/2009

Ousadia e ideologia podem prejudicar uma carreira futebolística. Assim foi com Cristiano Lucarelli, o “futebolista guerrilheiro”, assumidamente comunista atacante italiano que quebrou tabus e preconceitos dentro da profissão “dos burros”.                                                                                                                      
                                                                                                                                                                                                     por Irlan Simões

Lucarelli, o punho esquerdo cerrado e a tatuagem com o escudo do Livorno

Lucarelli, o punho esquerdo cerrado e a tatuagem com o escudo do Livorno

     Diferentemente do que acontece no Brasil, o futebol pelo mundo sempre possuiu nas arquibancadas uma certa representação política, fruto da expressão das ideologias presentes nas respectivas sociedades por onde ele é amado. Na Itália de Cristiano Lucarelli, as Ultras (espécies de torcidas organizadas européias) não nos deixam mentir. Polarizações e conflitos ideológicos entre torcidas são mais do que comuns na terra do Calcio.

     A “Bota” tem um fator contribuinte para isso: a tradição fascista de alguns setores reacionários, nascido ainda na era Mussolini, reflete na sociedade italiana e conseqüentemente nos estádios. Vários clubes italianos possuem Ultras que assumem o seu posicionamento político, utilizando imagens, símbolos e fotos. Entre esses clubes, se destaca a Lazio. O clube da cidade de Roma é amado e apoiado pelos Irriducibili, grupo de Ultras assumidamente de extrema direita.

     Em contrapartida, os estádios também se pintam da cor vermelha. Entre os mais conhecidos clubes libertários está o Livorno, clube que valoriza a sua origem na classe operária e a ideologia de sua torcida de tendências comunista. Lazio e Livorno são por conta disso grandes rivais, mesmo que geograficamente não sejam tão próximos.

     Nesse ponto que surge Cristiano Lucarelli. Jogador que mesmo tendo iniciado sua carreira no Perugia, sempre se assumiu ser torcedor apaixonado do Livorno. Mesmo só sendo contratado pelo clube em 2003, após 10 anos de carreira, Lucarelli já possuía uma ligação com o clube: em 1999, foi um dos fundadores da Brigada Autônoma Livornense (BAL Livorno), Ultras que se auto-declara socialista.

    A BAL Livorno leva aos estádios todo forma possível de contestação política, ideológica e anti-opressora. Bandeiras GLS, comunistas, anti-racistas e anti-fascistas. Além disso, em jogos contra a Lazio, pulam e cantam “quem não pula é fascista”. Era comum, quando ainda jogava no clube do seu coração, Lucarelli, após as partidas, principalmente após vitórias, seguir para próximo da BAL e cantar e pular com os torcedores. Em resposta, a Irriducibili costuma cantar em jogos contra o Livorno a musica “se pular, Lucarelli vai morrer”.

    O jogador nunca deixou muito claro se o seu amor pelo clube veio antes ou depois da sua opção política, ou qual influenciou qual, mas sempre foi polemico o suficiente para chamar a atenção de todo o mundo e ser perseguido por suas atitudes.

    Na sua primeira e partida pela seleção italiana, ainda pela categoria sub-21, em 1997, Lucarelli marcou um gol e ao comemorar tirou a camisa da Itália e exibiu uma camiseta branca com uma imagem de Che Guevara. O futebol a partir da década de 90, principalmente, passou a ser mais do que um esporte apaixonante e que movia com a massa. O futebol passou a ser um produto que brilhava aos olhos dos grandes grupos econômicos do mundo. Contestar um sistema que começava a se apropriar do futebol, dentro do campo, era muita ousadia para um jogador só. Dessa forma Lucarelli foi colocado no “ostracismo” da bola. Mesmo tendo um talento inquestionável, o atacante só voltou a ser convocado à seleção italiana quase 10 anos depois. Um risco que correu por uma ideologia, perseguido por quem a achava indesejada.

    Cristiano Lucarelli não só foi responsável por reforçar a rivalidade entre os dois clubes, mas também por colocar entre Livorno e Lazio um caso em comum: um ídolo dentro das quatro linhas que representava a mentalidade da suas torcidas. Paolo DiCanio, um ex-ultra, tatuado com símbolos fascista é o equivalente de Lucarelli, na Lazio. Dessa forma a BAL Livorno também lançou uma musica em provocação: “De cabeça para baixo. Paolo DiCanio, de cabeça para baixo”, relembrando o que aconteceu ao ditador fascista Benito Mussolini quando foi executado.

   Jogos entre os dois clubes são como guerras entre grupos ideológicos que ainda resistem ao pensamento hegemônico neoliberal que domina a Itália, a Europa e todo o mundo. Tanto por isso, uma coisa em comum entre ambos é o “Ódio eterno ao Futebol Moderno”, pensamento no qual questionam o que se tornou o futebol, acreditando que a paixão foi vendida e que hoje se tornou um produto comercial.

   Lucarelli tem contrato com o Shakhtar Donetsk da Ucrânia desde 2007, quando saiu do Livorno. Ainda hoje é muito respeitado em todo o mundo e mantém uma das suas marcas registradas: estender o punho esquerdo cerrado ao comemorar seus tentos.

Uma resposta

Subscribe to comments with RSS.

  1. micheletavares said, on 10/06/2009 at 3:19 pm

    Excelente!
    Somos todos proletarios!
    liberdade e socialismo.

    Geilson


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: