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Renato Russo e Legião Urbana: os filhos de uma revolução

Posted in Perfil, Uncategorized by micheletavares on 10/06/2009
Por Rafael Freire e Victor Bruno

Renato Russo
Renato Russo

Filho de Seu Renato e Dona Maria do Carmo. Irmão de Carmem Teresa. Pai de Giuliano. Exímio professor de inglês e jornalista formado. Esta poderia ser a apresentação de uma pessoa comum. Poderia. Só que a pessoa em questão foi, ao lado de Cazuza, um dos gênios da geração BRock – o criador da lendária Legião Urbana, Renato Manfredini Júnior, ou simplesmente, Renato Russo.
Nascido no Rio de Janeiro às 4h do dia 27 de março de 1960, Júnior teve uma “infância de criança” na tranqüila casa avarandada na rua Maraú do bairro Bananal, na Ilha do Governador. Contudo, desde cedo apresentara apreço pelo vasto mundo da música, influenciado por toda a sua família, que o fizera já aos cinco anos de idade ter aulas de piano.
Quando Júnior completara sete anos de idade os Manfredini – família originária do Sesto Cremonese, perto de Milão, região norte da Itália – mudaram-se para Nova York, fato muito importante para Carminha (como era carinhosamente chamada pela família) e para seu irmão, que anos mais tarde, já de volta ao Brasil e como jovem professor de inglês com pronúncia impecável no alto dos seus dezoito anos, ficara responsável por saudar o Príncipe Charles (que estava em visita de nove dias ao país) em virtude da inauguração da nova sede da Cultura Inglesa.
Em 1969, aos nove anos retorna com a sua família para o Brasil e reside no RJ até o ano de 1973, quando se muda para Brasília, mais precisamente para a Super Quadra Sul 303.
No auge da adolescência, aos quinze anos, Renato passou por um período muito difícil quando foi diagnosticado como portador de epifisiólise, doença que corroeu a cartilagem que ligava o seu fêmur esquerdo à bacia, deixando a sua perna pendurada apenas pela carne e pela pele. Como se o sofrimento não fosse o bastante, Renato ainda teve que conviver com um gravíssimo erro médico ocorrido na sua operação: a colocação de três pinos de platina em lugares errados, sendo que um deles foi “cravado” no nervo ciático.
Durante essa fase que durou um ano e meio, Renato passou seis meses na cama, outros seis em cadeira de rodas e por fim, mais seis andando com ajuda de muletas.
Foi a partir disso que o futuro ícone começou a ler compulsivamente e conhecer a música mais a fundo, criando assim a sua primeira banda, a imaginária 42th Street Band, usando o pseudônimo Eric Russel (em clara referência aos ídolos – os filósofos Bertrand Russel e Jean-Jacques Rousseau, e o pintor Henri Rousseau).
Passado os tempos difíceis, Renato conhece os Sex Pistols e todo o movimento punk e passa a se reunir com os amigos na Colina, nome dado a quatro prédios construídos para abrigar professores e funcionários da UnB, na Asa Norte. Essa turma que ficou conhecida como “Turma da Colina” era composta por Dinho Ouro-Preto, Flávio e Fê Lemos, Herbert Vianna, Bi Ribeiro, Phillipe Seabra, Marcelo Bonfá e muitos outros, e seria a base de todas as bandas que “criariam” o rock na capital federal.
Em 1977, Renato se reúne com André Pretorius, Flávio e Fê Lemos e cria o Aborto Elétrico, considerada a primeira banda punk do Brasil. Com um repertório incrível, que quatro anos mais tarde, com o fim da banda, seria dividido entre a Legião Urbana de Renato Russo e o Capital Inicial dos irmãos Lemos, ele conquistava ainda mais o respeito e o posto de “guru da tchurma”, como por exemplo, ao gritar toda a raiva com canções como “Veraneio vascaína” (“…com número do lado, dentro dois ou três tarados, assassinos armados, uniformizados/Veraneio vascaína, vem dobrando a esquina!”) e “Geração Coca-Cola” (“… quando criança nós comemos lixo comercial e industrial, mas agora chegou nossa vez, vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês!/Somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, nós somos o futuro da nação: Geração Coca-Cola!”).
No início da década de 80, Renato Russo se transforma no Trovador Solitário, mas em pouquíssimo tempo decide voltar a tocar em conjunto – assim nasce a Legião Urbana.
Com a ajuda d’Os Paralamas do Sucesso, que já era um fenômeno e gravara a música “Química”, a Legião fechou contrato com a EMI-ODEON em virtude de uma fita demo que Herbert, Bi e Barone entregaram aos executivos da gravadora.
Em 1985, a Legião – com uma formação composta por Renato Russo, que pouco tempo atrás cortara os pulsos e estava impedido de tocar o seu contrabaixo (voz), Dado Villa-Lobos (guitarra), Marcelo Bonfá (bateria) e o substituto Renato Rocha (baixo) – lança o seu primeiro álbum, o politizado e homônimo “Legião Urbana”, que traria sucessos como “Será”, “Ainda é cedo”, ”Geração Coca-Cola”, “Soldados” e “Por enquanto”.
Um ano depois, a banda estoura de vez com o amoroso “Dois”, que se tornou um clássico por causa de canções como “Quase sem querer”, “Eduardo e Mônica”, “Tempo perdido” e “Índios”.
No ano de 1987 é lançado o irado “Que país é este 1978/1987”, que ficou marcado como o último disco com Renato Rocha, e que contava com a canção-título como uma espécie de hino alternativo do país, além da belíssima “Eu sei” e da música-história (bem como “Eduardo e Mônica”) “Faroeste caboclo”, que conseguira a proeza de se tornar comercial, mesmo com seus 9min03s.
No embalo do fenômeno que se tornara a “Religião Urbana” e o seu messias, Renato Russo, a banda retornou à Brasília no ano de 1988 para um show no dia 18 de junho, depois de um longo tempo sem se apresentar na capital federal. Resultado: 50 mil pessoas amontoadas num estádio Mané Garrincha sem conforto e segurança; uma morte; 385 atendimentos médicos; 60 pessoas detidas pela PM; 64 ônibus depredados; 10 milhões de cruzados de prejuízo; além da acusação da população e do então governador José Aparecido de que Renato e banda foram os responsáveis por “incitar” a platéia. A Legião nunca mais voltaria às suas origens.
Um pouco mais descansados, Renato e companhia (agora um trio, com a saída de Renato Rocha) lançam em 1989 o religioso “As quatro estações”, que se tornaria o álbum mais vendido da banda (1,7 milhão de cópias) e faria com que nove das onze canções do álbum tocassem sem parar nas rádios de todo o país. Os destaques maiores foram “Há tempos”, “Pais e filhos” e a autobiográfica “Meninos e meninas” (“… e eu gosto de meninos e meninas!”), que recebeu o seguinte comentário do amigo e jornalista Arthur Dapieve: “Se antes, em Soldados ou em Daniel na cova dos leões, havia referências veladas ao homossexualismo, aqui tudo era tratado às claras, sem culpas ou medos”.
Pouco tempo depois do lançamento do quarto disco, Renato conheceu em San Francisco (EUA) o seu futuro namorado: Robert Scott Hickmon, com quem viveria por dois anos e seria o grande amor de sua vida.
O descobrimento do BrasilNo fim de 1990, Russo, já livre de uma vez por todas das drogas, se internaria para tratar do seu problema maior: o alcoolismo. Durante uma série de exames na clínica, descobre que assim como o seu amigo Cazuza, ele também tinha sido tocado pela maldita (a AIDS) – palavras do próprio Cazuza. Mas diferente do amigo, Renato nunca falaria sobre isso publicamente.
Em novembro de 1991 é lançado o sombrio “V”, que para a crítica não atingiu o mesmo nível dos outros álbuns, e era muito diferente de tudo que a banda estava acostumada a apresentar. Porém, para os fãs mais ardorosos, o quinto disco seria a obra-prima da Legião Urbana, com canções como a pesada e longa “Metal contra as nuvens”, a crítica “Teatro dos vampiros” e a melancólica “Vento no litoral”.
Depois de um bom tempo ausente dos palcos, a Legião sai em turnê em agosto de 1992 com shows que seriam tidos como os épicos da banda, com as melhores músicas, as melhores letras, a concepção cênica das apresentações que as transformava em experiências quase místicas. Mas também com o álcool em excesso consumido por Renato, que faria com que em virtude do desgaste que eram os shows da banda – que havia muito tempo se tornaram uma coisa parecida com a histeria que os Beatles causavam, já que os shows em sua grande parte eram em estádios e ginásios – culminasse no interrompido fim de turnê no mês de setembro, na cidade de Natal, deixando cidades e mais cidades a ver navios.
No fim do mesmo ano sai a compilação dupla “Música para acampamentos”, que acabou servindo para aliviar um pouco a pressão pelo acontecido no Rio Grande do Norte, e também para recuperar o alto investimento da turnê.
Com o fim da turnê, Renato resolve se tratar, e para adiar o aparecimento de sintomas da AIDS passa a tomar o coquetel AZT, que era descrito pelo cantor “como se eu comesse um cachorro vivo, e ele me comesse por dentro”.
Em 1993, saí o reflexivo “O descobrimento do Brasil”, com as belíssimas/tristes “Vinte e nove”, “Giz” e “Love in the afternoon”, além da apocalíptica, porém otimista ao final “Perfeição”.
Um ano depois lança a sua carreira-solo com o bonito e triste “The Stonewall Celebration Concert”, cantado todo em inglês e destinado a marcar o 25º aniversário do levante gay contra a polícia no bar do mesmo nome, em Nova York.
No ano seguinte, o álbum em italiano “Equilibrio distante” é lançado e se torna um fenômeno de vendas ao chegar na casa de um milhão de cópias vendidas, além de ter sido fundamental para a carreira da cantora italiana Laura Pausini, que meses depois estouraria por aqui com a bela “La solitudine”.
Já muito doente, Renato gravaria com Dado e Bonfá o que seria o último cd em ação do grupo, “A Tempestade ou O Livro dos Dias”. Pelo fato de estar muito debilitado, Renato gravou apenas a voz-guia das músicas, com exceção de “A Via Láctea”, que teve voz definitiva. O deprimido disco era uma notória e escancarada despedida, com versos como “E quando eu for embora/Não, não chore por mim”.
No dia 11 de outubro de 1996 às 1h15min, vinte e um dias após o lançamento do álbum, o poeta se calou, pesando apenas 45 quilos, em consequência de complicações causadas pela AIDS. Seu corpo foi cremado e suas cinzas lançadas sobre o jardim do sítio de Roberto Burle Marx.
Reza a lenda que nesse dia, Lillian Witte Fibe, então apresentadora do Jornal Nacional ao lado de William Bonner, não estava convencida da necessidade de ceder metade do tempo do jornal à Renato Russo, e questionou o por que de sua importância. Eis que Bonner teria recitado toda a letra de “Faroeste caboclo”, demonstrando a ela a tal importância do poeta para o Brasil.
Depois da morte do poeta, a EMI-ODEON lançou ainda, em 1997, o póstumo “Uma outra estação”, com sobras de estúdio do disco de 96; “O último solo”, também de 1997, com sobras dos 2 discos da carreira-solo de Renato; o especial para televisão gravado em 1992, e transformado em cd em 1999 “Acústico MTV”; o ao vivo, gravado em 1994 durante a turnê de “O descobrimento do Brasil”, e lançado em 2001, “Como é que se diz eu te amo”; do acervo pessoal encontrou-se pérolas, reunidas no cd “Presente”, lançado em 2003; “As quatro estações – Ao vivo”, gravado em 1990 e lançado em 2004; além de uma série de coletâneas lançadas até hoje.

2 Respostas

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  1. KARLA THAUANA said, on 18/07/2009 at 10:21 pm

    EU AMO RENATO RUSSO, DE CORAÇÃO!!!!!! SIMPLISMENTE RENATO RUSSO

  2. Igor Cordeiro said, on 10/11/2010 at 3:11 am

    Eu amo Renato Russo, simplesmente! =)

    “E você estava esperando voar
    Mas como chegar até as nuvens com os pés no chão…”


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