Técnica de Produção, Reportagem e Redação Jornalística

Dos marcianos ao deus da imprensa. Do glamour ao esquecimento.

Posted in Cultura by micheletavares on 12/06/2009

 

 

 

Orson Welles (1937)

Orson Welles (1937)

Orson Welles na rádio CBS (1938)
Orson Welles na rádio CBS (1938)

 

 

 

A maioria dos artistas de Hollywood começam suas carreiras jovens, e são reconhecidos ao longo de sua trajetória, mas curiosamente o cineasta Orson Welles acabou por seguir um caminho oposto.

 

 

 

 por Matheus Albuquerque Fortes e Jade Libório Frederico

No dia 30 de Outubro de 1938, a população mundial viu o poder devastador que um meio de comunicação poderia ter. Através de um programa de rádio, um locutor anunciava uma invasão alienígena nos Estados Unidos. O que era para ser apenas uma brincadeira, virou um fenômeno. Com o passar dos minutos de narração do fato, o pânico tomou conta de boa parte da região leste do país, sendo noticiado na TV e outros jornais ao redor do mundo. A “pegadinha” foi tão bem feita que no dia seguinte, todos queriam saber a identidade do seu autor. Foi o começo promissor da carreira do jovem locutor Orson Welles, que narrou passagens do livro A Guerra dos Mundos, de uma forma bem realista como um boletim de notícias. Foi também o ponta-pé inicial para a fama de Welles que, anos mais tarde iria realizar uma das mais cultuadas obra-primas do cinema mundial, Cidadão Kane, para em seguida, ver sua carreira acabar em pequenos papéis no cinema e na televisão, bem longe do sucesso que o fez emergir.  

 

Início precoce

George Orson Welles nasceu no dia 6 de Maio de 1915, na pequena cidade de Kenosha, interior do estado de Wisconsin. Logo na adolescência, demonstrava pouco interesse pelos estudos e começou a mostrar curiosidade pela música e interpretação teatral, conseguindo em 1935 ingressar numa bem-conceituada escola de belas artes, o Mercury Theatre, em Nova York. Na mesma época Welles se casa com a atriz Virginia Nicholson. No seu segundo ano no Mercury Theatre, Orson começou a mostrar interesses pela área de rádio. Já tendo um currículo de boas interpretações, não demorou para que em 1938, a CBS lhe desse (e à Mercury Theatre) um espaço de horário na rádio na qual o grupo de teatro pudesse adaptar clássicos da literatura em rádio-novelas, tendo início o Mercury Theatre in the Air.

Porém, para um especial de Halloween, Orson Welles preparou uma versão do clássico de ficção científica A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, de forma que o ouvinte pudesse se sentir dentro da trama, em um formato jornalístico. Naquela tarde, o programa mal começou e foi interrompido pela música comum dos noticiários da época, em seguida começa a narrar a invasão de marcianos no planeta Terra como um repórter passa a informação aos seus ouvintes. Efeitos de som de pessoas gritando, desespero, armas sendo disparadas passavam durante o programa de forma absurdamente realista.

O que era para ser uma brincadeira feita na base do improviso de todos os atores-locutores, se transformou em confusão a partir do momento que a maioria dos ouvintes tomaram aquilo que estava sendo narrado como um acontecimento real. O pânico foi inevitável, paralisando localidades em Nova Jersey, Newark e Nova York. Houve sobrecargas de linhas telefônicas interrompendo totalmente a comunicação, aglomerações nas ruas, congestionamento de trânsito, fuga em massa, e reações desesperadas dos moradores dessas localidades. Ao mesmo tempo, os noticiários de todo o país começaram a registrar o fato, e o mesmo foi conhecido pelo resto do mundo. O final da tarde se aproximava, e Orson Welles já ao final do programa, sob a voz de um marciano, declarou:

“… Fizemos o que deveria ser feito. Aniquilamos o mundo diante de seus ouvidos e destruímos a CBS. Mas vocês ficarão aliviados ao saber que tudo não passou de um entretenimento de fim-de-semana. Tanto o mundo como a CBS continuam funcionando bem. Adeus e lembrem-se, pelo menos até amanhã, da terrível lição que aprenderam hoje à noite: aquele ser inquieto, sorridente e luminoso que invadiu sua sala de estar, é um representante do mundo das abóboras e, se a campainha de sua porta tocar e ninguém estiver lá, não era um marciano… é Halloween!”

A população mundial sofreu um golpe. Através de uma brincadeira, Orson Welles provou (embora até hoje, duvida-se de que esta seria sua intenção), a superioridade dos meios de comunicação, sendo mencionado até mesmo por fortes personalidades, como Adolf Hitler. Welles passou de um ator e locutor desconhecido, à fama mundial atraindo olhares por todas as partes de investidores e empresários que controlavam os veículos midiáticos. Sua recente fama o levou ao glamour dos grandes estúdios de cinema.

 

Cidadão Kane e projetos posteriores

Ao chegar em Hollywood, Orson Welles foi recebido com honrarias pelo presidente da RKO Pictures, George Schaefer, com um contrato para dois filmes para o estúdio e total controle da produção. Welles brincou com várias idéias, mas todos seus projetos eram recusados, ora pelo orçamento muito pesado, ora pela escolha do elenco (já que havia prioridades em escalar ou descartar tal ator, devido a concorrência entre os estúdios).

Foi então que Welles teve a ideia de chamar para ajuda-lo um velho colega de trabalho com quem escrevia as peças de teatro que iam ao ar na rádio CBS, o roteirista Herman J. Mankiewicz. Baseado num argumento de Mankiewicz, eles escreveram a história fictícia de um grande magnata da mídia. A inspiração partia do um poderoso líder midiático da época, William Randolph Hearst, com quem Herman teve alguns desentendimentos.

A história de fictício Charles Foster Kane logo atraiu o interesse de outros atores do teatro americano e técnicos do cinema. Com um orçamento apertado, e sucessivas tentativas de boicotes ao filme, pelos agentes de Hearst, o Cidadão Kane finalmente saiu do papel para a tela. Inovador em todos os sentidos, o filme foi ovacionado por grande parte da crítica especializada. Desde a parte técnica às interpretações, Orson Welles trouxe novas concepções de fotografia, movimentos de câmera, a não-linearidade da narrativa, entre outros fatores. Era um filme que se encontrava bem a frente do seu tempo. Infelizmente, talvez pelo conservadorismo do público, a obra não conseguiu ser um sucesso, mesmo que tenha sido indicado a vários prêmios, entre eles a nove Oscars, ganhando a de Roteiro Original.

Após Cidadão Kane, Orson divorciou-se de Virginia Nicholson e casou-se com a atriz Rita Hayworth em 1943, tida como uma das maiores sex symbols da sua época. Entre esse espaço de tempo, ele perdeu boa parte da confiança da RKO já que gastava muito dinheiro em projetos que não vinham a ser produzidos e com o decorrente fracasso de bilheteria de Cidadão Kane suas dificuldades para trabalhar em Hollywood só aumentaram. Esse foi um estigma que o acompanhou em boa parte da sua carreira. Em 1942, Welles veio ao Brasil para filmar seguimentos de um documentário intitulado It’s All True. No Rio de Janeiro, Orson Welles se viu maravilhado pela beleza do carnaval carioca e pela cultura brasileira, sendo atraído inclusive pela história de quatro pescadores que vieram numa jangada de Fortaleza até o Rio em busca de melhorias de vida. Movido pela sua paixão, Orson Welles não teve cuidado o suficiente com o investimento da produção e devido a discussões com os produtores, o projeto ficou inacabado.

De volta a Hollywood, Welles continuou sua trajetória sempre enfrentando dificuldades e brigando com os executivos hollywoodianos. Filmes como The Stranger, The Lady From Shanghai e Macbeth terminaram por encerrar nos anos 40, a carreira cinematográfica de Welles, que ainda tentava se manter através dos programas de rádio e peças teatrais. Em 1948, após o fracasso de The Lady From Shanghai e Macbeth, Orson terminou seu noivado com Rita Hayworth e em seguida foi para a Europa, sob a pretexto de que procurava um lugar para trabalhar com mais liberdade.

 

Declínio eminente

Em seus oito anos no continente europeu, Orson Welles trabalhou como ator, em filmes como os italianos Cogliostro e Prince of Fox, o inglês The Third Men (todos os três de 1949). Dirigiu Othelo (1952), filme que ganharia a Palma de Ouro no Festival de Cannes e Mr. Akadin (1955). Ao mesmo tempo, ele também encontrou espaço na rádio BBC com um programa da sua autoria. Em 1956, retorna a Hollywood onde faz pequenas participações em filmes que se tornaram pouco memorativos até 1959, quando decidiu voltar para a Europa. Assim que chegou deu início a produção de Don Quixote, adaptação da obra literária de Miguel de Cervantes, mas o projeto só conseguiu ser finalizado em 1972, e mesmo assim não foi aos cinemas, chegando direto para a televisão na Espanha em uma montagem não-acabada em 1992. Nos anos 60, Orson Welles continuava sua carreira filmando sempre em condições precárias e com pouco dinheiro. Dirigiu The Trial (1962), Chimes at Midnight (1965) e The Immortal Story (1968), este último feito para a televisão. Também trabalhou como ator em diversos filmes, quase sempre em papéis menores.

Em 1970, ele retorna definitivamente aos Estados Unidos onde passa os últimos quinze anos de sua vida, trabalhando como ator em filmes e séries de TV. Apesar de ter um extenso currículo cinematográfico como ator, Orson Welles jamais conseguiu fazer um papel que ficasse na mente dos seus espectadores já que foram constantes os papéis coadjuvantes, em filmes que por si só, já não tinham um grande público. Assim ele viu sua carreira se auto-conduzir para o esquecimento.

Em 10 de Outubro de 1985, George Orson Welles faleceu aos 70 anos em sua casa em Los Angeles, depois de sofrer um ataque cardíaco. Horas antes, o mesmo havia dado uma entrevista no popular talk-show da época The Merv Griffin Show, no qual ele contou boa parte de sua trajetória no cinema, rádio e teatro. No mesmo dia, também faleceu o ator Yul Brynner dos clássicos O Rei e Eu e Sete Homens e Um Destino, sendo esse considerado um dos dias mais tristes de Hollywood.

 

O legado

Apesar de não ter uma carreira extensa de projetos vitoriosos, Orson Welles deixou para a História, grandes obras de sua autoria mesmo que sejam poucas para seus cinquenta anos de trabalho. Cidadão Kane é provavelmente, sua obra mais estudada, e tida pelos grandes veículos midiáticos como um dos melhores filmes já feitos em toda a História do Cinema. Sua passagem pela rádio CBS e o marcante episódio da Guerra dos Mundos, é constantemente estudada nas universidades e faz parte do conteúdo acadêmico. Foi ele um gênio precoce que, por não saber conciliar sua paixão com o business, envelheceu e morreu esquecido, mas atualmente aclamado pelo seu passado, que permanece imortal.

 

Links interessantes

 

Filmografia de Orson Welles:

http://www.imdb.com/name/nm0000080/

 

Análise do episódio da Guerra dos Mundos, feita por uma professora da USP:

http://www.igutenberg.org/guerra124.html

 

Partes da última entrevista concedida por Orson Welles no The Merv Griffin Show:

http://www.youtube.com/watch?v=5hGgUQ9zbIk

 

 

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