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Doe órgãos, doe vida!

Posted in Uncategorized by micheletavares on 18/06/2009

Benito Fernandez - coordenador da Central de Transplantes de Sergipe. Foto: Mayana Macedo

Benito Fernandez - coordenador da Central de Transplantes de Sergipe. Foto: Mayana Macedo

A doação de órgãos é um bem necessário. No Brasil, cerca de 60.000 pessoas encontram-se na fila de espera por transplantes. Os casos mais urgentes são amparados por lei quanto ao posicionamento na mesma. A demora no aparecimento de um doador compatível é a principal inimiga dos pacientes que lutam por sobrevivência. O transplante é o último recurso diagnosticado nos casos de pacientes em que os órgãos já não respondem mais aos tratamentos, comprometendo as funções dos mesmos, ou nos casos de pacientes que dependem do uso de aparelhos para realizarem as funções dos órgãos, como por exemplo, aqueles que fazem hemodiálise. As Centrais de Transplantes são responsáveis pelos cadastros de doadores e de pacientes receptores de órgãos. Em Sergipe, a Central de Transplantes é um órgão anexo ao Hospital Governador João Alves Filho. O número de doadores tem aumentado gradativamente, graças aos tabus que estão sendo quebrados pelos conteúdos televisivos, como as novelas e os telejornais, além de propagandas que esclarecem sobre a real importância que a doação de órgãos representa. O entrevistado do em pauta é o coordenador da Central de Transplantes de Sergipe, Benito Fernandez.

Por Igor David Sá e Mayana Macedo

Em pauta – O que deve fazer quem deseja ser doador?

Benito – No caso de doação de órgãos de pessoas não vivas, é importante comunicar a família. Pois de acordo com a Lei 10.211/01, cônjuge ou parentes até segundo grau (pais, filhos, netos, avós e irmãos), obedecida a linha sucessória, são aqueles que podem autorizar a retirada de órgãos e tecidos.

Em pauta – Muitos familiares resistem à doação por receio de que o corpo seja entregue à família desfigurado. Isso realmente acontece?

Benito – A Lei 9434/97, proíbe que o corpo fique deformado por conta da doação de órgãos e tecidos, estabelecendo penalidades caso ocorra deformação. Logo, o corpo não fica deformado por conta da doação.

Em pauta – Quem não pode ser doador?

Benito – Qualquer pessoa pode ser doador, desde que a família autorize e não tenha causa de morte indeterminada, sepse (infecção generalizada) ou doenças infecto-contagiosas. Temos dois tipos de doadores, o vivo e o não-vivo. O doador vivo pode doar: sangue, parte da medula óssea, um dos rins, parte do fígado e parte do pulmão. É subdividido em doador vivo relacionado, cujo grau de parentesco é até quarto grau (primo), não sendo necessária autorização judicial, e em doador vivo não relacionado, que é aquele cujo parentesco é mais que quarto grau ou que não tem parentesco algum, necessitando este de autorização judicial, além da histocompatibilidade. O legislador fez isso porque o tráfico de órgãos é crime no Brasil. Já o doador não-vivo, também é subdividido em doador não-vivo com coração parado, aquele que só doa tecido (córnea, válvulas cardíacas, tendões, vasos etc.), e em doador não-vivo com coração batendo, que é aquele em morte encefálica, sendo este último o potencial doador de órgãos (fígado, coração, pulmão, rim, pâncreas, intestinos etc.)

Em pauta – Quais órgãos podem ser doados em vida? Como funcionam essas doações?

Benito – Como disse, o doador vivo pode doar um dos rins, parte do fígado e parte do pulmão. Essas doações geralmente são os familiares que fazem. E parte da medula óssea, que só o doador vivo pode fazer. A medula não fica na coluna, e sim dentro dos ossos. É a fábrica das células sangüíneas, as quais se regeneram com 90 dias. Essas doações podem ser feitas diretamente junto às equipes transplantadoras, sendo rim na Clinese e na Nefroclínica e medula junto ao HEMOSE, onde a pessoa deve ser cadastrada no REDOME (Registro Brasileiro de Doadores de Medula Óssea).

Em pauta – Como é realizado o procedimento de coleta?

Benito – No caso do rim, após todos os exames realiza-se a nefrectomia (retirada de um dos rins). No caso de medula óssea por dois métodos: ou através de punção nos ossos da bacia, num centro cirúrgico, sob anestesia; ou a coleta por aferise, onde a pessoa toma uma medicação durante cinco dias para estimular a produção de células progenitoras, as quais migram para corrente sanguínea, sendo possível a coleta pela máquina de aferise.


Em pauta – Há quem não se declare doador com medo de que os órgãos sejam retirados ainda em vida ou que haja comércio de órgãos. Há essa possibilidade?

Benito – Há sim pessoas que pensam dessa forma, mas essa possibilidade não existe. O Brasil adotou critérios rigorosos para determinar a morte encefálica. A resolução 1.480/97 do CFM estabelece que são necessários dois exames clínicos, sendo um deles realizado por um neurologista, com intervalo de 6 horas entre um exame e outro (para pessoas com mais de 2 anos). Depois é preciso realizar o exame complementar (gráfico) que pode ser um eletrencefalograma, uma angiografia cerebral de 4 vasos, um doppler transcraniano, dentre outros, onde o médico visualiza a ausência de atividade elétrica, ou metabólica, ou ainda de sangue circulante. Só a partir daí o paciente é declarado morto. Vale ressaltar que esse diagnóstico não é apenas para doação de órgãos, mas para determinar se a pessoa está viva ou morta. O comércio de órgãos no Brasil é proibido. Somos fiscalizados pelo Ministério Público, pela Polícia Federal e pelo Tribunal de Contas da União.

Em pauta – Qual é a reação dos pacientes depois que recebem um transplante?

Benito – Um renascimento, uma nova oportunidade de vida, é muita felicidade.

Em pauta – Há possibilidade de o transplante de algum órgão não dar certo?

Benito – Há sim, pois depende de vários outros fatores. Mas hoje com a tecnologia disponível a possibilidade é muito remota, mas existente.  Pode ocorrer rejeição do órgão transplantado, podem acontecer infecções, problema no coração ou rim etc. Também há a possibilidade de a doença voltar. Por exemplo, uma leucemia. Mas nos casos dos transplantes realizados aqui, sempre vale a pena. Quando alguém recebe um transplante, é porque a chance de a doença vir a complicar é maior do que o transplante não dar certo. É claro que não se deve alimentar a fantasia de que todo transplante sempre vai dar 100% certo. Mas o transplante de órgãos é um grande avanço da medicina que vem salvando milhares de vidas.

Em pauta – Em Sergipe, como as pessoas podem se cadastrar para ser doador voluntário?

Benito – De medula óssea no HEMOSE, e de outros órgãos depois de todos os exames de histocompatibilidade, da declaração do doador, e no caso de doador vivo não relacionado é preciso da autorização judicial.

Em pauta – Qual o impacto causado pelas campanhas publicitárias ou até mesmo pela a abordagem da mídia em relação à doação de órgãos? Esse impacto é perceptível?

Benito – As campanhas são importantíssimas, sempre que a mídia veicula o tema, as doações aumentam. É bastante perceptível.

Em pauta – A Central de transplantes atua a quanto tempo no estado? Quantos transplantes já foram realizados?

Benito – Em Sergipe a Central de transplantes existe desde maio de 2000. Já foram realizados 596 transplantes, sendo 500 de córnea (mais fácil de captar, porque pode ser retirada até 6 horas depois da parada cardio-respiratória), 2 de coração, 81 de rim e 13 de osso. No entanto ainda temos 683 pessoas aguardando por uma doação em nosso Estado.

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