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Quem foi Julinho de Adelaide?

Posted in Perfil by micheletavares on 21/06/2009
Por: Henrique Maynart

Capa do Jornal Ultima Hora. setembro,1974

Capa do Jornal Ultima Hora. setembro,1974

Morador do morro da Rocinha, o filho de dona Adelaide sempre teve problemas com a polícia. Boêmio e extrovertido, o sambista sempre foi dado aos vícios do morro, regando a vida na base do batuque, da cachaça com os amigos e um “tapinha” quando em vez, contemplando a vida entre as pernas de uma boa mulata. Seguia pela vida em ziguezague para escapar da polícia e dos olhos de dona Jurema, sua senhora, que sofria constantemente com as fotos de seu marido estampadas nos cadernos policiais, sem falar nos comentários das vizinhas faladeiras, em constante serviço à tristeza e a desgraça alheia.

Quem poderia imaginar que este personagem, tão vadio e controverso, teria parte de sua origem fincada nas canetas perversas dos censures da ditadura? Claro que a censura não criou Julinho de Adelaide por si mesma, como uma “produção independente”, nenhum órgão ou instituição desta natureza seria capaz de realizar este grande feito. O que poderíamos afirmar é que “Julinho” foi o resultado, a síntese entre a coerção de um estado repressor e a pulsação criativa, a saída poética de um dos maiores compositores da música brasileira, Chico Buarque de Holanda.

Após a censura de suas canções que criticavam o regime no inicio da década de setenta, tais como “Apesar de Você” e “Cálice”, nenhuma composição seguida da sua assinatura teria a autorização para ir a público, independente da essência de sua letra, Chico não viu outra saída. Diante dos fatos, se fez necessário criar um pseudônimo para assinar as suas composições, e desta necessidade surge o nome de Julinho. Chico Buarque não se contentou em criar um simples pseudônimo e dá vida a um personagem do morro carioca, completamente distante de sua origem e história, ele que era filho de intelectuais da aristocracia da Guanabara.

O sambista recém-criado compôs e gravou apenas três canções em toda a sua carreira, “Milagre Brasileiro”, “Jorge Maravilha” e “Acorda Amor”, todas em tom crítico ao quadro de perseguição e silêncio no qual vivia o Brasil do AI-5. Julinho chegou a dar entrevista ao jornal Última Hora em meados de 1974, a única em toda a sua vida. Vinte e quatro anos depois, o jornalista e escritor Mário Prata relembra o episódio único em sua carreira “ O Chico já havia topado e marcado para aquela noite na casa dos pais dele, na rua Buri. Demorou muitos uísques e alguns tapas para começar. Quando eu achava que estava tudo pronto o Chico disse que ia dar uma deitadinha. Subiu. Voltou uma hora depois.Lá em cima, na cama de solteiro que tinha sido dele, criou o que restava do personagem.Quando desceu, não era mais o Chico. Era o Julinho. A mãe dele não era mais a dona Maria Amélia que balançava o gelo no copo de uísque. Adelaide era mais de balançar os quadris.”

Um ano depois da publicação da entrevista, o Jornal do Brasil faz uma reportagem “furo” revelando a “farsa” do personagem de Chico Buarque, e Julinho de Adelaide sai dos holofotes da fama e retorna ao morro da Roçinha, voltando a rotina de malandragem, dos vícios e das mulatas, das aparições nas páginas policiais. Trinta e cinco anos depois do feito fica o desejo futuro de nunca mais, na história do país, precisarmos criar nomes, personagens e histórias que não são as nossas para expressar nossos anseios, nossas indignações e nossos amores.

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