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As muitas faces do maldito

Posted in Cultura by micheletavares on 22/06/2009

Por Talita Moraes

Em 10 de novembro de 2003, dois dias antes de completar 43 anos, faleceu o sergipano Newman Sucupira da Fonseca de um câncer no sistema linfático que o consumiu em dois anos. Em sua breve existência, Newman Sucupira construiu para si uma personalidade complexa, fruto de seu profundo conhecimento naquilo que o interessava, tornando-o não só um ferrenho crítico social como também um agnóstico maldito.

disponível na internet

Newman Sucupira disponível na internet

 

Newman ensinou inglês e português – línguas que dominava bastante- tanto em escolas como em aulas particulares, além de dar aulas de fotografias em sua própria residência. E dessas aulas, amizades. Um desses amigos o chamava de “o grande mestre”. Wellington Mendes, outro grande amigo, então o apelidou. Wellington, a pedidos de Newman, reproduzia pinturas do italiano Caravaggio, pintor aclamado por Newman Sucupira. Um admirador, ou melhor, um apaixonado e profundo conhecedor da cultura clássica e dos malditos: na música, Bach e Beethoven, na literatura, Edgard Alan Poe, Dostoiévski, Camões e Augusto dos Anjos, para o cinema o representante era o franco-suíço Jean-Luc Godard.

Seu meticuloso conhecimento, não só o fazia rejeitar a música popular como rendeu artigos sobre música e literatura para O Capital, jornal para o qual contribuiu também com fotografias, desde 1992 até o ano de sua morte. Com vasto conhecimento sobre música, colaborou com a academia Studium

 

Matéria de Newman para O Capital      foto: Talita Moraes

Matéria de Newman para O Capital foto: Talita Moraes

Danças preparando trilhas sonoras. Mas sua sabedoria também o deixou sem interlocutor. Não tinha paciência com aqueles que diziam conhecer sobre cultura erudita, quando na verdade eram apenas conhecedores superficiais. A essas pessoas dava-se mesmo ao escárnio, sem meias palavras, em tom pornofônico. De uma personalidade irreverente para com o mundo, Newman Sucupira adquiriu muitas inimizades.

Contraditório ou não com a cultura que atribuiu para si, Newman empreendeu um trabalho fotográfico chamado A cara do meu tempo. Com um fusca, uma máquina fotográfica, que não era digital, viajou pelo interior de Sergipe em busca de registrar os traços da “sergipanidade” de seu povo. Fotografou mulheres, crianças, homens, velhos, adultos, sem distinção. Um trabalho que, se tivesse apoio de algum órgão de cultura, poderia representar e referendar a identidade sergipana. Seu trabalho fotográfico está exposto em sites na internet, intercomunicados com textos que produziu, criticando – como de praxe à sua personalidade – nossa sociedade.

por Newman Sucupira

por Newman Sucupira

 

Apesar de erudito, era uma pessoa simples: desde suas vestes, uma blusa, as velhas calças jeans e seu chinelão franciscano, até suas atitudes. Era avesso à idéia de competições, concursos, não por se julgar incapaz, mas por não gostar de disputas. Não se importava com o que os outros pensavam. Ilma Fontes, jornalista e grande amiga de Newman Sucupira, entretanto, o inscrevera em um concurso literário de contos oferecido pelo Cultart, visando a publicação de livro inédito. Newman só soube que fora inscrito quando selecionado para receber o prêmio de primeiro colocado. Isso foi muito importante para que encetasse a publicação de seu primeiro e único livro, Contos malditos e histórias de mim.

Esse trabalho contou com o apoio do escritor e poeta Wagner Ribeiro, da Academia Sergipana de Letras e da União Brasileira de Escritores. Já que durante os trâmites de publicação do livro Newman adoeceu. A primeira edição saiu com 300 exemplares. A segunda, com cerca de 100, passou a circular um mês antes de sua morte. A venda de seus livros rendeu, financeiramente, o pagamento de seu tratamento.

Contos Malditos e Histórias de mim        foto: Talita Moraes

Contos Malditos e Histórias de mim foto: Talita Moraes

Seus prazeres, a música, a literatura, a comida, a bebida, a fotografia e as mulheres alimentavam sua alma. Em meio a esses prazeres, esse comer e beber, esse revelar de fotos, durante esse ouvir de música, chegava a escrever uma ode sobre as imagens de suas fotografias. Newman Sucupira, não só um maldito, mas um verdadeiro epicurista.

 

 

 

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Newman na internet:

http://sucupira.home.sapo.pt/index.htm

http://www.pontosdevista.net/expog.php?id=136

*A equipe do empautaufs agradece a sensibilidade da jornalista e grande amiga de Newman, Ilma Fontes, por nos ajudar a ressuscitar o maldito incompreendito Newman Sucupira.

2 Respostas

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  1. Daniel Pinchemel Fonseca said, on 31/07/2009 at 2:55 am

    Sou o filho do Newman, gostei muito de seu texto e achei que em poucas linhas você conseguiu expressar uma parte do que ele era.
    Ele foi uma pessoa que passou pela vida e deixou o seu registro, através de sua obra, obrigado pela homenagem. Ao “Maldito”, que às vezes utilizava o pseudônimo de G de Malpassante.

  2. w. mendes said, on 24/10/2009 at 4:07 pm

    Meu ido amigo agradeceria esta página, agradeceria com a gentileza que só os que estiveram muito próximos a ele conheceram. Gostaria de complementar algumas informações – o epíteto ‘Grande Mestre’ veio de uma afetuosa brincadeira entre nosso círculo de amigos melômanos, que vez por outra se reunia para ‘saraus’ nos quais jocosamente nos denominávamos uns aos outros por desta forma. Quem começou com isso foi outro queridíssimo amigo, também falecido, e desgraçadamente um mês depois de N.S. – Benedito Goes de Oliveira, chamdo ‘O Beethoveniano’, outra perda absurda que sofremos, ainda mais à sombra da recente partida de N.S. Este amigo, também chamado Bené, era um gênio musical que mereceria pesquisa e uma página dessas. Do nosso círculo de ‘grandes mestres’, também posso citar o atual diretor da orquestra sinfônica de Sergipe, Antônio Grampão, Augusto -o Wagneriano e Ricardo – o Bachiano. Guardo muitas lembranças felizes do nosso amigo e daqueles tempos. Outra informação, sucupira não gostava de Godard, achava um porre – com razão.
    Bem, complementando esta mensagem, algo que excrevi para homenagear o amigo:

    Never More.
    Caipirinha com margarina, cravo bem temperado com vinho branco, frangos inteiros com coca-cola, Elton John com Beethoven, Rick Wakeman com Vivaldi, bolo de leite com sal, Nelson Gonçalves com Pavarotti e muito Schubert, Tora tora tora com Bergman, muita nicotina e ar condicionado, intolerância e cordialidade, irreverência e amor, humor calidoscópico- do branco ao negro, com todos os matizes, cachorro quente às quatro da manhã com Mozart, Ansel Adams com Mapletorpe, esclepscência- muita esclepscência, impaciência- muita impaciência, Poe e Augusto com Caravaggio, Blade Runner e Jiraia, Shakespeare com sacos de sonho-de valsa, fuscão branco e tudo mais… um buraco negro enorme em nosso cosmos, uma falta que não acaba mais…


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