Técnica de Produção, Reportagem e Redação Jornalística

Um papo cabeça

Posted in Esporte by micheletavares on 12/11/2009

Marcos Cabidelli conversa sobre as declarações do presidente Ricardo Teixeira, Copa de 2006, seleção brasileira, Copa na África, craques da bola, experiências pessoais, futebol, e claro, seu amor pelo Fluminense Football Club.

Por Lucas Peixoto

Eram 9 horas da manhã de uma quarta-feira do dia 4 de novembro. A entrevista foi no Jornal Cinform, na editoria do Caderno Líder!. Marcos Cabidelli chegou logo em seguida. ‘Prazer Lucas, sou Marcos Cabidelli, siga-me’. Fiquei ao lado do seu computador, sentado enquanto ele me explicava e mostrava como era feita a preparação do jornal à cada semana. O jornalista me concedeu todo o tempo do mundo. “Quanto tempo você tem?”, perguntou-me. “O tempo que o senhor tiver disponível”, disse a ele. “Pois então nós faremos sua entrevista e eu te convido a ficar aqui esta manhã. Será um prazer imenso tê-lo aqui conosco”. E ainda complementa: “Não me chame de senhor (risos). Sei que é uma forma mais respeitosa e eu também sou assim. Mas eu te dou total liberdade de me chamar de você. É um papo cabeça e descontraído”.

Um jornalista que já atuou em variados meios de comunicação. Trabalhou na TV por 10 anos cobrindo esportes. Hoje

Marcos Cabidelli

Foto: Lucas Peixoto

é Editor do Caderno Líder! e trabalha na Rádio Liberdade AM. É muito tempo

de profissão para um jovem de 35 anos. Cabidelli é um rapaz que sempre quis o Jornalismo. “Eu acho que todo jornalista já nasce com esse dom. É algo que está no sangue.”

O brasiliense me apresentou ao jornal e algumas pessoas. Então ele pergunta: “Para qual time você torce?”. Então respondo ‘Fluminense’. Ele fica feliz em ouvir essa declaração. A partir daí a conversa flui entre dois torcedores fanáticos. Contamos experiências, grandes times, histórias consagradas, mas é claro que Cabidelli tinha muito mais experiência em seu amor clubístico. E para reforçar ainda mais sua paixão, diz: “Conheci minha esposa no Maracanã. Foi no jogo entre Fluminense x Volta Redonda pelo Campeonato Carioca de 2005”. Um amor que surgiu campeão.

A paixão intrínseca pelo tricolor carioca já começa a passar para outras gerações. Sua filha ainda bem novinha canta a música do clube quando vê qualquer coisa que lembre o time do pai. “Ela fica cantando ‘Nense! nense!’ E eu não a obriguei em nada. Ela observa isso em casa entre eu e minha esposa. Assimilou naturalmente”. Uma paixão não forçada.

Que comece a entrevista!

Contextualizei à Cabidelli sobre as declarações do presidente da CBF. A conversa tem seu ponto de partida nesta frase: “Podem ter certeza que a seleção que disputará a Copa no ano que vem será a mais fechada da história do nosso futebol. A imprensa terá muito menos liberdade para trabalhar. E não tem nada a ver com a África do Sul. Em Weggis, a liberdade foi total e todo mundo reclamou da bagunça. Então vamos fazer diferente desta vez”. Por ser bem informado, Cabidelli sabia das declarações. Uma moça pergunta: “Vai entrevistá-lo Marcos?”. “Não, desta vez eu serei o entrevistado”.

EmpautaUFS – O que você pensa sobre a frase? Como a mídia sergipana reagiu aos comentários do presidente Ricardo Teixeira?

Marcos Cabidelli – Não houve na imprensa sergipana uma manifestação explícita sobre essas declarações do presidente quando ele diz que o fracasso da seleção se deu pela liberdade que a imprensa teve com a seleção. Foi uma frase infeliz. Eu creio que ele peca muito em dizer isso, por que na verdade esse não foi o fator causador do fracasso do Brasil na Copa de 2006. Os problemas da seleção eram outros muito maiores. Não vai ser a minha presença como jornalista que tirará a concentração ou prejudicará tecnicamente algum jogador. A liberdade com a seleção houve, e isso é fato, mas está longe de ser a causa da sua eliminação. O jornalista está lá apenas para divulgar as informações ao público e mostrar o que se passa nos treinos e nos coletivos. Nada mais do que isso. A seleção brasileira e o esporte como um todo nada seria se não existisse a imprensa para divulgar os bons, maus momentos e os acontecimentos importantes.

Mas voltando à imprensa esportiva sergipana, digo que é muito bairrista. Ela se limita muito ao Estado, valorizando a maioria dos temas que são daqui. Para quem lê os jornais, escuta as programações de radio ou é um telespectador de programas esportivos de Sergipe, percebe que essas declarações não tiveram um grande alcance. A imprensa abre muito pouco espaço para o esporte nacional e principalmente internacional. Poucas vezes a televisão divulga acontecimentos desse tipo.

EP – De acordo com Ricardo Teixeira, a CBF dará as informações à imprensa, segundo, ele com ‘total transparência’. Isso não poderá prejudicar um pouco a notícia, deixando-a tendenciosa ou com ausência de informações relevantes?

MC – Um pouco não, muito. Imagine você como assessor de comunicação do Fluminense. Você vai expor os problemas do seu clube? Concerteza não. Ninguém vai falar mal de sua instituição. O mesmo vai acontecer com a CBF. Qualquer problema que ocorrer durante a preparação da seleção não será divulgado a todos. Se houver um racha ou briga no elenco, ninguém vai expor a situação. Para mim, isso fere até a liberdade de imprensa, pois nós temos o dever moral de passar a verdade à sociedade. Eu não acredito que esse sistema vá contribuir com a seleção brasileira.

EP – Então pode atrapalhar…

MC – Com certeza. Muitos problemas são resolvidos quando se tornam públicos. As pessoas terão que dar uma resposta à sociedade. Quando um assessor de imprensa passa a não divulgar as informações que lá existem, esses problemas tendem a não se resolver. A própria CBF já é vista com maus olhos perante a população como uma instituição autoritária, fechada e sem transparência. O Club Sportivo Sergipe sofreu com isso esse ano, onde sua classificação foi contestada de forma correta, mas a CBF ‘enterrou’ toda a discussão acerca desse acontecimento. Até um torcedor entrou com uma causa na justiça para exigir a apuração, mas nada ocorreu.

EP – Mas se fosse uma tradicional equipe do futebol brasileiro, certamente esse problema poderia ser resolvido?

MC – Sim, seria. Os grandes clubes do futebol brasileiro exercem muita força sobre a CBF. Mas toda instituição deve dar a devida importância independente do clube prejudicado. Se isso acontecesse com o Corinthians, que é um clube poderosíssimo, seria um desastre à CBF, que perderia sua credibilidade, que já não há mais. Existe política em todo lugar, mas nesse caso, há politicagem. É tudo questão de interesse. Nem a CBF nem o STJD teriam interesse em ajudar um clube de Sergipe, que é um futebol fraco, sem força e com uma federação omissa.

EP – Uma equipe de futebol consegue jogar mais com o apoio da torcida?

MC – Eu vou citar um filme para exemplificar. Todos aqui já assistiram à série de filme do Rocky Balboa. Se você pegar do primeiro ao último, vai perceber uma ascensão e depois uma queda na carreira do Rocky. Em um determinado filme, ele vence o campeão mundial Apolo e se consagra. Com isso, ele se intitula o maior de todos e passa a viver daquele status e a treinar menos, achando que já não perde para mais ninguém. Passa a viver do ‘oba oba’. Então chega à luta e perde. E o que acontece? ‘Quebra a cara’. O filme traduz que a morte do seu treinador foi a principal causa. Mas aquilo é uma justificativa da ficção. Na realidade, sua auto intitulação de bom ou competente pode trazer conseqüências. Então, em minha opinião, isso aconteceu com a seleção brasileira quando foi treinar em Weggis, na Suíça, onde a torcida entrava em campo, e prejudicava os treinos. A torcida ajuda, mas existe a hora certa para isso. Àquele momento não era o mais apropriado.

EP – Aquela história de ‘quarteto fantástico’, de seleção de craques também foi prejudicial para o vexame da seleção na copa de 2006?

MC – Tudo isso gira em torno de interesses econômicos. O que se pretendia em Weggis era expor a marca da seleção, que era considerada a melhor do mundo e campeã na edição de 2002 da Copa. A CBF arrecadou muito dinheiro com esse tipo de marketing. O elenco deveria treinar no Brasil, lá na Granja Comary onde é a casa deles e onde sempre o time treinou.

EP – E taticamente? Como a seleção se portou?

MC – A Copa de 2006 foi recheada de deslizes. E a parte tática também foi uma delas. Dentro de campo, naquele momento, eu já entendia que a seleção precisava de renovação em várias posições. Os laterais Cafu e Roberto Carlos não teriam mais vaga. O meio campo também precisava mudar. O gol com Dida também era inadequado. Aquele ‘quadrado mágico’, que para mim era ‘quadrado burro’, foi o outro grande equívoco da seleção brasileira. Ronaldinho Gaúcho naquele ano já estava jogando com o nome. Hoje ele está voltando a jogar futebol, mas ainda está muito longe daquele Ronaldinho que víamos jogar.

EP – E hoje a seleção está se renovando…

MC – Sim, está. Eu creio. A seleção hoje tem um bom goleiro. Daniel Alves é um ótimo jogador e cobra falta, coisa que a atual seleção não possui. Acho que Thiago Silva jogaria no lugar de Lúcio ao lado de Juan. Gosto do Juan. É clássico, técnico, sabe sair com a bola e não é grosseiro. E a força que Lúcio exercia dentro de campo Thiago pode exercer.

EP – O atual treinador do Brasil vem mostrando pulso firme na hora de convocar sem trazer jogadores com nome. A seleção vem jogando simples e com competência. Dunga está mudando a cara da seleção?

MC – Esse problema da convocação por nome é muito sério e que ainda ocorre. Até por que a maioria dos jogadores que vão à Europa são convocados. Poucos jogadores brasileiros que atuam aqui são chamados. Darei um exemplo: Thiago Silva, ex-jogador do Fluminense. Ele jogou muito ano passado. Bem mais do que Juan e Lúcio. Esses dois são convocados porque já estão na Europa há algum tempo e já possuem um status. Thiago só não é titular da seleção por que está começando sua carreira agora. Em 2014, ele será o um dos zagueiros titulares, com certeza.

EP – É possível fazer um time só com jogadores brasileiros que atuam no nosso país?

MC – Claro. Tem o Hernandes que é um baita jogador. Muitos bons goleiros, atacantes, entre outros. Se sentarmos para pesquisar a escalação de cada time, conseguiremos montar uma grande seleção.

EP – O Ronaldo tem vaga na seleção? Como está sendo passagem do ‘fenômeno’ pelo Brasileirão?

MC – Não, não tem. Em minha opinião Ronaldo não é fenômeno de nada. Ele é um craque, sem dúvida, mas fenômeno ele nunca foi.

EP – E quem é fenômeno para o senhor?

MC – Uma pessoa que eu vi jogar e que para mim é um verdadeiro fenômeno: Romário. Era um jogador que se posicionava bem, não era batedor nem grosso. Era habilidoso e rápido. Um lance que eu me lembro bem: Brasil x Uruguai em 1993. Eu estava no Maracanã e aquele homem só não fez chover lá. Romário recebeu uma bola lançada que era um ‘tijolo’. De uma forma magistral, ele dominou a bola, e deu um lençol no zagueiro. Eu estava atrás do gol e quando vi aquilo, quase chorei. Meu Deus do céu, eu pensei. Foi verdadeiramente fenomenal. Na mesma partida ele dá uma caneta no adversário que o deixa torto no chão. Então para mim, dentro da área, ou até mesmo fora dela, não houve ninguém igual. Romário é fenomenal. Alguns dizem que Garrincha ou Didi foram melhores, por exemplo. Mas não o vi jogar. Algumas pessoas me criticam por isso, mas Romário foi mais gênio até do que Zico. Além disso, independente do clube que ele jogar, jogará bem. Se ele põe a camisa do Sergipe ou do Real Madrid, será o mesmo Romário.

EP – Quem é intocável na seleção em 2010?

MC – Kaká e Júlio César. Para mim esses sãos intocáveis. Para Dunga, há um jogador que é intocável, apesar de não concordar, que é o Lúcio.

EP – Quais os favoritos à conquista da Copa do Mundo ano que vem?

MC – Eu acho que o Brasil é sempre favorito, por causa da camisa, tradição e bons times que sempre monta. Apesar da má campanha, a Argentina também tem chances. Acredito que a Espanha apesar dos tropeços irá fazer uma boa campanha. Alemanha também montou um bom elenco. A última seleção no meu palpite seria a Itália.

2 Respostas

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  1. Juacy júnior said, on 13/11/2009 at 1:16 pm

    Boa entrevista. Realmente Marcos Cabidelli entende muito de futebol! Só o começo da entrevista que eu achei parecendo uma escrita de diário (querido diário, hoje eu fui entrevistar Marcos Cabidelli). Pareceu-me que o entrevistador tem mais importância que o entrevistado, mas no decorrer da entrevista fica claro que os ois personagens dominam bem o tema proposto.

  2. Márcio Rocha said, on 13/11/2009 at 11:34 pm

    O Cabidelli sabe muito sobre esportes e prova cada semana com seu material no Líder. Acredito que finalmente a editoria foi parar nas mãos de uma pessoa realmente capacitada. Muito boa entrevista, Lucas.


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