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“Eu gosto de meninos e meninas”

Posted in Uncategorized by micheletavares on 13/11/2009

A história de um garoto que descobriu que era normal, mesmo gostando do que era diferente.

por Bruna Guimarães

 

*Carlos Mendes*: nome fictício.

Em pleno século XXI, quando se ouve a palavra preconceito, logo se associa a uma ideia retrógrada, ultrapassada. Muitas coisas mudaram, a civilização evoluiu em certos aspectos, mas esperar que o preconceito tenha ficado no século passado, é ilusão. Mesmo com toda a modernidade, as pessoas ainda têm dificuldade de aceitar tudo que os cerca, por exemplo, os homossexuais. Hoje em dia, são mais aceitos pela sociedade, mas não vemos casais de homossexuais andando de mãos dadas ou se beijando em público, como qualquer outro casal. Então, ainda existe o preconceito, se comparado a antes é menos, mas ele está presente, ainda.

Partindo desse exemplo, conheceremos a história de *Carlos Mendes*, um rapaz de 20 anos igual a todos os outros de sua idade: gosta de sair com os amigos, viajar, está curtindo a universidade e não larga o mp4, onde tem músicas de MPB a Lady Gaga. Mas ele possui algo diferente, citando Renato Russo, ele afirmou: “Bruna, eu gosto de meninos e meninas”. Quem não conhece Legião, não conhece Renato Russo e conseqüentemente nunca ouviu a música Meninos e Meninas, não entenderia. Nela Renato sugere ser bissexual, fato que foi confirmado por ele posteriormente.

Carlos disse que começou a perceber que era diferente aos 12 anos, quando ele ficou com uma menina da escola, mas não sentiu nada tão especial – e só para constar, ele gostava da menina –, ficaram mais algumas vezes, mas ele começou a se sentir atraído por um amigo e passou a achar que era diferente, doente. Terminou com a menina sem dizer o real motivo, porém não se declarou ao amigo. Então, ele acabou entrando numa fase negra.  Um pouco envergonhado, ele me contou: “Eu entrei em depressão aos 13 anos, eu não tinha vontade de viver, de ir a escola, eu só ficava em casa e comia, cheguei a engordar uns 15kg. Meus pais ficaram muito preocupados, tentavam conversar comigo, mas eu não falava com ninguém, então me levaram a um psicólogo”.

Ir ao psicólogo regularmente, não foi suficiente para que ele conseguisse lidar com todos os seus medos. Apesar de ir à escola, voltar a fazer natação e perder os quilos que havia adquirido, ele ainda continuava se sentindo sozinho. Mesmo seus pais dando toda a atenção e seus dois irmãos mais velhos sempre conversando sobre o que acontecia em suas vidas, ele não falava o que realmente o afligia. “Eu não sei porque demorei tanto para falar a minha família, hoje eu acho que tinha medo deles não me aceitarem”, afirma Carlos.

A fase negra teve dois pontos altos, um quando ele passou semanas sem comer e acabou ficando anêmico; o clímax foi quando ele tentou o suicídio, cortando os dois pulsos, o pescoço e deitando-se na cama todo enrolado enquanto sangrava. Ele não morreu, porque seu irmão do meio, ao chegar de uma festa e ir deitar-se no quarto deles, o ouviu gemer mesmo Carlos estando todo enrolado. Quando tirou a coberta o viu todo ensangüentado.

“Eu estava perturbado, cansado daquela situação sufocante, eu queria morrer! Meu irmão ficou desesperado, chamou meus pais, ambulância, eu não me lembro muito bem o que aconteceu, quando retomei a consciência já estava no hospital, fora de perigo, mas meu irmão me contou tudo, o desespero dele e o dos nossos pais, e o que podia ter acontecido se ele não tivesse chegado naquela hora. Foi aí, que eu resolvi desabafar. Não agüentava mais esconder o que eu sentia, chamei meus pais e meus irmãos e contei o que me perturbava:  ‘- Eu gosto de meninos’. Meus irmãos não pareceram surpresos, disseram que isso não importava, não mudava nada. Minha mãe  começou a chorar e meu pai só me olhava, até que ele disse que ficaria ao meu lado, independente do que ou quem eu gostasse. Minha mãe disse que eu precisaria ser forte para enfrentar tudo o que viria a acontecer comigo e que só queria me ver feliz de novo”,  desabafou Carlos.

Esse episódio aconteceu quando ele tinha 16 anos,  quando retornou ao colégio, alguns dos poucos amigos que ele ainda tinha, pareceram não se incomodar, continuavam conversando com ele, fazendo trabalho, mas ele sabia que eles ficavam meio tensos perto dele. “Eles falavam comigo, sentávamos próximos, mas tinha horas que eles pareciam ter medo de mim, do que as pessoas estariam pensando ao me ver com eles”, conta Carlos. Ele então resolveu mudar de colégio no ano seguinte, seria seu último ano e ele queria recomeçar. Nessa época, ele disse que teve seus primeiros rolos, fez grande parte dos amigos que mantêm até hoje e não se arrepende das escolhas que fez. “Depois que descobri que gostava de meninos, eu não fiquei apenas com meninos, fiquei com algumas meninas também, porque antes eu não tinha certeza do que eu realmente queria, mas hoje eu sei. Porém isso não me impediria de ficar com uma garota, gosto de fazer o que me dá vontade, me considero homossexual porque quando estou com outro menino, eu me sinto inteiro”, continuou Carlos.

Sobre o preconceito que ele poderia sofrer, ele disse que algumas pessoas se afastaram, mas muitas outras se aproximaram e com isso, ele pôde perceber quem eram seus verdadeiros amigos. Sobre a sociedade, Carlos disse que apesar dela se considerar liberal e moderna, ainda não é por completo, tem gente que não se sente bem ao ver duas pessoas do mesmo sexo juntas, mas ele acha que isso deve melhorar com o passar do tempo. “Apesar de uma boa parte da sociedade ainda não aceitar os homossexuais inteiramente, isso deve passar com o tempo. As pessoas tendem a evoluírem, com isso seus pensamentos também, a vida moderna também favorece a essa aceitação. Eu espero que daqui a alguns anos, eu possa andar de mãos dadas com meu atual namorado, e meu grande amor, pelas ruas, como qualquer outro casal apaixonado”, finaliza Carlos.

Segundo a psicóloga Laura Fontes, há quem acredite que a homossexualidade seja uma fase e até moda, mesmo não existindo “fases” dentro da orientação sexual e que é difícil acreditar que alguém vá fazer algo só porque é comum fazer, mas não é impossível de acontecer. São os desejos sexuais que influenciam no que a pessoa irá querer, devido a eles existe a classificação: heterossexual, homossexual, bissexual e etc. Ela concluiu: “Uma pessoa pode deixar de ser gay, como qualquer um pode deixar de ser hetero. Sexualidade é algo dinâmico, seus desejos sexuais podem ser um hoje, e amanhã ser o contrário”.

Para finalizar, é só esperar que a sociedade perca seus preconceitos e aceite as pessoas como elas são negras, brancas, amarelas, homossexuais, heterossexuais, classe baixa ou alta.

Quem não conhece a música que foi citada nessa reportagem, segue a letra e o link para ouví-la abaixo:

“Quero me encontrar, mas não sei onde estou. Vem comigo procurar algum lugar mais calmolonge dessa confusão e dessa gente que não se respeita. Tenho quase certeza que eu não sou daqui. Acho que gosto de São Paulo, gosto de São João, gosto de São Francisco e São Sebastião e eu gosto de meninos e meninas. Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre, vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente. Estou cansado de bater e ninguém abrir. Você me deixou sentindo tanto frio, não sei mais o que dizer. Te fiz comida, velei teu sono. Fui teu amigo, te levei comigo e me diz: pra mim o que é que ficou? Me deixa ver como viver é bom, não é a vida como está, e sim as coisas como são. Você não quis tentar me ajudar. Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem? Eu canto em português errado, acho que o imperfeito não participa do passado. Troco as pessoas, troco os pronomes. Preciso de oxigênio, preciso ter amigos. Preciso ter dinheiro, preciso de carinho. Acho que te amava, agora acho que te odeio. São tudo pequenas coisas e tudo deve passar. Acho que gosto de São Paulo e gosto de São João, gosto de São Francisco e São Sebastião e eu gosto de meninos e meninas”. [Meninos e Meninas, Legião Urbana]

http://www.youtube.com/watch?v=zjToBc9yGaE 

2 Respostas

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  1. Monique said, on 13/11/2009 at 3:46 am

    Nossa, o texto ficou muito bom. Parabéns pela forma como você retratou a história de vida dele e como abordou o tema homossexualidade.

  2. Lucas Peixoto said, on 13/11/2009 at 5:21 pm

    Parabéns por esse texto. Fantástico. O tema foi muito bem abordado.


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