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“Porque o trânsito é que nem futebol, todo mundo acha que entende.”

Posted in Utilidade Pública by micheletavares on 16/11/2009
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Jairo Alves, assessor de imprensa da SMTT. Foto: Etienne Fonseca

Por Etienne Fonseca

No Cinform do dia primeiro de novembro, foi publicada uma matéria sobre o trânsito da cidade de Aracaju. Foram feitas previsões para a cidade caso os órgãos encarregados não tomem uma atitude em relação a esse assunto, que é considerado por muitos especialistas como um problema para a capital sergipana. Fala-se muito em criar vias alternativas, em mudar o espaço geográfico da cidade, mas pouco se sabe e pouco se fala sobre o papel do motorista nessa história.

Deixando um pouco de lado os aspectos estruturais do trânsito, a entrevista com o assessor de comunicação da SMTT, Jairo Alves, teve como ponto de partida a atitude do motorista no trânsito de Aracaju. O assessor é licenciado pela Universidade Federal de Sergipe em História, mas atua como jornalista em um programa de rádio todas as manhãs. Há quase dez anos trabalhando na SMTT, Jairo parece conhecer bem o trânsito da cidade e tudo o mais que se relacione a ele.

Em Pauta: Como é o motorista de Aracaju?

Jairo Alves: Lamentavelmente o nosso motorista é muito mal educado. Se o sinal está prestes a fechar, você tem que esperar. Mas não, eles vão em frente. Aí, se abre para o outro sinal, você não passa. Chama-se isso de fechar o trânsito. Existem três sinais no trânsito para isso: o vermelho é pare por completo. O amarelo é vá parando na medida do possível. As vezes, quando ele vê o amarelo,vai em frente. Se o motorista abrir, o trânsito flui. Isso aí é educação para o trânsito, é individual. Cada um quer ver pelo seu ponto de vista.

E.P.: Qual é a principal causa dos acidentes de trânsito?

J.A:O grande problema do trânsito é a irresponsabilidade. Se todos respeitassem as conversões vermelho, amarelo e verde, e as faixas de pedestre, a coisa seria outra.

E.P:Qual a faixa etária em que o número de acidentes é maior?

J.A: O grande problema hoje é a faixa etária entre os 18 e 30 anos, em que ocorre maior número de acidentados.

E.P: Quais as principais falhas desses motoristas?

J.A: Não respeitam a sinalização e o uso de bebidas alcoólicas. De quinta a domingo, aumentam os casos de acidentes.

E.P: Em qual região acontecem mais acidentes durante o final de semana?

J.A: Mais na Zona Sul.

E.P: O que a SMTT faz em diante desses dados?

J.A: A gente coloca fiscais e a sinalização continua, a não ser a lombada eletrônica que é desligada às 8 horas da noite.

E.P: Qual tipo de veículo apresenta maior número de acidentes: moto ou carro?

J.A: Principalmente de moto. A moto está aí ganhando a rodo em número de acidentes em Aracaju. Os profissionais de ônibus e taxi também desrespeitam muito, quando deveriam dar o exemplo.

E.P: Em relação às motos, quais as principais problemas?

J.A: O grande problema hoje é a moto, eles não respeitam o trânsito, eles costuram o trânsito. Por isso a SMTT ainda não liberou o mototaxista, seria um desastre. Não trânsito como o nosso, não temos como liberar o mototaxi. A gente liberou o motoboy, o frete, mas transportar gente de moto, a prefeitura não pensa em liberar tão cedo.

E.P: Quais os problemas implicados no mototaxi?

J.A: O motoqueiro está apoiado, tem prática de moto, mas o passageiro não tem prática e não vai se agarrar ao motoqueiro, pois não tem essa intimidade. É um perigo, não sei como cidades por aí colocaram mototaxistas. É um transporte que discrimina: só vai jovem. Uma senhora não vai, uma gestante não vai, uma criança não vai, um obeso não vai. É um tipo de serviço que discrimina, além de ser perigoso.

E.P: Em relação ao transporte coletivo, que medidas são tomadas quando um motorista de ônibus infringe as regras de trânsito?

 J.A: A SMTT pune, multa. Alguns são demitidos. Mas é o estresse. Já pensou ficar dentro de um ônibus 12 horas, no mesmo local, para lá e para cá, no mesmo itinerário. Não há cidadão que agüente um negócio desse.

E.P: Qual a principal queixa que a SMTT recebe em relação ao motorista de ônibus?

J.A: A gente recebe muita reclamação sobre motorista de ônibus e taxi que não respeita a sinalização, excedem a velocidade. E a fiscalização online vai dizer se aquele ônibus está a mais de 60. O motorista vai ser chamado no ato. O fiscal online vai dizer isso está errado, estamos fiscalizando.

E.P: Como vai ser feita essa fiscalização?

J.A: A SMTT vai ter uma sala com um painel monitorando online, 24 horas, em tempo real, a circulação dos ônibus. A Setransp vai ter esse mesmo painel. Ele vai servir para ver se motorista tal furou o horário, se motorista tal passou do ponto, porque a grande reclamação é essa, que eles não param quando tem idoso por exemplo. Isso vai ser uma ferramenta muito importante para a fiscalização e para que o sistema entre nos eixos.

E.P: Quais medidas estão sendo tomadas para a educação no trânsito?

J.A: Nós temos a coordenadora de educação no trânsito, agora mesmo que você chegou, estou com os textos enviando para as emissoras de rádio, textos educativos. São verbetes que a gente vai colocando na mídia para ver se a coisa muda.

E.P: Vocês vão a campo?

 J.A: Nós estamos atacando mais nas escolas, a equipe está diariamente com palestras, com cartazes nas escolas, é  o estudante quem está assimilando mais as campanhas educativas. O jovem estudante respeita mais o trânsito do que eu, do que o motorista de ônibus, do que o motorista de táxi. Dar educação a essas pessoas que estão com mais de 40 anos é complicado. A gente está atacando na juventude. Estamos a hoje treinando funcionários das escolas particulares e colocando eles como operadores de trânsito. Eles estão encarregados nas cercanias da escola, na hora da chegada e da saída, de orientar o trânsito, evitar fila dupla, conduzir alunos, evitar acidentes.

E.P: Como funciona essa parceria com as escolas?

J.A: Então, outra ferramenta na educação para o trânsito está sendo educadores do trânsito nas escolas. Cada escola tem quatro funcionários treinados por nós com aquela farda e com o colete, você pode notar. Nas principais escolas particulares da cidade, o operador de trânsito auxilia o trânsito.

E.P: E o cidadão que já circula com o seu carro pela cidade, o que é feito no intuito de educá-lo?

J.A: Aí tem outras ferramentas: tem a multa, a advertência.A educação do trânsito não é feita para hoje ou amanha não. É talvez para daqui a  dois anos. Educar o cara de 40 anos é uma coisa complicada, mas se educa. Não é da noite para o dia.

E.P: Recorrer às multas não gera reação?

J.A: A punição multa é uma punição rápida e é por isso que a sociedade reage. Se for pela justiça, você passa 10 anos esperando alguma coisa. E a multa não, em 30 dias você tem que pagar. E quem reage é uma minoria que tem voz e tem vez, porque se você for ver, quem reclama de multa não é o assalariado ou quem anda de bicicleta. É quem tem carro e tem poder, como um advogado, um jornalista, um economista, você pode notar.

E.P: O que a SMTT acha de ser considerada uma fábrica de multas?

J.A: Eu vou dizer a você, eu já estou aqui há mais de nove anos, sou jornalista. Tenho um programa de rádio de manhã, na rádio cultura. Já são mais de 15 anos e vejo que o povo não pensa na SMTT como fábrica de multa. Isso parte do povo esclarecido, que é punido: juiz, desembargador. Aqui ainda tem esse negócio de carteirada. Então, essa minoria pode, é quem tem voz e vez na sociedade. Defendem o lado deles. Se não fosse a fiscalização eletrônica, a coisa seria outra.

E.P: Como seria?

J.A: A fiscalização eletrônica não é privilégio de Aracaju não, no Brasil inteiro, no mundo inteiro tem. Em Londres, você não entra no centro da cidade de carro. Entra, mas paga um pedágio altíssimo, no nosso dinheiro, você paga em volta de 100 reais. Só entra táxi, ônibus e pessoas caminhando. Fatalmente, Aracaju vai chegar a esse ponto e vai ter uma reação terrível.

E.P: O que o senhor acha que precisa mudar no motorista aracajuano?

J.A: Tem comerciante que coloca na frente da sua loja um cavalete e fica aguardando o carro dele chegar para estacionar. Ele fica dentro da loja, atrás da caixa registradora, olhando o seu carro. Ainda tem essa mania em Aracaju, aqui é uma província. Colocam o cavalete como se fossem donos da rua. A rua é do povo, é domínio público. Só o agente que tem o poder para tirar o cavalete, aí os comerciantes vão para o rádio esculhambar a SMTT.Ele acha que é um privilégio que tem. Na UNIT mesmo, uns meninos colocam cavalete aguardando estudantes que pagam a eles para guardarem a vaga. Aí, vai a SMTT e proíbe e o povo esculhamba. Porque o trânsito é que nem futebol, todo mundo acha que entende. 

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