Técnica de Produção, Reportagem e Redação Jornalística

“O jornalismo ideal é o comprometido com a verdade.”

Posted in Cultura by micheletavares on 24/11/2009

por Bruna Guimarães

Andrea Cristiana Santos / foto arquivo pessoal.

Mestre em História Social, Jornalista e professora da Universidade do Estado da Bahia, Andréa Cristiana Santos, considera que o atual jornalismo brasileiro deve manter os mesmos princípios de compreender o presente e orientar o cidadão nas suas demandas por informação. Professora das matérias de Introdução ao Jornalismo, Técnicas de Reportagem e História da Comunicação, ela é docente do curso de Comunicação Social Jornalismo em Multimeios, da UNEB, campus Juazeiro-Bahia, há quatro anos. Nessa entrevista, ela fala sobre os desafios do jornalista e da pesquisa em historia da imprensa, com o jornal Tribuna da Luta Operária, que circulou de 1979 a 1988. Para saber mais, confira a entrevista:

(EmpautaUFS) Quais as principais conseqüências da influência do jornalismo americano na imprensa brasileira?

Andréa Cristiana (AC): A herança do jornalismo norte-americano no Brasil se deve a incorporação, a partir dos anos 50, de técnicas jornalísticas como o lead, a estruturação da notícia em um parágrafo com perguntas básicas como “o quem, o que, quando, como e porque”. Considero que os norte-americanos nos ajudam a fazer jornalismo quando defendem que as notícias de interesse local devem ser divulgadas, porque isso nos ajudaria a nos orientar na nossa vida cotidiana, em permamente processo de transformação. Outra herança é a objetividade jornalística, ao defender que os fatos devem ser distintos da opinião. Mas são heranças que foram se incorporando, outras ainda estamos muito distante de incorporar. Por exemplo, os grandes jornais norte-americanos declaram a sua opinião política em momentos decisivos de campanha eleitoral. Já no Brasil, a imprensa brasileira não admitiria o voto em determinado candidato, e, ao mesmo tempo, manteria a credibilidade.

(EmpautaUFS) A objetividade jornalística é uma utopia ou uma realidade possível?

(AC): Há vários estudos sobre a objetividade que demonstra a sua importância para as bases do jornalismo. Há estudos que defendem que a objetividade é possível, quando relacionado a um ritual, um procedimento para nos valer de referencialidade e para inibir que o jornalista sofra processos jurídicos. Como jornalista que trabalhou na imprensa diária, considero que a busca pela objetividade ajuda na nossa rotina produtiva. Ela deve ser o ideal sim, a ser alcançado. Não é utopia.

(EmpautaUFS) A quem interessa o fortalecimento deste tipo de jornalismo (objetivo e imparcial) preconizado atualmente?

(AC): A imprensa diária precisa ser objetiva, informativa. É isso que faz com que possamos também ter uma informação de qualidade, porque a isenção e a objetividade são sinômicos e nos servem para compreender o real também. Na pesquisa que desenvolvo com pesquisa partidária da década de 1980, a objetividade não era o ideal a ser alcançado pela Tribuna da Luta Operária, porqe eles queriam mobilizar a opinião pública, isso é legitimo. Contudo, eles também tinham um compromisso em passar informação verdadeira, referenciada. A objetividade nos serve também para referenciar o cotidiano. 

(EmpautaUFS) No que se refere à linguagem, o jornalismo mantém estreitas relações com outras áreas do conhecimento, como a economia, a literatura, a ciência, etc. É possível manter a objetividade adequando essas linguagens – nem sempre objetivas – ao padrão de linguagem jornalístico?

(AC): A linguagem jornalística depende das necessidades do texto. Por exemplo, cada vez mais jornalistas investem no mercado editorial de livros-reportagens que defendem a relação entre jornalismo e literatura. Nesse tipo de texto jornalístico a técnica de apuração depende da objetividade, ao tentar referenciar as coisas de mundo de forma concreta – como depende da subjetividade trazida pela literatura, ao investir na forma estética, no uso de descrição detalhada e também na autoria. Isso faz necessário um exercício de desprendimento da objetividade entendida apenas como técnica. Para mim, objetividade às vezes é principio. Quero ler um texto em que eu não seja contaminada por excesso de opinião, editoriais disfarçados de informação. Se um jornalista conseguir ser informativo e ao mesmo tempo autoral para mim é o ideal.

(EmpautaUFS) Qual seria o modelo de jornalismo ideal?

(AC): O jornalismo ideal é o mesmo preconizado há quase 300 anos pelo teórico alemão Ottho Groth, quando formula a primeira tese de jornalismo. Atualidade é nossa matéria-prima, assim como compreender o presente e orientar o cidadão nas suas demandas por informação. Quero ler um jornal, assistir a um programa de televisão e ouvir um rádio que me ajude a compreender o mundo no qual estou inserindo. A sociedade muda, mas o ideal do jornalismo deve ser sempre um compromisso com a verdade.

(EmpautaUFS) É possível fazer jornalismo de qualidade, voltado para o leitor e para o bem da sociedade?

(AC): Sim, muitos jornalistas fazem isso. Não é utopia. Os meios de comunicação podem ter compromissos políticos e econômicos, mas também são o principal elemento de referência de mundo para nós. Precisamos ler jornal, assistir televisão, ouvir rádio. O que nos falta talvez é ser consumidores de informação mais críticos. Ler nas entrelinhas o discurso que se evidencia. Acho que isso tem acontecido quando trabalhamos também na perspectiva de uma educação para os meios, a chamada educomunicação, no qual formamos pessoas críticas para ler as mensagens midiáticas e serem também produtores de mídia, como na comunicação comunitária.  

(EmpautaUFS) O diploma é necessário para o exercício da profissão de jornalismo?

(AC): Para mim, formação é essencial. É impossível ser jornalista ético, comprometido com a verdade sem conhecer o campo teórico do jornalismo. Em muitas cidades do interior brasileiro, como Juazeiro-Ba, existem comunicadores que se formaram na prática, alguns são radialistas, e muitos são comprometidos com a informação de qualidade. Contudo, formação é essencial. A profissão exige muitos desafios. Precisamos ter universidade que preparem bons jornalistas, e precisamos de estudante que desejem ser bons jornalistas também. Não depende somente da universidade. O diploma em si também não basta. É preciso ter compromisso com a verdade e com à profissão para ser jornalista.

(EmpautaUFS) Como os estudantes de jornalismo reagiram a não obrigação do diploma?

(AC): Somos um curso que temos seis anos na região, formamos duas turmas. No primeiro momento, quando a notícia saiu, algumas pessoas se sentiram muito fragilizadas, devido a desvalorização da profissão, Contudo, hoje creio que os alunos e professores também estão mais cientes da importância do diploma e principalmente da formação.

(EmpautaUFS) É possível que o curso termine, já que “qualquer um” pode ser jornalista?

(AC): Sempre haverá cursos, porque as empresas continuarão contratando jornalistas com formação. Pode haver uma diminuição da demanda a curto prazo, mas isso hoje não afeta tanto.

(EmpautaUFS) O que você pensa sobre esses cursos de adestramento de focas de dois ou três meses que existem?

(AC): É preciso distinguir os programas de treinamento que sempre existiram na imprensa brasileira a partir da década de 80, como os da Folha, Abril, dos programas que surgiram recentemente oferecidos por algumas instituições privadas.  Essa política de treinamento sempre foi defendida por algumas empresas como uma forma de identificar profissionais aptos a sua política editorial. Assim que conclui o meu curso de graduação na Universidade Federal da Bahia (UFBA), fiz o curso Abril de Revista, considero um importante curso de aperfeiçoamento, não acho ruim. É bom, interessante, conhecemos profissionais valiosos e aprendemos um pouco a ver o perfil da empresa.

(EmpautaUFS) Como você definiria a função do jornalismo na sociedade?

(AC): Orientar, esclarecer o cidadão para que consigamos compreender o mundo complexo no qual estamos inseridos. Os jornalistas são os intelectuais do tempo presente, precisamos tanto da racionalidade como da subjetividade do jornalista para compreender o nosso tempo.

(EmpautaUFS) Tudo o que se aprende na universidade é utilizada no dia-a-dia da profissão?

(AC): Alguns alunos acreditam que não. Fui formada pela Universidade Federal da Bahia. Tudo que aprendi apliquei, fiz escolhas – as mais corretas possíveis; e aprendi também com a vida. Formação é essencial.

(EmpautaUFS) Jornalismo e publicidade andam juntos ou são independentes um do outro?

(AC): Cada vez mais a publicidade está presente no jornalismo. Quando elas estão distintas, separadas não é ruim. A publicidade é necessária para sobrevivência econômica do jornal, para mantê-la distante de interesse político-eleitoral. Contudo, cada vez mais vemos a infopublicidade no jornalismo; são os “cadernos especiais” disfarçados de informação jornalística, as viagens patrocinadas por empresas sem que isso fique claro para o leitor. Isso é ruim.

(EmpautaUFS) O que o aluno deve procurar dentro da universidade para sair “bem” formado?

(AC): Nenhuma universidade vai formar um bom jornalista, se ele não se interessar. Se ele não buscar dentro da universidade, caminhos próprios, se ele não fizer parte de projetos de pesquisa, extensão, se ele não investir na sua autoformação, comprando livros, lendo bastante todo tipo de texto – literário, jormalistico – tudo. Ele precisa ir além da sala de aula. É preciso construir sua própria trajetória.

(EmpautaUFS) Como você procura dinamizar as suas aulas? Além da parte teórica, há a prática? A universidade oferece suporte para uma boa formação dos alunos, como laboratórios, biblioteca?

(AC): A Universidade do Estado da Bahia é uma instituição com 25 anos de atuação no estado. Grande parte desses anos dedicou-se a cursos delicenciatura. O curso de Jornalismo em Multimeios, da UNEB,, foi criado em 2003. Nós somos recentes. Eu mesma comecei a ensinar no curso há quatro anos. Já trabalhamos muito para melhorar o curso, dotá-lo de infra-estrutura como laboratório de rádio, de redação jornalística e de televisão. Ainda precisamos trabalhar mais. Conquistamos muitas coisas e há ainda muito a se conquistar. Um bom curso de jornalismo deve ser permanentemente um laboratório, articulando teoria e prática, ensino, pesquisa e extensão. Hoje temos projetos como o Multiciencia – Agencia de noticas de Ciências Educaççao e tecnologia, disponível como blog também (www.multicineciaonline.blogspot,com); e temos programa de rádio coomo o Eufonia, veiculado semanalmente em uma radio FM em Juazeiro. São projetos que procuram articular a prática e a teoria, produzindo notícias, estimulando os alunos a criar, a produzir jornalisticamente.

(EmpautaUFS)Você coordena o projeto de extesão MultiCiencia, como surgiu o projeto?

(AC): Ele surgiu como Agência de Notícias, distribuir informações jornalísticas aos meios de comunicação da região. Nos já temos quatro anos. No primeiro momento, contávamos somente com uma mnoitora. Há dois anos, resolvemos fazer o blog, disponibilizando informações sobre ciência, educação e tencologia produzida na região para os leitores do blog e também para os meios. Contudo, nem toda informação pe enviada para os meios, somente as que julgamos mais jornalísticas, como matérias sobre a história da região, da educação e projetos de ciência. Não é fácil, porque temos apenas dois bolsista de extensão e colaboradores voluntários. Mas precisamos de carro, para favorecer a logística de cobertura. Hoje, diria que a função da agencia é estimular o estudante de jornalismo a produzir informação, seja textual, fotojornalística e exercitar a escrita de textos como o perfil. Na verdade, pe um laboratório. Em média, já distribuímos cerca de 200 mensagens jornalísticas para os meios locais, desde noticia, reportagem e sugestão de pauta. No nosso arquivo, temos cerca de 50 matérias publicadas nos jornais locais.

(EmpautaUFS) Você coordena um projeto de pesquisa na área de história da imprensa, com a Tribuna da Luta Operária, como este projeto surgiu?

(AC): O projeto tem uma relação com a minha dissertação de mestrado, na qual estudo a militância política do Partido Comunista do Brasil (PC do B) em Salvador. Quando comecei a ministrar aulas no Departamento pensei em desenvolver outros estudos na área de historia da imprensa, mas não necessariamente vinculada ao PC do B. Então, conheci o militante Hiugo Pereira, dirigente do Partido, e ele doou 184 exemplares que ele guardava em casa, bem conservado, ao Departamento de Ciências Humanas para fazer a pesquisa. Ao todo o jornal, teve cerca de 350 edições, e circulou de 1979 a 1988.  Foi uma descoberta, muito importante, pois demonstrava que o jornal circulou em Juazeiro. A partir disso, a pesquisa começou a investigar como o jornal colaborou para organizar o coletivo partidário em Juazeiro. Após três anos de pesquisa, nós fizemos um mapeamento do jornal, foram defendidas duas monografias de Trabalho de Conclusão de Curso, realizamos 12 entrevistas com militantes e, agora, em dezembro, preparamos o lançamento de um CD-Rom com as edições do jornal disponíveis, cerca de 180. O CD-Rom é uma plataforma digital com essas edições.

(EmpautaUFS) Como a Tribuna se formou em meio a turbulências da década de 80 (Diretas, censura) e consegui conquistar militantes em grande parte do país, inclusive em Juazeiro?

(AC): Ele é um jornal vinculado a um partido, mas com uma estrutura semelhante aos periódicos informativos e foi feito para ser vendido em bancas, mutirões e para a militância. Outro aspecto relevante é que o jornal de fato contribuiu para a organização do partido, pelo menos em Juazeiro. À época, em 1979 quando foi criado, o partido também se organizava em Juazeiro. Em todo o país, o partido estava em processo de organização, com a vinda de dirigentes que estavam exilados e que retornavam ao país.  Era um momento político em que a sociedade civil também encontrava formas de se organizar politicamente; o próprio país passava por um processo de distensão política, que consolidaria o fim do regime militar; havia greves, houve o fim do bipartidarismo, e luta por anistia política, por exemplo. Neste contexto, o partido precisava de um jornal que pudesse circular para um público grande e não somente o dos militantes, muito deles espalhados pelo país, construindo o partido nesse processo difícil. E, na época, havia também a Classe Operária, o órgão oficial do partido. Então, o que ocorre é que o próprio processo de organização do partido nesse período de distensão política se faz com a própria veiculação, distribuição do jornal. A importância do jornal é que, por meio, dele  irá circular um conjunto de informações que vão ser essenciais para que proliferasse uma cultura política, as idéias do partido. De certo modo o jornal conseguiu circular, e sobreviveu por nove ano porque também tinha uma proposta de trazer informações do mundo social e da cultura política do partido. Pelo menos, essas são hipóteses que temos trabalhado.

(EmpautaUFS) O que você diria aos jovens que estão no colégio, mas que pretendem seguir a profissão de jornalista?

(AC): Leiam jornais, assistam televisão e ouçam rádio. Para ser um bom jornalista, é preciso ser um bom leitor. Leitor de tudo. Leitor, sobretudo, crítico, um ouvinte com senso crítico e com opinião. Precisa-se também se identificar com o jornalismo e querer ser um bom jornalista.

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