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Cooperfec: Uma parceria que deu certo

Posted in Cidade, Economia by micheletavares on 03/12/2009

Sônia Maria Brito, presidente da Cooperfec (Foto: Elaine Casado)

Por Elaine Casado 

À presidente da cooperativa de confecção (Cooperfec) Sônia Maria de Brito, 50 anos, deve-se muita admiração. Retirante da cidade de Arapiraca (Alagoas) aos 12 anos e dona de uma alegria contagiante, é num galpão simples e necessitado de boas reformas que Sônia lidera o projeto iniciado pela Universidade Federal de Sergipe, que através da Unitrabalho, elaborou a idéia de viabilizar um curso de corte e costura em máquinas industriais para donas de casa do Conjunto Eduardo Gomes, localizado no município de São Cristóvão.  Através deste curso, as mulheres da comunidade, que apenas possuíam conhecimentos básicos de costura doméstica, puderam profissionalizar-se e assim, criar a Cooperfec, que há sete anos influencia de maneira significativa a vida das cooperadas e da própria comunidade.       

Empautaufs: Em que consiste a cooperativa?          

Sônia Maria de Brito: A cooperativa consiste em um projeto iniciado pela UFS, que disponibilizou para nós, donas de casa de baixa escolaridade e desempregadas do Eduardo Gomes, um curso profissionalizante de corte e costura em máquinas industriais com o intuito de montarmos uma cooperativa que pudesse auxiliar na nossa renda familiar. Além disso, aprendemos como trabalhar numa cooperativa e como utilizarmos o dinheiro que ganhamos em favor de todos e do próprio projeto.          

Empautaufs: Como o projeto chegou até vocês?          

SMB: A universidade começou divulgando nas paróquias e na associação de moradores do conjunto o curso de corte e costura, perguntando e recrutando as donas de casa que tinham interesse em aprender a manusear máquinas industriais. Como a maioria de nós tinha experiência em pequenos consertos de roupas utilizando a máquina doméstica, nos interessamos a participar do projeto.          

Empautaufs: Quantas pessoas trabalham atualmente na cooperativa?          

SMB: Hoje nós temos apenas quatro cooperadas no projeto. No início era 21 pessoas, inclusive um homem. No entanto, ao decorrer do trabalho a maioria dos integrantes deixou a cooperativa. Uns porque foram trabalhar em lugares que lhe rendessem um salário fixo, outros porque não sabiam trabalhar em conjunto. Além disso, algumas cooperadas que nos deixaram, levaram a experiência em máquinas industriais para trabalharem nas grandes fábricas.          

Empautaufs: De alguma forma a cooperativa melhorou a vida da comunidade…          

SMB: Eu creio que sim, pois a cooperativa acaba ajudando de certa forma as costureiras que trabalham de forma independente. Às vezes, quando elas não têm tempo ou não dão conta das encomendas e concertos que chegam até elas, somos indicadas por elas para tal concerto ou tal encomenda, pois como somos quatro, fazemos o serviço mais rápido, até mesmo na hora. Acaba sendo um trabalho de cooperação não só entre nós, mas entre toda a comunidade.          

Empautaufs: A universidade colaborou somente com os cursos profissionalizantes?          

SMB: Não, não. A UFS nos disponibilizou as máquinas de costura e também o espaço em que trabalhamos. Juntamente com a Unitrabalho, eles nos ajudaram a montar a cooperativa e arranjar o espaço para dispormos as máquinas.          

Empautaufs: O que mudou na vida da senhora com a chegada da cooperativa?          

SMB: Em termos financeiros não mudou muita coisa. Sempre tive a experiência de trabalhar como autônoma e por isso os ganhos não são muito diferentes. No entanto, acho que o que realmente mudou para mim é que aprendi a trabalhar em equipe, a conhecer e saber lidar com as diferenças. O que me deixa mais apreensiva hoje é saber que eu não conseguiria mais trabalhar sozinha. Eu aprendi com o cooperativismo que trabalhar em conjunto dá certo.          

Empautaufs: Mas a cooperativa já deve ter passado por muitos problemas…          

SMB: Sim, com certeza. Nós já passamos por vários problemas, mas creio que o maior problema que tivemos não foi a dificuldade de conseguir manter o projeto de pé por falta de capital de giro ou pelos meses em que temos pouco serviço ou encomendas. Acho que a principal barreira que já tivemos e ainda temos é saber lidar com as diferenças. Numa cooperativa, é muito difícil fazer com que todos tenham as mesmas idéias, pois cada um possui modos distintos de ver a vida.          

  

  O ser humano tem muita dificuldade de trabalhar em conjunto porque é educado para servir a um patrão.           

 Empautaufs: A senhora já pensou alguma vez em desistir do projeto?         

 SMB: Várias vezes. A própria dificuldade de lidar com as divergências já me fez pensar em desistir. Mas no final eu sempre paro e vejo que tudo isso, mesmo com todas as dificuldades, vale a pena e é por acreditar que trabalhar em conjunto é possível que continuo nesta luta.          

 Empautaufs: Entre ganhos e gastos, a cooperativa consegue se sustentar sem problemas?          

 SMB: Como somos quatro cooperadas, dos ganhos que temos com os serviços são retirados as despesas com energia e aluguel do espaço, que mensalmente giram em torno de duzentos reais e o restante é repartido igualmente entre cada uma de nós. Como toda microempresa, passamos sim por problemas financeiros, principalmente nos meses em que tempos pouco serviço, normalmente em janeiro, fevereiro. Meses como novembro e dezembro para nós são sempre muito corridos, pois como é a época do natal freqüentemente chegam novas encomendas e concertos. No entanto, mesmo naqueles meses em que quase não temos serviço, sempre conseguimos pagar nossas despesas.          

Empautaufs: A universidade contribui financeiramente com o projeto?          

SMB: A universidade juntamente com a unitrabalho nos um suporte mais gerencial do que propriamente financeiro. Eles nos ajudam no que diz respeito a questões de regulamentação, de leis em geral que não conhecemos e buscam nos auxiliar na divulgação do nosso produto, nos levando em feiras de artesanato, ou como recentemente, que nos levaram a expor e vender nossos produtos na Semana de Extensão da própria universidade. Além disso, tentam buscar novos clientes para nós.          

 Empautaufs: Como é a relação que a universidade mantém com vocês? Cobram algum tipo de prestação de contas?          

 SMB: O que eles fazem é querer saber como anda a cooperativa. Eles não perguntam diretamente quanto gastamos ou quantos ganhamos, mas procuram saber se o projeto ainda está funcionando corretamente, se estamos necessitando de alguma coisa. Enquanto tiver pessoas trabalhando e tendo alguma renda com a cooperativa, eles deixam o projeto de pé.          

 Empautaufs: Em sete anos de existência, qual foi o caso que mais marcou a senhora na Cooperfec?          

 SMB: Lembro-me de um agora que marcou não somente a mim, mas a todas as nós da cooperativa. Já passamos por cada uma… Há dois anos, o espaço em que trabalhávamos e deixávamos as máquinas de costura era de propriedade de um ex-prefeito daqui do município. Durante o seu mandato, a universidade havia feito um acordo com ele em ceder aquele espaço para nós trabalharmos e dispormos nossas máquinas durante certo período. No entanto, com o final de seu governo, ele achou por bem quebrar o acordo e cedeu o espaço para outro indivíduo. Ficamos sem ter onde trabalhar. Até que a unitrabalho o procurou para resolver a situação e ele se dispôs a pagar o aluguel de outro espaço para nos organizarmos. Porém, mais uma vez, ele quebrou a promessa e não saldou a dívida dos dois últimos meses de aluguel que era de sua responsabilidade. Resultado: como não tínhamos o dinheiro para pagar, a dona do espaço colocou pistoleiros em nosso encalço cobrando a dívida. Por sorte, a história foi parar nos ouvidos de um amigo meu que, na época tinha grande influência e hoje se tornou deputado. Ele saldou a dívida para nós e logo após, conseguimos outro espaço para colocarmos as máquinas. Pra você ver que mesmo depois de tudo isso ainda continuo nesta luta porque gosto e acredito que pode dar certo.            

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