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“Maconha, cocaína e zidane” ou “Por onde anda Esperança?”

Posted in Perfil by micheletavares on 03/12/2009

por André Teixeira

Esperança: uma sombra fugaz na parede encardida do dia-a-dia.

Da primeira vez que vi-a, pediu: “Tio me dá um real?”. Eram quase 23h00. Magra, cabelos desgrenhados, roupa suja e gasta, no máximo 12 anos. Sustentava um sorriso no rosto que cri falso. Era o primeiro contato que tinha com a quase sempre descalça Esperança. Pensei, ainda sem saber sua história: “não deve ter pais essa criança”.

Da segunda vez não era o horário impróprio, eram as companhias e, por conseguinte, o lugar. Explico: se ela estivesse lá, sozinha, sem problema. Mas ela estava acompanhada pelo pessoal do tráfico. Éééééééé, tráfico sim! Maconha, cocaína e crack, ou, no popular, preto, branco e zidane. Fumava um pacaio em papel chumbo, daqueles de saco de pão. “Que cigarro é esse menina?” “É de bia de cigarro” (bia é a famosa e parece que em desuso forma de se dizer ‘bituca’). Depois disso não conseguia entender o que ela falava. Eu quis saber mais daquela. Seria a minha entrevistada, pensei. “Posso te entrevistar?”. “Ôxe, entrevista pra quê?” “Pra um trabalho da escola”. “Deixe dessa!”, desconversou e saiu de fininho com andar meio de malandro. Entrei na padaria, que fica na esquina da rua da boca de fumo, e fui comprar pão e leite.

Da terceira vez, já tinha passado o prazo para a entrevista inclusive, encontrei-a na minha casa, numa fala da minha mãe: “A filha de finado Fulano está perdida! Viciada em tóxico que nem a mãe”. “E onde está a mãe dela?” “Tá presa. Parece que foi tráfico”. Até então não sabia que se tratavam da mesma pessoa. Perguntei “Como é essa menina?” “Assim, assim, assado…” Era ela. E eu já tinha ouvido falar da “Filha perdida de finado Fulano”.

Seu pai, que morreu no final do ano passado de doenças proporcionada por uma série de vícios e desregramentos. Fora meu colega do primário. A mãe, com quem muito se parece, está presa por tráfico de drogas agregado a outros menores delitos. Cumpre pena há mais de dois anos, o que lhe proporcionara uma desintoxicação à força. Sorte essa que não teve sua filha. A vizinhança fala com a bocarra comum a toda vizinhança: “O remedinho dela é o zidane”. “Parece que é de família… tal mãe tal filha”. “Meu filho, essa aí é uma perdida, a vó não dá conta… perdida mesmo”. Eis o famoso senso comum. Lembrei de Pessoa na pessoa do Álvaro de Campos em ‘Tabacaria‘:

Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?)’

Encontrei-a mais duas vezes. Em ambas ela pediu dinheiro. Estava esmolando em um semáforo da cidade, igualzinha a outras crianças da mesma idade, em qualquer outra cidade. “Oi!” me chamou, “Tem uma moedinha aí tio?”. Chamei-a para conversar. Sondei se podia ir falar com sua avó sobre ela. Estava diferente das outras vezes. Não conseguia ficar parada. “De duas uma: ou o bagulho ou sua ausência”, pensei. Perguntei “Você usa drogas?”. “Ôxe, que é isso tio, nem fumar eu fumo”, mentiu se esquecendo que eu a tinha visto fumar. “E esse dinheiro que você pede aí no sinal?” “É pra comprar comida tio. Me arranje cinqüenta centavos”. Neguei pois não concordo com esse tipo de caridade. Quis saber mais sobre ela, sobre a avó, sobre a mãe, mas seu trabalho a chamava. Gritava silencioso tons vermelhos o semáforo. Será que era pra próxima dose o dinheiro? Ou pra comida mesmo? Não sei. E se eu soubesse, o que saberia?!

Esperança, nome fictício pois protegido pelo ECA, é o retrato de cada uma dessas crianças, das de colo até as quase adultas.

Não tive oportunidade de lhe perguntar se estava mesmo “corrida” da Terra Dura. Se ela “dava banhos” em compradores da boca ou se já se prostituíra. Não pude repetir a pergunta “Você usa drogas?” Desde então não mais vi Esperança.

Detalhe da capa do livro "Eu, Christiane F." Os olhos são os mesmos. Quer seja na Alemanha ou aqui em Aracaju: vazios, imersos na montanha-russa da dependência química.

Uma resposta

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  1. Eloy said, on 04/12/2009 at 10:15 am

    Essa idéia de fazer um perfil de anônimo foi muito boa, ainda mais quando ele representa um monte de gente!


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