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Religião: fé e vocação

Posted in Religião by micheletavares on 07/12/2009

Por Cida Marinho

Com jeito simples, voz suave e paciente, percebe-se que Mônica Matos Santos é uma moça religiosa, mas é difícil acreditar que a jovem seja uma freira. Frente à freira e à jovem mulher, difícil foi decidir se deveria chamá-la de senhora ou você.

Mônica faz parte da Congregação de Santa Terezinha e na paróquia que leva o nome da Santa, localizada no bairro do Robalo, ajuda a comunidade no que é preciso, levando fé e solidariedade. Ela aceitou falar um pouco de sua vida e dos processos percorridos por uma jovem que tenha vocação para tornar-se freira.

(empautaufs): A senhora é de onde? E qual a sua idade?

Mônica Santos com a imagem de Santa Terezinha. Foto: Cida Marinho

(mms): Sou natural de Vitória, Espírito Santo. Tenho 26 anos.

(empautaufs): Há quanto tempo a senhora está nessa casa?

(mms): Há menos de um ano, cheguei entre janeiro e fevereiro (de2009).

(empautaufs): Como acontece a escolha da casa onde a freira vai residir?

(mms): Depende da congregação. Em algumas as irmãs fazem voto de estabilidade ou seja, elas são mandadas para algum lugar e lá ficam até morrer. Na nossa congregação temos um conselho geral formado por cinco irmãs que fazem as transferências a cada final de ano de acordo com as necessidades de cada comunidade.

Após cinco ou seis anos, as superioras solicitam a mudança por entenderem que as irmãs estão muito acostumadas. Se a gente fica muito tempo em um lugar, a gente começa a desfazer aquilo que fez, então é importante mudar.

Nossa congregação (Santa Terezinha) tem um trabalho pastoral — trabalhamos com as igrejas, paróquias e comunidades de base, e com educação. Então somos enviadas para algumas paróquias ou escolas de nossa congregação.

(empautaufs): As irmãs podem trabalhar fora? Não tem que fazer só trabalhos voluntários (sem remuneração)?

(mms): Pode trabalhar com a licença da superiora. Na maioria das vezes são trabalhos voluntários mas se alguma irmão tiver interesse em trabalhar ou estudar, isso pode ser conversado e negociado com a superiora.

(empautaufs): A senhora é bem jovem, há quanto tempo é freira?

(mms): Tem sete anos que estou na congregação mas estou perto dos três anos de professa. Que sou freira mesmo, tem dois anos e alguns meses.

(empautaufs): Quais são todos os passos para tornar-se freira?

(mms): Também varia entre as congregações. Na nossa, começamos com os encontros vocacionais. Quando a jovem sente algum desejo de fazer alguns encontros, de participar, de ficar mais próxima de Deus de forma radical, ela participa dos encontros que fazemos mensalmente.

Caso ela realmente decida optar por esse caminho, há uma casa chamada Cirantado, onde ela passará de um ano a seis meses, fazendo essa primeira experiência. A segunda etapa é o Postulantado e depois o Noviciado, que são dois anos — um ano canônico e outro nas comunidades, ou seja, um ano dentro da casa de formação e outro já nas comunidades trabalhando como as outras irmãs.

(empautaufs): Quanto tempo leva todo o processo?

(mms): De quatro a cinco anos. Depende de cada jovem, algumas são mais lentas no processo; algumas demonstram o desejo de forma mais espontânea, outras não.

(empautaufs): Pela sua experiência, muitas desistem nesse início?

(mms): Nem tanto no início, mas muitas desistem conforme vão percebendo que aquela não é a real vocação. Algumas optaram pelo caminho errado, outras se decepcionaram e não conseguiram superar. Depende de cada pessoa.

(empautaufs):  A senhora encontra-se em que posição no momento?

(mms): Estou no segundo ano de Juniorato. Ainda não sou professa perpétua.

(empautaufs): Há alguma obrigação específica para essa posição?

(mms): Não há obrigações específicas e sim regras que devem ser seguidas de acordo com a congregação, que são as regras de fidelidade e participar dos encontros da congregação. Não existem regras específicas para cada período.

Depois do segundo ano do Noviciado a moça já professa os primeiros votos, já é freira. São votos simples. Após cinco anos, professa para sempre.

(empautaufs): Quais são os votos?

(mms): São três votos: castidade, pobreza e obediência. Um pouco diferente dos padres que fazem apenas o de obediência, não fazem o de pobreza nem de castidade.

(empautaufs): Como descobriu sua vocação?

(mms): É uma longa história (risos). Eu nuca fui santa, sempre fui muito danada, sempre gostei de brincar, trabalhar, me divertir, trabalhar, namorar… tudo isso.

Sempre tive uma base religiosa muito forte na minha família. Eles não eram praticantes mas mandavam que eu praticasse, como aquele ditado faça o que eu digo mas não faça o que eu faço. Aos poucos, fui crescendo com o pessoal da igreja; eu me sentia bem onde estava porque meus amigos estavam ali, mas eu não sentia gosto pela igreja.

Na Igreja, eles foram percebendo que eu era muito comunicativa e tinha jeito para liderança, então me tornei coordenadora de grupos… Fui percebendo que não era coerente porque eu gostava de estar na igreja mas não gostava do que ela me proporcionava, por isso procurei ajuda. Seria uma incoerência de minha parte, eu era líder de grupo mas não achava que tinha capacidade para isso. Procurei um padre pedindo ajuda e de fato ele disse que esse comportamento não estava certo.

Mas pelo fato de eu ir me aprofundando na igreja por causa desse meu jeito de ver que eu não estava sendo coerente, estava sendo uma farisaica, fui me aprofundando nas coisas da igreja e fui tomando gosto, fui gostando das coisas de Deus. Foi um processo natural e lento, não foi de uma hora para outra.

Como fui tomando gosto pela igreja, já fui percebendo algo diferente em mim, agora quero estar mais na igreja do que em casa, alguma coisa tem de errado. Então procurei uma freira para conversar e ela disse que talvez fosse o surgimento de uma vocação e eu fui analisando com ela e com a ajuda de um padre, e fui vendo que realmente esse era o meu caminho; fui fazendo um discernimento vocacional.

E estou aqui, há sete anos nessa luta diária.

(empautaufs): Sua família nunca foi praticante da igreja. Eles aceitaram bem sua escolha?

(mms): Até hoje eles não aceitam muito bem (risos). Eles concordam porque se eu me sinto feliz, eles ficam felizes. Mas concordar, achar legal, não. Porque tem isso que de que você nunca mais vai namorar, nunca mais vai trabalhar como uma pessoa normal, seu trabalho não vai ser remunerado, e isso é, aparentemente, loucura para o mundo. Todas as pessoas acham que é meio por aí e minha família não é diferente, eles pensam assim também; mas se sentem felizes por eu estar feliz.

(empautaufs): E com seus amigos do passado, sofreu algum tipo de preconceito?

(mms): Com certeza! Tenho amigos que não quiseram que eu viesse. Outros não, outros me apoiaram, sabem como é essa vida. Os que não são de igreja (principalmente) acharam uma loucura, disseram que isso não era vida para mim. Até hoje tem uma ou duas pessoas que ainda dizem a mesma coisa, mas sabem que não tem como mudar porque realmente é isso o que eu quero.

(empautaufs): Existe alguma idade mínima para iniciar a preparação para ser freira?

(mms): Não existe uma idade mínima estipulada, mas a congregação tem preferência por jovens adolescente pelo fato de que uma pessoa mais adulta seja difícil de se trabalhar.

(empautaufs): Além dos votos, de que mais a moça deve abrir mão? Existe algum período de reclusão ou afastamento familiar?

(mms): Tem sim, no primeiro ano de Noviciato, o chamado ano canônico. O contato com as nossas famílias é restringido; poucas idas em casa e contato por telefone algumas vezes. Não é que nós tenhamos que nos separar de nossas famílias, e sim nos acostumarmos com a nossa nova vida. Então a congregação ( e toda a situação) pede que fiquemos um pouco mais afastadas, mas não que nos desliguemos totalmente.

(empautaufs): Há algumas freiras que usam uma aliança, há algum significado?

(mms): Tem sim, em algumas congregações a aliança é símbolo da profissão. Na nossa congregação, o símbolo da profissão perpétua é o cristo crucificado, o qual eu não tenho por ainda não ser professa perpétua, eu tenho apenas uma medalha, um distintivo que mostra a qual congregação eu pertenço.

Cada congregação tem seu distintivo. Na profissão simples eu recebo as constituições de nossa congregação (as regras que devemos seguir) e a medalha que é o símbolo distintivo.

(empautaufs): O hábito já não se usa mais? Qual o significado?

(mms): Hoje em dia a gente não usa mais. Ao longo do tempo, a gente foi percebendo que as freiras ficavam distante das pessoas e por causa da roupa foram recebendo certos privilégios por exemplo, se eu pegar um ônibus de hábito, todo mundo dá o lugar. Então para ficar mais perto das pessoas e mais acessível, a gente só usa em ocasiões especiais, grandes solenidades, festas da congregação. Não perdemos essa tradição.

(empautaufs): Quais as virtudes necessárias para quem quiser tornar-se freira?

(mms): O principal é o amor a Jesus Cristo e a igreja, é o que move tudo; o resto vem por conseqüência, é a opção que a gente faz pelos pobres, pela vida casta, pela obediência… tudo é conseqüência do amor a Jesus Cristo.

(empautaufs): A Igreja de Santa Terezinha é bastante ativa na comunidade, quais são as ações?

(mms): Aqui a gente trabalha com a pastoral da criança, com visitas domiciliares a famílias carentes, catequeses, grupos de oração e outras ações que vão surgindo conforme a necessidade.

(empautaufs): Conforme a senhora mencionou anteriormente, os padres não fazem voto de castidade. A Igreja Católica vem sofrendo bastante com escândalos de pedofilia e mesmo padres que mantem famílias.

Alguns católicos acreditam que os padres, a exemplo de outros lideres religiosos, poderiam ser casados diminuindo os escândalos e sem que isso os atrapalhasse em sua função. A senhora tem alguma opinião a respeito?

(mms): Tenho sim. Veja bem, o fato de que eles não possam casar não é um voto como o que nós fazemos solenemente, é uma opção. Mas há uma história por trás, eles não podem se casar pelo fato de que não poderiam se dedicar totalmente à Igreja e totalmente a uma família.

Pode acontecer de um padre estar celebrando e a família estar precisando dele em casa. A pessoa deve estar de forma integral no que opta, tanto na família quanto na Igreja. Se o padre casa, fica mais difícil ter uma vida disponível aos paroquianos.

Quanto aos escândalos, não podemos generalizar. A gente sabe que alguns padres fazem isso, não toda a Igreja. Muitos padres e freiras são corretos, outros não. Os padres que fazem isso não conseguiram superar um momento de fraqueza ou procurar ajuda, mas isso não pode ser generalizado. Se eles não conseguem seguir em frente com sua opção tem que desistir. Mas alguns são teimosos. São seres humanos!

(empautaufs):  A senhora está plenamente satisfeita com sua escolha?

(mms): Com certeza! A gente tem que ser fiel àquilo que a gente escolhe. Foi uma coisa medida e pensada, não foi algo momentâneo; isso faz com que eu tenha certeza daquilo que eu quero e que eu seja feliz naquilo que eu escolhi.

Se eu tivesse optado pelo casamento, procuraria ser fiel ao meu casamento, como optei pela vida religiosa, busco ser fiel à vida religiosa. E estou muito feliz!

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