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É VERÃO ABAIXO DOS TRÓPICOS

Posted in Economia, Saúde by micheletavares on 28/01/2010

A temporada de férias escolares, dias longos e temperaturas altas atrai muita gente às praias, criando um comércio característico, variado e perigoso.

Por Cida Marinho

 

Não há espaço mais democrático que as areias das praias. Gente de toda classe social se rende ao mar na busca de um refresco durante o verão. Em Aracaju, como na maioria das cidades litorâneas, é possível aproveitar o dia nas mesas de um restaurante à beira-mar ou jogado na areia. O comércio informal nesse período é muito forte e diversificado, serve a quem quer matar a fome, a quem esqueceu os óculos ou protetor e até a quem quer comprar uma lembrancinha de verão.

Entre 1998 e 2008, o DIEESE- Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos constatou que o emprego com carteira assinada no país cresceu, apesar das crises econômicas atravessadas durante o período.

Sr. Durval prestes a encarar mais uma jornada de trabalho na praia de Atalaia. Foto: Cida Marinho.

 Entretanto esse crescimento não impede o aumento de assalariados sem carteira assinada. Estima-se que 20% dos assalariados não desfrutem dos benefícios garantidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Esse estudo realizado pela DIEESE não identifica um aumento anual, sem destaque para a temporada de verão, entretanto, é possível perceber o impacto que essa temporada tem na pesquisa.

Trabalhar por conta própria sem ter a carteira assinada, além de necessidade, acaba sendo a opção de muitos

brasileiros, como o Sr. Durval Moisés dos Santos, de 46 anos. Há 12 anos Durval vende amendoim nas praias de Aracaju, ele garante que trabalhar de forma autônoma é uma opção “Tem muitos empregos por aí que nem valem à pena, é melhor ficar assim mesmo”. Durval fala baseado em experiências alheias, já que ele próprio nunca teve um emprego formal. Fernando Dias de 32 anos já teve empregos formais e há pouco mais de dois anos optou pela informalidade, vendendo óculos de sol nas praias “Eu trabalhava no comércio e vendia coisas na praia com minha mãe no domingo. Depois eu fui demitido e vivo só disso aqui”.

Óculos e amendoins são só alguns produtos comercializados nas praias. VER QUADRO 1 ABAIXO. Apesar da procura pelos produtos nas areias ser mais forte no verão, o aumento na lucratividade não é tão alto “Pra quem tem família pra sustentar, não sobra muita coisa” garante Durval que já pensa no inverno, quando a procura diminui e ele tem que partir para vender o produto em outras praças.

 

RISCOS

O comércio informal de produtos falsificados mantem-se durante todo o ano graças ao interesse que as pessoas tem em adquirir produtos com etiquetas de marcas importadas (mesmo sabendo que são falsas). Durante o verão os óculos de sol falsificados tem procura ainda maior, especialmente pela facilidade de serem adquiridos nas praias; o produto certo no local certo.

Quem adquire esses produtos pensa no baixo custo e na estética, esquecendo-se da qualidade. O perigo no uso contínuo de lentes sem proteção aos raios ultravioletas agrava-se nessa época do ano. Ao estarem cobertas por lentes escuras, as pupilas dilatam-se, permitindo a entrada de mais raios solares, prejudiciais à saúde da visão, como explicou o oftalmologista Joel Carvalho em entrevista recente ao Portal Infonet.

A não comprovação da qualidade de produtos pode ser identificada também no comércio de descolorantes, bronzeadores e protetores solares. Muitos desses produtos são contrabandeados ou manipulados. Não há ambulante que admita, mas há quem coloque produtos genéricos em frascos de marcas conhecidas e bem posicionadas no mercado. Mais uma vez a clientela é atraída pelo baixo custo, mas e a qualidade?

A comerciante Marly do Nascimento de 42 anos, é freqüentadora da praia de Atalaia e consumidora assídua de todo tipo de comércio ambulante, principalmente dos descolorantes. “A gente compra sempre e nunca teve problema de nada”. Na verdade a Sra. Marly apresenta algumas manchas de sol “Praia, né? É normal”.

ALIMENTAÇÃO

Para os produtos alimentícios, os riscos à saúde são ainda mais graves. O calor do sol, por si só, já é capaz de interferir na química dos alimentos e alterar a qualidade do produto a ser ingerido. Além disso, a preparação ou armazenagem dos alimentos não passa por qualquer vistoria da vigilância sanitária, não há como garantir a boa procedência dos produtos. O Sr. Durval, vendedor de amendoim não prepara o produto “Já compro preparado, mas é sequinho, de boa qualidade”.

Entre os anos de 1999 e 2007, o Ministério da Saúde constatou, através de pesquisa, que 114 mil brasileiros tiveram algum tipo de contaminação alimentar. Não é mera coincidência a constatação de que a maior parte das contaminações ocorreu entre os meses de Janeiro e Março. Não coloquemos toda a culpa nos vendedores ambulantes, contaminações alimentares ocorrem pela manipulação e armazenamentos incorretos de alimentos, o que bem pode acontecer dentro de casa.

Mas é fato que os alimentos comercializados livremente nas praias vão de encontro a alguns princípios que o Ministério da Saúde apresenta para a manutenção de uma alimentação saudável, como demonstrado abaixo.

  • Reduza o consumo de alimentos e bebidas concentrados em gorduras, açúcar e sal. Consulte a tabela de informação nutricional dos rótulos dos alimentos e compare-os para ajudar na escolha de alimentos mais saudáveis. Escolha aqueles com menores percentuais de gorduras, açúcar e sódio.
  • Use pequenas quantidades de óleo vegetal quando cozinhar. Prefira formas de preparo que utilizam pouca quantidade de óleo, como assados, cozidos, ensopados, grelhados. Evite frituras.
    Use água tratada ou fervida e filtrada para beber e para preparar refeições e sucos ou outras bebidas.
  • Ao manipular os alimentos, siga as normas básicas de higiene na hora da compra, da preparação, da conservação e do consumo de alimentos.

 

 Os produtos comercializados durante o verão são feitos em residências por pessoas de classe baixa, sem qualquer conhecimento em nutrição e muitas vezes sem acesso a água própria para consumo. Nem mesmo as pequenas fábricas de picolés e sorvetes apresentam essa importante informação. Como esperar que esses produtos apresentem embalagens com tabelas nutricionais ou que tenham alguma garantia de salubridade?

 SALMONELLA

As bactérias são responsáveis por quase 85% das contaminações alimentares, a salmonela é a mais conhecida.

Cada alimento possui um tempo e temperatura de cocção adequados, após o preparo, os alimentos devem ser bem armazenados e mantidos em temperatura adequada para que as bactérias não se proliferem. Nas praias, sobre o sol forte, a temperatura adequada de cada alimento raramente é respeitada.

A salmonela é comum em ovos, peixes, leite e maionese caseira, produtos facilmente encontrados para consumo nas praias. Água contaminada também está na lista.

Previna-se! É possível aproveitar o verão de forma saudável sem gastar muito. A responsabilidade pela sua saúde é sua.

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