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Onde você deixa seu filho quando vai trabalhar?

Posted in Educação by micheletavares on 11/05/2010

Cresce a procura por creches devido ao aumento da participação feminina no mercado de trabalho

Por: Lorena Larissa

 

 

Andressa Rosa e sua filha Maria de Fátima Foto: Lorena Larissa

Todos os dias são assim: a pequena Maria de Fátima, 5 anos, passa o dia todo na creche e a mãe, Andressa Rosa que trabalha como diarista das 8h30 às 16h30, diz estar acostumada com esta rotina apesar de sentir muita falta da filha. Mas ela não tem outra opção já que precisa trabalhar para garantir o sustento da família.“Minha filha esta aqui na creche desde os quatro mêses de idade porque eu não tenho com quem deixá-la e essa foi a única opção que eu encontrei para poder trabalhar. Saudade a gente sente né, mais fazer o quê? O bom é que ela gosta de vir pra cá, gosta das ‘tias’, dos coleguinhas de sala e eu também não tenho do que reclamar, só tenho a falar coisas boas daqui”, diz ela.

Assim como Andressa, são muitas as mães que vivenciam esta mesma situação em nosso país, que força um grande contingente de mulheres a ausentar-se de casa para contribuir com o sustento familiar. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a força de trabalho feminina passou de 2,8 milhões para 22,8 milhões de pessoas entre 1940-1990, aumentando sua participação na população ativa do país de 19% para 35,5%. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) mostra que de 1989 até 1996 essa taxa cresceu aproximadamente 8,9%.

A maioria das mães que deixa seus filhos em creches é formada por mulheres que trabalham como empregadas domésticas, muitas delas ao menos possuem o ensino fundamental ou médio completo. As crianças são descritas como oriundas de classe social de baixa renda com carências afetivas, alimentares, culturais, emocionais e de lazer. Segundo Maria de Lourdes Santana, coordenadora e voluntária da creche Dom José Vicente Távora, a grande maioria das famílias atendidas pela instituição são da grande Aracaju (Laranjeiras, Riachuelo, São Cristovão). “Geralmente são crianças de origens humildes, muitas moram em vilas ou em habitações de apenas dois cômodos. São frutos de famílias desestruturadas, meninos criados por mães solteiras ou pela avó, ausentes da figura paterna, são vitimas de maus tratos, passam ou já passaram fome enfim, crianças carentes de um afeto, atenção, compreensão”, explica ela.

Foto: Lorena Larissa

A creche Dom Távora é uma instituição filantrópica que atende crianças de dois a cinco anos de idade, e juntamente com a Escola Estadual Euvaldo Diniz Gonçalves (crianças de seis a nove anos) oferece cuidados e educação aos filhos de mães que trabalham o dia inteiro, resolvendo assim o problema desses pais que não tem com quem deixar essas crianças. Hoje a creche atende a cerca de 180 crianças, é equipada com oito salas de aula, banheiros, quadra de esporte, cozinha, refeitório, almoxarifado, além do pátio onde os pequenos podem brincar, ver televisão, correr, pular amarelinha, etc. Em relação às vagas a diretora diferentemente do que estamos acostumados a ver no nosso país, afirma não ter problemas quanto a isso: “A creche está voltada para a mãe que trabalha, se for doméstica  traga uma declaração, se não for apresenta a carteira de trabalho, se existir vaga, o que acontece na maioria das vezes, a matricula logo é feita.”

Capacitação do Profissional

A questão da habilitação adequada do professor que atua nas creches é um dos pontos prioritários para quem vai procurar uma creche, tendo em vista a sua especificidade. Ainda hoje, no que diz respeito à formação dos professores na Educação Infantil, temos uma situação bastante complexa. Em termos de números, há ainda uma parcela de profissionais que atuam na Educação Infantil com a formação abaixo da desejada: incluindo o meio urbano e rural, temos de um total de 94.038 profissionais de creche,  1,2% (1.204) com o fundamental incompleto e 3,9% (3.714) com o fundamental completo. Nas pré-escolas, de um total de 309.881 profissionais, também incluindo o meio urbano e rural, são 0,3% (1.173) com o fundamental incompleto e 1,6% (5.170) com o fundamental completo. O que conseqüentemente só compromete a qualidade das ações desenvolvidas com e para as crianças, evidenciando também um descompromisso das políticas públicas com o exercício de uma profissão das mais importantes: o de professor (a) de crianças de até 6 anos. De acordo com o Censo Demográfico de 2000 do total de 15.756 docentes atuando em creches do nordeste, 874 possuíam ensino fundamental incompleto, 1.649 ensino fundamental completo, 12.070 médio completo e 1.163 superior completo, o que configura que cerca de 14% das funções docentes que atuam em creches no Brasil têm formação inferior ao ensino médio. Na creche Dom Távora os auxiliares contratados são todos estudantes de pedagogia nível superior não completo, e os professores do estado são todos pós- graduados.

Rotina de uma Creche e relacionamento com os pais

O que norteia a rotina diária de uma creche é a prática pedagógica adotada por ela. Cada elemento da rotina pretende proporcionar à criança uma experiência diferente, alternando entre atividades calmas e agitadas, individuais ou grupais. A educadora relata que a creche funciona em período integral, de segunda a sexta-feira. Em geral, as crianças chegam por volta das sete horas da manhã, e já vêm alimentadas de casa. Às nove horas eles lancham e vão para as atividades pedagógicas, às nove e meia todos tomam banho, escovam os dentes, vestem a roupinha e as onze vão para o refeitório almoçar. Logo após, vão para a sala onde dormem até as 13h30. Quando acordam lancham um suco, uma fruta e vão para as oficinas. A mesma consiste em aulas de ballet, música, pintura, aulas de educação infantil, religião, etc. Depois das oficinas eles trocam de roupa, jantam e vão para casa.

Foto: Lorena Larissa

O relacionamento da creche com os pais é de extrema importância. “São feitas reuniões pelo menos uma vez por mês com a presença de palestrantes que abordam temas diversos. Além disso contamos com o auxilio do conselho tutelar que ajuda a trabalhar com esses pais, para que haja uma conscientização das regras, principalmente no que diz respeito ao horário de entrada e saída dos alunos”, relata a diretora. É claro que é fundamental que exista uma interação entre a creche e a família, que as tarefas realizadas com as crianças sejam conhecidas e que os convites para a participação de determinadas atividades sejam atendidos pela família. Contudo, embora a comunicação seja freqüente, ainda não existe uma real integração creche- família, até mesmo por que muitos desses pais não têm tempo para ir nesses encontros, por conta de seus serviços.

Foto: Lorena Larissa

Problemáticas e o voluntariado

Vale ressaltar ainda as diversas problemáticas enfrentadas pelas creches do nosso estado. A necessidade de recursos materiais, humanos e financeiros são os principais pontos citados por Maria de Lourdes, coordenadora de uma dessas instituições. Ela sonha com a ampliação da creche e com a construção de um dormitório para as crianças que atualmente dormem em colchonetes espalhados pela sala, para proporcionar maior conforto e dignidade a essas crianças que ela trata como verdadeiros filhos. A diretora acredita que a educação na primeira infância é a base de tudo e que quando se dá uma educação desde cedo, é menos um na rua. “O poder público deveria investir mais na educação. Se cada um fizesse um pouquinho e se os governantes investissem mais nesses pequenos, amanhã pouco precisaria se investir tanto em presídios”, desabafa.

É importante notar que as instituições reconhecem a necessidade de inserir, em seu quadro de funcionários, profissionais de nível superior de várias especialidades tais como: psicólogos, pedagogos, assistentes sociais, nutricionistas e etc, para um melhor funcionamento de suas atividades. A Creche Dom Távora conta com a presença de uma pediatra e de uma psicóloga, todas voluntárias, mais ainda não tem uma nutricionista. A diretora relata a necessidade de se ter um cardápio, já que é ela, os professores e as próprias cozinheiras que montam o cardápio de acordo com o que se tem: “ A nutricionista aqui somos nós”, comenta.

A creche também conta com a presença de voluntários que ajudam na rotina da instituição Um estudante de economia da Universidade Federal de Sergipe que prefere não se identificar, é voluntario há três meses e diz desenvolver atividades recreativas com as crianças três dias na semana. Ele dá aulas de cidadania justamente para mudar a rotina de suas atividades didáticas. “Pelo que eu percebi, eles tinham uma vivência na comunidade em que eles moram que não é de muito bom agrado: muitas danças, mania de colocar apelidos, brincadeiras violentas para eles era muito normal. E eu como fiquei assustado com isso comecei a tentar ‘melhorá-los’, eu estou fazendo a minha parte e acho que não adianta você reclamar tanto do governo e da própria sociedade se você não faz nada para mudar o futuro das nossas crianças”, finaliza.

Foto: Lorena Larissa

Assim como Maria de Fátima, muitas outras crianças dividem a mesma experiência e a mesma carência afetiva. As crianças da creche expressam comportamentos variados e surpreendentes. Um fato muito comum quando se chega um visitante é que as crianças saem correndo ao seu encontro, puxam assunto, mostram um machucado, chamam para brincar, elas adoram abraçar, beijar e sentar no colo dos adultos, e em questão de segundos esses se tornam seus ‘tios’ e ‘tias’. Neste momento, esses pequenos em geral estão querendo além de uma atenção especial serem ‘tocados’. Qual criança não gosta de colo e aconchego? Esses meninos e meninas expressam-se como crianças capazes e disponíveis de oferecer o afeto que parecem reivindicar. Por isso é necessário que a sociedade se questione: até que ponto essa ausência materna nos primeiros anos de vida influencia no comportamento e no futuro desenvolvimento emocional e social dessas crianças?

 

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Intercâmbio oferece um mundo de conhecimentos

Posted in Cultura by micheletavares on 10/05/2010

Diversos programas, diversos destinos, diversos benefícios. O intercâmbio ultrapassa barreiras, vai muito além de aperfeiçoar o idioma e descobrir uma nova cultura. É uma oportunidade única para o ser humano conhecer a si mesmo.


Por Tatianne Melo e Gustavo Carvalho

Ganhar conhecimento, apreciar diversos povos e culturas, praticar outra língua, viajar e se divertir, sem dúvidas fazem parte dos sonhos de muitas pessoas. O melhor de tudo isso, é que existe uma atividade que engloba todos esses desejos: o intercâmbio. Experiência que vai além da troca de país por um determinado período de tempo. O que muitos não sabem é que para esse tipo de viajem, que atrai principalmente os jovens, existem diversos programas. Dentre eles, intercâmbio cultural, universitário e profissional. Os destinos são inúmeros e antes do embarque é ideal que tudo seja planejado para que não ocorram decepções.

Agências

João de Seixas Dória, gerente da STB (Foto: Gustavo Carvalho)

Para aqueles que buscam fazer um intercâmbio cultural, é importante procurar uma agência de intercâmbio que identifique o perfil do cliente. Perceber suas preferências, seu estilo de vida, seus objetivos e desta forma indicar-lhe o programa e destino ideal. “Muitos chegam aqui e dizem: Eu quero fazer intercâmbio e não sabem para onde ir e quanto gastar”, revela o gerente da agência de intercâmbio Student Travel Bureau (STB – Aracaju), João de Seixas Dória. Porém não é tão fácil assim. Do desejo de viajar até a sua concretização ocorre um logo processo burocrático que inclui a escolha do país, cidade, curso, moradia, documentação. O período conhecido como “pré-embarque” transcorre de dois a três meses. Antes de viajar, o intercambista precisa conhecer seu destino, quais são os costumes do local. “Tem gente que gosta mais de balada, uns de conhecer a história do país, outros são aventureiros. Tudo isso influência na escolha do país e o período de estadia”, informa Marcele Leal, consultora de vendas da STB.

Os jovens sergipanos procuram cada vez mais as agências de intercâmbio em busca do seu sonho – uma viagem Internacional. Segundo dados da STB-Aracaju no ano passado, 80 pessoas viajaram pela agência e para o primeiro semestre deste ano, a estimativa é de 50 pessoas. Os destinos mais procurados por esses jovens são Canadá e Nova Zelândia. Os Estados Unidos, por sua vez, não predominam mais no mercado de intercâmbio, pois a entrada no país tornou-se difícil após os atentados terroristas. “O Canadá caiu no gosto brasileiro mais precisamente depois do 11 de setembro. É uma opção parecida com os Estados Unidos, com qualidade de vida maravilhosa, o dólar canadense é mais barato, além de não ter problemas com visto.”, declara Dória. Já na Nova Zelândia “terra dos esportes radicais” o intercambista pode permanecer até 90 dias e sem precisar obter o visto. A procura pelos países da Europa não é tão grande devido à alta cotação do euro e o custo de vida caro. No entanto, algumas pessoas procuram a Inglaterra e a Espanha.

Itaynnam Marinho, ex- Au Pair ( Foto: Gustavo Carvalho)

Os programas que mais atraem os estudantes são os que duram de um a dois meses, principalmente no período das férias, nos quais procura-se aperfeiçoar a língua estrangeira. Já para quem busca ficar mais tempo em outro país, o “High School” é muito procurado por ser um intercâmbio voltado para o estudo de uma parte ou de todo o ensino médio no exterior. Nesse programa, o intercambista mora em casas de famílias ou em alojamentos nas escolas. Outro programa de longa duração e uma ótima opção para quem quer gastar pouco é o “Big Sister Au Pair”. Tem duração de um ano, é exclusivo para moças, que moram com uma família e desempenham o papel de uma irmã mais velha para as crianças da casa e em seu tempo livre, pode estudar, conforme as regras do programa. Quase todas as despesas com a viagem são pagas pela família e ainda recebe um salário semanal. “O papel da Au Pair é ajudar, não é babá. Eu ficava com as crianças na hora que a os pais não estavam em casa, quando voltavam eram eles que cuidavam dos filhos. A família pagou tudo, escola, salário, seguro saúde e alimentação. O custo de uma Au Pair é muito baixo para eles. Jamais me arrependi, faria tudo de novo”, afirma Itaynnam Marinho, que morou um ano na França como Au Pair.

O estudante Flávio Figueiredo, experiente no assunto, já fez dois tipos de intercâmbio. Em 2006, estimulado por seu melhor amigo, cursou o “High School”. Flávio tinha 16 anos e estudava o segundo ano, mas não se intimidou em abandonar família e amigos por um ano para terminar o ensino médio em South Bend (EUA). “Foi difícil, pois sabia pouco inglês, tive que me esforçar bastante para poder me comunicar. Na escola tinha dificuldade para entender termos específicos, contudo dava pra acompanhar as aulas”, relata. Segundo Figueiredo, a experiência valeu muito a pena, além de aprimorar seu inglês, até hoje tem vínculos fortes com sua segunda família. Quatro anos depois, já na universidade, Flávio optou por ter uma experiência profissional em outro país. Procurou à sede paulista da Associação Internacional de Estudantes de Ciências Econômicas e Comerciais (AISEC), se empenhou, passou num criterioso processo de avaliação e conseguiu ser selecionado para ir à Rússia. Em Novosibursk, tinha como dever ensinar inglês a crianças, fazer palestras nas universidades e escolas sobre a cultura Brasileira. “Voltei para o Brasil com a sensação de missão comprida, foi uma experiência única, consegui mudar a imagem que muitos tinham da nossa nação”, revela.

Flávio Figueiredo, abaixado, e seus alunos russos ( Foto: Arquivo Pessoal)

O preço de um intercâmbio varia de acordo com a escolha do país, cidade e moradia. Pessoas que escolhem a Inglaterra pagam bem mais caro, pois a moeda do país a libra esterlina é considerada atualmente como a mais valorizada de todas as moedas, superando inclusive o euro e o dólar, sua cotação atual gira em torno de R$ 2,70. Hospedar-se em hotéis, flats e apartamentos encarecem o pacote, a acomodação mais procurada por quem faz um curso no exterior é a casa de família, nela o estudante tem a melhor oportunidade de estar em contato com a cultura, além de ser bem mais barato. “O valor de um intercâmbio, com hospedagem em casa de família, varia de acordo com o país e a cidade. Mas há um custo mínimo, que não inclui a passagem de avião. R$ 5 mil 1 mês, R$ 15 mil 6 meses e 28 mil 1 ano”, informa Izabel Souza, gerente da agência Education First – EF Aracaju.

Rotary

Paulo Gomes, presidente do Rotary ( Foto: Tatianne Melo)

Por tratar-se do menor estado do Brasil, poucos imaginam que Sergipe recebe a quatro anos seguidos intercambistas de diversos países. Através do Rotary – organização internacional, presente em mais de 200 países, sem fins lucrativos, que tem como objetivo reunir um grupo de pessoas dentro da sociedade para manter companheirismo – “No Brasil temos 38 distritos, nosso distrito, o 4390, engloba Sergipe, norte da Bahia, Alagoas e junto com distrito 4500 e 4720 formamos o Norbrex”, afirma o presidente da Comissão Distrital do Programa de Intercâmbio de Jovens do Rotary Club, Paulo Gomes. Atualmente, oito estudantes da Alemanha, Canadá, Dinamarca, Eslováquia, Estados Unidos, França e Finlândia participam do programa de longa duração de um ano, no estado.

A eslovaca Veronika Debreceniova, 18 anos, estudante do Rotary, mora há quase nove meses em Aracaju. A escolha do Brasil ocorreu por influência do coordenador do Rotary de sua cidade e de amigos que recomendaram o país. Veronika cursa o 3º ano do ensino médio só por experiência, uma vez que o governo da Eslováquia não reconhece seus estudos aqui. “Mesmo o governo não reconhecendo, frequento sempre as aulas, principalmente as de Português, Literatura, Geografia e História, através delas conheço mais do Brasil”, explica. A eslovaca veio para o Brasil sem saber o português, pois o Rotary não exige fluência no idioma do destino. “Os primeiros meses foram difíceis, minha primeira família sabia pouco o inglês, aprendi logo o português para me comunicar com eles”, diz. A estudante destaca que os brasileiros são mais abertos, calorosos e unidos em comparação com os eslovacos.

Veronika Debreceniova - a 1ª da direita para esquerda - com sua 2ª família brasileira ( Foto: Arquivo Pessoal)

No programa de longa duração do Rotary o jovem frequente a escola do país, participa das atividades do seu Clube Hospedeiro e mora com mais de uma família durante o ano. Cada estudante conta com o apoio de um conselheiro rotariano para ajudá-lo, um intermédio entre ele e a família. ”É um Intercâmbio sócio-cultural, envolve passeios e atividades sociais, os atuais intercambistas visitaram a instituição social Rosa Azul, no Santa Maria e plantaram árvores nativas”, completa Paulo Gomes. A família anfitriã é responsável pelos custos escolares, bem como os outros gastos, os custos que ficam por conta dos pais incluem basicamente taxas do Rotary, passagens aéreas, seguro saúde e contra acidentes, documentos de viagem (passaporte e vistos) e dinheiro para despesas (gerais, passeios e excursões), um preço aproximado de US$6 mil.

Somente jovens entre 15 a 16 anos podem candidatar-se a vagas para o programa de longa duração. A partir de 1º de maio até 31 de agosto estão abertas inscrições para o programa de longa duração 2011/2012. O candidato interessado preenche um formulário de inscrição, paga uma taxa de US$ 100, apresenta seu histórico escolar e não precisa pertencer ao Rotary. Uma comissão do Clube avalia o currículo do estudante, entrevista o candidato e sua família. Após todo o processo é realizada uma reunião com os selecionados que são informados quais as possibilidades de colocações existentes. O destino do jovem depende de sua classificação no processo de seleção, o primeiro colocado é o primeiro a escolher o país e assim sucessivamente. Os países disponíveis neste momento para o distrito de Sergipe são Alemanha, Canadá, Dinamarca, Eslováquia, Estados Unidos, França, Finlândia, México e Taiwan. Além do programa de longa duração existem outros programas dentro do Rotary como os de curta duração para jovens de 15 a 19 anos – estadias com famílias, excursões, colônia de férias e intercâmbios de novas gerações – o da amizade e o de estudos.

Intercambistas do Rotary, Norbrex ( Foto: Arquivo Pessoal)

Alexandre Souza, futuro intercambista ( Foto: Arquivo Pessoal)

O jovem Alexandre Souza, 17 anos, vive a expectativa da viagem rumo ao Canadá. Seu embarque está previsto para o final de julho deste ano. Embora sua preferência fosse a Alemanha, pois já possui fluência em inglês e queria aprender outra língua, ressalta que não quer com a viagem apenas aperfeiçoar o idioma. “O meu objetivo com o intercâmbio é crescer como pessoa e aprender varias coisas que não só acrescentarão no meu currículo, mas principalmente em minha vida. Coisas como me virar sozinho, encarar a solidão e sair de situação das quais nem de longe eu passaria aqui, cercado do cuidado dos meus pais. Aprender sobre mim, conhecer meus limites e saber quem eu sou”, conta Alexandre.

Universidades

Outro tipo de intercâmbio que cresce no estado é o universitário. A Universidade Federal de Sergipe (UFS) mantém atualmente dois convênios. O Brasil/França Ingénieur Technologie (BRAFITEC), iniciativa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior-CAPES, do Ministério da Educação do Brasil, com órgãos da França. No começo desse ano foram ofertadas quatro bolsas de estudos, com vários benefícios (Seguro Saúde, Auxilio instalação, Bolsa mensal, Passagem aérea) para alunos de Engenharia Mecânica da UFS com duração de um ano para estudar na França. “Em 2011 abriremos novamente edital para candidatura a bolsas de mobilidade acadêmica do BRAFITEC, com previsão no aumento de vagas”, declara a coordenação de Assuntos Internacionais de Capacitação Docente e Técnica – CICADT, Renata Mann.

Renata Mann, Coordenadora do CICADT (Foto: Tatianne Melo)

E o Mobility Network Europe-Southamerica: an Institutional Approach (Projeto Monesia), o Monesia é um projeto europeu que oferece bolsas de estudos para estudantes de graduação, mestrado e doutorado, pós-doutorandos. 20 Universidades da Europa, Brasil, Paraguai e Uruguai participam do projeto. Os benefícios são financiados pela Comissão Européia e incluem uma bolsa mensal, despesas com viagem, seguro e taxas acadêmicas. É obrigatório que o estudante tenha fluência básica no idioma do país que é pretendido o intercâmbio. Além disso, a UFS vem firmando convênios com cursinhos de línguas estrangeiras para ajudar no aprendizado destes idiomas. Seis alunos da instituição viajarão esse ano para Bélgica, Áustria, Espanha e Portugal. “Uma experiência internacional abre horizontes para os estudantes, os docentes. Até mesmo os servidores e técnicos administrativos podem participar dos intercâmbios. A Política atual da UFS é conseguir participar desses projetos consórcios onde a instituição ganha visibilidade em nível internacional”, finaliza Renata Mann.

Atualmente, a UFS recebe quatro estudantes franceses, três no curso de Comunicação Social e um no curso de Ciências Sociais, através de um convênio da universidade com a Université Lumière Lyon 2 e Institut d’Etudes Politiques de Lyon (IEP), coordenado pelo profº do departamento de Ciências Sociais, Paulo Neves. Gauthier Berthélémy é um deles, estudante do IEP está em Aracaju há nove meses. “Até agora valeu a pena, com certeza. Porque, seja para o Brasil ou qualquer lugar do mundo é sempre uma boa experiência sair do seu próprio país para conhecer outras coisas, outra cultura. Não é muito confortável, pois são muitas as diferenças, porém aprendi muitas coisas”, conta Gauthier. O Intercambista alega que apesar dele e outros franceses  receberem apoio do professor Paulo Neves, a reitoria não deu nenhum suporte e acompanhamento.

Gauthier Berthélémy ( Foto: Arquivo Pessoal)

“Quando chegamos aqui, demorou um mês para conseguirmos nos matricular e conhecer o reitor e os outros responsáveis por relações internacionais”, explica.

O intercâmbio universitário não está presente só nas universidades federais, a Universidade Tiradentes (UNIT) mantém convênio com as universidades de Valladolid na Espanha e Aveiro em Portugal, mas ainda busca ampliar suas relações internacionais com outras parcerias. A UNIT iniciou seu programa de intercambio entre Junho e Setembro de 2009, já enviou 19 estudantes e recebeu três. São abertas em média dez vagas por curso disponível, destas o aluno é classificado por nota, créditos cursados, participação em pesquisa, trabalhos e deve estar cursando o sexto ou sétimo período. O intercâmbio dura seis meses e todo custo é por conta do aluno que continua pagando sua mensalidade normalmente.

Independente do tipo de programa ou destino do intercambio, o importante é que o aluno se prepare e viaje disposto a descobrir novos horizontes, desvendar um pouco do mundo e de si mesmo. Além disso, a oportunidade é favorável a aprender uma língua, adquirir conhecimento ou experiência profissional, mas também conviver com pessoas completamente diferentes, ultrapassar desafios, oferecer seus conhecimentos e representar sua nação. Afinal o intercambio tem hora pra começar e pra acabar, como um sonho.


Medidas Pré-Embarque

Dicas

Obter passaporte (Departamento da Polícia Federal, no Aeroporto, Taxa: R$ 156,07)

Se você está interessando em fazer um intercâmbio, deve planejar tudo com pelo menos seis meses de antecedência. O sucesso do programa escolhido passa por este planejamento, uma etapa que deve ser considerada tão importante quanto o embarque

Visto (Cada país tem uma regra, Estados Unidos e Espanha somente concedem o visto com entrevista na embaixada ou consulado)

Investigue o destino antes de embarcar, tomando conhecimento sobre os costumes e as tradições de seu povo

Garantir o curso

Providencie seu passaporte com a máxima antecedência possível. A burocracia pode tornar o processo mais lento do que parece

Acomodação (Casa de família, albergue, hotel, etc.)

Verifique se o país que você vai visitar exige visto. Providencie a documentação para conseguí-lo com antecedência. Alguns países só têm representações diplomáticas em Brasília, o que significa mais tempo de espera

Seguro Saúde

Previna-se sempre fazendo uma assistência médica internacional, pois os médicos e hospitais são caríssimos e você poderá estar desprevenido numa emergência

Vacinas (Febre Amarela, sarampo… Mais informações http://www.anvisa.org.br)

Procure cartões ou passes especiais oferecidos por muitos países e cidades dando descontos para transportes e acomodações. Use transporte público sempre que possível

Embarque de menores (Menores de 18 anos podem viajar sozinhos, desde que apresentem autorização para embarque desacompanhados. Mais informações http://www.dpf.gov.br)

Os jovens podem ter vantagens e descontos especiais na maioria dos países, leve com você a Carteira Internacional de Estudante

Cartão de debito

Lembre-se que nos países do Hemisfério Norte as estações do ano são ao contrário do Brasil. Verão-Inverno, Inverno-Verão

Passagem Aérea

Lembre-se de que conhecer um lugar não é apenas comprar e tirar fotografias, mas comer sua comida, ver sua televisão, observar os hábitos do povo e fazer o que eles fazem para se divertir. Mergulhe no destino de corpo e alma para não se arrepender, depois, de ter perdido o melhor da festa


“Eu pensei que estivesse diante de alguém preparado”

Posted in Segurança Pública by micheletavares on 10/05/2010

Deixa a desejar: a falta de apoio psicológico e as precariedades no sistema de atendimento são refletidos nas vítimas e funcionários da Delegacia da Mulher de Aracaju. 

por Mariana Viana e Bruna Guimarães.

Delegacia do Grupo de Vulneráveis em Aracaju/SE / foto por Mariana Oliveira

 

A delegacia do grupo de vulneráveis recebe por dia cerca de 20 a 25 queixas de vítimas de violência doméstica, um número grande para a falta de assistência e estrutura do sistema de apoio a essas mulheres. É notável o esforço da delegacia para consegui atender a esta demanda que vem aumentando após a Lei Maria da Penha (implantada em 22 de setembro de 2006, nº. 11.340/06). Há uma deficiência no quadros de servidores, e mesmo assim estes não são capacitados para lidar com a fragilidade desta situação. 

De acordo com as delegadas Renata Aboim e Georlize Teles o relato do caso é feito apenas há uma pessoa, no caso a escrivã. Porém, a vítima Alessandra Serrão relata: “Eu gostaria que quando eu chegasse lá, tivessem me encaminhado a uma pessoa que fosse resolver meu problema e não eu ter que contar a minha história ao guarda, à atendente e à escrivã, por que você já tem vergonha, e chega lá você vai contar a sua história pra todo mundo e quem quiser escutar.” 

  1. Atendimento

Segundo a psicóloga, Jarbene Oliveira, esta exposição é prejudicial à vítima “Tem que ter o respeito à vítima, as informações, ao sigilo. A maior preocupação para a psicologia é em relação às informações e manutenção desse sigilo”, defende. Além da exposição, há também a problemática da falta de apoio psicológico na própria delegacia. Eles a encaminham ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) o que muitas vezes não resolve e a própria delegada Renata Aboim reconhece: “Quando a gente faz o encaminhamento para elas irem a esses centros, muitas vezes, elas não vão. Por dificuldades financeiras, locomoção, então elas acabam deixando isso para lá”. 

Psicóloga Jarbene Oliveira / Foto Bruna Guimarães

Um departamento que delega uma função que deveria ser sua responsabilidade a outros órgãos públicos, mostra que há muito a ser melhorado para que a vítima de violência doméstica se sinta acolhida de fato. Para a delegada Renata Aboim, o que falta para melhorar a realização dos atendimentos na delegacia, é que os atendimentos psicossociais fossem feitos ali mesmo. “O que existe além de um quadro de funcionários especialistas são policiais que tem a formação de assistente social, então no dia-a-dia, elas ajudam, mas o necessário era ter esses profissionais no quadro e o encaminhamento seria feito dentro da delegacia mesmo”, explica. 

O apoio psicológico não deve ser limitado somente à vítima, os funcionários deveriam ter um acompanhamento de rotina, pois eles convivem com uma realidade muito chocante que lida com o lado emocional. “Aqui mexe muito com o emocional dos servidores, não é raro um servidor se afastar daqui por problemas de ordem psicológica, de tanto assimilar essa carga emocional”, exemplifica a delegada e coordenadora geral do departamento do grupo de vulneráveis, Georlize Teles. 

2. Estrutura 

A delegacia é dividida para três setores: Violência contra Mulher, Criança e Adolescentes e Idosos. Apesar de serem setores diferenciados, isso acaba ajudando, pois quase sempre um está ligado ao outro e a interação entre elas é mais fácil: “O fato de ter três delegacias em uma, não dificulta, muito pelo contrário, porque muitas vezes, a mulher tem problemas com o agressor, e o problema, normalmente, é familiar, a gente trabalha aqui com violência doméstica, então ela é agredida, as crianças também são, então é interessante que tudo funcione junto, tem uma ligação mais fácil entre as delegacias”, defende a delegada Renata Aboim. 

As audiências são feitas na própria delegacia, o que acaba tumultuando ainda mais, pois não há uma organização ao ponto dessas audiências serem feitas no horário marcado, então acaba virando uma confusão. Mulheres e agressores no mesmo lugar, esperando a vez de serem chamados para tentar uma possível conciliação, ou esse agressores receberem um aviso. 

A vítima, Alessandra Serrão, conta sobre como foi a sua audiência na delegacia da Mulher em Aracaju: “Ela não era uma pessoa capacitada para estar ali, me fez sentir pior ainda, porque além dele ter mentido, ela não deixou em nenhum momento pra fazer nenhuma conversa lá fora, eu pensei que estivesse diante de alguém preparado, de uma juíza, não dizendo que a juíza é mais preparada, mas de alguém especialista no caso.” Sobre a aplicação da punição Alessandra reclama: “E na verdade o que a pessoa fez, como a Maria da Penha não estava em vigor, essa pessoa assinou um termo que não me ligaria, porque eu estava ali não pela agressão física e sim, pela psicológica, e em nenhum momento, a mulher fez alguma advertência, ele saiu de lá como se tivesse por cima”.

Delegada Georlize Teles / foto Bruna Guimarães

Para a delegada, Georlize Teles, o que acontece é diferente: “Num caso simples é feito registro e nós marcamos uma audiência com as partes, para que nós possamos entender o que está havendo e que as próprias partes possam entender o que está havendo, essa audiência é feita muitas das vezes por mediadores da unidade, que podem ser psicólogos, assistentes sociais ou alguém com formação jurídica ou nós, as delegadas, podemos atender.” 

A psicóloga, Jarbene Oliveira, não consegue entender a necessidade de a vítima se encontrar com o agressor para uma audiência de conciliação, mediada pela delegada. “Eu não entendo esse confronto, acredito que deveria existir um filtro, existem pessoas que há condição, mas percebo que isso é uma regra, geralmente colocam frente a frente na tentativa de uma das partes desistir. Deveria haver um psicólogo ou uma equipe multidisciplinar para avaliar se há a necessidade desse encontro, esse cara a cara”, defende. Na opinião da psicóloga, a vítima está na frente do agressor, é reviver o momento e com isso, não há redução de danos emocionais.

3. Vítimas e as conseqüências

As vítimas atendidas pela delegacia, na maioria dos casos, são da classe baixa. Vítimas das classes médias e altas são mais raras de aparecer para prestar uma queixa. Segundo a delegada, Georlize Teles, “a vítima de classe baixa chega aqui sem medo de dizer tudo que acha, sua postura é mais aberta. As de camadas superiores chegam com receios, são introvertidas, têm dificuldade de narrar o fato”, diz. A delegada explica os motivos que levam as vítimas de camadas sociais diferentes a terem comportamentos diferenciados. Isso deve-se ao fato de que as vítimas de camadas menos favorecidas já passarem por tanta negação em suas vidas:serviços públicos,saneamento básico, entre outros. Desta maneira essa vítima não tem medo de ser expor, enquanto a outra, de classe mais favorecida, estudou nas melhores escolas e está acima de qualquer suspeita de violência domestica. “A da periferia não, ela apanha no meio da rua, então pra ela dizer que apanha não é novidade, os vizinhos já sabem, ela é violentada desde o nascimento, então pra ela é mais um violência. Por isso esta mulher faz três, quatro denúncias, a outra não, quando faz é definitiva”, finaliza a delegada.

Foto retirada do Google.com

Muito dessa violência passa para os filhos e as conseqüências de vivenciar e presenciar esse tipo de atitude pode torná-los crianças problemáticas, já que há a influência do meio em que vive. “A criança está sendo criada num ambiente, onde tudo se resolve com violência, então quando essa criança tiver algum problema, ele irá resolver na base da violência, pois ele foi criado assim, ele aprendeu que é dessa forma e vai virar uma repetição do pai, pois ele internalizou aquilo”, defende a psicóloga.

Os reflexos da violência na mulher são muito variados, mas o principal deles é auto-estima baixa, o que pode acarretar em depressão. Algumas mulheres desenvolvem síndrome do pânico, porque tem a ideia de que estão sendo seguidas, ideias persecutórias (mania de perseguição), achando que o agressor pode está em qualquer lugar. “Elas começam a se isolar socialmente, não se permitem mais ir a uma praia, um shopping, elas não se reafirmam quanto mulher, os casos que mais se apresentam são os casos de depressão, síndrome do pânico, e tudo começa pela auto-estima em baixa”, diz a psicóloga.

Antes e depois da Lei Maria da Penha / por Mariana Oliveira

A lei Maria da Penha contribui para que causas envolvendo violência doméstica que antes não eram resolvidas, tivessem soluções e penalidades.Antes de entrar em vigor a pena era de seis meses a um ano,permitia penas alternativas e não havia prisão preventiva.Atualmente a pena é de três meses a três anos,quando houver risco à integridade física da mulher é decretado a prisão preventiva,e acabou com o absurdo das penas alternativas,que reduzia a dignidade e integridade da mulher em cestas básicas.

Além de estes novos recursos, a violência doméstica passar a ser agravante para pena e a mulher só pode desistir da denúncia numa audiência no juiz, legitimando assim a denuncia uma fez que feita.

O fato é que não adianta apenas a implementação de uma lei mais rígida, é preciso se criar estruturas para que esta seja válida não apenas na teoria e sim na prática. Com isso se faz necessário tornar a delegacia um centro de apoio a mulher, com funcionários capacitados, uma equipe multidisciplinar, composta por psicólogos e atendentes sociais. Além disto, seria interessante que o exame de corpo e delito fosse feito no próprio centro, e não mais uma vez encaminhar a vítima para o Instituto Médico Legal (IML). “Se existisse um IML dentro da própria delegacia, integrado a estrutura da delegacia, seria interessante, agora mesmo assim, deveria ter uma salinha mais reservada, enquanto grupo vulnerável existe a demanda para eles, no IML é o encontro de tudo de ruim. Seria interessante ter o IML funcionando ali”, afirma Jarbene Oliveira.

É perceptível que a problemática não se restringe à violência contra a mulher, mas passa pelos funcionários e se estende até a estrutura do próprio departamento “Então nós podemos estruturar, pensando em atingir um objetivo final, que é a melhoria de tudo isso, todas essas questões. Se a gente quer melhorar o todo, nós não podemos esquecer-nos da soma dessas partes”, defende a psicóloga. A Lei Maria da Penha é só uma batalha vencida dentro de uma guerra contra a violência doméstica, porém ainda há muito que ser conquistado, é preciso que vários setores da sociedade se estruturem e se mobilizem para que haja novas Marias da Penha.

Posted in Comportamento, Uncategorized by micheletavares on 10/05/2010

Projeto de Lei coloca Casamento Homossexual em pauta na sociedade

Desde que o projeto de lei 2285/2007 entrou em tramitação no Congresso Nacional, nunca foi tão evidente a discussão sobre a união Homoafetiva.

União Homossexual (Foto: www.jacasei.com.br)

 

Por Danilo Trindade e Taylane Cruz  

 

O atual artigo 226 da constituição federal de 1988 é evidente ao afirmar: “Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.”, mas, em nenhum momento a união entre pessoas do mesmo sexo é citada. Daí a necessidade de se criar uma lei que legalize a união entre casais homoafetivos.  

 No Brasil, a luta pelo reconhecimento da união civil entre homossexuais acontece desde 1995, com a apresentação do Projeto de Lei nº 1151, pela então deputada federal Marta Suplicy. A partir daí, os desafios não cessam. A comunidade GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e trangêneros) vem enfrentando barreiras sociais e derrubando argumentos estúpidos contra a legalização da união. Para muitos, a legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo seria uma ameaça à instituição do casamento, ou que casais homossexuais não possuem estabilidade para criar uma criança e que são, em sua maioria, promíscuos e vulneráveis em seus relacionamentos.  

Independente do preconceito, já tramita na câmara e no senado federal o Projeto de Lei 2285/2007 que institucionaliza a família homoafetiva, dando a ela os mesmos direitos da família heterossexual.  

Para mim, esse é o ponto mais latente da lei: dar ao casal homoafetivo a possibilidade de adotar um filho, constituir uma família legalmente protegida, com todos os direitos, tudo como numa família heterossexual.

  Desde 25 de outubro de 2007 começou a tramitar no Congresso e Senado Federal o Projeto de Lei que propõe uma revisão no judiciário em relação à família moderna. O projeto de autoria do deputado Sérgio Barradas Carneiro (PT-BA) é produto da reflexão de mais de dez anos no Instituto Brasileiro de Direito da Família  (IBDFam) que foi pensado, escrito e formatado por uma comunidade jurídica de quase quatro mil associados, entre os quais juristas, advogados, magistrados, membros do Ministério Público, professores de direito, psicólogos, psicanalistas e assistentes sociais.  

 O Projeto de Lei prevê para a União Homoafetiva no seu artigo 68: “É reconhecida como entidade familiar a união entre duas pessoas de mesmo sexo, que mantenham convivência pública, contínua, duradoura, com objetivo de constituição de família, aplicando-se, no que couber, as regras concernentes à união estável.”  

 Dentre os direitos assegurados, incluem-se: a guarda e convivência com os filhos; a adoção de filhos; direito previdenciário; direito à herança.  

 O advogado André Kazukas, professor de Direito da Universidade Federal de Sergipe  (UFS) explica que a grande diferença entre o Artigo 226 (constituição de 1988) e o Artigo 68 (projeto de lei) é a permissão de adoção, guarda e convivência com os filhos pelo casal.  “Para mim, esse é o ponto mais latente da lei: dar ao casal homoafetivo a possibilidade de adotar um filho, constituir uma família legalmente protegida, com todos os direitos, tudo como numa família heterossexual.”  

 

A justiça  

Estados Brasileiros em que a Justiça já foi favorável ao Casamento Homossexual. (arte: Danilo Trindade)

 Em seu discurso de posse, o novo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ministro Antonio Cezar Peloso, deixou o seu recado para que a sociedade brasileira se prepare para as decisões que serão tomadas. “Não pode a sociedade irredutivelmente dividida nas suas crenças, pedir-nos a esta Casa soluções peregrinas que satisfaçam todas as expectativas e reconcilie todas as consciências. Nosso compromisso nessa tarefa quase prosaica, cotidiana, é renovar o ato de fé na supremacia da legalidade democrática, na valência de uma ordem jurídica justa e nos grandes ideais humanitários consubstanciados no rol dos direitos fundamentais preservando e transmitindo como legado desta às futuras gerações os valores que tornam a vida humana uma experiência digna de ser vivida e como tais definem uma civilização”.  

 A decisão de tornar o casamento homoafetivo constitucional parece estar mais próximo do que se imagina. Recentemente, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconheceu, pela primeira vez, o direito de casais homossexuais a adotar filhos. A lei brasileira permite a adoção por solteiros, casados ou casais em união estável. Mesmo assim, Luciana Reis Maidana e Lídia Guteres, que vivem juntas há 13 anos, precisaram recorrer à justiça para poder compartilhar a guarda das crianças, que estavam registradas apenas no nome de Luciana.  

Por unanimidade, os ministros deram ganho de causa às duas mulheres. Para eles, a decisão de dar a guarda ao casal seria para garantir a segurança e o conforto das crianças.  

O julgamento foi considerado inovador pelos próprios ministros.  

 

Homossexualidade em cena  

 Tratar a homossexualidade sempre foi um tabu, uma questão delicada e, muitas vezes, “assunto proibido”. Graças à teledramaturgia, a situação começou a mudar. Na década de 70 a Rede Globo de Televisão lançou a novela “O Rebu”, de Bráulio Pedroso. Na trama, o milionário Conrad Mahler  (Ziembinski) tinha um caso “às escuras” com Cauê  (Buza Ferraz). Foi a primeira vez que o tema homossexualismo foi mostrado ao público em uma novela e na televisão brasileira.  

Cena da Novela Torre de Babel – Rede Globo/divulgação

Os anos passaram e no final dos anos 90 a emissora carioca retrata o homossexualismo e outros temas polêmicos na novela “Torre de Babel” de Silvio de Abreu. A Trama foi uma das mais polêmicas e a que teve a maior oscilação de audiência na história da emissora. A igreja católica chegou a afirmar na época que “Torre de Babel” ajudava a destruir os valores morais da sociedade. E assim, temendo ver o folhetim das oito horas ser tomado como o pior trabalho produzido pela Globo, o autor Silvio de Abreu resolveu explodir o shopping Tropical Towers – local fictício em que acontecia maior parte das gravações – e junto com ele os artistas que “levavam ao insucesso”. E nesse meio estava o casal homossexual Leila Sampaio (Sílvia Pfeifer) e Rafaela Katz (Christiane Torloni), além de outros personagens.  

 Algum tempo depois o homossexualismo passou a ser aceito nas tramas, se viesse na figura do cabeleireiro de socialite. Já nos primeiros anos do século XXI Agnaldo Silva resolve ressuscitar em “Senhora do Destino” o tema e ressaltando a adoção por casais gays.  

O homossexualismo foi até aceito, mas adoção… Essa foi o buchicho e as conversas de botequim, salões, ônibus e etc. Desta vez não foi preciso explodir nada para a novela ser um sucesso, até porque Agnaldo Silva conseguiu trabalhar o tema como ele queria e mostrar que é possível sim um casal gay adotar uma criança.  

Cena da Novela América – Rede Globo/Divulgação

Aproveitando a aceitação do público, a Rede Globo procurou, na novela seguinte, emplacar o beijo gay. A novela “América”, de Glória Perez, tentou trazer essa cena e a expectativa era grande. Ao mesmo tempo ninguém acreditava que tal cena seria exibida na emissora. E, realmente, a cena protagonizada por Bruno Gagliasso (Júnior) e Erom Cordeiro (Zeca) não passou de uma troca de olhares – nada de beijo – no último capítulo da trama.  

O beijo pode não ter acontecido, porém a aceitação para tratar da homossexualidade nas novelas e outros programas ganhou um grande impulso na sociedade brasileira.  

A datafolha lançou pesquisa sobre a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, em que mostrava que 53% entre os jovens de 16 a 24 anos são a favor da legalização do casamento, assim como 44% dos adultos entre 25 e 34 anos. Já 49% dos adultos na faixa de 35 a 44 anos são contra o casamento e esse número cresce com as pessoas com mais de 60 anos, as quais 62% são contra a prática.  

 

 Igrejas x homossexualismo  

arte: Danilo Trindade

  Num país de maioria católica como o Brasil, a aprovação da lei seria o fim do preconceito ou incitaria indignação e revolta para os mais fervorosos religiosos? Há religiões que já aceitam a união homoafetiva? Para esta segunda questão a resposta é: Sim! Existem, no Brasil e em países como Estados Unidos, Suécia e Canadá, igrejas que realizam a união entre pessoas do mesmo sexo (a Igreja Contemporânea, no Rio de Janeiro, por exemplo, e a Igreja Luterana Sueca). Quanto ao primeiro questionamento, a resposta é mais severa e irredutível.   

      Para a igreja católica (em artigo publicado pela Congregação para a Doutrina da fé) o respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homoafetivas. Reconhecer as uniões entre pessoas do mesmo sexo significaria aprovar um comportamento errado e, pior, convertê-lo num modelo para a sociedade, ofuscando os valores fundamentais que fazem parte do patrimônio comum da humanidade. A Igreja diz não poder abdicar de defender tais valores, para o bem dos homens e de toda a sociedade.  

 

Intolerância e violência  

      Além das barreiras impostas pela religião (a católica muito mais ferrenhamente), há ainda o radicalismo e a ignorância dos que praticam a homofobia. O termo é utilizado para identificar o ódio, a aversão ou a discriminação de uma pessoa contra homossexuais.  

     Grupos homofóbicos aterrorizam e até matam homossexuais por todo o país, fazendo do Brasil o campeão mundial em assassinatos de homossexuais. Mas a violência nem sempre é física.  

     Um caso mais recente e de destaque na mídia foi o da psicóloga Rozângela Alves Justino, no Rio de Janeiro, punida pelo Conselho Federal de Psicologia por tentar “curar” pessoas homossexuais que procuravam seu consultório, em clara discordância à Organização Mundial da Saúde que não considera a homossexualidade uma doença há anos.  

O preconceito é grande, as religiões resistem. Mas, para o advogado André Kazukas, a justiça e a sociedade avançaram bastante. “Estamos avançando e podemos avançar mais. O direito não pode se afastar da realidade. Se a relação homoafetiva é uma realidade social, o direito não pode deixar de autergar isso”, conclui.  

      

   

    

Trabalho infantil reflete uma marca do subdesenvolvimento

Posted in Cidade, Utilidade Pública by micheletavares on 10/05/2010

Existem cerca de 218 milhões de crianças trabalhando pelo mundO.  Em Aracaju, a realidade não é diferente.

Por: Adler Berbert e Verlane Estácio

O Artigo 60 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece: “É proibido qualquer trabalho a menores de 14 anos de idade, salvo na condição de aprendiz”. Apesar da lei, ao andar pelas ruas de Aracaju enxergamos uma triste realidade: crianças e adolescentes trabalhando. Mas o que conduz essas crianças ao mercado de ‘trabalho’ de forma tão precoce? E, qual a responsabilidade dos pais? Como o governo combate essa prática? São questões que ficam em evidência quando falamos sobre esse assunto.

Foto: Verlane Estácio ( imagem manipulada)

A exploração infantil é um problema constante dos países subdesenvolvidos, a última pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou que existem cerca de 218 milhões de crianças trabalhando ilegalmente no mundo, sendo que 95% se encontram nos países subdesenvolvidos. A principal causa desse problema é a alta porcentagem de desigualdade social, segundo o coeficiente de Gini, parâmetro internacionalmente usado para medir a concentração de renda, no Brasil 47% da renda concentra-se nas mãos dos 10% mais ricos, o que gera uma população de baixa renda sem acesso a educação de qualidade. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2009, indicou que no Brasil existem cerca de cinco milhões de crianças e adolescentes que trabalham para ajudar a família nas despesas de casa.

Na capital sergipana, ver uma criança trabalhando é algo comum. As principais áreas são as 27 feiras da cidade que após uma vistoria realizada pela Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania (SEMASC), em 2005, revelou um total de 826 crianças fazendo trabalho de adulto. No centro histórico e no mercado municipal também encontramos várias delas vendendo utensílios ou ajudando os pais nos seus estabelecimentos. Outros lugares comuns de encontrá-las são nos sinais de trânsito, limpando os pára-brisas, e nos ônibus, vendendo balas.

Foto : Verlane Estácio ( imagem manipulada)

“Eu trabalho para poder ajudar a minha mãe”, diz Mateus, 11 anos. Essa frase é o que mais ouvimos das crianças, elas afirmam que a família passa por necessidade, geralmente ocasionada pela grande quantidade de filhos. “Meu pai e minha mãe não tem dinheiro para dar para gente, aí eu trabalho para ganhar um pouco para mim e ajudar em casa”, conta João Paulo, 13, o mais velho de uma família de sete irmãos. Apesar de trabalharem a maioria afirma que estuda. “Eu trabalho de manhã e estudo de tarde, eu estudo para um dia poder ser doutor”, comenta Tadeu Felipe,12.

Dados do IBGE mostram que crianças que trabalham cedo podem apresentar sérios problemas de saúde, como lombalgia (dores nas costas), dores articulares (LER), dor de cabeça, dores abdominais, depressão, asma, desnutrição, infecção respiratória, alterações dermatológicas. Além destes males, os jovens em questão ficam muito mais sujeitos à violência e suscetíveis às drogas, interferindo diretamente no desenvolvimento físico, emocional e social destas crianças. Em relação ao seu emocional podem apresentar dificuldades para estabelecer relações afetivas, em virtude dos maus tratos sofridos. Por ter que trabalhar tão cedo, elas deixam de frequentar a escola, brincar com os amigos e viver sua infância, perdendo o convívio social com pessoas de sua idade. “Basicamente o principal dano a criança é uma ruptura com sua personalidade, utilizando como mecanismo de defesa o esquecimento. Daí surge o trauma. O trauma abre um espaço, uma fenda, lacuna para lembranças que remetam a agressão psicológica infantil, então a criança pode desenvolver inúmeros distúrbios: personalidade dissociativa ou múltipla, agressividade, psicose, psicopatia”, explica Maíra Góis, psicóloga.

A questão se torna ainda mais crítica quando se aborda os pais dos menores trabalhadores. “É muito fácil se julgar quando a pessoa não vive nossa realidade. Sou mãe solteira de cinco filhos”, revela Maria Aparecida Santos, feirante. Ao questionar os pais sobre o problema, encontramos uma situação ainda pior: a falta de medidas realmente eficazes por parte do governo. “Os programas do governo não são tão bons, no fundo nós ainda passamos por dificuldade”, conta Maria. Outro problema é a ausência constante nas aulas das crianças que trabalham.

Yvan Maynart *foto : Verlane Estácio

“Pais que não matriculam seus filhos na escola e levam eles para o sinal podem ser punidos segundo o Art. 129 do ECA”, afirma Yvan Maynart, professor do Departamento de Direito da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Umas das primeiras implicações seria a obrigatoriedade da matrícula do menor, demonstrando sua freqüência mensal. “Agravada a situação os pais recebem advertência, onde correm o risco de perder a tutela da criança. Aqui em Aracaju existe uma vara especializada para crianças e adolescentes, esta é responsável por cuidar tanto da parte cível, quanto da criminal. Ou seja, no município teremos um juiz para cuidar dessa questão pessoal e exclusivamente, contando para isto com o apoio do Conselho Tutelar na parte preventiva e do judiciário na ação repressiva”, conclui Yvan. “

Em 2000, o Ministério do trabalho e emprego (MTE) sancionou a Lei do Aprendiz (10.097) que considera menor aprendiz aquele jovem contratado pelo empregador ou por entidades sem fins lucrativos, que tenha mais de 14 anos, esteja matriculado e freqüentando regularmente a escola e inscrito em cursos desenvolvidos por instituições de aprendizagem. A lei ainda determina que o jovem tenha direito a uma jornada de seis a oito horas diárias, recebendo por este salário mínimo/ hora, além de todos os direitos trabalhistas e previdenciários compatíveis com o contrato de aprendizagem. Estas são as únicas condições legais para menores de 18 anos trabalhar, estabelece o estatuto.

  • O papel do Conselho Tutelar

Aldinete Melo e Adriana Moraes (Conselheiras do 5º distrito) Foto: Verlane Estácio

Para defender os direitos da criança e do adolescente existe um órgão autônomo que é o Conselho tutelar, definido conforme a Lei Federal 8.069/90. Ele atende aos jovens que tem os seus direitos ameaçados, orienta pais e responsáveis, conduz as crianças para programas sociais, requisita serviços públicos na área da saúde, educação, serviço social e segurança, além de encaminhar ao Ministério Público casos de violação dos direitos da criança e do adolescente. Em Aracaju, os conselhos estão distribuídos em cinco distritos e cada um deles é formado por cinco conselheiros e cinco suplentes, eleitos por voto popular e que permanecem no cargo durante três anos, podendo ser reeleitos. O Conselho tutelar é ligado ao Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Aracaju (CMDCA) e à Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania (SEMASC) e mantém ainda parceria com a Polícia Federal e Ministério Público . Para que possa atuar, o conselho depende das denúncias da população, estas podem ser feitas por telefone ou pessoalmente, indo até a sede do conselho. “Recebemos muitas denúncias da população, o que é importantíssimo pra nós, pois os conselhos não sabem onde acontecem as violações dos direitos, nem têm como adivinhar numa bola de cristal. As denuncias podem ser feitas por telefone, ligando diretamente no conselho ou pelo disk 100 a nível nacional que são encaminhados diretamente ao Núcleo de Apoio a criança e adolescente (NAIA)”. Contam as conselheiras do 5º distrito Adriana Moraes e Aldinete Melo (ambas reeleitas na última votação).

Segundos as conselheiras, o conselho possui uma ótima relação com a comunidade e age junto a ela por meio de campanhas educativas e aplicando medidas no sentido da prevenção. “O fato de as crianças estarem trabalhando na feira é uma questão preocupante, pois na cabeça desses pais isso é algo extremamente normal. A gente conversa e orienta aquele pai, tenta explicar os danos causados pelo trabalho infantil, mas a maioria não aceita nossos argumentos. Eles agem assim por não ter instrução e trazem aquilo da cultura em que foram criados, passando tudo para os seus filhos”, explica Adriana Moraes.

Elas destacam ainda que a problemática maior aqui em Aracaju está concentrada na identificação e localização dos responsáveis. “Aqueles meninos que trabalham nas feiras e ônibus não gostam de falar, fogem quando percebem a presença dos educadores sociais, dos conselhos ou juizados. Por esse motivo devemos destacar que os conselhos não são órgãos repressores e sim de proteção à criança. Ainda assim o governo não valoriza o nosso trabalho e há sete anos recebemos o mesmo salário“, diz Aldinete Melo.

Ainda de acordo com elas, projetos como o Peti são precários. Há um numero muito pequeno de vagas, não existem cursos profissionalizantes e falta uma política de incentivo ao aluno. “Muitos deles vão lá só pra pegar o lanche e depois voltam pra casa, justificando que estão cansados do trabalho diurno”, conta Adriana.

A pedagoga especialista em psicologia social Edvalda Cecília Abud, em entrevista concedida ao site oficial da Prefeitura de Aracaju ressaltou que em primeiro lugar, o conselheiro tem que saber ouvir, porque escutar é o ponta-pé inicial de todo processo. “O processo de formação tem o objetivo de informar os conselheiros sobre a forma correta de agir após o recebimento de uma queixa sobre violação de direitos recebida pelo Conselho Tutelar. A capacitação também orienta acerca dos encaminhamentos que devem ser dados, que caminhos buscar e como assegurar o respeito às famílias atendidas pelo Conselho Tutelar”, ressaltou.

  • PETI

O Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) foi criado em 1996 pelo governo federal com o objetivo de combater a exploração do trabalho infantil. No Brasil ele funciona em 3388 municípios e aqui em Sergipe se realiza através de uma parceria com a Semasc. Atendendo em todo o estado um total de 34.611 meninos e meninas com idade entre sete e quinze anos (na capital 2.923), o programa efetua o pagamento de uma bolsa mensal para as famílias de baixa renda que mantém seus filhos na escola com boa freqüência, bom desempenho e afastadas do trabalho. Aqui na capital se realizam também nos 14 pontos espalhados pela capital, as chamadas jornadas ampliadas que incluem além do judô, oficinas de música, percussão, coral, artes manuais, capoeira, leitura e cidadania

Segundo Bruno Almeida, assessor de comunicação da Semasc, o Peti tem um impacto positivo na vida desses jovens. Ele explica que diversas crianças e adolescentes que antes viviam em situação de trabalho infantil não sabiam mais o que realmente era ser criança. “Muitas vezes sobrecarregados com responsabilidades demais, a criança amadurecia antes do tempo e perdia totalmente a infância, além de abandonar os estudos, porque uma vez na rua, não teria mais a condição de freqüentar a sala de aula. O Peti devolveu a cidadania para mais de 3 mil crianças e adolescentes que agora podem desenvolver realmente o seu papel: o de ser criança”, complementa.

Brincar e estudar. Atividades que aparentemente são comuns na vida de qualquer criança acabam se tornando um sonho para aquelas que vivem em condição de exploração. Em pleno século XXI, existem cerca de 218 milhões de crianças e adolescentes trabalhando em situação ilegal, estatística assustadora que por vezes passa despercebida aos olhos da sociedade. O governo precisa acordar e adotar práticas realmente eficazes. A criançada pede socorro, afinal estamos deixando de lado os responsáveis pelo futuro do nosso planeta.

Criança fazendo carrego em bairro da capital *Foto: Verlane Estácio*

MUNICÍPIO ENDEREÇO FONE
Aracaju 1º Distrito Av. São Cristovão 4.298. Conj. Orlando Dantas 3251-2565
Aracaju 2° Distrito Frei Canolo de Noronha, 161, bairro Costa e Silva 3259-6302
Aracaju 3° Distrito Rua Boquim, 478 – Centro 3211-9863
Aracaju 4º Distrito Praça Princesa Isabel, 120 B. Sto Antônio 3215-4446
Aracaju 5° Distrito

Rua Alagoas,2.758-B.J.Conrado de Araújo

3179-2240

Como lidar com a automedicação?

Posted in Ciência e Tecnologia, Comportamento by micheletavares on 10/05/2010

Todos sabem que a automedicação nos dias de hoje é quase tão normal quanto respirar. Porém, descobrimos que essa prática pode, sim, trazer benefícios ao ser humano quando feita de forma responsável, ao contrário do senso comum.

Por Morgana Brota e Maluh Bastos

O que você faria se estivesse sentindo os famosos arranhões e coceira na garganta? E caso a sua voz ameaçasse falhar e a dor incomodasse tanto a ponto de não conseguir engolir algo, você procuraria um médico ou se dirigiria até a farmácia mais próxima para comprar um antiinflamatório? E aquela dor de cabeça que consome o seu juízo há dias, seria motivo para uma consulta médica? As respostas para essas perguntas são bastante previsíveis e ,acredite, você não é o único com o hábito de se automedicar. Em pleno século XXI, que traz consigo facilidades e soluções imediatas e cada vez mais práticas, passar horas num consultório aguardando sua vez já não é mais tão viável e procurar ajuda médica parece não ser assim tão atraente.

A automedicação é um fenômeno mais social do que médico ou clínico e essa prática está diretamente ligada ao direito ao autocuidado que todo o indivíduo possui. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece esse direito e define autocuidado como as ações que as pessoas fazem por si mesmas para estabelecer a saúde, prevenir e lidar com doenças. Ou seja, os hábitos de higiene, a busca pela qualidade de vida através de uma boa alimentação e da prática de exercícios e a automedicação estão inclusos nesse pacote. A automedicação, quando realizada de forma responsável,  pode trazer muitos benefícios ao paciente.

O autocuidado, até o início do século XXI, é um fenômeno que esteve muito presente nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Isso se deve a duas causas: uma cultural que se apóia bastante nas formas tradicionais, como o uso de ervas medicinais, por exemplo. A outra está ligada à dificuldade de acesso aos serviços básicos de saúde presente nesses países. O individuo acaba criando uma expectativa negativa sobre o sistema de saúde e passa a buscar medidas não oficiais para o tratamento de que precisa.

Sala de espera para retirada de remédios na Assistência Farmacêutica Ambulatorial do Hospital das Clínicas, na Zona Oeste de São Paulo. Fonte:G1 Notícias

Então, tomar um xarope para aliviar os sintomas da tosse não é nada de muito absurdo. Mas é preciso tomar cuidado, há uma linha muito tênue entre os aspectos positivos e negativos da automedicação.

Saúde como bem de consumo

Na maioria das vezes, a automedicação, mesmo sendo uma pratica recorrente, é extremamente criticada. O que muitas vezes não fica explícito é que, de certa forma, a sociedade é induzida a essa prática e é preciso ressaltar que a estrutura econômica e o mercado farmacêutico nunca incentivaram tanto a automedicação como incentivam hoje. “Eu ouso dizer que o indivíduo é condicionado a se automedicar” declara Wellington Barros da Silva, doutor em Educação Científica Tecnológica e professor do curso de farmácia da Universidade Federal de Sergipe.

Dessa influência que o indivíduo sofre, surge um fenômeno conhecido como medicalização da sociedade, onde o individuo é induzido pelo sistema capitalista no qual ele está inserido a se medicar desnecessariamente. “Ou seja, a medicalização é quando o indivíduo perde o controle, e todas as dimensões da sua vida estão sujeitas a interferência médica”, explica o professor.

Como conseqüência desse fenômeno a saúde se torna um bem de consumo que quanto mais consumido, mais lucro leva a indústria médica farmacêutica em geral. O professor Wellington explica ainda que esse estímulo ao consumo de saúde gera um outro fenômeno chamado atrogênese social, que é a sensação de estar vivendo numa sociedade o tempo inteiro doente pelo fato de ela estar o tempo todo em busca da saúde.

Existe ainda outro conceito fundamental para que possamos entender o que está acontecendo com a nossa sociedade, o de medicamentalização, que se exemplifica quando alguém faz uso irracional de medicamentos.

Além das reações adversas às quais todo usuário de qualquer medicamento está exposto, o uso de medicamentos sem prescrição médica pode mascarar um problema de saúde mais grave. Não é a toa que depois das propagandas de remédios na TV sempre ouvimos uma voz grave declarando que “ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado”.

Arte por: Maluh Bastos

De acordo com o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX), o Brasil tem como principal agente tóxico os medicamentos, atingindo aproximadamente 28% dos casos de intoxicação humana no país.  A SINITOX afirma que os remédios que mais intoxicam vão desde os mais claramente prejudiciais como, os benzodiazepínicos – remédios provenientes da benzodiazepina, como o famoso Diazepam, comumente conhecido como Valium –  aos mais populares, como os antigripais e antiinflamatórios.

Medicamentos que contém cânfora e mentol, por exemplo, são contra indicados para crianças menores de 3 anos de idade. “Já teve um caso aqui em Aracaju que uma criança quase morre por causa disso, pois o medicamento pode causar depressão respiratória, a criança pode ter uma parada cardíaca e morrer”, informa o professor.

Caveira de remédios. Fonte: http://4.bp.blogspot.com/

Os problemas do uso irracional dessas substâncias não ficam só no âmbito pessoal, as reações adversas trazem também um custo econômico que muitas vezes pode ser muito alto para o setor de saúde do país. “Uma pessoa que tem reação devido à automedicação feita de forma errada, adoece e fica fora do mercado de trabalho, ou seja, é ruim para ela e é ruim para a sociedade que tem que pagar o custo de mais uma pessoa doente”, declara o professor. Existe também o custo social que essa pratica pode causar, as pessoas que morrem ou que ficam incapacitadas geram um custo para a sociedade, além de ser uma perda para a família.

Outra conseqüência que deve ser refletida em relação à automedicação é o uso de antibióticos que trouxe ao Brasil um fenômeno muito grave conhecido como resistência anti-microbiana. “O problema é crônico e muito complicado, o perigo é que estamos quase chegando ao ponto em que nenhum antibiótico a venda resolva os problemas bacterianos da população. Esse alerta já foi dado há uns 10 anos atrás, porém hoje isso está mais forte do que nunca. Ou seja, estamos no limite”, alerta o professor Wellington. A previsão é que em setembro deste ano os antibióticos passem a sofrer um controle mais rígido nos pontos de venda que terão que reter a receita do paciente no ato da compra.

Outro ponto conveniente a tratar é a forma disfarçada de automedicação através das anfetaminas, que estão sendo bastante utilizadas por conta da promessa de emagrecimento que elas trazem. Essas substâncias, assim como tantas outras, precisam de prescrição médica para ser adquiridas, mas podem ser facilmente compradas sem a receita. Outra substância que está sendo muito utilizada e que se tornou muito polêmica é a sibutramina, que provoca risco de morte através do infarto do miocárdio. A sibutramina, substância que diminui a vontade de comer, provocando o aumento da saciedade, tem sido usada em todo o mundo para tratamento de obesidade adulta. Mas em 2010, a sua venda foi suspendida na Europa, por conta do aumento do risco de acidentes cardiovasculares. Aqui no Brasil o medicamento continua sendo comercializado e suas reações adversas já constam na bula do medicamento.

Editoria de Arte / Folha Imagem

A automedicação e a farmácia

Em tese, a farmácia deveria zelar pela saúde dos clientes que a procuram e defender o seu bem estar, e não interesses próprios. “A farmácia é um ambiente de saúde”, define Alex Moreira de Araújo, farmacêutico que trabalha numa rede de farmácias da capital sergipana. Mas o que vemos por aí nem sempre condiz com essa definição.

A farmácia é o ponto de venda dos remédios, e fiscalizar o que acontece por lá é um fator chave no controle do uso irrestrito de medicamentos. Quem nunca foi à farmácia e levou para casa uma medicação de tarja vermelha sem uma receita médica? Pois é. Lá na caixa do produto encontramos escrito “venda sob prescrição médica”. Mas é assim que acontece? Nem sempre.

Um procedimento tão comum como o citado acima diz respeito à troca de medicamentos no balcão. Uma pessoa entra na farmácia e se dirige ao balcão com sua receita médica. Chegando lá, o atendente após examinar aquele documento, indica um remédio mais barato, mais em conta, no entanto, com o mesmo efeito. As pessoas não pensam duas vezes: remédios são muito caros e por quanto menos sair, melhor.

Quando o medicamento é trocado por outro que não seja um genérico, há nesse processo uma atividade criminosa, pois a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) criou uma lei na qual deixa bem claro que todas as trocas efetuadas devem ser feitas por um farmacêutico mediante carimbo e assinatura. “A ANVISA se detém muito nessa questão de normatizar, policiar o que o laboratório faz em relação aos médicos e deixa muito de lado o que acontece no ponto de venda. Você nunca vê no jornal alguém algemado sendo levado para delegacia porque trocou uma receita e isso é crime”, declara Jorge Bastos, propagandista há 15 anos da industria farmacêutica. Jorge Bastos ainda comenta sobre a questão da ANVISA alegar que não possui efetivo para fiscalizar todos os estabelecimentos, o que não seria um grande problema, pois ele acredita no poder das punições exemplares. “Uma farmácia filmada e fotografada com o balconista sendo preso a cada uma ou duas semanas. Isso com certeza inibiria muito essa ação que é danosa”, finaliza o propagandista.

O teatro sergipano apresenta sua história

Posted in Cultura by micheletavares on 08/05/2010

Por Anne Samara Torres e André Teixeira

Apresentação do Grupo Mafuá no Mercado Thales Ferraz durante a I Virada Cultural de Aracaju. Foto: André Teixeira

Havia 50 anos de descoberto o Brasil quando nele chegaram os primeiros artistas do teatro. Vinham com a recém criada Companhia de Jesus e seu objetivo principal não era a atuação. A Companhia havia nascido para desenvolver trabalho missionário e hospitalar em Jerusalém, ou para ir aonde o Papa da época os enviasse. Não demorou muito a terem novo destino: o Novo Mundo, cuja missão era catequizar. A Igreja Católica enfrentava sua primeira grande crise. A Reforma Protestante de Calvino e Lutero forçaram-na a uma Contra-Reforma. Para isso era necessário aumentar o rebanho e desse modo encontraram nos jesuítas e nas artes cênicas trazidas em sua bagagem aliados perfeitos para convencer e converter. Assim, o teatro entrava no Brasil pela porta da frente como coadjuvante nas missões jesuíticas.

Imaginemos o ano de 1577. O palco, constituído basicamente pela exuberante vegetação nativa, não está vazio pela presença de alguns instrumentos musicais e máscaras sobre uma mesa. Ouve-se um cochicho imenso vindo detrás de um grande pano suspenso.  Está prestes a acontecer algo que a maioria dos que estão ali não sabe bem o que é. Presentes, sentados em cadeiras ou no chão, colonizados e colonizadores. Tupinambás bons cristãos, alguns curiosos liberados pelos patrões criadores de gado e alguns desses com suas famílias. Também na platéia os responsáveis pelo que está para acontecer, os jesuítas Gaspar Lourenço e João Solônio, autoridades políticas e alguns dos soldados que vieram acompanhando os padres a mando do governador Luís de Brito. Em tupi-guarani padre Gaspar fala com um índio e este vai correndo para detrás dos panos, que se abrem em seguida. Detrás deles sai um índio pintado de vermelho, chifres postiços na cabeça, e bem alto começa a dizer:


É bom dançar, enfeitar-se

E tingir-se de vermelho;

De negro as pernas pintar-se,

Fumar e todo emplumar-se, e ser curandeiro velho.

Enraivar, andar matando

E comendo prisioneiros,

E viver se amancebando

E adultérios espiando,

Não o deixem meus terreiro.”


(Silêncio)

Guarixá, o rei dos diabos continua, agora mansamente, sua fala. Todos da audiência estão mudos e de olhos vidrados naquela novidade. São Sebastião e São Lourenço entram e a peça segue. Após a última fala, Gaspar e Solônio começam a aplaudir e logo são seguidos pelos demais na platéia. Fogos de artifício encerram aquele que seria o primeiro espetáculo teatral em terras serigy.


O trecho acima, que tenta retratar a primeira apresentação teatral em

Anchieta atuou no Brasil de 1553 a 1595. Foi poeta, gramático, historiador e teatrólogo. Escrevia em português, latim, espanhol e tupy. Sua obra é considerada a melhor do Quinhentismo brasileiro. Imagem: Fairfield University (Conneticut, U.S.A.)

Sergipe, é um misto de realidade e ficção. A fala do

personagem Guarixá é do auto “Na Festa de São Lourenço”, do padre José de Anchieta. Os nomes, datas, povos, técnicas teatrais e até mesmo os fogos de artifício estão presentes nos relatos históricos, mas a documentação sobre a atuação dos jesuítas em terras sergipanas é parca. “Não há uma abordagem, um livro específico na documentação sergipana sobre os jesuítas.”, informou o historiador Antônio Lindvaldo, professor da Universidade Federal de Sergipe ao site EmPautaUFS (06/2009).

Os jesuítas usavam o teatro como forma de transformar aquilo que eles denominavam costumes pagãos em cultura cristã. De forma eficaz e fascinante misturavam costumes, máscaras e elementos do cotidiano indígena aos seus apólogos educativos para a catequização. “Críticas à antropofagia, poligamia e aos demais costumes considerados pagãos visavam construir uma nova sociedade, pautada em valores cristãos, tanto em relação à fé quanto à organização da sociedade como um todo. As missões (ou reduções) jesuíticas adquiriram importância na construção dessa nova forma de organização social.”, explicam os professores Cézar Arnaut, Flávio e Vanessa Ruckstadter, no artigo “O teatro jesuítico na Europa e no Brasil no século XVI”, publicado na revista on-line HISTEDBR, da Universidade Estadual de Maringá (UEM). O poeta José Paulo Paes ensina que “cultura não é aquilo que entra pelos seus olhos, é o que modifica o seu olhar”. Nesse viés, a missão jesuítica de modificar os hábitos e costumes do colonizado mostra a importância do teatro para a formação das bases e alicerces culturais do povo brasileiro, e, por conseguinte, do povo sergipano. É dessa forma e com esse objetivo que se narra os primórdios do teatro em Sergipe.

O teatro na nova capital

Seguindo a cronologia histórica, durante o período colonial temos um hiato de mais de dois séculos de estagnação na produção teatral. As razões podem ser explicadas pelos conflitos produzidos pelas invasões francesas e holandesas. “Mas sem dúvida, as modificações de ordem política verificadas no país contribuíram para a existência desse buraco negro”, explica o professor da Universidade Estadual de Goiás, Antônio Carlos dos Santos no artigo “Reminiscências do teatro no brasileiro”.

Em Sergipe, do século XVI pulamos para a Aracaju de meados do século XIX, quando ainda há pouco se tornara capital da província formada, em essência, por um agrupado de casebres. Foi nesse contexto que, no ano de 1868 a Companhia Dramática Santo Antônio foi contratada pelo empresário João Ferreira Bastos para atuações semanais em Aracaju e no interior, no entanto o contrato perdurou por apenas dois anos.

No ano de 1873, Sergipe vê nascer em sua capital suas duas primeiras organizações teatrais: a São Salvador, estabelecida à rua da Aurora, hoje avenida Rio Branco, e a União, localizada na rua Pacatuba. A rivalidade era patente entre ambas as companhias, que chegavam a disputar o pequeno público com uma peça nova a cada mês. Em maio de 1896, a Companhia Dramática, dirigida pelo ator G. Lessa, apresentou alguns dramas e a alta comédia “Lenço Branco”, no Teatro São José, que em dezembro do mesmo ano recebia a peça “Os três bonés”.

Na cidade histórica de Laranjeiras, além do Teatro São Pedro e do Cine-Teatro Íris, se destaca o Teatro Santo Antônio, construído no século XIX, no pleno apogeu econômico devido ao comércio de cana-de-açúcar, do coco, do gado e, principalmente, do porto. De 1841 a 1851 Laranjeiras foi considerado o maior centro cultural e artístico do estado, vindo a ser chamada de ‘Atenas sergipana’. O Teatro Santo Antônio funcionou por muito

Peça encenada no campus da UFS durante o 35º Encontro Cultural de Laranjeiras em janeiro de 2010. Foto: André Teixeira

tempo abrigando espetáculos de companhias nacionais e internacionais e

teve seu declínio no início do século XX, ficando durante certo tempo abandonado, vindo a funcionar inclusive como cortiço. Hoje abriga a biblioteca e laboratórios do campus avançado da UFS.

No início do século XX, novos artistas sergipanos adaptavam e montavam textos, formando o Núcleo Dramático Aracajuano, atuante grupo teatral com representações constantes, cujos sócios eram responsáveis pelo Teatro Santa Cecília, inaugurado em 1903 na rua Japaratuba, hoje rua João Pessoa, atraindo e mantendo público com peças variadas e entrada franca. Em 1904, o italiano Nicolau Pungitori inaugurou, com a audição de um gramofone, o Teatro Carlos Gomes, que em 1912 foi transformado no Cine-Teatro Rio Branco. Mais tarde, em 1920, o governo de Pereira Lobo mandou construir em Aracaju, mais precisamente na praça Olímpio Campos, um teatro para mil pessoas que recebeu o nome de Teatro São Cristóvão. O local seria onde hoje está o prédio da Prefeitura Municipal. Importante lembrar também do teatro Juca Barreto, montado pela Universidade Federal de Sergipe numa sala do antigo prédio da Faculdade de Direito, inaugurado em 1917, e que sedia atualmente o Centro de Cultura e Arte da Universidade Federal de Sergipe (Cultart). Seu nome homenageia o saudoso proprietário do Cine-Teatro Rio Branco, um dos incentivadores das apresentações teatrais aracajuanas.

Na década de 1940, alguns autores sergipanos assinavam pequenas comédias e ligeiras dramatizações históricas, apresentadas numa espécie de rádio-teatro através do programa “Teatro pelo Éter”, dirigido por Pedro Teles, e que ia ao ar no ano de 1944 pelos microfones da PRJ-6, Rádio Difusora de Sergipe.

Ainda surgiam nomes como o Teatro de Estudantes do Colégio Estadual de Sergipe, dirigido pelo professor Caetano Quaranta, que funcionou do fim dos anos 50 ao início dos anos 60.

Teatro Atheneu antes do início da reforma. Foto: ASN

A criação de novos grupos teatrais se deu mesmo depois de 1954, quando o Teatro Atheneu – o mais antigo espaço de espetáculo em atividade no estado – foi inaugurado como auditório do Colégio Estadual Atheneu Sergipense pelo governador Arnaldo Rollemberg Garcez. Entre estes novos grupos destacam-se os “Amadores de Sergipe”, os “Estudantes de Sergipe” e o “Teatro de Cultura Artística – TECA”, grupo teatral dirigido pelo professor João Costa, responsável pela montagem de diversas peças, dentre as quais Chuva, e Recital sem Opus, esta última de autoria de João Costa e Luiz Antonio Barreto, premiada nos festivais amadores da Paraíba e Rio de Janeiro, respectivamente em 1966 e 1968.

Teatro Atheneu hoje. Por incompetência do vencedor da licitação para realizar a reforma, público e atores esperam com ansiedade sua reabertura. Foto: André Teixeira

Nas décadas de 60 e 70, o Teatro Atheneu foi palco de resistência do movimento estudantil e político contra a ditadura. Fechou suas portas nos anos 80 e as reabriu em 1984. A partir daí passou por diversas reformas como a de 1990 e a de 1992. Desde agosto de 2008 o Teatro Atheneu está fechado para novas reformas. Em suas paredes ecoam os aplausos da sua última montagem, a peça “O Senhor dos Labirintos”, encenada pelo Grupo Imbuaça. Segundo a Agência Sergipana de Notícias (ASN), a entrega do teatro estava prevista para o mês de fevereiro de 2009, entretanto ainda continua de portas fechadas. Pelo o que informa a Secretaria de Estado da Cultura (Secult), o atraso se deve ao mau desempenho da empresa licitada para execução do convênio.

Teatro Lourival Batista em noite de apresentação teatral. Foto: André Teixeira

A fundação do Teatro Lourival Baptista, segundo o portal de cultura do Governo do Estado, aconteceu na década de 1960, com o intuito de atender ao Instituto de Educação Rui Barbosa (Escola Normal), que necessitava de um ambiente para o desenvolvimento das atividades extraclasse. Durante a sua gestão o Governador Augusto Franco transformou esse teatro em uma unidade cultural destinada ao desenvolvimento de oficinas de teatro, dança e música, o que proporcionou  o surgimento de vários grupos artísticos.

Em 1977 surge a Companhia de Teatro Imbuaça – a mais antiga companhia de

teatro de rua do país ainda em atividade – com apresentações baseadas na literatura de Cordel e em elementos da cultura popular. Dessa forma, Sergipe passou a ter um grupo de teatro acessível e atuante, surgido em meio à ditadura militar com um forte objetivo de resistência cultural. “A rua foi uma opção política e ideológica”, explica Lindolfo Amaral, um dos membros fundadores do grupo, em entrevista ao Portal Infonet. A partir daí a companhia não mais parou. Em seus quase 33 anos já montou mais de 30 espetáculos e participou de vários eventos nacionais e internacionais, além de se dedicar a projetos sociais junto a comunidades carentes da cidade, usando o teatro não só para formar artistas, mas também cidadãos.

Cena da peça “O Mundo Tá Virado, Tá no Vai ou Não Vai. Uma Banda Pendurada, a Outra em Breve Cai”, mais novo espetáculo do Imbuaça. Foto: André Teixeira

A atividade mais recente do grupo se deu na I Virada Cultural de Aracaju, organizado pela Funcaju em março de 2010, e que reuniu, entre diversas atividades culturais, 19 espetáculos teatrais de forma gratuita, onde participaram grupos de Aracaju e do interior do estado.

Imbuaça em 2010, durante a I Virada Cultural de Aracaju. Foto: André Teixeira

Entre os personagens importantes não só para a história do Imbuaça, mas também para a história do teatro sergipano, está a atriz Valdice Teles, que morreu em março de 2005, aos 47 anos, vítima de um tumor no seio, mas sem antes deixar para a nova geração de atores um riquíssimo legado de textos e materiais. Seu trabalho artístico já era conhecido na época em que trabalhava como discotecária numa rádio da cidade, mas foi por meio das peças feitas no Colégio Atheneu que Valdice se entregou de corpo e alma ao Grupo Imbuaça e assim permaneceu até que sua doença não lhe permitisse mais subir aos palcos. Sete meses depois de sua morte, inaugura-se, em sua homenagem, uma escola de artes nomeada Escola de Artes Valdice Teles, que se dedica a ensinar a comunidade música, dança, artes cênicas e artes visuais.

"Os Reis da Floresta de cimento", peça encenada em 1979 pelo grupo Raízes.

Juntamente ao Grupo Imbuaça, nasce outras companhias de teatro no

Mamulengo de Cheiroso em apresentação no 35º Encontro Cultural de Laranjeiras. Jan/2010. Foto: André Teixeira

estado, como o Grupo Raízes, fundado por Jorge Lins, ex-aluno do Colégio Atheneu e hoje autor e diretor de teatro além de responsável pelo projeto “Oficinas do ator”, que abre espaço para o surgimento de novos talentos sergipanos permitindo a aprendizagem de técnicas de interpretação teatral. Também o grupo de teatro de bonecosMamulengo de Cheiroso”, criado em 1978 pela professora Aglaé Fontes, ainda hoje cativa o público por onde passa, seja no interior, na capital, em outros estados e até mesmo na Europa, trabalhando o folclore e a cultura popular de modo vivaz e bastante musical.

O recente teatro sergipano


Palco do Teatro Tobias Barreto recebendo a peça ‘O Mágico de Oz’, em produção da Nossa Escola. Outubro de 2009. Foto: André Teixeira

O Teatro Tobias Barreto, inaugurado em 2002 no dia do aniversário da cidade, 17 de março, é o mais recente teatro sergipano e também considerado um dos mais modernos do Brasil. Portador de muita tecnologia, espaço e conforto, ele tem sido palco de grandes espetáculos locais, nacionais e internacionais, além de conferências empresariais.  Mas é distante da sofisticação do Tobias Barreto, em meio aos mercados centrais de Aracaju, que surgem espaços como a “Rua da Cultura”, coordenado por Lindemberg Monteiro, ator e diretor da Cia de Teatro Stultífera Navis e mais recentemente o “Beco dos Cocos”, famoso pelos antigos cabarés. Ambos os espaços foram transformados por diversos artistas sergipanos em locais de manifestação folclórica, musical, circense e, é claro, teatral.

A jornalista e editora do jornal “O Capital”, Ilma Fontes, 63, contou-nos um pouco da sua experiência teatral, iniciada na escola. “Aos seis anos de idade experimentei o que uma atriz de verdade tinha direito: ensaios, nervosismo da estreia, luzes, aplausos e flores ao final.” Trabalhou com cinema e teatro profissional, onde ganhou os Prêmios Anchieta de Teatro, no Festival Nacional de São Mateus/ES, o Prêmio ASI de Direção de Teatro/1995 com a peça “As Criadas”, de Jean Genet e o Prêmio Arlequim de Mármore/UFS/1995, de melhor direção pela mesma peça. Ilma empresta seu nome ao Ponto de Leitura inaugurado em setembro de 2009 na Casa Rua da Cultura.

Além do Ponto de Leitura, a 27 de março do mesmo ano, a Casa  Rua da Cultura inaugurou o mais novo espaço para o teatro sergipano, a Sala Sergipana de Espetáculos. Seu diretor, o cearense Lindemberg Monteiro, formado em Direção pela Universidade do Rio de Janeiro – UniRio -, foi aluno da escola de teatro mais antiga da América Latina em atividade, a Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna, no Rio de Janeiro. Quando de sua chegada a Sergipe, em 1995, a cena teatral em Aracaju estava passando por um momento de pouca produção, com poucos projetos e poucas montagens. “Eu cheguei aqui com uma ideia, no início um pouco equivocada, de que montar um grupo e trabalhar com o teatro aqui fosse mais fácil, porque o mercado estava aberto, apesar de ser um momento infértil, existia algumas referências nacionais do teatro daqui como o teatro de rua do Imbuaça”, comenta Lindemberg.

Além disso, o diretor diz que a cena teatral atual é bem diferente e aponta uma tendência que vê como solução para melhorar ainda mais. “As companhias precisam se unir, criar uma consciência de coletivo e isso está acontecendo, o que é fundamental para o futuro do teatro no estado, estimulando mais grupos. Quando eu cheguei aqui era o contrário, um grupo queria derrubar o outro, eles não se relacionavam”, conta.

Cia Stultífera Navis durante ensaio na Casa Rua da Cultural. Foto: Anne Samara Torres

Questionado sobre momentos marcantes presenciados por ele na cena cultural sergipana, sem exitar relata: “Ainda estava no comecinho do projeto ‘Rua da Cultura’. Tinha uma família sentada no meio- fio: o pai, a mãe e 3 crianças que estavam morando na praça em frente ao colégio Ateneu, olhando os bailarinos dançarem. Aquela família jamais veria um pas-de-deux de bailarinos, se não fossem  ali na Rua da Cultura , porque infelizmente aquela família não tinha acesso ao teatro. Nunca teria acesso ao Tobias Barreto nem que fosse de graça,  porque a nossa sociedade consegue fazer uns apartheids que ainda são invisíveis, mas que estão presentes em nossa vida. Então, se a Rua da Cultura acabasse naquele dia eu já estava satisfeito.”

O teatro profissional

Em 2007 a Universidade Federal de Sergipe (UFS) abriu o curso de Licenciatura em Teatro no município de Laranjeiras, sendo este e os demais cursos lecionados num ambiente um tanto quanto precário para as necessidades de ensino, sendo transferidos em 2009 para o “Quarteirão dos Trapiches”, que faz parte do conjunto arquitetônico histórico da cidade. Tal conjunto foi restaurado com a finalidade de abrigar este novo campus e surgiu a partir da parceria com a Prefeitura Municipal de Laranjeiras, com o Governo do Estado de Sergipe e o Governo Federal, vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Um dos projetos mais afamados desenvolvido pelos alunos desse novo curso é a “Mostra Trapiche de Teatro” que divulga para a comunidade local as atividades produzidas durante todo o semestre pelos estudantes, através de oficinas, palestras, exposições e espetáculos, sendo todas essas atividades gratuitas. Tudo isso revela uma nova fase no teatro sergipano, um teatro profissional, mas que não esquece a cultura regional.

Mas nem tudo são flores. Atualmente, o Estado de Sergipe está repleto de companhias de teatro, desde os já citados, que foram criados na década de 70 e ainda hoje encantam a platéia, como companhias mais recentes a exemplo dos grupos aracajuanos: Ôxente, Os Cênicos, Caixa Cênica, Stultífera Navis, Êxtase, Oguata; do grupo do município de Lagarto: Cobras & Lagartos; do município de Poço Redondo: Raiz Nordestina, entre tantos outros mais. No entanto, atores e companhias, ainda hoje, enfrentam uma série de dificuldades em relação a patrocínio, divulgação, quantidade de público, apoio e etc. Como diz Tarcísio Tavares, diretor do Grupo Oguata: “Nós juntamos atores que fazem teatro por amor e não por dinheiro, até porque isso é uma coisa que ator sergipano não pode esperar muito. Tivemos que nos virar sozinhos pra criar e sustentar a companhia porque é muito difícil conseguir apoio”.

Além disso, tanto as peças como os atores sergipanos ainda sofrem preconceito por  boa parte da própria sociedade que, infelizmente, termina por não dá o devido valor ao que é da terra, como explica o ator da Cia Stultífera Navis, Roney David.

Cia Stultífera Navis em novembro do 2009 durante apresentação no Beco dos Cocos. Foto: André Teixeira

“Eu acho que não se dá essa valorização, até mesmo pela parte da platéia. Minha própria família já chegou a dizer que nunca tinha assistido uma peça sergipana boa e eu acabei mudando essa visão deles, mostrando que aqui tem montagens muito boas sim. Falando como ator, é bem desgastante e às vezes bem frustrante porque você passa muito tempo montando e ensaiando uma peça e às vezes a quantidade de público não é a esperada e chega uma peça de fora, passa dois dias e lota o Tobias Barreto cada dia”.

De certo que o teatro sergipano parece sim estar entrando numa nova fase, melhor que as anteriores, já que não somos mais obrigados a assistir e encenar peças de cunho cristão alienante, vivemos num período de liberdade de expressão e temos um crescente número de grupos teatrais locais. Então porque não aprendemos a apreciar o que temos? A história do nosso teatro é tão rica em acontecimentos, tão marcada pela força e coragem de nossos atores e mesmo assim ainda vemos pessoas que insistem em menosprezá-la. É impressionante como a cultura local ainda persiste. Talvez persistência seja mesmo a maior arma que nossos artistas possuem para continuar fazendo aquilo que há muito tempo fazem: encantar a todos com a maravilhosa arte do teatro.

As redes sociais prometem ditar o futuro da Sociedade em Rede

Posted in Ciência e Tecnologia, Comportamento by micheletavares on 04/05/2010

Uns dizem que as pessoas emburrecem, outros dizem que até objetos serão meios de comunicação

por Daniel Nascimento e Eloy Vieira

O acesso à Internet é cada vez mais comum. Em três anos, o percentual de brasileiros de dez anos ou mais de idade que acessaram ao menos uma vez a Internet pelo computador aumentou 75,3%, passando de 20,9% para 34,8% das pessoas nessa faixa etária, ou seja, 56 milhões de usuários. Isso é o que traz a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada em 2008 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Jéssica Vieira na ASCOM-UFS Foto: Daniel Nascimento

Esse crescimento é visivelmente influenciado pela participação dos internautas brasileiros nas chamadas redes sociais, ou, na verdade, redes sócio-virtuais como defende a jornalista da Assessoria de Comunicação da UFS, Jéssica Vieira em seu artigo ‘Redes Sociais: o preço da corrida contra o anonimato’. “A Internet veio para aproximar as pessoas mas, ao mesmo tempo que você tem uma aproximação, também tem uma distância muito grande. Poucas vezes alguém liga para você, elas deixam recados no MSN, pelo Twitter, pelo Orkut, e você acaba tendo uma vida social muito virtual, sua vida acaba sendo sócio-virtual e não social”, explica a jornalista.

Um bom exemplo desse comportamento é o da estudante de enfermagem, Tamara Oliveira, que, apesar de tímida e reservada, considera-se viciada em Internet. “Eu não passo 24 horas na Internet, mas me considero bastante viciada, porque às vezes fico horas em frente ao PC, sem fazer nada, apenas no MSN e no Orkut (meus vícios), não passo um dia sequer sem entrar na net”, revela. Mas ela diz que isso já foi pior, afirma que hoje já vive mais no mundo real e tenta deixar a introspecção de lado. Porém, uma olhada em alguns dos perfis, como o seu Formspring, através do qual nos concedeu a entrevista, percebemos que sua vida virtual ainda é movimentada, e confessa: “Já tentei parar de usar, mas não consigo. Agora que estou estudando é que conseguir deixar um pouco de lado, pois estava tomando muito meu tempo”. (Veja a entrevista completa aqui)

Professora Lilian França Foto: ASCOM-UFS

Exemplos como o de Tamara vem se revelando cada vez mais comuns. Segundo a professora e pesquisadora do Departamento de Artes e Comunicação da UFS, Lilian França, ainda não se tem uma explicação científica para esse comportamento dos brasileiros frente à Internet, mas ela aponta que a sociabilidade típica do nosso povo é umas das principais explicações. “Ainda precisa-se fazer um estudo de caso, mas alguns autores já defendem que o alto grau de sociabilidade do povo brasileiro não seja só nas relações tradicionais, mas também nas relações mediadas pela Internet”. Ainda de acordo com a professora, alguns motivos secundários podem ser apontados. “Hoje o mundo está cada vez mais violento, ou seja, as pessoas procuram se relacionar na segurança de sua casa, e na Internet isso é muito fácil, pois nessas redes você pode fazer amizades com pessoas de qualquer lugar do mundo que tenham afinidades com você”, explica.

A pesquisa feita pela empresa de consultoria belga, Insites Consulting só endossa o aspecto levantado pela pesquisadora. Segundo o estudo, os usuários ao redor do mundo já chegam a cerca de 940 milhões, e o Brasil ocupa uma posição de destaque. Já somos considerado o país com usuários mais ativos e com mais amigos em sua lista. Ainda há outro dado importante, juntamente com Portugal, esses mesmo usuários integram em média duas redes sociais enquanto os outros usuários dos países pesquisados integram somente uma.

Por dentro das redes

De forma simples e sintética, uma rede social nada mais é que uma rede de amigos e/ou conhecidos, por isso, pode-se dizer que o homem vive em redes sociais desde que se entende como um ser social. Mas, no artigo intitulado “Social Network Sites: Definition, History, and Scholarship” (Sites de Redes Sociais: Definição, História e Pesquisa) os pesquisadores norte-americanos Boyd Danah (Berkeley) e Ellison Nicole vão mais além e definem as redes sócio-virtuais como serviços baseados na Internet que permitem que os indivíduos construam perfis públicos ou semi-públicos que permitem a articulação de listas de contatos com quem eles queiram manter-se conectados e que ainda possam visualizar ou trocar essa lista através desse sistema.

A Internet só surgiu no século XX, porém, com sua expansão a partir da década de 90, surgem as primeiras redes sócio-virtuais. A pioneira delas foi a Sixdegrees, que teve início em 1997 com inúmeros usuários, mas não durou mais de três anos porque não era financeiramente auto-sustentável. Já a partir do começo do século XXI, surgem várias redes como o Live Journal, Asianevenue, Blackplanet, LunarStorm, MiGente, Cyworld, Ryze e Fotolog, mas aquela que mais se aproximava das redes sócio-virtuais como as que conhecemos hoje foi o Friendster, que logo teve um boom de usuários, mas, com o tempo, o site não conseguiu atender à sua demanda.

Linha do tempo. Arte: Daniel Nascimento

Manuel Castells. Foto retirada do site do professor.

Mas, o fenômeno não era tão novo para alguns pesquisadores. Um deles, o filósofo espanhol, Manuel Castells, considerado um dos principais ícones quando se fala em comunicação mediada por rede defende em seus livro “O poder da Identidade” e Sociedade em Rede que essas redes resultam da revolução das novas tecnologias da informação e da reestruturação do capitalismo. “A revolução da tecnologia da informação e a reestruturação do capitalismo introduziram uma nova forma de sociedade, a sociedade em rede. Essa sociedade é caracterizada […] por uma cultura de virtualidade real construída a partir de um sistema de mídia onipresente, interligado e altamente diversificado. […] Essa nova forma de organização social, dentro de sua globalidade que penetra em todos os níveis da sociedade, está sendo difundida em todo o mundo”.

Mocinhas ou vilãs?


Quem não tem uma amizade na Internet? E namoros virtuais? Existem pessoas que procura até sexo na Internet. O boom das redes sociais só propicia que tais atividades  se tornem mais freqüentes. Segundo Jéssica Vieira, que também é pesquisadora, muitas pessoas estão esquecendo de manter relações interpessoais fora dessas redes. “As pessoas acabam focando suas vidas na Internet, arranjam namorados na Internet, fazem amigos na Internet, visualizam a vida delas na Internet quando na verdade a vida delas não está ali”, afirma.

Na mesma linha da profissional sergipana, o professor norte-americano da Universidade Emory em Atlanta, Mark Bauerkein, defende que o mal uso dessas redes pode trazer conseqüências à juventude, causando assim o ‘emburrecimento’ dessa faixa etária. De acordo com ele, as redes sócio-virtuais e as demais tecnologias da comunicação agem para tornar os jovens mais distraídos em relação ao restante do mundo e culturalmente inferiores. “Os jovens de hoje são tão mentalmente competentes quanto os de 20 anos atrás, e têm muito mais oportunidades de adquirir conhecimentos, mas eles estão deixando de lado os hábitos intelectuais e se dedicando cada vez mais à comunicação ‘peer to peer’ (a expressão pode ser adaptada para ‘pessoa para pessoa’ ou interpessoal, em português)”, afirma Bauerkein ao Jornal Estado de São Paulo em 2008.

Ainda numa perspectiva não muito otimista, Jéssica alega que o acúmulo de informações presente nas redes é prejudicial ao jornalismo. Seguindo o raciocínio da jornalista sergipana, mais pessoas passam a divulgar informações na Internet, sem, necessariamente, haver uma confirmação dos dados. “Muitas pessoas acham que podem ser jornalistas e se ligam às redes sociais para divulgar um tipo de informação que não é verdade, informações que não tem credibilidade nenhuma”, argumenta.

Mas as redes sociais não são as vilãs da vida moderna, pelo menos é que Jéssica Vieira defende. Ela aponta que essas novas ferramentas apresentam novas funcionalidades como uma aproximação cada vez maior com o leitor. “Essa relação com o leitor, com o internauta, com o cara que pega a revista, com o cara que lê o que você escreve, deveria ser muito estreita, muito próxima do real” Ela ainda traz outro ponto típico da sociedade informacional. A informação circula cada vez mais e muito mais rápido, tornando-se quase onipresente em vários setores da sociedade.

Gráfico: InSites Consulting


O futuro promete

O comportamento humano é, de certa forma, imprevisível, mas alguns pesquisadores já são capazes de relatar algumas tendências. É o que traz André Lemos, professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia e pesquisador de cibercultura em entrevista ao portal iT Web, especializado em Tecnologia da Informação numa reportagem especial sobre a Internet. “Em viagens, iremos deixar nossas impressões sobre um monumento e outra pessoa irá visualizar aquilo por meio de um dispositivo e softwares específicos que misturam códigos de diversos sistemas”, prevê. Ou seja, essa necessidade de tornar público sentimentos e opiniões deve ganhar espaços públicos integrados por meio de um sistema de redes virtuais integradas como uma manifestação da chamada realidade aumentada.

Se a chamada realidade aumentada transformar-se em algo concreto, as mídias sociais estarão tão onipresentes quanto os objetos do nosso cotidiano, pois, nesse cenário hi-tech, qualquer objeto capaz de ter emissores e sensores poderão ser meios de comunicação, logo, a comunicação digital seria tão comum como o ar que respiramos. Mas este é um cenário muito otimista e um tanto distante, pois, para que cheguemos a tal ponto, a capacidade do tráfego de informações pela web teria que aumentar de forma drástica.

Mas, colocando os nossos pés no chão, já vemos um futuro próximo e palpável se moldando. É o que aponta a professora Lilian França: “Esse processo é irreversível, a velocidade da chamada Internet 2.0 deve aumentar com a fibra ótica, o deve fazer com que as relações mediadas pela rede devem ser cada vez mais freqüentes, além disso, as empresas poderão oferecer produtos cada vez mais personalizados de acordo com o perfil de cada consumidor ativo na rede”. Este último aspecto gera polêmica, pois especialistas não vêem com bons olhos o que chamam de ‘hipercomercialização da sociabilidade’, um ponto que pode afetar até a instabilidade democrática num país.

A pesquisadora da UFS ainda destaca que a criação de leis para o ambiente virtual é algo imprescindível e defende a existência de limites. “Não há leis especiíicas para a Internet, já estudos na área, pois atitudes que prejudiquem a vida humana devem ser controladas”, analisa Ela ainda destaca que leis eleitorais que prevejam campanhas virtuais também são válidas, pois mesmo que a TV seja o veículo mais poderoso do nosso país, a massificação da banda-larga deve aumentar cada vez mais o número de cidadãos com acesso rápido e freqüente à Internet. “Aqui não haverá o ‘Fenômeno Obama’, pois somente cerca de 20% da nossa população tem acesso, mas, mesmo assim a campanha virtual deve ser penetrante, principalmente se houver uma massificação da banda-larga, mas, por enquanto a força ainda é na TV”, aponta.

Apesar de alguns videntes discordarem, o futuro da nossa sociedade em rede ainda é um tanto imprevisível. Pesquisadores de várias partes do mundo tentam compreender como o ser humano se comportará diante dessa nova configuração social. Mas uma coisa é fato: o futuro da sociedade em rede está nas minhas, na suas, nas nossas mãos, pois, somos nós que construímos diariamente a sociedade de amanhã. E aí, já se conectou?

Veja o vídeo produzido pela Agência Click:

Sergipe realiza poucos transplantes de córnea em longo período de tempo

Posted in Uncategorized by micheletavares on 04/05/2010

Sem campanhas de incentivo à população, os pacientes que estão na fila de espera por uma córnea, muitas vezes sem alternativas, são obrigados a esperar, pelo menos, três anos até que conseguirem o transplante.

Por Julie Melo e Mairon Hothon

Quão fascinante é ver tudo ao seu redor, não é mesmo? As diferentes formas, cores, movimentos e objetos que nos rodeiam, uma verdadeira independência das pessoas e poder de transformação para nossa vida. Mas nem sempre essa “independência” acontece. Devido muitas vezes a problemas genéticos, acidentes e até a idade que ultrapassa a barreira da velhice, a nossa visão é afetada e por isso, ao invés de vermos tudo com perfeita harmonia, o ambiente começa a clarear demais, ficar turvo, com manchas, não conseguimos enxergar objetos de muito perto ou longe e, por conseqüência, até perder por completo a visão. Seria como se nós trocássemos uma TV de Plasma, com sinal digital, por uma TV antiga, com uma antena que só reproduz sinal analógico e repleto de chuviscos. É assim que vivem as pessoas que precisam de uma nova córnea, enquanto não passam por uma cirurgia de transplante.

Hoje em Sergipe, quem estiver precisando de uma córnea nova para continuar enxergando normalmente terá de esperar no mínimo três anos na fila, isso se seu caso não for de urgência imediata. Infelizmente, esta é a realidade do nosso estado. Muitos fatores colaboram para essa demora, mas os principais deles são a falta de campanhas de doação de órgãos, uma cultura social e o sistema de captação que é falho. Um exemplo que ilustra bem a situação é o caso da estudante Cíntia Rafaela de Oliveira Santos, de 17 anos. Há cinco, ela descobriu que tinha ceratocone. Foram seus professores que alertaram sua mãe, d. Rita de Cássia, da sua dificuldade de enxergar em sala de aula. Logo a família procurou ajuda médica e Cíntia passou a usar uma lente específica para o problema que, entretanto, agravou-se. Por indicação da oftalmologista particular, Cíntia foi para a fila de espera e, devido à gravidade de sua doença, passou a ocupar a 174° posição. A menina relembra o mau atendimento por qual passou no antigo Hospital João Alves, atual Hospital de Urgência de Sergipe (HUSE). O médico lhe disse apenas o nome de sua doença, sem lhe dar a devida explicação. Só depois, ele explicou o problema para a mãe. D. Rita atribui às políticas públicas a forma como foram tratadas. “Só sabe quem passa pela situação. Estou decepcionada com o tratamento que tivemos. Desde que o médico disse que minha filha tinha perdido sua córnea, foi um inferno para mim. O que falta na saúde pública de nosso estado são médicos preparados para lidar com tal problema. Falta também interesse dos políticos em defender a causa”.

Localização da córnea. Fonte: Google.

A falta de informação sobre transplante de córnea é mesmo grande. As campanhas ajudam não só a aumentar o número de doações, mas também a tirar muitas dúvidas da população em torno do assunto. Muitos nem sabem que parte do olho é a córnea e não fazem ideia de quão grandes são a fila e o tempo de espera. Para quem não sabe, a córnea é o tecido transparente que fica na frente do olho e não possui vaso sanguíneo. Para explicar um transplante de córnea, é comum a analogia feita entre o olho e um relógio. É como se a córnea fosse o vidrinho do relógio. Quando esse vidrinho está embaçado ou arranhado, fica impossível enxergar as horas que os ponteiros marcam. Da mesma forma, quando a córnea está danificada por algum motivo, o olho não consegue enxergar através dela. Data-se de 1954 a primeira cirurgia de transplante de córnea ocorrida em nosso país, na cidade de São Paulo. Durante o transplante, retira-se a parte centralda córnea do cadáver (transplante penetrante; o mais comum), coloca-a no lugar da córnea doente e faz-se a suturação (costura). A córnea nova será englobada como se fosse do próprio olho. São raros os casos de rejeição, se o transplante for bem feito. Qualquer alteração sofrida pela córnea que impeça a pessoa de enxergar requer o transplante. Doenças como ceratocone, ectasia corneana não inflamatória e auto-limitada, caracterizada por um afinamento progressivo da porção central da córnea até que ela seja completamente perfurada; úlceras, que são feridas profundas; ou até mesmo acidentes, como uma pancada ou perfuração no olho; são motivos que levam ao transplante, ou seja, quando existe a perda da integridade da córnea. As principais doenças diagnosticadas são: ceratopatia, ceratocone, leucoma e a distrofia ocular. É importante lembrar que, se alguma outra parte do olho além da córnea for afetada, não há nada que possa ser feito, pois não há transplante de olho.

Quando ocorre um óbito por morte encefálica, caso o indivíduo seja doador, o ideal é que as córneas sejam retiradas em, no máximo, seis horas. A córnea é, então, submetida a exames, feito pelo Banco de Olhos, que dirão se ela pode ou não ser usada em transplantes. Em seguida, a córnea é mantida em soluções que a conservarão por até 15 dias. A qualidade da córnea depende da idade e da ausência de doenças. Além de algumas doenças nos olhos, como infecções, outras patologias, como hepatite e AIDS, podem impedir que a córnea sirva para transplante. Também o motivo da morte do indivíduo pode influenciar na doação de suas córneas. Quem morreu de septicemia – infecção generalizada –, por exemplo, não pode doar. Apenas uma das córneas pode ser doada, caso a outra não seja adequada para transplante. As córneas que não servem serão usadas em pesquisas. Também não há diferenças entre a córnea esquerda e a direita. Ambas podem ser usadas em qualquer um dos olhos.

Atualmente, a maioria das clínicas em Aracaju, autorizadas pelo Ministério da Saúde em 2009 (veja lista abaixo), possui centro cirúrgico, local onde deve ser realizado o transplante. Não é necessário que a cirurgia seja feita num hospital geral. Outro tipo de transplante é o tectônico. Ele é feito em casos de necessidade imediata, quando não há uma córnea com a transparência apropriada para enxergar, e o paciente precisa de uma nova córnea para proteger seu olho de infecções. O paciente pode, então, esperar pela córnea ideal sem riscos. O tempo de recuperação após o transplante depende muito do transplantado. Pode ser de dois meses ou um ano, em média.

Arte: Maiton Hothon

Na graduação, os alunos de medicina aprendem, principalmente, a parte teórica de transplantes. Suas aulas práticas ensinam a utilização de aparelhos, realização de exames etc. É somente na pós-graduação em oftalmologia que os alunos residentes praticam o transplante de córnea. Inicialmente, eles treinam em olho de porco, que tem a córnea mais espessa. Depois, passam a treinar em olho de cachorro ou coelho e só então podem treinar em olho humano, com a supervisão de um médico. A especialização em transplantes demanda muito tempo, por isso o número de médicos transplantadores é pequeno. Em Sergipe não há pós-graduação na área. Os centros de especialização estão localizados em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Salvador, entre outros.

O trabalho da Central de Transplantes e do Banco de Olhos

Central de Transplantes, anexo ao HUSE – Foto: Julie Melo

Até o ano de 2008, Sergipe não possuía um Banco de Olhos, órgão público que faz captação, preservação e distribuição de córneas. As córneas doadas aqui eram transportadas até o Banco de Olhos do Distrito Federal para, lá, serem submetidas às avaliações necessárias e, só então, retornavam ao estado. Todo esteprocesso levava 12 dias. Com a chegada do Banco de Olhos, em 2009, não é mais necessária o envio das córneas a outro estado, o que reduziu o trabalho de captação e preservação à metade ou até menos dias.

A atuação do Banco de Olhos é a seguinte: na ocorrência do óbito, uma equipe procura a família do indivíduo que morreu e pede autorização para doação das córneas. Se a família autorizar, ela deve assinar um termo de doação. Colhe-se, então, o sangue do cadáver para que seja feito o exame de sorologia. Em seguida, é feita a enucleação, retirada do globo ocular. Retira-se a córnea do globo ocular e preserva-a da maneira adequada.

A cada mês, a Central de Transplantes envia um quadro de estatísticas ao Sistema Nacional de Transplantes, informando tudo o que se refere a transplantes de córnea – quantos foram realizados naquele mês, quantas pessoas há na fila etc. Todo ano, a Central também expõe novas propostas e faz pedidos a Secretaria de Estado da Saúde (SES), mas nem sempre as propostas são aceitas e os pedidos atendidos. A meta constante da Central de Transplantes é zerar a fila de espera. Este ano, pretende-se, pelo menos, aumentar em 30% o número de transplantes de córnea.

A Política Nacional de Transplantes de órgãos e tecidos está fundamentada na Legislação (Lei nº 9.434/1997 e Lei nº 10.211/2001), tendo como diretrizes a gratuidade da doação, a beneficência em relação aos receptores e não maleficência em relação aos doadores vivos. Estabelece também garantias e direitos aos pacientes que necessitam destes procedimentos e regula toda a rede assistencial através de autorizações e reautorizações de funcionamento de equipes e instituições. Assegura também que após a retirada do corpo, o cadáver será condignamente recomposto e entregue a família para o sepultamento. Toda a política de transplante está em sintonia com as Leis nº 8.080/1990 e nº 8.142/1990, que regem o funcionamento do SUS. A falta de conhecimento destas leis leva a população muitas vezes a uma ideia equivocada acerca do que é ser doador de órgãos.

O aumento de quase 80% e a escassez de campanhas

Em 2009, a SES divulgou um aumento de quase 80% no número de transplantes. Segundo dados da oftalmologista Juvina Leonor, mestranda na área, os números se concentram para doadores do sexo masculino, na faixa etária de 51 anos e entre receptores de 39 a 41 anos do mesmo sexo. Para Benito Oliveira Fernandez, coordenador da Central de Transplantes, esse aumento se deve a um trabalho educativo feito junto aos profissionais da saúde, que consiste em comunicar a Central de Transplantes assim que ocorrer um óbito, para que todo o procedimento necessário seja realizado. Apesar disso, este ano, já houve uma queda drástica em relação aos três primeiros meses do ano passado – 25 transplantes nos três primeiros meses de 2009 e sete em 2010 –, devido à chegada de novos profissionais que ainda não estão adaptados ao trabalho que é feito no Estado.

Embora já se tenha registrado queda em 2010, nos últimos anos, o número de transplantes de córnea vinha progredindo, mas ainda é necessário atender uma demanda muito maior. O tempo médio de espera por uma córnea em Sergipe é de três anos, enquanto em São Paulo esse tempo varia entre 20 e 30 dias.

Ano 2005 2006 2007 2008 2009
N° de Transplantes 32 45 54 59 102

Arte: Julie Melo

O quadro acima é positivo, entretanto, não é reflexo de um trabalho de campanhas em Sergipe. As campanhas de doação de órgãos estão escassas e não há nenhuma prevista. A única certeza é de que todos os anos, no dia 27 de setembro, Dia Nacional do Doador de Órgãos e Tecidos, é promovido um trabalho de incentivo à doação. Neste dia, o Ministério da Saúde e a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos enviam para a Central de Transplantes de cada estado, folders, cartazes e panfletos, para que se use na divulgação da campanha. Infelizmente, apenas esta atividade não surte o efeito necessário. É preciso aumentar bastante a divulgação na mídia. São Paulo e Paraíba já zeraram sua fila através apenas da divulgação maciça de campanhas na mídia. “É preciso a parceria de toda a sociedade e todos os profissionais da saúde. Todos devem estar mobilizados na questão de doação de órgãos”, diz Benito.

Atualmente, há 346 pessoas na fila de espera. O oftalmologista Dr. César Faro imputa este grande número de pessoas à péssima assistência dada ao Banco de Olhos pelos órgãos competentes. Atribui a escassez de campanhas à falta de vontade política, já que tudo que é público é regido por interesses políticos. “A população não é incentivada a se tornar doadora. Faltam campanhas de incentivo e esclarecimento do que é o transplante de córnea. Acho que deveria ser um trabalho constante nos meios de comunicação, que deixaria o povo sempre em alerta”, defende.

Dr. Alex Vianey, chefe de Departamento da UFS – Foto: Mairon Hothon

Também para o Professor Dr. Alex Vianey Callado França, chefe do Departamento de Medicina da Universidade Federal de Sergipe (UFS), o grande problema do Estado é a falta de doações, pois Sergipe tem estrutura para fazer qualquer tipo de transplante. Segundo ele, vários são os motivos para o baixo número de transplantes realizados aqui e para o longo tempo de espera na fila: a população não doa por questões culturais ou religiosas, o longo protocolo pelo qual deve passar o cadáver antes de suas córneas serem retiradas (3 processos legais), a falta de conhecimento e cultura de causa dos médicos e das enfermeiras. “Não existe uma filosofia para solicitar à família os órgãos do cadáver. Isso é uma questão de treinamento dos profissionais”.

Por todos esses motivos, a menina Cíntia decidiu não mais esperar. Aconselhadas pelo próprio Benito, mãe e filha contataram o Hospital Oftalmológico de Sorocaba e, em 15 dias, uma consulta foi marcada. No último dia 27 de abril, Cíntia viajou para São Paulo, onde seu transplante provavelmente será realizado. Se ficasse aqui, Cíntia esperaria, até 2012 na fila. As autoridades competentes foram procuradas para que arcassem com as despesas necessárias da viagem, um custo de aproximadamente R$5 mil. Porém não o fizeram. Com a necessidade de viajar para São Paulo e da recuperação pós-operatória, a estudante se preocupa: “Estou no último ano do ensino médio e tenho medo de perdê-lo e não passar no vestibular. Muitas vezes, não conseguia estudar, por causa da lente que incomodava.”

Cíntia Rafaela, esperançosa com a ida para Sorocaba – Foto: Mairon Hothon

Embora a situação de transplantes de córnea seja marcada pela lentidão, há quem consiga realizar a cirurgia em pouco tempo. É o caso de Lidiane Sousa França Rodrigues, de 16 anos, que teve sua córnea transplantada em março deste ano. Aos quatro anos de idade, foi diagnosticado que ela tinha glaucoma, designação genérica de um grupo de doenças que atingem o nervo óptico e envolvem a perda de células ganglionares da retina, num padrão característico de neuropatia óptica. Imediatamente, sua mãe, d. Raimunda, recorreu à ajuda médica, pois a menina corria o risco de ficar cega. Também por intermédio de sua oftalmologista, Lidiane foi para a fila de espera. Após dois anos de espera, o transplante foi realizado em fevereiro de 2007. Porém seu problema não fora resolvido. Lidiane passou por uma situação muito rara: rejeição da córnea. Em outubro de 2009, a menina entrou novamente na fila e, apenas um mês depois, foi submetida a novo transplante. Apesar disso, sua mãe não sossegou com a situação do nosso estado e faz um apelo: “Por favor, para aquelas famílias que perderam um ente querido, que doem os órgãos, pois eles podem ajudar muita gente”. Mãe e filha acreditam que a grande diferença entre os dois tempos de espera se deve a uma reportagem feita por uma emissora local de TV, afinal, nesse segundo momento a cirurgia fora marcada para apenas um mês depois. Hoje, Lidiane se recupera bem da cirurgia e o único gasto de sua mãe é com a medicação, que, segundo ela, não é oferecida pelo SUS. Ambas as famílias são doadoras de órgãos, mesmo antes de passarem pelo problema.

Algumas histórias acabam com um final feliz, outras se alongam na fila, aguardando uma córnea para o seu tão sonhado desfecho. Um sistema por completo, que envolve cultura social e médica, sistema de captação de córnea e campanhas de conscientização, precisam mudar para resolver o problema na sua raiz. A doação de órgãos precisa ser incentivada no Estado de Sergipe para que todos os pacientes tenham sua visão independente e limpa, e não mais repleta de chuviscos.

Cartazes da campanha de doação de órgãos. Fonte: Google.

A Questão do SUS em duas versões

Como anda o filme do audiovisual em Sergipe

Posted in Cultura by micheletavares on 04/05/2010

Por Moema Pascoini

câmera 16mm

Vista de fora a imagem reflete um cenário aparentemente favorável: temos um dos 14 Núcleos de Produção Digital implantados no país, um festival decinema que já está em sua 10ª edição, um curso de graduação em Audiovisual dentro da Universidade Federal e um número crescente de pessoas envolvidas ou pelo menos interessadas na área. Porém existe sempre uma interrogação presente

quando o assunto é o audiovisual em Sergipe. Estamos realmente caminhando dentro dessa área ou apenas começando a engatinhar?

O cinema sergipano teve um início tímido na década de 40, através de Clemente Freitas, um fotógrafo que filmava com câmeras 16mm e 8mm feiras e cenas cotidianas de Estância, sua cidade natal. A partir da década de 60, tudo começa a criar mais forma, as produções realizadas, em sua maioria documentários, eram filmadas em câmeras Super 8 ou 16mm e tinham no geral equipes bastante pequenas. Esses primeiros curtas metragens sergipanos saíram do Estado participando de festivais nacionais e internacionais de cinema, chegando muitas vezes a ganhar premiações. Como por exemplo,  “Muié Rendeira” de Augusto César Macieira  que ganhou em 1975 a Medalha de Prata Kodak no “II Festival Nacional de Super 8mm” e o documentário “Taieira na Festa de Reis” de Djadino Mota Moreno que ganhou o prêmio de 2˚ Melhor Documentário na “I Bienal Paineira de Cinema Amador”, em 1979.

Durante o período enquadrado entre a década de 80 e 90, as produções de audiovisual no Estado perderam o ritmo de realização

núcleo de produção Orlando Vieira / Divulgação

das duas décadas anteriores, situação que só iria se reverter a partir de 2001 com a criação do então Festival Brasileiro de Curtas Metragens de Sergipe, considerado um marco dentro da história do audiovisual no Estado.  O Festival serviu como fonte de estímulo para as pessoas filmarem: finalmente elas teriam novamente dentro do Estado um canal para divulgação de seus trabalhos. Além disso, em 2005, com o Programa Olhar Brasil, do Ministério da Cultura, através da Secretaria do Audiovisual , é implantado o Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira com a função de atuar na formação e no apoio das produções independentes e de baixo custo.

Porém o que parece significar um grande avanço dentro de uma capital como Aracaju, onde não existia nenhuma iniciativa pública ou privada que fosse voltada diretamente ao audiovisual, para muitos foi um projeto que ainda não conseguiu cumprir seu papel. As reclamações gerais incluem a má divulgação dos cursos desenvolvidos dentro do Núcleo e o fato de haver grandes espaços de tempo entre um curso e outro.

Indagada sobre quais seriam as principais dificuldades que o NPD Orlando Vieira encontra para realizar seus projetos, a Coordenadora do Núcleo Graziele Ferreira, cita como um dos principais entraves a burocracia. Ela explica que apesar de ser útil pare se ter um controle e documentação do funcionamento de um órgão que lida com dinheiro público, o nível de burocracia muitas vezes é alto demais e acaba criando obstáculos para a realização de trabalhos. “Outro fator, dessa vez local, é a mudança de Gestão. Nós temos três anos e meio de existência do Núcleo e já estamos na quarta gestão. Isso faz com que o conhecimento não fique retido. Quando o gestor já está ficando mais adaptado ao sistema, entra outra pessoa para assumir. E estar adaptado dá mais agilidade ao processo, porque a pessoa já vai entender como funciona”, explica a Coordenadora.

Sobre o cenário atual do audiovisual em Sergipe, Graziele diz sentir uma grande inércia. “A gente faz as produções na garra, mas pra que isso vire uma rotina é preciso uma economia voltada para o audiovisual que gere recursos, gere rendas e que banque os realizadores. Que eles possam viver daquilo, porque aí você continua produzindo”, conclui.

E não só ela vê a falta de mercado dentro do Estado como um fator que torna mais lenta a evolução das produções e das pessoas que trabalham e que desejam fazer com que o audiovisual  saia da categoria de hobby e passe a ser encarado como uma fonte de renda real. Falta mercado e profissionalização de qualidade.

Apesar de existir desde o ano passado um curso de graduação em Audiovisual na Universidade Federal de Sergipe, os estudantes tem reclamado bastante da qualidade de ensino que o curso vem oferecendo.  A falta de estrutura técnica e de formação é uma realidade vista pelos alunos. “A produção ainda é pequena na UFS, só existe uma professora da área de cinema, e não temos equipamentos suficientes para isso. A vontade dos alunos é que está fazendo com que o curso vá adiante”, conta Fernanda Almeida, estudante de Audiovisual da UFS.

Apesar dessas carências apontadas pelos realizadores e das dificuldades que acabam encontrando pelo caminho, quando a opção é criar algum trabalho relacionado ao audiovisual, existem iniciativas independentes que surgiram e que até agora tem funcionado. É o caso da Zero Grau, produtora independente que tem sede no bairro Albano Franco. Ela foi fundada no ano de 2004 por um grupo de amigos que resolveram que poderiam fazer filmes juntos. Nenhum deles possuía nenhum tipo de formação dentro do audiovisual, porém a iniciativa rendeu bons frutos e nesses quase seis anos de existência já produziram um total de cinco curtas, participaram de festivais dentro e fora do estado e foram premiados duas vezes no Curta-se.

Marcelo Roque, diretor e um dos fundadores da Zero Grau conta que a equipe começou a adquirir experiência de maneira empírica, através do erro e acerto dentro das próprias produções. “Já no segundo ganhamos Menção Honrosa na Mostra do Filme Livre de 2007/RJ e fomos também o Primeiro Lugar pelo Júri Popular no Curta-se. Depois disso cada um foi assumindo uma área específica, se identificando mais com determinadas coisas e sempre mantendo basicamente as mesmas pessoas na equipe fizemos mais três curtas e dentro deles está a série de animação infantil “Seu Euclides” que foi realizada através dos editais do Banco do Nordeste e que também foi premiada dentro do Curta-se”, explica o diretor.

Porém, apesar da constante produção realizada pela Zero Grau, quando questionado sobre a situação atual do audiovisual em Sergipe, a resposta faz coro ao que já havia sido dito. “Nós não temos um acompanhamento real sobre como está a situação, em termos de números. Mas eu cheguei agora lá do Encontro da Rede Nordeste do Audiovisual e vi que um dos únicos Estados que não tem editais é Sergipe, então sem verbas fica muito difícil”, comenta.

Há dois anos houve um edital no valor de R$15 mil reais aberto pela Prefeitura Municipal de Aracaju, através da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e esportes (Funcaju), que contemplou cinco projetos, porém depois disso não houve outras iniciativas. “Além disso, falta uma organização maior por parte dos realizadores para buscar soluções para esse tipo de problema. Está sendo gerado agora um coletivo para a discussão do audiovisual, temos alguns objetivos fixos e a idéia é que o maior número de pessoas que já trabalhe ou não na área participe e que possamos de maneira organizada conseguir  se fortalecer e evoluir dentro do audiovisual”, diz Marcelo.

Fazendo um balanço geral, vemos que realmente nem tudo que reluz é ouro quando se trata da realidade do audiovisual dentro do Estado. Ainda assim entre falta de apoio do governo, falta de mercado para receber os produtos criados e falta de formação de qualidade as pessoas continuam se movendo e filmando, talvez ainda sob a perspectiva e falta de experiência de um bebê que engatinha, porém indo adiante, o que talvez agora seja o mais importante.