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Reforma Psiquiátrica traz reflexos positivos em Aracaju

Posted in Cidade by micheletavares on 03/05/2010

Em vigor desde 2000, a mudança na política psiquiátrica conseguiu inserir os deficientes psicológicos na sociedade Sergipana?

Por Catarina Schneider e Lohan Montes

A aparência é lúgubre, lembrando vagamente um presídio. É difícil associar o lugar à regeneração da saúde ou a aquisição da saúde mental. Rostos emoldurados pelo sofrimento de terem suas identidades perdidas de forma tão repentina, gritos de desespero e olhares vazios, agressividade e falta de vida humana. A parte física não colabora: corredores brancos, estreitos, quartos que mais parecem celas de prisões cujas grades impedem qualquer tipo de calor humano; o isolamento é o senso comum em hospitais e enfermarias psiquiátricas. Não sendo ainda bastante, alguns funcionários destes locais já estão tão acostumados com aquele ambiente que sequer demonstram qualquer expressão emotiva. O cotidiano dos pacientes se mistura e se separa num grande abismo: de um lado a razão, do outro a única companhia – a solidão. Uma opressão personificada.

Anotações de Camila, paciente de 15 anos do HU, diagnosticada Bipolar

Anotações de Camila, paciente de 15 anos do HU, diagnosticada Bipolar

Neste ambiente o sofrimento é o quadro comum. “Eu sou uma menina muito nervosa, muito eufórica, não tenho paciência comigo mesma, não sei conter minhas emoções, por isso tomo remédio controlado”, desabafa Camila, de 15 anos, que sofre de transtorno bipolar e está internada no Hospital Universitário de Aracaju da Universidade Federal de Sergipe (HU) há pouco mais de um mês por vontade própria. “A vida é feita de escolhas, e eu vou escolher o melhor pra minha vida no hospital”, completa esperançosa e segura, mostrando-se conhecedora do seu problema. Camila retira de uma pasta um caderno pequeno onde escreve seus pensamentos e relata a doença dos seus colegas de convívio: Robert, 18 anos: “Ele tem esquizofrenia. É terrorista, só fala em matar. A doença começou por causa da família e porque zombavam da felicidade dele”. Tânia, 27 anos: “A esquizofrenia começou em 2008. Ela saiu pela rua, ouvindo vozes, por um mês inteiro, não queria saber da vida. Faz duas semanas que não ouve mais as vozes”.

Ela é um dos sete pacientes que estão em tratamento diário no HU, um dos poucos hospitais públicos com enfermaria psiquiátrica que internam pessoas com problemas psicológicos e psiquiátricos em Aracaju. O Hospital só tem estrutura para abrigar oito internações, deixando muito a desejar. “A área física é precária, deveria haver mais área externa para eles poderem passear e fazerem as atividades, e também carece de área verde”, reconhece a enfermeira chefe do Ambulatório do HU, Andreia Aragão Rabelo.

Depois da aprovação da Lei nº 10.216, que estabelece os direitos dos pacientes e regula as internações psiquiátricas, ainda se pergunta: a forma de lidar com o doente mental em comparação ao passado se modificou? Pergunta-se mais: como tratar sem excluir, sem retirar o indivíduo do convívio social e familiar?

Com a reforma psiquiátrica, que desaprova a internação em hospício e asilos manicomiais e, conseqüentemente, a exclusão do convívio social das pessoas com transtornos mentais, desde o ano 2000, o tratamento hospitalar começa a ser modificado. Porém, o movimento antimanicomial deixou claro à sociedade que não bastava humanizar os hospícios, melhorar o ambiente manicomial ou ampliar o número de profissionais dessas instituições. A idéia era muito mais ampla: em lugar dos manicômios, a proposta era trazer o “louco” de volta ao convívio social, resgatar a cidadania dos que passaram anos de suas vidas trancafiados, sofrendo maus tratos e humilhações.

O médico-psiquiatra Pedro Gabriel Godinho Delgado, coordenador-geral da Saúde Mental do Ministério da Saúde, salienta o fato de que a reforma tinha dois vetores: a desconstrução do modelo hospitalocêntrico – curativo e centrado na doença – e a expansão de uma nova proposta, inspirada no modelo da reforma psiquiátrica italiana, liderada pelo Médico Psiquiatra Franco Basaglia, que defendia que o hospício foi construído por uma razão: controlar e reprimir trabalhadores que perderam a capacidade de responder aos interesses capitalistas de produção. Para o Psiquiatra, era claro que a assistência prestada nos hospitais era ruim, não ajudando o paciente e, consequentemente, não se fazendo necessária.

Dr. Antônio Eduardo, psiquiátra do HU

No entanto, no Estado de Sergipe, de acordo com o Dr. Antônio Eduardo Mendonça de Jesus, psiquiatra do Ambulatório do Hospital Universitário há oito anos, o modelo antigo não acabou. “Na prática, o modelo hospitalocêntrico ainda é vigente porque acabar com os hospitais psiquiátricos públicos é muito fácil. Os hospitais privados, que tem interesse comercial, independente dos assistenciais, só chegariam ao fim se fosse tirado aquilo que os alimenta: a verba que o Governo repassa. Eles vivem praticamente dessa verba porque os convênios e os casos particulares não os mantêm economicamente”.

A prática é muito diferente da teoria em que se baseia o movimento conforme a enfermeira chefe, Andreia Aragão, que declara: “É muito difícil e controverso. Acho que não deveria ser uma mudança tão radical assim. Porém, a proposta é bastante interessante devido ao formato antigo dos hospitais daqui”. A teoria propunha a extinção dos manicômios, mas no Estado de Sergipe, só foram extintos os hospitais psiquiátricos públicos: o Adauto Botelho e o Garcia Moreno, restando somente os hospitais psiquiátricos particulares: a Casa de Saúde Santa Maria e a Clínica de Repouso São Marcelo.

Também foram criados os Centros de Apoio Piscossocial (CAPS), que surge no Brasil em março de 1987, com a inauguração do CAPS Luis da Rocha Cerqueira, na Cidade de São Paulo. São instituições que visam a substituição dos hospitais psiquiátricos – hospícios ou manicômios – e de seus métodos, oferecendo atendimento de cuidados intermediários entre o regime ambulatorial e a internação hospitalar. Eles oferecem cuidados intensivos, semi-intensivos ou não intensivos a pacientes em sofrimento psíquico, diagnosticados como neuróticos graves ou psicóticos que podem já ter ou não histórico de internação e/ou tratamento. A atenção do CAPS deve incluir ações dirigidas aos familiares e comprometer-se com a construção dos projetos de inserção social. Devem ainda trabalhar com a idéia de gerenciamento de casos, personalizando o projeto de cada paciente na unidade e fora dela e desenvolver atividades para a permanência diária no serviço.

Além dessas unidades, existe uma emergência psiquiátrica no Hospital São José que, em caso de internação, conduz as pessoas aos hospitais psiquiátricos privados que funcionam em convênio com o Sistema Único de Saúde (SUS). Essa emergência funciona como uma triagem dos casos. “É como se ela decidisse quem precisa e quem vai ser internado nos hospitais psiquiátricos”, afirma Dr. Antônio Eduardo. No São José é feito um atendimento imediato, para aqueles casos em crise, no qual o paciente fica internado no máximo três dias e, se necessário – a maioria das vezes – encaminhado a algum hospital.

Dr. Hamilton Maciel, psiquiátra e proprietário da Clínica de Reopuso São Marcelo

A Clínica de Repouso São Marcelo, que funciona no Bairro Cidade Nova, já promoveu eventos internacionais em parceria com a Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, e também com a Universidade Federal de Sergipe (UFS). É uma instituição privada com 160 leitos preenchidos e funcionando. Dr. José Hamilton Maciel, psiquiatra e professor universitário aposentado, é o proprietário, junto à sua família, todos da área de saúde.

“A Reforma vem propagando que a doença não existe e que é feita pelo psiquiatra ou pelo hospital. É uma discussão política. Eles admitem a psiquiatria democrática, mas, assim como não existe cardiologia democrática, também não existe a psiquiatria. Eles transformaram isso numa política contra o doente, que é quem sofre mais”, afirma Dr. Hamilton.

A grande polêmica gira em torno dos extremos: de um lado o Modelo Hospitalocêntrico, do outro a Reforma Psiquiátrica. “Eles querem abolir o hospital, mas é acabando com o cemitério que se acaba com a morte? Então não é acabando com o hospital que a doença acaba. Há casos que precisam de internação”, esclarece o médico.

Clínca de Repouso São Marcelo

Hoje, 95% dos casos atendidos nos hospitais psiquiátricos e ambulatórios são de ansiedade e depressão. Os casos de psicose – estado mental em que ocorre uma perda de contato com a realidade objetiva – se tornaram muito pequenos, por razão desconhecida. As formas agudas, em que a pessoa põe em risco a própria vida ou as dos demais, precisam de uma contenção hospitalar, no entanto, mesmo os casos crônicos que já adquiriram risco de forma negativa, ou seja, os sintomas deixam de se manifestar, precisam apenas de acompanhamento ambulatorial. “Medicina não cura, trata os sintomas”, concordam Dr. Antônio e Dr. Hamilton.

O tratamento para doenças mentais é sintomático, ou seja, é diretamente aos sintomas. A medicina não possui ainda remédios específicos para doença mental específica, mas sim para os sintomas que as doenças apresentam. Este

Interior Clínica de Repouso São Marcelo

fator salienta uma discussão mais complexa e polêmica, de acordo com Dr. Antônio Eduardo. “A doença mental realmente existe? É como as outras doenças cuidadas pela medicina? Paira sobre isso uma dúvida”.

Outro fator importante a ser observado em todos os casos é o acompanhamento familiar. As famílias, em sua maioria, não têm preparo adequado para cuidar de um doente mental e os cuidados que este requer são, de fato, especiais, pois não estão restritos somente à medicação, precisando também de uma estrutura de acompanhamento e vigilância. “É muito difícil pra uma família com despreparo psicológico, ficar com esse indivíduo dentro de casa sem um suporte, até pela dificuldade financeira, de informação, das necessidades do paciente e de preconceito. Há alguns pacientes que não ficam bem com os remédios e precisam de um suporte maior”, ressalta a enfermeira. Porém, seriam necessários anos de treinamento que teriam de ser custeados pelo Estado ou pela família; além da disponibilidade de tempo e paciência, coisas que não são feitas.

Enfermaria Psquiátrica do HU

Um dos pontos positivos que a Reforma Psiquiátrica trouxe, foi a criação de Residências Terapêuticas, que são casas com o objetivo de abrigar pacientes que não tiveram condições de voltar para suas residências, seja porque a família não os quiseram ou porque não há uma família ou casa para voltar. Então, após a reforma, na qual foi determinada a saída dos pacientes dos manicômios, levando-os de voltas às suas casas, os pacientes que não tiveram essas condições, foram escolhidos juntamente com sua “família” – companheiros de hospital – para conviverem juntos, trazendo-os assim de volta a uma vida “normal”. Eles continuam recebendo assistência de médicos, psicólogos, enfermeiros, auxiliar doméstica, e muitos acabam se relacionando e criando uma família de verdade. “Houve vários casos de pacientes que se casaram, tiveram filhos e acabaram criando mesmo uma família”, afirma Dr. Antônio Souza Lima Júnior, Coordenador da Psiquiatria do Hospital São José.

Embora ainda hoje a internação se faça necessária, após a Reforma Psiquiátrica, o tempo dos pacientes nos hospitais não é mais indeterminado. Eles já entram com uma data prevista de saída – que pode ser alterada de acordo com o quadro médico do paciente. As opções dadas ao paciente sobre o seu tratamento e a inclusão das opiniões de quem está sendo tratado também são vistas como uma melhora. “O paciente hoje pode dizer que não quer fazer terapia em grupo, que não se sente bem falando na frente de várias pessoas, e assim buscaremos outro método de tratamento para ele”, declara Dr. Antônio Souza.

A discussão em torno do destino dos doentes mentais está longe de chegar a uma conclusão. Por tratar-se de doentes que não estão correndo risco de morte imediata, o transtorno mental não causa diretamente a morte dos pacientes, que tem de conviver com o problema. A psquiatria se refere a transtornos ou distúrbios psíquicos e não a “doença” porque poucos quadros clínicos mentais apresentam todas as características de uma “doença” no sentido tradicional do termo, que é o conhecimento exato dos mecanismos envolvidos e suas causas explícitas. O transtorno mental, em seu conceito, implica em comportamentos em que a pessoa apresenta algo anormal, diferente, desviante do conceito da normalidade.

As opiniões dividem-se quanto aos modelos a serem adotados no tratamento de portadores de transtorno mental; se por um lado o modelo tradicional de internação e isolamento parece cruel, também é cruel que o portador de transtorno mental seja relegado ao abandono dentro da própria casa por não haver condições mínimas para cuidá-lo.

Seria necessária uma profunda investigação do paciente, para a averiguação da natureza e do grau de seu transtorno, se pode vir a ser um perigo para si mesmo e para outras pessoas; e a avaliação familiar, onde se sondasse o que sabem das condições do doente, se a família tem condições de abrigar e cuidar convenientemente dele e se está disposta a receber treinamento adequado para administrar esses cuidados, o que leva a um novo patamar de complexidade e discussão: o Estado precisaria disponibilizar treinamento para os familiares.

De fato, a discussão entre os dois modelos de tratamento e provisão para os portadores de transtorno mental tem por base as razões da Reforma Psiquiátrica com a criação dos CAPS e a idéia de que “isolar” o portador de transtorno mental é cruel, que ele tem direito a liberdade e a conviver em sociedade versus a necessidade de proteger o portador de transtorno mental de si mesmo e de uma sociedade que não aceita diferenças. Os “loucos” não foram e não são bem vistos. Uma minoria é tolerada, a maioria é tratada com desrespeito e agressividade, estando expostos a todo tipo de violência se não houver quem os cuide. É preciso talvez que se busque inspiração em Philippe Pinel, médico francês que, embora hoje o conceito não seja mais válido, considerava os portadores de transtornos mentais como doentes, no sentido orgânico das funções superiores do sistema nervoso e fez dura oposição ao tratamento vigente que se constituía no uso de corretivos e castigos físicos. Para Pinel, os doentes deveriam ser tratados como doentes.

Entretanto, nos dias atuais, dificilmente é possível chegar a uma conclusão que conjumine todos os aspectos da questão, visto não ser um fenômeno epidêmico nem mortal, porém, é certo que os portadores de transtorno mental são também cidadãos e necessitam por isso de atenção, cuidados em suas necessidades e contemplação de seus direitos fundamentais.

REFLEXOS DA REFORMA PSIQUIÁTRICA

ANTES: DEPOIS:

– Indeterminação do tempo de internação -Tempo determinado para internação

– Excluir o paciente da sociedade – Surgimento de Casas de Repouso

– Tipo fixo de tratamento -Tratamento maleável, de acordo com paciente

Caixa de texto: REFLEXOS DA REFORMA PSIQUIÁTRICA  ANTES:                                                                 DEPOIS: -- Indeterminação do tempo de internação          -Tempo determinado para internação - Excluir o paciente da sociedade                        - Surgimento de Casas de Repouso - Tipo fixo de tratamento                                           -Tratamento maleável, de acordo com paciente

5 Respostas

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  1. Igor Almeida said, on 03/05/2010 at 7:40 pm

    Agoooooooooooora!!! mais uma vez catarina e lohan dando show!! kkkkkkkk
    parabens pela produção!!

  2. Maluh Bastos said, on 04/05/2010 at 6:33 pm

    Agooora, valeu mesmo! A reportagem traz a tona uma discussão muito profunda e extremamente conveniente! Começamos a ler a reportagem com uma visão muito negativa dos hospitais mas depois, quando vemos a declaração do Dr. Hamilton sobre a “comparação” dos hospitais com o cemitério, nós iniciamos uma análise se realmente existem tantos malefícios assim e poucos e benefícios como achamos. Quando estruturado e bem organizado o hospital psiquiátrico pode ajudar e muito os pacientes. O problema agora é justamente esse! Num Brasil como o nosso, o que é estruturado e bem organizado?

    Arrasou!

  3. Tatianne Melo said, on 05/05/2010 at 1:14 am

    Parabéns Lohan e Catarina pela coragem de abordar um tema tão complexo. Ótimo trabalho!

  4. Vanessinha said, on 11/05/2010 at 5:59 pm

    Primo, o que achou do assunto? é bem delicado neh? No papel é tudo perfeito!
    Acho que vc ainda vai fazer alguma matéria sobre o SUS, vc vai se encantar com a teoria, mas qdo for vivenciar a prática é um caos!

    Parabéns ao dois!

    =*

  5. Valéria Montes said, on 23/05/2010 at 2:55 am

    Lohan, parabéns pela relevância e clareza do tema. Continue assim!


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