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As redes sociais prometem ditar o futuro da Sociedade em Rede

Posted in Ciência e Tecnologia, Comportamento by micheletavares on 04/05/2010

Uns dizem que as pessoas emburrecem, outros dizem que até objetos serão meios de comunicação

por Daniel Nascimento e Eloy Vieira

O acesso à Internet é cada vez mais comum. Em três anos, o percentual de brasileiros de dez anos ou mais de idade que acessaram ao menos uma vez a Internet pelo computador aumentou 75,3%, passando de 20,9% para 34,8% das pessoas nessa faixa etária, ou seja, 56 milhões de usuários. Isso é o que traz a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada em 2008 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Jéssica Vieira na ASCOM-UFS Foto: Daniel Nascimento

Esse crescimento é visivelmente influenciado pela participação dos internautas brasileiros nas chamadas redes sociais, ou, na verdade, redes sócio-virtuais como defende a jornalista da Assessoria de Comunicação da UFS, Jéssica Vieira em seu artigo ‘Redes Sociais: o preço da corrida contra o anonimato’. “A Internet veio para aproximar as pessoas mas, ao mesmo tempo que você tem uma aproximação, também tem uma distância muito grande. Poucas vezes alguém liga para você, elas deixam recados no MSN, pelo Twitter, pelo Orkut, e você acaba tendo uma vida social muito virtual, sua vida acaba sendo sócio-virtual e não social”, explica a jornalista.

Um bom exemplo desse comportamento é o da estudante de enfermagem, Tamara Oliveira, que, apesar de tímida e reservada, considera-se viciada em Internet. “Eu não passo 24 horas na Internet, mas me considero bastante viciada, porque às vezes fico horas em frente ao PC, sem fazer nada, apenas no MSN e no Orkut (meus vícios), não passo um dia sequer sem entrar na net”, revela. Mas ela diz que isso já foi pior, afirma que hoje já vive mais no mundo real e tenta deixar a introspecção de lado. Porém, uma olhada em alguns dos perfis, como o seu Formspring, através do qual nos concedeu a entrevista, percebemos que sua vida virtual ainda é movimentada, e confessa: “Já tentei parar de usar, mas não consigo. Agora que estou estudando é que conseguir deixar um pouco de lado, pois estava tomando muito meu tempo”. (Veja a entrevista completa aqui)

Professora Lilian França Foto: ASCOM-UFS

Exemplos como o de Tamara vem se revelando cada vez mais comuns. Segundo a professora e pesquisadora do Departamento de Artes e Comunicação da UFS, Lilian França, ainda não se tem uma explicação científica para esse comportamento dos brasileiros frente à Internet, mas ela aponta que a sociabilidade típica do nosso povo é umas das principais explicações. “Ainda precisa-se fazer um estudo de caso, mas alguns autores já defendem que o alto grau de sociabilidade do povo brasileiro não seja só nas relações tradicionais, mas também nas relações mediadas pela Internet”. Ainda de acordo com a professora, alguns motivos secundários podem ser apontados. “Hoje o mundo está cada vez mais violento, ou seja, as pessoas procuram se relacionar na segurança de sua casa, e na Internet isso é muito fácil, pois nessas redes você pode fazer amizades com pessoas de qualquer lugar do mundo que tenham afinidades com você”, explica.

A pesquisa feita pela empresa de consultoria belga, Insites Consulting só endossa o aspecto levantado pela pesquisadora. Segundo o estudo, os usuários ao redor do mundo já chegam a cerca de 940 milhões, e o Brasil ocupa uma posição de destaque. Já somos considerado o país com usuários mais ativos e com mais amigos em sua lista. Ainda há outro dado importante, juntamente com Portugal, esses mesmo usuários integram em média duas redes sociais enquanto os outros usuários dos países pesquisados integram somente uma.

Por dentro das redes

De forma simples e sintética, uma rede social nada mais é que uma rede de amigos e/ou conhecidos, por isso, pode-se dizer que o homem vive em redes sociais desde que se entende como um ser social. Mas, no artigo intitulado “Social Network Sites: Definition, History, and Scholarship” (Sites de Redes Sociais: Definição, História e Pesquisa) os pesquisadores norte-americanos Boyd Danah (Berkeley) e Ellison Nicole vão mais além e definem as redes sócio-virtuais como serviços baseados na Internet que permitem que os indivíduos construam perfis públicos ou semi-públicos que permitem a articulação de listas de contatos com quem eles queiram manter-se conectados e que ainda possam visualizar ou trocar essa lista através desse sistema.

A Internet só surgiu no século XX, porém, com sua expansão a partir da década de 90, surgem as primeiras redes sócio-virtuais. A pioneira delas foi a Sixdegrees, que teve início em 1997 com inúmeros usuários, mas não durou mais de três anos porque não era financeiramente auto-sustentável. Já a partir do começo do século XXI, surgem várias redes como o Live Journal, Asianevenue, Blackplanet, LunarStorm, MiGente, Cyworld, Ryze e Fotolog, mas aquela que mais se aproximava das redes sócio-virtuais como as que conhecemos hoje foi o Friendster, que logo teve um boom de usuários, mas, com o tempo, o site não conseguiu atender à sua demanda.

Linha do tempo. Arte: Daniel Nascimento

Manuel Castells. Foto retirada do site do professor.

Mas, o fenômeno não era tão novo para alguns pesquisadores. Um deles, o filósofo espanhol, Manuel Castells, considerado um dos principais ícones quando se fala em comunicação mediada por rede defende em seus livro “O poder da Identidade” e Sociedade em Rede que essas redes resultam da revolução das novas tecnologias da informação e da reestruturação do capitalismo. “A revolução da tecnologia da informação e a reestruturação do capitalismo introduziram uma nova forma de sociedade, a sociedade em rede. Essa sociedade é caracterizada […] por uma cultura de virtualidade real construída a partir de um sistema de mídia onipresente, interligado e altamente diversificado. […] Essa nova forma de organização social, dentro de sua globalidade que penetra em todos os níveis da sociedade, está sendo difundida em todo o mundo”.

Mocinhas ou vilãs?


Quem não tem uma amizade na Internet? E namoros virtuais? Existem pessoas que procura até sexo na Internet. O boom das redes sociais só propicia que tais atividades  se tornem mais freqüentes. Segundo Jéssica Vieira, que também é pesquisadora, muitas pessoas estão esquecendo de manter relações interpessoais fora dessas redes. “As pessoas acabam focando suas vidas na Internet, arranjam namorados na Internet, fazem amigos na Internet, visualizam a vida delas na Internet quando na verdade a vida delas não está ali”, afirma.

Na mesma linha da profissional sergipana, o professor norte-americano da Universidade Emory em Atlanta, Mark Bauerkein, defende que o mal uso dessas redes pode trazer conseqüências à juventude, causando assim o ‘emburrecimento’ dessa faixa etária. De acordo com ele, as redes sócio-virtuais e as demais tecnologias da comunicação agem para tornar os jovens mais distraídos em relação ao restante do mundo e culturalmente inferiores. “Os jovens de hoje são tão mentalmente competentes quanto os de 20 anos atrás, e têm muito mais oportunidades de adquirir conhecimentos, mas eles estão deixando de lado os hábitos intelectuais e se dedicando cada vez mais à comunicação ‘peer to peer’ (a expressão pode ser adaptada para ‘pessoa para pessoa’ ou interpessoal, em português)”, afirma Bauerkein ao Jornal Estado de São Paulo em 2008.

Ainda numa perspectiva não muito otimista, Jéssica alega que o acúmulo de informações presente nas redes é prejudicial ao jornalismo. Seguindo o raciocínio da jornalista sergipana, mais pessoas passam a divulgar informações na Internet, sem, necessariamente, haver uma confirmação dos dados. “Muitas pessoas acham que podem ser jornalistas e se ligam às redes sociais para divulgar um tipo de informação que não é verdade, informações que não tem credibilidade nenhuma”, argumenta.

Mas as redes sociais não são as vilãs da vida moderna, pelo menos é que Jéssica Vieira defende. Ela aponta que essas novas ferramentas apresentam novas funcionalidades como uma aproximação cada vez maior com o leitor. “Essa relação com o leitor, com o internauta, com o cara que pega a revista, com o cara que lê o que você escreve, deveria ser muito estreita, muito próxima do real” Ela ainda traz outro ponto típico da sociedade informacional. A informação circula cada vez mais e muito mais rápido, tornando-se quase onipresente em vários setores da sociedade.

Gráfico: InSites Consulting


O futuro promete

O comportamento humano é, de certa forma, imprevisível, mas alguns pesquisadores já são capazes de relatar algumas tendências. É o que traz André Lemos, professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia e pesquisador de cibercultura em entrevista ao portal iT Web, especializado em Tecnologia da Informação numa reportagem especial sobre a Internet. “Em viagens, iremos deixar nossas impressões sobre um monumento e outra pessoa irá visualizar aquilo por meio de um dispositivo e softwares específicos que misturam códigos de diversos sistemas”, prevê. Ou seja, essa necessidade de tornar público sentimentos e opiniões deve ganhar espaços públicos integrados por meio de um sistema de redes virtuais integradas como uma manifestação da chamada realidade aumentada.

Se a chamada realidade aumentada transformar-se em algo concreto, as mídias sociais estarão tão onipresentes quanto os objetos do nosso cotidiano, pois, nesse cenário hi-tech, qualquer objeto capaz de ter emissores e sensores poderão ser meios de comunicação, logo, a comunicação digital seria tão comum como o ar que respiramos. Mas este é um cenário muito otimista e um tanto distante, pois, para que cheguemos a tal ponto, a capacidade do tráfego de informações pela web teria que aumentar de forma drástica.

Mas, colocando os nossos pés no chão, já vemos um futuro próximo e palpável se moldando. É o que aponta a professora Lilian França: “Esse processo é irreversível, a velocidade da chamada Internet 2.0 deve aumentar com a fibra ótica, o deve fazer com que as relações mediadas pela rede devem ser cada vez mais freqüentes, além disso, as empresas poderão oferecer produtos cada vez mais personalizados de acordo com o perfil de cada consumidor ativo na rede”. Este último aspecto gera polêmica, pois especialistas não vêem com bons olhos o que chamam de ‘hipercomercialização da sociabilidade’, um ponto que pode afetar até a instabilidade democrática num país.

A pesquisadora da UFS ainda destaca que a criação de leis para o ambiente virtual é algo imprescindível e defende a existência de limites. “Não há leis especiíicas para a Internet, já estudos na área, pois atitudes que prejudiquem a vida humana devem ser controladas”, analisa Ela ainda destaca que leis eleitorais que prevejam campanhas virtuais também são válidas, pois mesmo que a TV seja o veículo mais poderoso do nosso país, a massificação da banda-larga deve aumentar cada vez mais o número de cidadãos com acesso rápido e freqüente à Internet. “Aqui não haverá o ‘Fenômeno Obama’, pois somente cerca de 20% da nossa população tem acesso, mas, mesmo assim a campanha virtual deve ser penetrante, principalmente se houver uma massificação da banda-larga, mas, por enquanto a força ainda é na TV”, aponta.

Apesar de alguns videntes discordarem, o futuro da nossa sociedade em rede ainda é um tanto imprevisível. Pesquisadores de várias partes do mundo tentam compreender como o ser humano se comportará diante dessa nova configuração social. Mas uma coisa é fato: o futuro da sociedade em rede está nas minhas, na suas, nas nossas mãos, pois, somos nós que construímos diariamente a sociedade de amanhã. E aí, já se conectou?

Veja o vídeo produzido pela Agência Click:

2 Respostas

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  1. […] This post was mentioned on Twitter by Eloy Vieira. Eloy Vieira said: Aê, finalmente saiu a metéria: 'As redes sociais prometem ditar o futuro da Sociedade em Rede' http://bit.ly/bEDB0j […]

  2. Dani said, on 24/09/2010 at 1:39 pm

    Nossa,impressionada com a qualidade de informações aqui postadas.
    Estou escrevendo um artigo,sobre o tema,para á faculdade e me ajudou muito ler esse post.
    Parabéns pela qualidade de informações,idéias e pelo ótimo vídeo no final.

    Att,
    Dani Aparecida.


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