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Sergipe realiza poucos transplantes de córnea em longo período de tempo

Posted in Uncategorized by micheletavares on 04/05/2010

Sem campanhas de incentivo à população, os pacientes que estão na fila de espera por uma córnea, muitas vezes sem alternativas, são obrigados a esperar, pelo menos, três anos até que conseguirem o transplante.

Por Julie Melo e Mairon Hothon

Quão fascinante é ver tudo ao seu redor, não é mesmo? As diferentes formas, cores, movimentos e objetos que nos rodeiam, uma verdadeira independência das pessoas e poder de transformação para nossa vida. Mas nem sempre essa “independência” acontece. Devido muitas vezes a problemas genéticos, acidentes e até a idade que ultrapassa a barreira da velhice, a nossa visão é afetada e por isso, ao invés de vermos tudo com perfeita harmonia, o ambiente começa a clarear demais, ficar turvo, com manchas, não conseguimos enxergar objetos de muito perto ou longe e, por conseqüência, até perder por completo a visão. Seria como se nós trocássemos uma TV de Plasma, com sinal digital, por uma TV antiga, com uma antena que só reproduz sinal analógico e repleto de chuviscos. É assim que vivem as pessoas que precisam de uma nova córnea, enquanto não passam por uma cirurgia de transplante.

Hoje em Sergipe, quem estiver precisando de uma córnea nova para continuar enxergando normalmente terá de esperar no mínimo três anos na fila, isso se seu caso não for de urgência imediata. Infelizmente, esta é a realidade do nosso estado. Muitos fatores colaboram para essa demora, mas os principais deles são a falta de campanhas de doação de órgãos, uma cultura social e o sistema de captação que é falho. Um exemplo que ilustra bem a situação é o caso da estudante Cíntia Rafaela de Oliveira Santos, de 17 anos. Há cinco, ela descobriu que tinha ceratocone. Foram seus professores que alertaram sua mãe, d. Rita de Cássia, da sua dificuldade de enxergar em sala de aula. Logo a família procurou ajuda médica e Cíntia passou a usar uma lente específica para o problema que, entretanto, agravou-se. Por indicação da oftalmologista particular, Cíntia foi para a fila de espera e, devido à gravidade de sua doença, passou a ocupar a 174° posição. A menina relembra o mau atendimento por qual passou no antigo Hospital João Alves, atual Hospital de Urgência de Sergipe (HUSE). O médico lhe disse apenas o nome de sua doença, sem lhe dar a devida explicação. Só depois, ele explicou o problema para a mãe. D. Rita atribui às políticas públicas a forma como foram tratadas. “Só sabe quem passa pela situação. Estou decepcionada com o tratamento que tivemos. Desde que o médico disse que minha filha tinha perdido sua córnea, foi um inferno para mim. O que falta na saúde pública de nosso estado são médicos preparados para lidar com tal problema. Falta também interesse dos políticos em defender a causa”.

Localização da córnea. Fonte: Google.

A falta de informação sobre transplante de córnea é mesmo grande. As campanhas ajudam não só a aumentar o número de doações, mas também a tirar muitas dúvidas da população em torno do assunto. Muitos nem sabem que parte do olho é a córnea e não fazem ideia de quão grandes são a fila e o tempo de espera. Para quem não sabe, a córnea é o tecido transparente que fica na frente do olho e não possui vaso sanguíneo. Para explicar um transplante de córnea, é comum a analogia feita entre o olho e um relógio. É como se a córnea fosse o vidrinho do relógio. Quando esse vidrinho está embaçado ou arranhado, fica impossível enxergar as horas que os ponteiros marcam. Da mesma forma, quando a córnea está danificada por algum motivo, o olho não consegue enxergar através dela. Data-se de 1954 a primeira cirurgia de transplante de córnea ocorrida em nosso país, na cidade de São Paulo. Durante o transplante, retira-se a parte centralda córnea do cadáver (transplante penetrante; o mais comum), coloca-a no lugar da córnea doente e faz-se a suturação (costura). A córnea nova será englobada como se fosse do próprio olho. São raros os casos de rejeição, se o transplante for bem feito. Qualquer alteração sofrida pela córnea que impeça a pessoa de enxergar requer o transplante. Doenças como ceratocone, ectasia corneana não inflamatória e auto-limitada, caracterizada por um afinamento progressivo da porção central da córnea até que ela seja completamente perfurada; úlceras, que são feridas profundas; ou até mesmo acidentes, como uma pancada ou perfuração no olho; são motivos que levam ao transplante, ou seja, quando existe a perda da integridade da córnea. As principais doenças diagnosticadas são: ceratopatia, ceratocone, leucoma e a distrofia ocular. É importante lembrar que, se alguma outra parte do olho além da córnea for afetada, não há nada que possa ser feito, pois não há transplante de olho.

Quando ocorre um óbito por morte encefálica, caso o indivíduo seja doador, o ideal é que as córneas sejam retiradas em, no máximo, seis horas. A córnea é, então, submetida a exames, feito pelo Banco de Olhos, que dirão se ela pode ou não ser usada em transplantes. Em seguida, a córnea é mantida em soluções que a conservarão por até 15 dias. A qualidade da córnea depende da idade e da ausência de doenças. Além de algumas doenças nos olhos, como infecções, outras patologias, como hepatite e AIDS, podem impedir que a córnea sirva para transplante. Também o motivo da morte do indivíduo pode influenciar na doação de suas córneas. Quem morreu de septicemia – infecção generalizada –, por exemplo, não pode doar. Apenas uma das córneas pode ser doada, caso a outra não seja adequada para transplante. As córneas que não servem serão usadas em pesquisas. Também não há diferenças entre a córnea esquerda e a direita. Ambas podem ser usadas em qualquer um dos olhos.

Atualmente, a maioria das clínicas em Aracaju, autorizadas pelo Ministério da Saúde em 2009 (veja lista abaixo), possui centro cirúrgico, local onde deve ser realizado o transplante. Não é necessário que a cirurgia seja feita num hospital geral. Outro tipo de transplante é o tectônico. Ele é feito em casos de necessidade imediata, quando não há uma córnea com a transparência apropriada para enxergar, e o paciente precisa de uma nova córnea para proteger seu olho de infecções. O paciente pode, então, esperar pela córnea ideal sem riscos. O tempo de recuperação após o transplante depende muito do transplantado. Pode ser de dois meses ou um ano, em média.

Arte: Maiton Hothon

Na graduação, os alunos de medicina aprendem, principalmente, a parte teórica de transplantes. Suas aulas práticas ensinam a utilização de aparelhos, realização de exames etc. É somente na pós-graduação em oftalmologia que os alunos residentes praticam o transplante de córnea. Inicialmente, eles treinam em olho de porco, que tem a córnea mais espessa. Depois, passam a treinar em olho de cachorro ou coelho e só então podem treinar em olho humano, com a supervisão de um médico. A especialização em transplantes demanda muito tempo, por isso o número de médicos transplantadores é pequeno. Em Sergipe não há pós-graduação na área. Os centros de especialização estão localizados em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Salvador, entre outros.

O trabalho da Central de Transplantes e do Banco de Olhos

Central de Transplantes, anexo ao HUSE – Foto: Julie Melo

Até o ano de 2008, Sergipe não possuía um Banco de Olhos, órgão público que faz captação, preservação e distribuição de córneas. As córneas doadas aqui eram transportadas até o Banco de Olhos do Distrito Federal para, lá, serem submetidas às avaliações necessárias e, só então, retornavam ao estado. Todo esteprocesso levava 12 dias. Com a chegada do Banco de Olhos, em 2009, não é mais necessária o envio das córneas a outro estado, o que reduziu o trabalho de captação e preservação à metade ou até menos dias.

A atuação do Banco de Olhos é a seguinte: na ocorrência do óbito, uma equipe procura a família do indivíduo que morreu e pede autorização para doação das córneas. Se a família autorizar, ela deve assinar um termo de doação. Colhe-se, então, o sangue do cadáver para que seja feito o exame de sorologia. Em seguida, é feita a enucleação, retirada do globo ocular. Retira-se a córnea do globo ocular e preserva-a da maneira adequada.

A cada mês, a Central de Transplantes envia um quadro de estatísticas ao Sistema Nacional de Transplantes, informando tudo o que se refere a transplantes de córnea – quantos foram realizados naquele mês, quantas pessoas há na fila etc. Todo ano, a Central também expõe novas propostas e faz pedidos a Secretaria de Estado da Saúde (SES), mas nem sempre as propostas são aceitas e os pedidos atendidos. A meta constante da Central de Transplantes é zerar a fila de espera. Este ano, pretende-se, pelo menos, aumentar em 30% o número de transplantes de córnea.

A Política Nacional de Transplantes de órgãos e tecidos está fundamentada na Legislação (Lei nº 9.434/1997 e Lei nº 10.211/2001), tendo como diretrizes a gratuidade da doação, a beneficência em relação aos receptores e não maleficência em relação aos doadores vivos. Estabelece também garantias e direitos aos pacientes que necessitam destes procedimentos e regula toda a rede assistencial através de autorizações e reautorizações de funcionamento de equipes e instituições. Assegura também que após a retirada do corpo, o cadáver será condignamente recomposto e entregue a família para o sepultamento. Toda a política de transplante está em sintonia com as Leis nº 8.080/1990 e nº 8.142/1990, que regem o funcionamento do SUS. A falta de conhecimento destas leis leva a população muitas vezes a uma ideia equivocada acerca do que é ser doador de órgãos.

O aumento de quase 80% e a escassez de campanhas

Em 2009, a SES divulgou um aumento de quase 80% no número de transplantes. Segundo dados da oftalmologista Juvina Leonor, mestranda na área, os números se concentram para doadores do sexo masculino, na faixa etária de 51 anos e entre receptores de 39 a 41 anos do mesmo sexo. Para Benito Oliveira Fernandez, coordenador da Central de Transplantes, esse aumento se deve a um trabalho educativo feito junto aos profissionais da saúde, que consiste em comunicar a Central de Transplantes assim que ocorrer um óbito, para que todo o procedimento necessário seja realizado. Apesar disso, este ano, já houve uma queda drástica em relação aos três primeiros meses do ano passado – 25 transplantes nos três primeiros meses de 2009 e sete em 2010 –, devido à chegada de novos profissionais que ainda não estão adaptados ao trabalho que é feito no Estado.

Embora já se tenha registrado queda em 2010, nos últimos anos, o número de transplantes de córnea vinha progredindo, mas ainda é necessário atender uma demanda muito maior. O tempo médio de espera por uma córnea em Sergipe é de três anos, enquanto em São Paulo esse tempo varia entre 20 e 30 dias.

Ano 2005 2006 2007 2008 2009
N° de Transplantes 32 45 54 59 102

Arte: Julie Melo

O quadro acima é positivo, entretanto, não é reflexo de um trabalho de campanhas em Sergipe. As campanhas de doação de órgãos estão escassas e não há nenhuma prevista. A única certeza é de que todos os anos, no dia 27 de setembro, Dia Nacional do Doador de Órgãos e Tecidos, é promovido um trabalho de incentivo à doação. Neste dia, o Ministério da Saúde e a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos enviam para a Central de Transplantes de cada estado, folders, cartazes e panfletos, para que se use na divulgação da campanha. Infelizmente, apenas esta atividade não surte o efeito necessário. É preciso aumentar bastante a divulgação na mídia. São Paulo e Paraíba já zeraram sua fila através apenas da divulgação maciça de campanhas na mídia. “É preciso a parceria de toda a sociedade e todos os profissionais da saúde. Todos devem estar mobilizados na questão de doação de órgãos”, diz Benito.

Atualmente, há 346 pessoas na fila de espera. O oftalmologista Dr. César Faro imputa este grande número de pessoas à péssima assistência dada ao Banco de Olhos pelos órgãos competentes. Atribui a escassez de campanhas à falta de vontade política, já que tudo que é público é regido por interesses políticos. “A população não é incentivada a se tornar doadora. Faltam campanhas de incentivo e esclarecimento do que é o transplante de córnea. Acho que deveria ser um trabalho constante nos meios de comunicação, que deixaria o povo sempre em alerta”, defende.

Dr. Alex Vianey, chefe de Departamento da UFS – Foto: Mairon Hothon

Também para o Professor Dr. Alex Vianey Callado França, chefe do Departamento de Medicina da Universidade Federal de Sergipe (UFS), o grande problema do Estado é a falta de doações, pois Sergipe tem estrutura para fazer qualquer tipo de transplante. Segundo ele, vários são os motivos para o baixo número de transplantes realizados aqui e para o longo tempo de espera na fila: a população não doa por questões culturais ou religiosas, o longo protocolo pelo qual deve passar o cadáver antes de suas córneas serem retiradas (3 processos legais), a falta de conhecimento e cultura de causa dos médicos e das enfermeiras. “Não existe uma filosofia para solicitar à família os órgãos do cadáver. Isso é uma questão de treinamento dos profissionais”.

Por todos esses motivos, a menina Cíntia decidiu não mais esperar. Aconselhadas pelo próprio Benito, mãe e filha contataram o Hospital Oftalmológico de Sorocaba e, em 15 dias, uma consulta foi marcada. No último dia 27 de abril, Cíntia viajou para São Paulo, onde seu transplante provavelmente será realizado. Se ficasse aqui, Cíntia esperaria, até 2012 na fila. As autoridades competentes foram procuradas para que arcassem com as despesas necessárias da viagem, um custo de aproximadamente R$5 mil. Porém não o fizeram. Com a necessidade de viajar para São Paulo e da recuperação pós-operatória, a estudante se preocupa: “Estou no último ano do ensino médio e tenho medo de perdê-lo e não passar no vestibular. Muitas vezes, não conseguia estudar, por causa da lente que incomodava.”

Cíntia Rafaela, esperançosa com a ida para Sorocaba – Foto: Mairon Hothon

Embora a situação de transplantes de córnea seja marcada pela lentidão, há quem consiga realizar a cirurgia em pouco tempo. É o caso de Lidiane Sousa França Rodrigues, de 16 anos, que teve sua córnea transplantada em março deste ano. Aos quatro anos de idade, foi diagnosticado que ela tinha glaucoma, designação genérica de um grupo de doenças que atingem o nervo óptico e envolvem a perda de células ganglionares da retina, num padrão característico de neuropatia óptica. Imediatamente, sua mãe, d. Raimunda, recorreu à ajuda médica, pois a menina corria o risco de ficar cega. Também por intermédio de sua oftalmologista, Lidiane foi para a fila de espera. Após dois anos de espera, o transplante foi realizado em fevereiro de 2007. Porém seu problema não fora resolvido. Lidiane passou por uma situação muito rara: rejeição da córnea. Em outubro de 2009, a menina entrou novamente na fila e, apenas um mês depois, foi submetida a novo transplante. Apesar disso, sua mãe não sossegou com a situação do nosso estado e faz um apelo: “Por favor, para aquelas famílias que perderam um ente querido, que doem os órgãos, pois eles podem ajudar muita gente”. Mãe e filha acreditam que a grande diferença entre os dois tempos de espera se deve a uma reportagem feita por uma emissora local de TV, afinal, nesse segundo momento a cirurgia fora marcada para apenas um mês depois. Hoje, Lidiane se recupera bem da cirurgia e o único gasto de sua mãe é com a medicação, que, segundo ela, não é oferecida pelo SUS. Ambas as famílias são doadoras de órgãos, mesmo antes de passarem pelo problema.

Algumas histórias acabam com um final feliz, outras se alongam na fila, aguardando uma córnea para o seu tão sonhado desfecho. Um sistema por completo, que envolve cultura social e médica, sistema de captação de córnea e campanhas de conscientização, precisam mudar para resolver o problema na sua raiz. A doação de órgãos precisa ser incentivada no Estado de Sergipe para que todos os pacientes tenham sua visão independente e limpa, e não mais repleta de chuviscos.

Cartazes da campanha de doação de órgãos. Fonte: Google.

A Questão do SUS em duas versões

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