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“Sergipanidade”… quem viu, o que é, e, afinal de contas, onde está?

Posted in Artigos by micheletavares on 07/07/2010

por André Teixeira

O sentimento de pertencimento de um povo é a crença subjetiva numa origem comum que une distintos indivíduos e é reconhecido na forma como um grupo desenvolve sua atividade de produção, manutenção e aprofundamento das diferenças. Precisamos nos sentir como pertencentes a tal lugar e ao mesmo tempo sentir que esse tal lugar nos pertence, assim acreditamos que vale a pena interferir na rotina e nos rumos desse tal lugar. É o que consta no Dicionário de Direitos Humanos da Escola Superior do Ministério Público da União no verbete “pertencimento”.

Desde 1979 moro em Aracaju. Bairro Inácio Barbosa. Ralei joelho, atolei pé no mangue do Poxim,  soltei pipa e chutei-lhe as possas d’água em dias de chuva. Jardim Esperança, Beira Rio, Pantanal, Médicis, minha vizinhança, minha cidade e minhas ruas. Moro em Sergipe e em todos os seus municípios. Pertenço ao lugar porque o lugar me pertence.

Tão falada e propagandeada, a Sergipanidade é comemorada no dia da emancipação política de Sergipe, dia 8 de julho, quando se busca ressaltar a valorização ds expressões culturais locais. Mas, afinal de contas, o que é, onde está e quem viu essa tal de “Sergipanidade”?

Grupo Imbuaça durante a I Virada Cultural, em março de 2010 no Mercado Thales Ferraz

Os aspectos históricos e genealógicos são importantes para nortear uma resposta, mas insuficientes. Mostram recortes parciais e, muitas vezes, imprecisos. Uma coisa é certa: desde o início somos bombardeados pela cultura estrangeira que tenta transformar o nosso modo de perceber a realidade. O teatro da Companhia de Jesus, que aportou no Brasil em 1550 e em terras Serigy em 1575, apresentava em suas peças críticas ao modo de vida não-cristão. Os padres jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega tinham por objetivo mudar o modo de vida dos nativos. (Leia o post   “O teatro sergipano apresenta sua história”).

Depois, bem depois, a música européia e africana viriam a originar novo música. A sisudez da escola européia rendeu-se à malemolência ritmica africana. Não só a mestiçagem étnica como a cultural vem a ser fonte rica para o desenvolvimento da cultura brasileira e, por conseguinte, da sergipana. Sílvio Romero afirma que “todo brasileiro é um mestiço, quando não no sangue, nas idéias”. Hermanno Viana diz que essa mestiçagem seria nossa única garantia de criar uma arte não imitativa, pois de duas realidades específicas nasce uma terceira distinta, transcultural.

Identificar os valores e especificidades locais atuais se torna muito mais complexo tendo em vista as doses cavalares de modelos pré-fabricados que a Indústria Cultural vomita e impõe como absolutos por todas as vias: rádio, tv, web e pelo telefone, que reúne hoje os três, ou mais, em um. Essa realidade é sustentada pela cumplicidade mercantilista e sua promíscua relação com a publicidade, que vende pobreza estética como se fosse oxigênio. É quase impossível não querer ser um brother. Impossível também não  ver toda a produção cultural e artítica local ter um quê de interferência estrangeira. Estrangeiros dentro do próprio berço fomos desde as grandes navegações.

As grandes navegações de hoje atravessam mares de bits e bytes para trazer-nos, cabeadas ou wirelles, tsunamis de informação que invadem, permeiam e influenciam a cada vez mais crecente os saberes e fazeres da massa de usuários da internet, nesta e em todas as outras praias. Em nossas praias  desenha-se a tentativa de encontrar uma resposta para o que seja Sergipanidade, pois  ela não é só sua gastronomia, ou a cultura popular e artesanatos locais. É também o jornal  O Capital e sua editora Ilma Fontes, que nesse 2010 completa 20 anos mapeando a cultura sergipana, são  seus poetas e trovadores, é o Encontro Cultural de Laranjeiras e o fantasma do FASC. Sergipanidade é um que de peculariedade no sotaque no falar e no cantar… Joésia Ramos cantando Maria Lúcia Dal Farra; são seus sebos de livros e discos usados; é a efêmera arte dos grafites e as esculturas das praças; é Jenner Augusto no Cacique Chá aguardando urgentemente a restauração. Sergipanidade é isso e muito mais.

Nesse sentido o jornal Cinform na edição 1421 apresentou à sociedade sergipana um item a ser colecionado! O suplemento especial Sou sergipano! Sergipe 190 anos – o significado do 8 de julho na nossa história, que discorre ao longo de suas 40 páginas ótimos textos de autoria do historiador Luiz Antonio Barreto e do jornalista Jozailto Lima, que faz análise sobre uma pesquisa feita pelo Dataform. Mostra que  os sergipanos, apesar da grande maioria entrevistada dizer que jamais sairiam daqui e se dizerem otimistas em relação ao futuro de Sergipe, também nunca leram o livro de um autor local e não conhecem assim tão bem sergipe e seus ilustres representantes.

O Brasil, não conhece o Brasil/|O Brasil, nunca foi ao Brasil“.

Para ajudar nessa tarefa de identificar nossas especificidades e peculiaridades contamos com uma importante ferramenta: o Projeto Sergipanidade. Desde maio de 2009 capitaneado pela Fundação Aperipê – Fundap. É levado ao ar por suas emissoras AM e FM na última sexta-feira de cada mês, tem como objetivo discutir, promover, divulgar e ampliar o que for relacionado à cultura sergipana através da mediação do contato entre público e os atores da cena local. “É muito importante saber que não pretendemos ser donos do conceito nem impor nossa visão. Queremos é construir uma idéia coletivamente, com participação dos nossos ouvintes e de quem mais queira estar presente nessa construção”. Me disse o diretor da Rádio Aperipê e responsável pelo projeto Edézio Aragão. Às vésperas de mais uma comemoração da data, a Fundap inclui  pela primeira vez a TV Aperipê na programação do projeto. Uma programação voltada inteiramente para a cultura local, com produtos da terra.

Esse viés da participatividade sai do plano da discussão filosófica para a prática das políticas públicas em promover um maior protagonismo social da população, esse o grande desafio das administrações, não só na cultura como em todas as outras áreas: transformar milhões de cidadãos acostumados à passividade inercial de ações pontuais e paliativas ao engajamento através das políticas participativas. Todos podem mas nem todos sabem e alguns não querem. É muito mais fácil criticar e jogar pedras no telhado de vidro alheio do que ajudar a moldar o Ideal. O Ideal, creio, é conhecer-se. É Sergipe conhecer Sergipe, é Sergipe ir à Sergipe e seus moradores, de qualquer um dos seus municípios, poder conhecer um pouco que seja, das peculiaridades da terra em que vive.

4 Respostas

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  1. Francisco said, on 07/07/2010 at 5:51 pm

    Texto bastante interessante, que chama cada um de nós Sergipanos a fazer sua parte perante a este estado que necessita recuperar sua sergipanidade.Esse texto reforça o quanto precisamos conhecer realmente Sergipe. E você André esta a fazer sua parte, parabens a sua iniciativa !!!

  2. Wellington said, on 08/07/2010 at 1:11 pm

    Meu caro André, são vários pontos levantados em seu texto, gostaria de ressaltar apenas um deles, em forma de questionamento: por que os elementos que representam a tradição em Sergipe correm sempre o risco de não mais existir? Levanto essa quetão inspirado no caso do Cacique Chá, mas lembrando da sorveteria Cinelândia, do Salva Vidas do calçadão da Atalaia, da Iara, do importantissimo monumento que era o Cine Rio Branco, do Tropeiro, e de tantos outros simbolos esquecidos, e porque não assassinados, da memória sergipana em Aracaju. Alguns propriedades particulares mas que faziam parte dessa construção da Identidade Sergipana. Será que se reconhecer pertencente a esse lugar é só papel da população? Não teria, perante as influências que você trata no texto, o Estado uma obrigação de garantir, por meio de incentivos, a permanencia dessa cultura, mesmo que sendo reelaborada e ressemantizada? Por que o Beco dos Cocos não passa por uma restauração e revitalização?
    Enfim, creio que tratei da cultura material… nem quero falar da subjetividade!!!!!!!!!!!!!!

  3. Sil said, on 08/07/2010 at 11:01 pm

    Adorei o texto. E tb a sua vontade de levar informação e cultura as pessoas. Essa Sergipanidade que vc incorporou faz de vc uma pessoa especial para nossa cultura. Amigo querido parabéns por toda iniciativa que vc leva a informar e trazer a cada um de nós essa cultura cheia de Seripanidade. Saudade de vc
    bjuss

  4. tatiane maria da cruz said, on 11/08/2010 at 5:36 pm

    nós fazemos parte de uma crença e de uma origem que também reconhecemos nossa origem.


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