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O Fenômeno Fanatismo

Posted in Comportamento by micheletavares on 13/07/2010
O fanatismo está na moda. No entanto, a histeria coletiva por bandas, artistas e mais recentemente, livros, pode ter
um preço muito caro a pagar.

theinvisibleagent.wordpress.com

Por Elaine Casado

Na adolescência, é natural termos um ídolo. Seja uma banda, um artista ou até mesmo um livro, nesta fase a admiração ou inspiração por algo é traço característico do mundo juvenil. Desde assistir um filme com o ator ou curtir o som de determinada banda, até pesquisar insandecidamente a vida do ídolo em sites, blogs e afins e tornar-se membro de fã-clubes… hoje, ser fanático é a onda do momento.

Números da Série Harry Potter. Clique na imagem para ampliá-la. Arte: Elaine Casado

Sucessos como A Saga Crepúsculo e Harry Potter são exemplos de uma época em que admirar virou moda. Os números comprovam isso.  De acordo com a Veja.com, desde o lançamento de seu primeiro livro em 1997, a série Harry Potter vendeu 350 milhões de exemplares mundialmente. Além disso, somando os seis filmes já lançados, a série arrecadou em bilheteria o total de 4,5 bilhões de dólares, mantendo-se nos últimos anos nos primeiros lugares do ranking das maiores bilheterias e vendagem de livros mundiais.

Mais recentemente, a Saga Crepúsculo mostra o seu potencial milionário. Com apenas 4 livros lançados, foi eleita a série mais vendida da década pelo jornal americano USA Today. Somente no Brasil, a saga contabilizou aproximadamente 5 milhões de exemplares vendidos, e pelo mundo, 100 milhões. Já seus filmes, ao contrário das expectativas negativas de muitos críticos, tiveram faturamento mundial de 1,3 bilhões de dólares. Seu mais recente lançamento, Eclipse, em apenas seis dias de exibição nos cinemas norte-americanos arrecadou a bagatela de 175,3 milhões de dólares.

Na década de 60, os Beatles levavam multidões por onde passavam. Até hoje, é considerada a banda de maior vendagem de discos de todos os tempos.

No entanto, engana-se quem acha que essa febre por ídolos é um fenômeno recente. Quem não se lembra dos Beatles? A banda britânica da década de 60 é até hoje um dos maiores fenômenos de vendagem de discos. Conforme dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), os Beatles estão entre os cinco maiores vendedores de álbuns de todos os tempos, com aproximadamente 1 bilhão de cópias.  Mas para quem é fã, números pouco importam. Importa é estar na fila para ser o primeiro a entrar no show ou a comprar o livro que está para ser lançado. Não faz mal se você permanece dias acampado em frente ao hotel ou é quase pisoteado para conseguir um autógrafo do seu ídolo. Para eles, nada disso é ruim. Pelo contrário, é o mínimo preço a se pagar para ter o ídolo um pouco mais perto.

Números da Saga Crepúsculo. Clique na imagem para aumentar. Arte: Elaine Casado

A estudante Juliana Silva, 16 anos, partilha desta opinião. Fanática pela Saga Crepúsculo, ela conta que na vinda dos protagonistas Kristen Stewart e Taylor Lautner ao Brasil em 2009, para a divulgação do filme Lua Nova, passou dias em frente ao hotel em que estavam hospedados e quase tem um membro fraturado por isso. “Fui pisoteada no dia em que eles chegaram ao hotel, quase quebrei a perna, mas iria de novo. Faço tudo para estar perto deles. Sou mais apaixonada por Crepúsculo do que jamais fui por um garoto”, conta orgulhosa.

Para Marília Gabriela, 18, porém, sua paixão não é assim tão exagerada. “Na verdade eu compro tudo que o vejo deles. Uma vez comprei todas as revistas que havia na banca que falavam sobre Crepúsculo. Gastei quase cem reais de uma só vez. Mas nunca fui de me colocar em situações de riscos por causa disso. Eu acho meu fanatismo saudável”, argumenta. Seus pais, Marta e João Hélio, no entanto, não compartilham da mesma opinião da filha. “Nos preocupamos com ela por causa dessa paixão. Já a pegamos várias vezes acordada até quase 4 horas da manhã assistindo os filmes ou lendo as revistas. No outro dia, ela não quer acordar e ir para a escola,  em pleno ano de vestibular”, afirma Marta.

Mas afinal, o que significa fanatismo? De acordo com o professor de Psicologia Geral da Universidade Federal de Sergipe, Elder Cerqueira, a maioria das pessoas tem uma concepção negativa a respeito do fanatismo. “O fanatismo não é necessariamente algo ruim. É quando a pessoa tem uma relação de admiração, de inspiração com o objeto e desenvolve um sentimento, em geral, prazeroso, causando bem-estar”, diz. Em adolescentes, isso faz parte do próprio processo de desenvolvimento da personalidade. “Varia de indivíduo para indivíduo. É um processo bastante singular”, explica.

O fanatismo pode se manifestar de diferentes formas, em diferentes indivíduos. Na maioria dos casos, ele se revela pela necessidade de pertencer a um grupo, de possuir uma identidade social. “Na realidade, é mais um fenômeno grupal. O adolescente busca, nesta fase da vida, encontrar uma referência exterior à família na qual possa se espelhar”, explica Elder.  No entanto, as relações de fanatismo podem variar. Há aqueles indivíduos que estabelecem uma verdadeira relação de amor com seu ídolo, chegando a imaginá-lo como seu parceiro ou parceira ideal na relação afetiva. Outros, o vêem como um ideal a ser seguido, um exemplo de perfeição, e querem tornar-se o próprio ídolo. E ainda há aqueles que colocam seu objeto de admiração num patamar acima de tudo e de todos e considera-se inferior a ele.

Por mais incrível que pareça, há uma explicação neurobiológica para a adoração exagerada. Segundo Marcos Mercadante, professor-adjunto de Psicologia da Universidade Mackenzie, nesse período da vida, o hormônio oxitocina, que reforça o caráter obssessivo, está no pico. “Por isso, tudo é intenso nessa fase: as paixões são arrebatadoras, tanto entre namorados quanto com os ídolos”, explica.

Nos EUA, mães fanáticas pela saga Crepúsculo são denominadas TwiMoms. Fonte: Kibeloco

Adultos

Mas quando essa idolatria se aplica a adultos? Se este período de admiração é bem característico da própria fase adolescente, pode ser considerado normal? De acordo com Elder, sim. Na fase adulta também é possível vermos fanatismo, mas de forma moderada. “Para as pessoas adultas, também é considerado natural desenvolver uma admiração por algo. No entanto, o fanatismo se dá de uma forma mais amena, mais madura, devido ao próprio processo de amadurecimento pessoal”, explica.

Rita de Cássia, 43, fã da Saga Crepúsculo. Mãe de três filhos, e casada há 23 anos. Foi à pré-estréia de Eclipse no Rio de Janeiro com a filha Giovanna, 13. “Já li várias vezes os livros e as reportagens das revistas. O ator Robert Pattinson é lindo e super profissional. Fico encantada com todas as cenas”, conta.

De acordo com a psicóloga cognitivo-comportamental Irene Araújo Corrêa, em entrevista ao site DiarioWeb, o fanatismo em adultos pode ter um lado positivo, especialmente quando se trata de fenômenos teens, como a Saga Crepúsculo e Harry Potter. “Quanto mais interação existir entre pais e filhos, quanto mais diálogo e informações sobre o que é importante e sobre os gostos dos adolescentes, mais saudável será a relação familiar. Além disso, é importante empatia e cumplicidade. As ondas passam, outras vêm, mas o essencial em família deve ser fortalecido”, explica Irene.

Onde mora o perigo

O perigo, porém, mora ao lado. Apesar de não se constituir propriamente numa doença, o fanatismo pode servir como forma de manifestação de uma psicopatologia. Isso, logicamente, é um processo individual. É o caso da morte do ex-beatle John Lenon. Assassinado em frente ao prédio onde morava por um fã, horas antes de haver lhe dado um autógrafo, Lenon levou 5 tiros, perdendo 80% do sangue de seu corpo.  Apesar de boatos relatarem que seu assassino teria sido influenciado pela história de um livro, estudos realizados com Mark David Chapman, o fã homicida, revelam que John teria sido morto por um esquizofrênico, e que seu fanatismo pelo cantor caracterizou-se como uma forma de demonstração da doença.

Para esses casos, o professor da Universidade Federal de Sergipe Elder Cerqueira alerta: o fanatismo é positivo, desde que não comprometa negativamente a vida social, privada e familiar do adolescente ou adulto. “Como para tudo na vida, há um limite. Embora não exista um padrão especificado, isto é, um limite estabelecido dizendo onde parar, não é difícil reconhecer quando o adolescente ou adulto está precisando de apoio psicológico”, diz Elder. A família torna-se elemento fundamental de apoio e reconhecimento do problema.

Para C. N., 22, o fanatismo teve graves conseqüências. “Comecei a gostar da série Harry Potter aos 15 anos. Daí por diante, o que começou com uma admiração, virou uma obsessão. Não conseguia mais estudar. Ia para a escola e lá ficava lendo os livros. Era suspensa com freqüência por causa disso. Ao chegar em casa, ia direto para o computador, ás vezes nem almoçava, para procurar informações sobre a série”, conta. No entanto, C. só percebeu que sua paixão estava fora do comum aos 18 anos a partir de um desentendimento com uma colega da escola. “Eu estava na aula lendo um dos livros do H.P. quando ouvi uma colega de classe caçoar da série. Me virei com uma raiva que nunca havia sentido antes, e começamos a discutir feio. Terminou em agressão física. Resultado: as duas foram parar no hospital”, lembra.

Radicalismo, intolerância e isolamento são alguns dos sintomas que podem ser identificados nestes indivíduos. No entanto, é preciso paciência e apoio da família para tratar o problema. Não é recomendada a repressão ou a zombaria, afinal de contas, o objeto de admiração adquire para o indivíduo caráter afetivo equivalente a uma relação amorosa.  Num primeiro momento, a família deve buscar o auxílio psicológico. Depois disso, o trabalho de recuperação do indivíduo se dá pelo fortalecimento da auto-imagem, levando-o a descobrir que não é necessária a sua inserção em um grupo ou a utilização de violência física para ser aceito ou mesmo definir sua identidade.

O fanatismo faz parte do amadurecimento pessoal. Saudável? Na maioria das vezes.  Mas como toda regra, sempre há uma exceção. Saber quando essa exceção tornou-se algo perigoso para o próprio indivíduo ou para o seu círculo social, nunca é tarefa fácil para a família ou amigos. No entanto, tomar a decisão de levá-lo a um especialista e apoiá-lo é sempre a coisa certa a fazer, pois é este tipo de atitude de que depende a saúde e bem-estar destas pessoas. Deixar que eles as percam, é um erro. De ambas as partes.

Clique na imagem para ampliá-la. Arte: Elaine Casado

6 Respostas

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  1. Maluh Bastos said, on 13/07/2010 at 11:57 pm

    ARRASOU! Adorei mesmo, Elaine! Muito legal a matéria… concisa, coerente, direta e objetiva. Tudo de bom…
    Adorei a arte final dos estágios de fanatismo. Foi você quem fez mesmo? Oo
    Ficou irado!

  2. Tatianne Melo said, on 14/07/2010 at 12:32 am

    Faço das palavras de Maluh as minhas! Amei mesmo o texto. Excelente as artes! Vou pegar umas aulas com Eliane Casado

  3. Adler Berbert said, on 15/07/2010 at 4:15 pm

    Me mata de orgulho essa menina!

  4. Lucas Peixoto said, on 17/07/2010 at 6:29 pm

    Ei, que matéria legal!

    Quero aprender a fazer uma arte dessa! Muita massa Elaine!

    =)

  5. Andreza Lisboa said, on 22/07/2010 at 7:18 pm

    Bom, saber que os pupilos de Michelle vão longe…. Parabens garota…

  6. Roberta said, on 12/09/2010 at 9:41 pm

    Sabe eu adoro a saga crepusculo mesmo eu me sinto tao bem em gostar disso…
    mas as pessoas ao meu redor me acham louca so pelo fato de gostar de assistir pelo menos um filme da saga por semana e sempre ler os livros sabe e tao bom quando eu fico em contado com esse mundo
    mas ninguem compreende e critica do que eu gosto me acham obssessiva so pelo fatode ser fâ eu estou naquele estagio legal de me apaixonar pela saga mas as vezes me pergunto sera que eu estou louca e caio em um momento de tristeza essa duvida sempre me atinge…queria ajuda para saber se estou nessa fase espero q nao sabe eu gosto dessa saga mas de um forma saudavel que me deixa bem e tranquila de um forma maravilhosaaa!!!!!


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