Técnica de Produção, Reportagem e Redação Jornalística

Futebol sergipano a beira de um colapso

Posted in Esporte by micheletavares on 26/10/2010

Verba amortizada e necessidade de dirigentes pró-ativos dentre outros fatores importunam o declínio do futebol sergipano

Por Raimundo Morais

Seu avô, seu pai, e até seu tio, devem lembrar-se dos velhos tempos do futebol sergipano, quando os dirigentes, atletas, e colaboradores faziam por onde os torcedores tivessem gosto de irem aos estádios, e seus clubes, tivessem gosto de apresentar um grandioso futebol em nível nacional aos seus torcedores. Hoje, o que vemos é o outro lado da moeda, quando o dirigente, o atleta e o colaborador, fazem de conta que estão exercendo os seus verdadeiros papeis.

Estádio Batistão Aracaju-SE. Torcida lotava praça de esportes. Foto: Portal Infonet.

Foi a época do futebol sergipano ter o “Pelé” local, o seu próprio Nivaldo, Bia, Calango (Daruanda), Alonso, Cravo e Oliveira, Toinho, Gringo e Mirobaldo, Constancio Viera, Lauro e Rolinha, Ailton, Zé Pequeno, Fernando Oliveira, Henágio, Samuca, Joãozinho da Mangueira, Luiz Carlos Bossa Nova, Alberto e Travassos, Bessa, Godofredo e Eduardo, Clóvis, Nelson, Chaves, Valdemar e Paulo, Ribeiro Neto, Paulo Silva, Pedro Costa, Carlinhos, Edmilson, e tantos outros, que atuando nos clubes sergipanos nos proporcionaram inúmeras glórias e alegrias. O que devemos fazer para termos aquele velho futebol de ouro, de craques e de grandes equipes? Porque chegamos onde chegamos, quarta divisão do Brasileirão, penúltimo e ultimo colocados do Nordestão?

Estádio Manoel Joaquim Porto Aquidabã-SE. Foto: Secretaria de Esportes e Lazer.

Nestes últimos dez anos, o futebol sergipano tem sido marcado por pouquíssimas vitórias e grandiosos momentos de decepções. O que se chama de verbas monetárias, se retrata em quantias não qualitativas, poucos ou quase nenhum são os dirigentes pró-ativos, o que será desse pacato futebol amanhã caso ‘eles’ continuem? “O futebol sergipano está no fundo do poço, precisa urgentemente de renovação nos dirigentes e mentalidades. É preciso ver que o futebol também é dinheiro, porém, enquanto não houver organização, o futebol sergipano será deficitário”, afirma Antônio Gonçalves, conselheiro do Club Sportivo Sergipe.

Se na missa os padres falam uma única voz, nos pensantes do futebol profissional sergipano acontece o mesmo, para o massoterapeuta do Força Jovem Aquidabã, Edinilson (Neguinho), “deve-se haver nos clubes, renovações naqueles que fazem o comando dos clubes, para se obter um novo panorama”. Para Felipe Araujo, torcedor desde criançinha do Confiança, a má situação do futebol sergipano deve-se a falta de benefícios por parte dos órgãos públicos tão quanto aos feitios da Federação.

“Em minha opinião, o futebol sergipano precisa de uma reciclagem, pois atualmente está muito desvalorizado principalmente pelas más passagens nos campeonato nacionais nas ultimas décadas. Uma federação tão pouca determinada. Um futebol que tem muito poucos benefícios do governo estadual”, explica.

Rivaldo Sobral, comentarista esportivo. Foto: Portal Infonet

“Esta desorganização do futebol sergipano não é de agora, está sendo mais percebida ultimamente em mãos de pessoas que têm responsabilidade. Pouquíssimos dirigentes estão se incomodando com a história dos clubes e com o torcedor”, afirma o comentarista esportivo Rivaldo Sobral ao Portal Infonet.

O fato da despreparação daqueles que fazem o futebol profissional em Sergipe ocasiona um enorme dano ao nosso pacato esporte, deixando-nos a ver navios. Nos estádios, a prova do fracasso, o que antigamente era expressão e marco estadual, estádios lotados durante o Sergipano, passa a serem verdadeiros desertos, onde poucas são as pessoas que tem acesso.

Campeonato Sergipano de Futebol

Ano Público Renda (R$)
2004 94.464 317.501,50
2005 167.805 665.901,50
2006 141.991 592.707,50
2007 103.959 470.168,00
Fonte: FSF

Não bastasse a decadência da renda, estrutura, para lamentarmos com o Confiança, o Alvi Azul Anil ocupa apenas a 70ª colocação no geral da CBF. Isso porque é o clube sergipano melhor colocado no Ranking da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Aonde vamos pará? Devemos acreditar em uma possível salvação, qual a solução? Segundo Antônio Gonçalves, a solução possível está no fortalecimento das categorias de base. “A principal solução está no fortalecimento das categorias de base dos clubes sergipanos, tão quanto, nas condições louváveis dadas aos atletas”, assegura o conselheiro do Sergipe.

William Oliveira, torcedor do futebol sergipano clama por investimentos por parte do Governo. Foto: Raimundo Morais

Para o jovem William Oliveira, torcedor do futebol sergipano, as salvações dos clubes do Estado estão nas políticas publicas.

“O Governo do Estado junto com as Prefeituras Municipais poderiam lançar projetos esportivos, onde seriam resgatados atletas, e junto a isso os times dos municípios e interiores. Hoje Sergipe tem ótimos atletas a serem lançados no mercado, mas é uma mercadoria sem indústria”, relata.

Em 2011, o que podemos esperar, a coisa pode mudar? Ou ficaremos na continuação dos últimos feitos, onde o grande fato foi à decadência do nosso futebol? Tendo ainda a ultima opção, recordar com saudades os bons tempos em que os times sergipanos disputavam e jogavam de igual para igual com os grandes clubes nacionais, e os estádios lotados eram expressão estadual?

Uma juventude em guerra

Posted in Esporte by micheletavares on 26/10/2010

A violência das Torcidas Organizadas em Sergipe vai além dos estádios de futebol.

Por Illton Bispo

Armamentos utilizados por alguns membros da Torcida Esquadrão Colorado (TEC)

De todos os esportes praticados no Brasil, nenhum deles chama tanta a atenção como o futebol. O brasileiro é realmente apaixonado por futebol, tanta paixão que se traduz em um verdadeiro espetáculo. Proporcionado pelas torcidas, que entoam gritos de amor que embalam os duelos entre as equipes, dentro dos estádios de futebol.

As Torcidas Organizadas (TO) surgiram em Sergipe, no início da década de 1990, com as rivalidades entre as torcidas Trovão Azul (TTA) e Gigante Rubro. Também nesse período surge a Torcida Jovem do Confiança, oriunda das divergências dos próprios integrantes da Trovão Azul, e posteriormente a Torcida Esquadrão Colorado (TEC). O que era uma atividade de confraternização, de entretenimento, de união foi ferida em seus ideais de lazer pela criação das Torcidas Organizadas, sofrendo séria deterioração, circunstância que a violência e a prática frequente de atos ilícitos passaram a predominar, sempre sob o forte estímulo da certeza da impunidade.

“Atos de violência sempre fizeram parte das competições de futebol. O fato é que com surgimento das TOs em Sergipe a violência se multiplicou e ganhou outras proporções”, afirmou o Promotor do Ministério Publico Estadual (MPE), Deijaniro Jonas. Segundo ele, parte dos integrantes que compõem as TOs é proveniente de um ambiente menos privilegiado da sociedade. “Eles convivem em um meio de banalização da violência altamente materialista e competitiva, e onde a maioria dos seus integrantes são adolescentes em pleno desenvolvimento moral e emocional acabam encontrando outros motivos para afiliação a tais facções”, afirma o promotor.

As guerras entre TOs não ocorrem somente em Sergipe mas sim em todos os estados constituindo assim uma problemática nacional. Surgindo assim, uma espécie de associação entre facções, na qual sua forma de implementação é como uma aglutinação para o crime. De acordo com um levantamento feito pelo MPE, a maioria dos jovens que integram a essas facções, encontra-se na faixa de 15 e 25 anos de idade, tratam-se de pessoas que buscam afirmação social e que são facilmente influenciáveis pelos líderes que lhes cobram ousadia e destemor.

 

 “A violência nos estádios é reflexo da sociedade e não se deve reduzir o fenômeno da violência de modo simplista. Ele é complexo e multifacetado” afirma o sociólogo e especialista Bernardo Borges Buarque de Hollanda que é bacharel e licenciado  em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e autor de vários livros sobre  futebol e torcidas organizadas. Para ele, há uma conexão direta entre os fenômenos sociais e o comportamento grupal dos torcedores nos estádios.


Camiseta da TTA, recolhida pelos integrantes da TEC.

 

Segundo o especialista, os jovens produzem e refletem aquilo que a sociedade está produzindo como a violência. “Há várias teorias pós-modernas que associam a violência e o consumo desenfreado ao hedonismo. O filósofo francês Lipovetksi fala em ‘era do vazio’, enquanto Michel Mafesoli se refere às ‘tribos urbanas’. Neste sentido, o futebol tem um apelo midiático de visibilidade para o jovem que buscar expressar sua frustração ou chamar a atenção através de atitudes violentas. Ao revelar o avesso da moral e dos valores civilizados, busca mostrar sua insatisfação com a sociedade contemporânea tal qual ela é”, relata Buarque.

De acordo com um dos subcomandantes da Torcida Esquadrão Colorado (TEC), que não quis se identificar, as torcidas migraram dos estádios para as diversas regiões da cidade, sobretudo na periferia e utilizam as escolas como quartel-general e os alunos como fiéis escudeiros. “As facções são uma espécie de organização que faz uso de planejamento, simbologias e várias formas de comunicação,” diz  relatando que as Torcidas Organizadas têm vários comandos e sua principal função é impor ordem e demarcar territórios mesmo que para isso, tenham que travar uma guerra urbana.

Ele ressalta que a violência de fato macha a cara das Torcidas Organizadas e que isso prejudica seus clubes. “A violência é algo assustador e que por conta dela estamos proibidos de ir aos estádios de futebol, digo as TO, mas vale lembrar que nem todas integrantes são violentos, ou fazem uso da violência”, disse ele.

Desde 2004, o Ministério Público do Estado de Sergipe, juntamente com outras instituições, como a Secretaria de Segurança Pública do Estado, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e a Secretaria de Esporte e Lazer, vêm promovendo diversas ações no sentido de controlar os atos de violência que vinham ocorrendo nas praças de esportes ou decorrente de atividades esportivas.

Sobre a proibição das TOs nos estádios de futebol o promotor Deijaniro Jonas diz que não há proibição e nunca houve. “Qualquer pessoa que desejar ir ao estádio de futebol tem pleno e livre acesso, seja ela de TO ou não, o que não pode é comparecer ao estádio portando camisetas ou qualquer objeto que o identifique como de TO, pois tais objetos são algo fomentador de violência”. Ele também declara: “O fato de eu não conhecer o meu oponente, mais saber que ele está trajando uma camiseta de Torcida Organizada, isso já faz dele meu oponente”.

Um levantamento realizado pela Polícia Militar mostrou que a medida proposta na ação liminar, já obteve uma redução de 85% dos crimes. Sergipe já chegou a registrar mais 12 homicídios. O último ocorrido no dia 02 de março no ano passado, quando os aficionados da Associação Desportiva Confiança Trovão Azul e Torcida Jovem, se digladiaram entre si.

Segundo o psicólogo do Centro de Referência da Assistência Social (CRAS), Reginaldo Vieira Júnior, não é próprio do homem agregar-se para denegrir, humilhar, violentar a outros. “O ser humano pode unir-se a outros para a luta, para a guerra quando ameaçados e em favor de interesses exclusivos de grupos. É o que talvez aconteça com algumas facções de torcedores que se utilizam de atos violentos para tentar demonstrar superioridade frente ao desafio, à derrota. Aproveitam-se da força que o grupo tem para extravasar a agressividade”. Para ele, nem toda pessoa que faz parte de uma torcida quando está junto com os outros do mesmo agrupamento age violentamente. “Tudo isso advém de fatores individuais, culturais, sociais dentre tantos outros”, diz o psicólogo.

“Vivemos numa sociedade na qual se estimula à competição, a concorrência, a soberania de uns sobre outros. Quem ganha quer se colocar como superior a todo custo e quem perde não quer aceitar a derrota como parte integrante da vida, até por que somos treinados pra ser os melhores. Isso quer ressaltar que quando nos deparamos com qualquer que seja a forma de violência, não podemos isolá-la do contexto no qual acontece e não podemos responsabilizar um indivíduo como único responsável”, afirma ele.

As torcidas se utilizam de linguagens verbais e corporais que só membros, ou simpatizantes podem compreender.

A maioria dos jovens vinculados a essas entidades são movidos por instintos primitivos, e valendo-se da garantia do anonimato e da certeza da impunidade, extravasam desejos reprimidos e selvagens de violência. Mas a punição para os maus torcedores está prevista no novo Estatuto do Torcedor, que foi sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Prever que os torcedores que invadirem o campo, promoverem ou cometerem ato de vandalismo ou violência em um raio de cinco km dos estádios, ou promoverem confusão podem pagar multa, serem proibidos de assistir aos jogos e até serem presos. O novo Estatuto, também estabelece um cadastro dos associados e membros das torcidas organizadas. Em caso de algum dos membros da organizada cometer alguma infração, serão as entidades que responderão pelos danos. Além disso, a torcida organizada que cometer tumulto será impedida de comparecer aos jogos pelo prazo de até três anos.

O Promotor Deijaniro Jonas revela que existem seguimentos políticos envolvidos na questão das TO. “Existem determinados empresários que ao mesmo tempo, patrocinam emissoras de rádio, clubes de futebol e Torcidas Organizadas, inclusive fazem pagamentos e lucram com os votos dessas pessoas”. Ele também revela que algumas diretorias de clubes promovem e patrocinam o ingresso dessas pessoas nas praças esportivas, ou seja, são torcedores diferenciados que não pagam para terem acesso aos estádios de futebol. Segundo o depoimento de um ex integrante da (TTA),disse que  para Trovão Azul  são 100 ingressos  e para Torcida Jovem 30. Então será que é essa a forma de incrementar o futebol e que de fato o futebol sergipano cresça? “Eu creio que o   caminho não é esse”, finaliza o promotor.

Imagens: Ministério Público Estadual

COTAS, O QUE MUDOU NA UNIVERSIDADE?

Posted in UFS by micheletavares on 26/10/2010
(Foto: Gleiceane Silva)

 

Por Gleiceane Silva

 

Antes mesmo de ser implantado na Universidade Federal de Sergipe (UFS) o sistema de cotas era um assunto bastante polêmico, pois antes de sua implantação houve vários manifestos dentro da própria universidade por estudantes que acreditavam que com este sistema o nível das aulas cairia e haveria um certo escurecimento da universidade porque dentro destas cotas são reservadas 30% das vagas para estudantes que se consideram pardos negros ou índio. A lei das cotas foi aprovada em 2007 e só no vestibular de 2009 elas foram implantadas na UFS.

Havia no início uma certa apreensão dos alunos em relação aos que entrariam por este sistema, tanto é que a própria reitoria da universidade recebeu os alunos com uma faixa na entrada da UFS que dizia: ¨ As cotas foram só uma forma de entrar, aqui somos todos iguais.¨

Já se passaram mais de seis meses e o tal problema das cotas e o medo de ser discriminado passou. No início teve uma certa discriminação porém os alunos de escolas públicas mostraram que são tão capazes quanto os que vieram de escolas particulares pois em sala de aula não há diferença entre notas, os professores são os mesmos e o nível das aulas não caíram por conta disto.¨Não me sinto inferior por ser proveniente de escola publica, sou tão capaz quanto os alunos da rede particular¨, diz a aluna do curso de fonoaudiologia, Kely Santos.

Além das cotas para estudantes de escola públicas e os que se consideram pardos negros e índio, houve também a reserva de uma vaga por curso para portadores de deficiência facilitando a inclusão destes alunos na universidade.  Porém assim como a própria cidade de Aracaju e na maioria dos lugares no Brasil, a universidade ainda não está preparada para receber estes alunos, falta uma série de adaptações e projetos tanto na estrutura física quanto no preparo dos professores que muitas vezes não sabem como lidar com estes.

Tatiana dos Santos (Foto: Gleiceane Silva)

De acordo com a chefe do departamento de comunicação, Messiluce Hansen, ainda é muito cedo para avaliar a instituição das cotas na Universidade, visto que esse é o primeiro ano de sua aplicação. “As turmas que tive contato são turmas de primeiro período, e não é possível fazer uma espécie de avaliação destes alunos, pois estes alunos independentemente de virem de escolas publicas ou privadas sofrem um processo de adaptação proveniente da transição do ensino médio para a universidade e cabe a eles escolherem o rumo a se tomar na vida acadêmica,” diz.

Em entrevista, o vice reitor  Ângelo Roberto Antoniolli comenta que ainda é cedo para se dar um parecer por ser esse o primeiro ano de implantação deste sistema. “Antes mesmo da implantação deste, 47% dos alunos na universidade são provenientes de escolas publicas e com o sistema passou para 64%. Esperávamos um número maior,” acrescenta ele. E não se tem muita diferença pois na maioria dos cursos já tinham alunos de escolas pública sendo que em alguns cursos 90% desse alunos são de escola pública, as mudanças foram em alguns curso a exemplo o curso de medicina e direito que a maioria são vindos de escolas privadas.

Já em relação aos alunos com deficiência ele volta a comentar que como este é o primeiro ano de implantação ainda falta muita coisa a ser feita para melhor acomodar e recebê-los. Porem algumas medidas já foram tomadas como por exemplo  a implantação de rampas na nova Didática VI, e no Restaurante Universitário (RESUN), também é feito um estudo para que os alunos com problemas de locomoção tenham aulas nas salas situadas no térreo para facilitar a acessibilidade. Mas ainda faltam projetos para facilitarem o acesso nas didáticas antigas, pois quando foram construídas não se tinham a idéia de inclusão de deficientes físicos. Então verbas a universidade já possui, agora só falta o projeto e a execução.

Em contato com as lentes

Posted in Cultura by micheletavares on 26/10/2010

A comemoração dos dez anos do Festival Ibero americano de Cinema de Sergipe, o Curta-se, fomenta a discussão sobre o uso das novas tecnologias no cinema

Por Edson Costa.

Este ano, entre os dias 14 a 18 de setembro, realizou-se a 10ª edição do Festival Ibero americano de Cinema de Sergipe, o Curta-se. O tema escolhido para este ano foi “Lentes de contato”. Através dele, o evento buscou fomentar o debate acerca do papel do cinema ao tentar reproduzir a realidade, como também o emprego de novas tecnologias na produção audiovisual.

Rosângela Rocha (Foto: Edson Costa)

A reflexão sobre a eficácia do cinema na imitação da vida e sobre quais seriam as lentes de contato evocadas pelo Festival, abre espaço até mesmo para divagações poéticas. Ao esboçar algo que seria um argumento do Curta-se 10, a diretora da Casa Curta-se, Rosângela Rocha, juntamente com os demais organizadores, usam um trecho do poema “Um cego”, de Jorge Luiz Borges, que diz: “Não sei qual é a face que me mira quando miro essa face que há no espelho”.

As câmeras amplificam o alcance do olho humano, e nada mais seriam do que uma forma encontrada por esse para registrar aquilo que vê. Na opinião de Rosângela, essas lentes seriam as percepções da vida, advindas de uma leitura sinestésica do mundo. Porém, numa contestação amistosa, a cantora Patrícia Polayne, intérprete da música que, além de homônima, é musa inspiradora do Festival, afirma que além de fazer ver melhor, as lentes também servem para encobrir uma deficiência. “Lentes de contato nos separam, e eu sinto muito”, é o que se canta em um trecho da música. Paralelamente a melhora da visão, forma-se a cisma entre o sonho e o concreto.

Porém, numa imediata reconciliação, a cantora diz crer que o intuito do Festival é mostrar que as lentes podem sim aproximar. A professora do curso de Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Beatriz Colucci, explica que a mediação e a tutela da realidade por parte da fotografia e cinema são questões existenciais, porém a narrativa ainda precisa ser o mais importante. Em sua opinião, existem filmes simples que foram e continuam sendo sucesso, embora seja “legal” ter a possibilidade de usar tecnologias novas, como o 3D.

Filmes na passarela

Muito além de tantas reflexões quase que filosóficas, as lentes de contato também simbolizam as novas tecnologias que vem reconfigurando o meio audiovisual, até mesmo no âmbito da criação artística. O 3D teria virado uma moda, perseguida como uma nova condição de sucesso. Além disso, o público que está sendo fisgado por uma sensação de interatividade, estaria na verdade ainda mais inerte.

“Os filmes hoje deixam cada vez menos espaço pra gente pensar, para refletir sobre o que você está vendo”, diz a professora Beatriz. Em sua opinião, quando se imprime um ritmo acelerado, com um bombardeio de efeitos, perde-se o essencial, que é a narrativa e suas possíveis ponderações. Numa concordância mais moderada, Rosângela opina que mais importantes do que as “inventividades” são o contato que se tem com elas enquanto ser humanos. Ela conclui reconhecendo que o 3D é um modismo, mas ainda é importante chamar a atenção para o conteúdo.

Não muito distante da crítica à sociedade burguesa dos primeiros teóricos dos Estudos Culturais, afirma-se que o excesso de tecnologias e as demandas de mercado criam uma arte cinematográfica mecânica. Porém, nenhuma fonte consultada demonstrou concordar em plenitude com tal conceito. Antes, assumem um tom crítico, porém compreensível com as inovações. Segundo Rosângela, é exatamente essa a intenção do Festival.

Em Sergipe, mas para Sergipe?

Ao mesmo tempo em que fomenta debates, o Curta-se busca valorizar a produção audiovisual de Sergipe. Entretanto, existe uma categoria específica para premiar os filmes locais; para muitos, sua existência já é uma prova de que os filmes sergipanos não são capazes de competir em igualdade com as obras produzidas fora.

“Não concordo. A gente passou por um hiato muito grande de produção (…). A gente não tem a tradição de fazer Cinema. Já começamos em desvantagem”, alega Rosângela. Segundo ela, os filmes sergipanos competem de igual pra igual com os filmes de fora na pré-seleção. Ela diz também que essa referência de destaque à produção local é tradicional nesse formato de festival, adotado não só por Sergipe. Em sua explanação, a problemática é expandida para outras instâncias. Rosângela afirma que Sergipe não oferece fundos para a produção audiovisual como outros estados, e que os prêmios em dinheiro tem a finalidade de injetar capital nessa. “O Curta-se está favorecendo que a produção seja contínua, ainda que pequena”, diz.

A professora Beatriz, por sua vez, acredita não ter base para discorrer com profundidade, mas opina em igual amplitude de instâncias. Ela diz que Sergipe está consolidando uma história de cinema, e que o Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, juntamente com a Casa Curta-se, está desempenhando um papel de grande importância nisso. Porém, há de se ver que o eixo Rio – São Paulo, assim como estados mais ricos do Nordeste possuem uma tradição maior, e por isso mesmo um padrão de qualidade a se cumprir. “A gente entra numa discussão como a das cotas: É legal? Não É? Exclui por um lado, valoriza pelo outro… É uma discussão que tem de ser feita”, assim conclui Beatriz.

Outra questão levantada foi a ausência da cantora Patrícia Polayne no evento, uma vez que o tema foi escolhido a partir de uma canção gravada e popularizada por ela. Questionada diretamente sobre por que a cantora não participou, Rosângela disse: “Primeiramente porque ela não quis.”. E seguiu alegando: “Patrícia tem um valor muito maior do que a gente poderia pagar. Ou contemplava só Patrícia, ou contemplava vários, então optamos por vários”. Porém, a cantora rebate afirmando que sequer fora informada de que uma música de seu repertório seria usada. E já não é a primeira vez: no ano passado, o tema do Curta-se foi “Aparelho de memoriar”, uma composição sua, e nas duas situações, só ficou sabendo da suposta homenagem quando saíram os anúncios oficiais nos jornais.

Patrícia declara que os dois temas foram usados lindamente pelo Festival, mas acredita ser uma indelicadeza não ter sido previamente avisada. “Foi um motivo pessoal, não há uma explicação técnica ou profissional para o ocorrido”, disse a cantora ao afirmar que as deficiências do cenário cultural atual de Sergipe levam ao uso despreocupado de criações alheias.

Patrícia explicou aos fãs que não estaria no Curta-se por ter-lhe sido ofertado um cachê muito baixo. Tal ocorrido foi desmentido por Rosângela nos jornais, mas a cantora, numa entrevista com clima pessoal, continua afirmando sua veracidade. Ele crê que os R$ 600 de cachê foram ofertados visando a sua recusa; e conclui assegurando que o valor não é importante, pois ela já teria ofertado apresentações até mesmo gratuitas. O que a incomodou foi a já citada “indelicadeza”.

 

 

Outras sinestesias

Atualmente a Casa Custa-se produz outro festival, voltado para o público infantil. Da mesma forma, Patrícia Polayne planeja uma proximidade maior com o cinema. Ela, que também é atriz, diz que ama aproximar suas músicas do cinema, pois é música feita para o movimento. Disse ter feito recentemente trilhas sonoras, e pretende continuar com essas conexões.

As tecnologias continuam mudando, e é crível que os discursos sigam o mesmo rumo. O debate acerca das lentes de contato não se encerra em cinco dias de Festival, muito menos em algumas linhas de texto. Entretanto, as experimentações sinestésicas que permeiam a essência das lentes, podem ser provocadas e ampliadas a partir de primeiras reflexões. As questões pessoais entre produtores e artistas podem até ser lembradas, mas nunca suplantando a missão a que um evento como o Curta-se se propõe, seja ela nobre ou apenas deficiente. Independendo do tema do próximo ano, será valerá refletir qual será o contato com as lentes de contato.

ULEPICC abre discussão para falta de eventos de comunicação na UFS

Posted in UFS by micheletavares on 26/10/2010

Universidade que ficou 10 anos sem sediar eventos importantes de comunicação, enxerga na ULEPICC novas perspectivas

Por Victor Limeira

Aconteceu na semana passada entre os dias 20 e 22 de outubro o III encontro da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (ULEPICC) que este ano teve com sede o estado de Sergipe, realizando-se na Universidade Federal de Sergipe (UFS) no campus de São Cristovão. O evento veio para a instituição, sobretudo por causa do professor do curso de economia César Bolaño que faz parte da diretoria da ULEPICC.

 Com o tema: A formação da Economia Política da Comunicação e da Cultura no Brasil e na América Latina: conquistas e desafios e contou com a presença de pesquisadores e palestrantes da universidade, bem como de outras instituições e até mesmo de outras nacionalidades, uma das presenças mais notáveis foi a do importante escritor e também professor da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) José Marques de Melo.

– “É muito importante esse tipo de evento, tanto para os acadêmicos como para os graduandos, só acrescentam”, disse o professor convidado

      O Departamento de Comunicação Social (DCOS) e o Departamento de Economia (DEE) trabalharam juntos nesse congresso. Essa fusão de áreas faz com que as ações ganhem mais notoriedade, trata-se de uma simbiose de conhecimento que pode acontecer em outros momentos, inclusive com o Departamento de Letras (DLE) que antes juntamente com o de comunicação formavam o (DACS), apesar da separação as relações desses núcleos são amigáveis.

O professor da UFS Matheus Felizola ressaltou a importância da universidade sediar eventos desse porte:

– “Eu acho que você trazer para uma instituição federal um evento internacional, só da credibilidade a mesma no meio acadêmico”.

     O saldo do evento foi positivo, a organização foi elogiada, e as pessoas de fora gostaram da cidade de Aracaju. O aluno Matheus Alves do curso de jornalismo elogiou a iniciativa, mas pontuou a falta de organização “O evento causou sensação de “estranheza” não parecia se tratar de um congresso internacional”. As principais críticas dos graduandos foram:

     A falta de organização; os estudantes argumentaram que se inscreveram para o trabalho de monitoria cerca de um mês antes do evento e só aconteceu uma reunião efetiva para delegar funções uma semana antes do evento e que por isso a logística não funcionou em muitos momentos, outro ponto questionado pelos estudantes foi à cobrança de R$ 30 na inscrição, a aluna Ana Carolina Moura comentou sobre “Alunos de comunicação da UFS deveriam ter acesso livre”.  Problemas de comunicação também ocorreram, as informações sobre o evento só começaram a ser veiculas quando o prazo para inscrição de trabalhos já tinha encerrado 

     Muitos creditam estes problemas à falta de assiduidade de eventos desse patamar. A ULEPICC serve pra mostrar que apesar dos problemas a UFS tem infra-estrutura e esta pronta sim para esse tipo de evento, de acordo com a professora Lilian França do DCOS que estava na organização do congresso esse tipo de evento é importante para tornar a UFS mais conhecida, bem como seus pesquisadores. “O maior problema é a obtenção de recursos junto as agencias financeiras (COAPS, FAPTEC, CNPQ)”. Ela ainda relativizou a importância dos alunos em congressos, classificando-a como fundamental e parabenizou o trabalho dos monitores e da professora Verlane Aragão.

                                                                                                                

O curso de jornalismo entrou na UFS em 1993, e em 17 anos só aconteceram quatro eventos importantes, podemos constatar na linha temporal abaixo que os alunos que entraram na universidade entre os anos [1999 e 2003] saíram da instituição sem participar de eventos desse tipo na universidade.

     É possível constatar ainda um “certo avanço” haja vista que pela primeira vez em um intervalo de um ano a UFS sedia dois eventos importantes de comunicação, se comparar com outras instituições ainda é muito pouco, para o ano que vem ainda não existem eventos marcados, contudo ficam os méritos e os aprendizados da ULEPICC, deve-se formar uma comissão antes do evento, visando uma melhor organização e de preferência em anos não eleitorais, porque a captação de recursos para efetivação dos eventos é ainda mais complicada.

Quem? Esse daí? Não conheço!

Posted in Política by micheletavares on 26/10/2010

O desconhecimento dos eleitores em relação aos presidenciáveis é preocupante.

Por Iargo de Souza

No dia 3 de outubro os eleitores brasileiros foram às urnas para a escolha de deputados federais e estaduais, governadores, senadores e presidente da república. Pela sexta vez desde o fim do regime militar o brasileiro pôde escolher aquele ou aquela que julga o mais capaz para governar o país. Um fato que chama atenção, nessas eleições, é a quantidade e a “variedade” dos candidatos à presidência, são um total de nove sendo sete homens e duas mulheres.

Vamos, então, às apresentações: Dilma Rousseff – Partido dos Trabalhadores (PT), Ivan Pinheiro – Partido Comunista Brasileiro (PCB), José Maria Eymael – Partido Social Democrata Cristão (PSDC), José Serra – Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Levy Fidélix – Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), Marina Silva – Partido Verde (PV), Plínio de Arruda Sampaio – Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Rui Costa Pimenta – Partido da Causa Operária (PCO), Zé Maria – Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU).

Nessa miscelânea de candidatos, com suas diferentes propostas, é preocupante que grande parte dos cidadãos não os conheça, pelo menos não à maioria. A confusão começa justamente quanto à quantidade: “São quatro, não, são cinco, Dilma, Serra, Marina, Plínio, ‘Eysmael’, tem outro que não estou lembrando”, disse a estudante e eleitora Gabriela Souza, concentrando-se e contando nos dedos na tentativa de lembrar o nome de todos os candidatos. Um depoimento ainda mais curioso foi o da também estudante Ana Carolina que ao ver as fotos dos noves candidatos afirmava convicta que nem todos ali eram presidenciáveis.

A propaganda eleitoral gratuita é de extrema importância para a divulgação ou não da imagem dos candidatos. É claro que com o advento da internet o eleitor encontra outros meios de obter informação sobre os candidatos, o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por exemplo, disponibiliza uma quantidade considerável de informação a respeito dos candidatos. Além disso, encontramos informação nas suas páginas pessoais, como blogs de campanha, twitter, comunidades no Orkut, etc.

No entanto a lei de propaganda que determina que o tempo dos candidatos seja proporcional à legenda de seus respectivos partidos, deixa espaço às críticas tanto por parte dos partidos de minoria como também dos eleitores: “Se o tempo da propaganda fosse igual, o que eu acho justo, Marina estaria no segundo turno”, disse a estudante Gabriela, que também declarou que não mudaria o seu voto, mas que a o acesso a informação sobre as propostas dos candidatos através de uma distribuição igualitária no tempo da propaganda eleitoral mudaria o voto de muita gente.

O desconhecimento a respeito dos candidatos por parte dos eleitores levanta questões que vão além das eleições 2010. Por exemplo, se temos nove candidatos e os eleitores reconhecem apenas seis, cinco ou até mesmo três como no caso do taxista do centro de Aracaju Valdir Silva, paramos para pensar se o processo que ocorre é 100% democrático.  Temos liberdade para escolhermos qualquer candidato, mas se o eleitor não tem acesso à informação a respeito de todos os candidatos, talvez não esteja votando por convicção ou escolha, talvez o voto seja dado por ausência de opção. O que é mais estranho é que talvez os candidatos “desconhecidos” pudessem surgir como opção, no entanto do modo que o processo ocorre hoje, em que alguns candidatos podem contar suas histórias de vidas e outros não têm tempo nem para dizer seu nome e número, isso se torna inviável.

A “pompa” da propaganda acaba realmente influenciando o eleitor: “A gente visa os que têm mais chances de ir pro segundo turno”, disse a estudante de enfermagem Magdalena  que afirmou haver cinco candidatos e reconheceu quatro. É curioso que alguns candidatos não tenham seus nomes lembrados pelos eleitores, mas suas características ás vezes são. Para o taxista Júnior, por exemplo, o candidato Plínio é “aquele velhinho magrinho”, Marina Silva, para o autônomo Manuel é a “menina da Amazônia”, a estudante Patrícia reconheceu o candidato Levy Fidelix como “o cara que rasgava o jornal e beijava a bandeira ” e quando é apresentada a foto do candidato Eymael, sobretudo aos mais jovens, é comum eles cantarem o jingle da sua campanha. Essas peculiaridades trazem à campanha política um pouco de bom humor, mas a verdade é que não se deve brincar com o futuro do nosso país e o desconhecimento dos eleitores em relação aos candidatos pode por o Brasil numa gangorra que só desce.

Talvez seja tarde, mas saiba o básico sobre quem você votou ou deixou de votar:


Além do Patrimônio Histórico

Posted in Politica Pública by micheletavares on 26/10/2010

Falta de estrutura sanitária no Rosa Elze mostra a discrepância entre patrimônio histórico e periferia em São Cristóvão

Por Nayara Arêdes

Esgoto a céu aberto é elemento integrante da paisagem no Rosa Elze (Foto: Nayara Arêdes)

“Esgotamento sanitário: constituído pelas atividades, infra-estruturas e instalações operacionais de coleta, transporte, tratamento e disposição final adequados dos esgotos sanitários, desde as ligações prediais até o seu lançamento final no meio ambiente”. Embora este trecho da lei número 11.445 – a Lei do Saneamento Básico, de 2007 – afirme o sistema de esgotos sanitários como um direito de todo cidadão, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) evidenciam que apenas 49% do esgoto produzido no Brasil é coletado por meio de rede. E é em algum lugar desses 51% restantes que podemos destacar o Bairro Rosa Elze, localizado entre os municípios de Aracaju e São Cristóvão. Tendo pontos de acúmulo de água contaminada como parte de sua paisagem urbana, o Rosa Elze mostra que a quarta cidade mais antiga do país tem algo bem menos nobre que seu título de patrimônio histórico da humanidade a mostrar.

Embora a construção do campus da Universidade Federal de Sergipe (UFS) tenha ocorrido na década de 80, fato que aumentou a concentração populacional e transformou o Rosa Elze numa grande área urbana, a região cresceu sem assistência de políticas públicas. Como alternativa à falta de esgotamento sanitário, a população construiu fossas ligadas ao sistema de drenagem pluvial. Tudo que escoa pelos ralos das residências é drenado e acaba sendo despejado no rio Poxim. Sem nenhum tipo de tratamento.

Como a eficiência das fossas sépticas chega a no máximo 60%, o que ela não dá conta transborda e fica concentrado em sarjetas e poças nas ruas do Rosa Elze. Em outras palavras: o bairro é permeado de lodo, mosquitos, ratos, mau cheiro, e até lixo e fezes. Com as chuvas, a situação se agrava. Sendo plana a topografia da região, a água se acumula muito facilmente e dificulta o trânsito da população. “Quando chove isso aqui fica um rio, não dá pra levar o menino na escola, a água entra na casa de todo mundo”, diz a moradora Maria Clara.

Moradores convivem diariamente com a falta de saneamento básico (Foto: Nayara Arêdes)

Além da água empoçada, as próprias medidas para solucionar a situação se constituíram num problema. No ano de 2007, o Governo Federal deu início a obras para a melhoria do sistema de drenagem. Sem a continuidade do repasse da verba, porém, a obra não pôde ser concluída. E o quadro ainda permanece o mesmo desde então: tubos de captação ficam a mostra na superfície da avenida e blocos de pavimentação soltos, bloqueando a passagem de veículos. “Sempre foi a mesma coisa. A gente já chamou a reportagem, eu já dei entrevista um monte de vezes, mas ninguém faz nada”, acrescenta Maria Clara.

Consequências

Sabão, gordura, restos de alimentos, fezes de animais. Onde deveria circular apenas água da chuva, todo tipo de dejeto é jogado. O produto do descarte do bairro Rosa Elze está causando um visível desequilíbrio ambiental nas águas do rio Poxim, fruto do acúmulo de nutrientes. O constante despejo de cargas extras de matéria orgânica dá origem a algas invasoras, como é o caso da chamada “baronesa”, que marca a paisagem. O rio, que é responsável por aproximadamente 20% da demanda de água em Aracaju, contém alto nível de contaminação fecal e é considerado pela Administração Estadual do Meio Ambiente (ADEMA) como o mais poluído do estado.

Segundo o professor do Departamento de Engenhara Química (DEQ) da UFS e especialista na área de tratamento de água e efluentes, José Jailton Marques, um atenuante no que diz respeito ao despejo de conteúdo residual no Poxim é a presença de charcos em suas margens. Os charcos funcionariam como uma espécie de barreira de proteção natural que ajudam a filtrar a água. Quanto a esta questão, ainda alerta: “aumentando a população, haverá uma sobrecarga que os charcos não serão capazes de barrar”.

Há ainda que se destacar a exposição da população a águas contaminadas e o iminente risco de doenças, sobretudo nas áreas de invasão. A proliferação de bactérias e animais pode dar origem a enfermidades como disenteria, poliomielite, leptospirose e febre tifóide. “Por enquanto não há ocorrências de doenças diretamente causadas pela falta de saneamento na área. Mas é preciso que haja uma medida para resolver essa situação, que é de fato perigosa”, diz o diretor do Posto de Saúde do Rosa Elze, Adalberto Silva.

O que está sendo feito

 

Placas indicam início do projeto de implantação da rede de esgoto na entrada da sede de São Cristóvão (Foto: Nayara Arêdes)

Foi iniciado neste ano, numa parceria entre Governo Federal e Governo do Estado, um projeto para a implantação de uma rede de esgoto em toda São Cristóvão. A obra deverá ser concluída em duas etapas: a primeira frente, que já está ativa, diz respeito ao centro histórico e corresponde a um investimento de aproximadamente R$ 4 milhões; e a segunda frente, que abrange as áreas periféricas do município, incluindo o Rosa Elze. A segunda fase do projeto deverá ser iniciada em 2011, com prazo de dois anos para a finalização.

A iniciativa foi fruto do acolhimento de uma ação civil para a preservação do rio Poxim pelo Ministério Púbico de Sergipe, em meados do ano passado. Além de requisitar o esgotamento sanitário no prazo máximo de um ano, o Ministério Público condenou o município a não mais lançar qualquer tipo de água residuária sem prévio tratamento no leito do rio e ao pagamento de uma indenização para sanar o impacto ambiental causado. Caso a ordem não seja cumprida, o município poderá ser multado no valor de R$ 20 mil por dia.

Além disso, até o dia 31 de dezembro deverá ser resolvido o impasse entre a Companhia de Saneamento de Sergipe (DESO) e o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE). Legalmente, o SAAE deveria dar conta do saneamento básico em todo o território de São Cristóvão. A DESO, no entanto, assumiu o serviço no conjunto Eduardo Gomes, alcançando também o Bairro Rosa Elze. Até o fim deste ano deverá ser oficialmente estabelecido qual concessionária será responsável pelo município de forma total.

Recentemente o Rosa Elze recebeu em sua área dois condomínios residenciais, o Novo Sol e o Vila Real. Como exigência para a construção dos empreendimentos foi requisitada uma licença através da ADEMA, determinando a auto-suficiência dos sistemas de esgoto dos residenciais. Cada condomínio deverá se responsabilizar pela captação, tratamento e descarte de seu próprio esgoto.

Enquanto a implantação da rede de esgoto no Rosa Elze não começou, há uma licitação para a drenagem de dois pontos de acúmulo de água previsto para o mês de novembro. E mesmo tais medidas paliativas são dificultadas pela escassez de recursos. De acordo com o secretário de infra-estrutura de São Cristóvão, Marcos Souza, os recursos próprios são difíceis por que o crescimento do município tem sido intenso. Além disso, a folha de pagamento abarca uma grande parte da renda.

Como medida caseira de reparação para as condições do bairro, José Jailton explica não haver muitas alternativas viáveis. Para ele, a saída mais indicada é a construção de fossas bem dimensionadas, compatíveis com o número de moradores de cada residência. Mas destaca: “essa não é uma obrigação da população. Ter um saneamento básico adequado é um direito assegurado por constituição, e a garantia de condições dignas está embutida no IPTU”. A este respeito, Marcos Souza afirma: “as pessoas contribuem para a situação do esgoto, por que não cuidam de suas próprias fossas. A fossa tem que ser fechada e bem direcionada, sua função é de apenas reter os dejetos. A depuração da água deve ser feita através de sumidouro ou filtro”.

Ampliando o foco

O quadro mostrado pelo bairro Rosa Elze serve de ilustração para um panorama que se configura em nível nacional. Segundo dados do site Esgoto é Vida (http://esgotoevida.org.br/index2.php), cerca de 87 milhões de brasileiros vivem em domicílios desprovidos de sistemas de coleta de esgoto sanitário. Destes, estima-se que aproximadamente 17 milhões despejem diariamente seu esgoto sanitário a céu aberto. O que se reflete diretamente na qualidade de saúde do país. Entre a população atingida pela falta de saneamento básico, as crianças são quem mais sofrem. 15 crianças de zero a quatro anos de idade morrem por dia no Brasil em decorrência de problemas de saneamento, sobretudo pela deficiência de redes de esgoto.

A primeira vista, o investimento em saneamento básico pode parecer bastante oneroso. Mas se levarmos em consideração que para cada R$ 1 investido na área de saneamento economiza-se R$ 4 na área de medicina curativa, percebemos que há uma relação de custo-benefício. Ou seja: a máxima da sabedoria popular que diz “é melhor prevenir do que remediar” está correta. E num local carente como o Rosa Elze, tal prevenção tem relevância fundamental.

Pelo fato de se localizar nos arredores de uma universidade federal e ser ponto estratégico no deslocamento entre a capital e a sede de São Cristóvão, o bairro Rosa Elze é uma área visada, que se amplia cada vez mais. Contrariando a lógica, porém, a região permanece esquecida e não oferece condições satisfatórias de infra-estrutura. Além do problema de esgoto, o bairro ainda tem um longo caminho a percorrer no que se trata de coleta de lixo, pavimentação e saúde, só para citar alguns exemplos. E percorrer este caminho é de vital importância por que antes de ser patrimônio da humanidade, um lugar tem que ser patrimônio de seus próprios moradores.

(Esquema: Nayara Arêdes)

(Esquema: Nayara Arêdes)

Ciúme: a diferença entre o veneno e o remédio está na dose.

Posted in Comportamento by micheletavares on 26/10/2010

Por ELA Leão.

“O ciúme dói nos cotovelos
Na raiz dos cabelos
Gela a sola dos pés (…)
Dói da flor da pele ao pó do osso
Rói do cóccix até o pescoço (…)
Você ama o inimigo
E se torna inimigo do amor”

Em “Dor de cotovelo” Caetano Veloso descreve as mazelas provocadas pelo ciúme. O ciúme não é exclusividade apenas dos mortais, o mesmo seria capaz de tirar do prumo a deusa Hera, a qual sofria com a infidelidade de seu esposo Zeus e com o ciúme que sentia dele.  Embora pensado humano, esse sentimento não deixa escapar nem mesmo o deus judaico cristão, que de acordo com o que afirma o texto sagrado: (Deuteronômio 4,24)Pois o SENHOR vosso Deus é fogo abrasador, é um Deus ciumento”.

Colocando religião e mitologia de lado, o ciúme, quando fora de controle, trás problemas para quem o sente e em especial para o indivíduo passivo do ciúme. Como tantas mulheres no Brasil, a senhora M.A.S, 38 anos, serve de exemplo. Na madrugada do dia 17 de dezembro de 2009, M.A.S. compareceu à delegacia plantonista e registrou queixa contra seu ex-marido por ameaçá-la com uma faca em sua casa e também por agredi-la verbalmente depois de tê-la seguido em público, inclusive na igreja em que ela freqüenta. Segundo ela, mesmo separada, o ex-marido ainda a perseguia e que o motivo de tantas ameaças e violências é que, embora separados ha três meses, o seu ex-marido conserva-se ciumento e nisso resulta todo o medo que ela vem sentindo.

Como este caso, inúmeros outros com semelhanças e dessemelhanças podem ser vistos por todo o Brasil. O pano de fundo para o desenrolar dessas cenas: ciúme.

Cantado, interpretado, pintado por artistas em muitos idiomas, o ciúme é quase linguagem universal, quando se trata de sentimento. Do latim zelume, ou seja zelo, dita dessa forma, talvez a palavra ciúme não faz pensar na angústia e sofrimento causado pela possibilidade de perder o afeto de quem se  ame. O ciúme é tema central de obras como Otelo, de William Shakespeare, e Dom Casmurro, de Machado de Assis, visita também pára-choques de caminhões: “Amor sem ciúmes é como flor sem perfume”.

Em Passione, folhetim apresentado atualmente por emissora de TV brasileira, a personagem Jessica, interpretada por Gabriela Duarte, inventa mil e uma formas de segurar seu marido Berilo (Bruno Gagliasso), recorrendo até a um GPS para mantê-lo “dentro da cerca”. No entanto, nenhum personagem supera Heloisa do folhetim “Mulheres Apaixonadas”, interpretada por Giulia Gam. A personagem infernizou a vida do esposo, Sergio, encenado por Marcello Antony. Todos os clichês de cenas de ciúmes foram vividos na pele de Heloisa: cheirar roupa, averiguar bolsos e carteira, conferir ligações do celular, seguir o marido, chegando mesmo a esfaqueá-lo. O ciúme era tanto, que ela chegou a fazer uma cirurgia de retirada do útero, para não ter que dividir o esposo com filhos.

Apesar de ser muitas vezes associado à desconfiança, suspeita de infidelidade ou a tentativa de controle, o ciúme em si cumpre uma função de grande importância social: pode ensinar que não somos o centro do mundo, muito menos do desejo do outro. Para o psicanalista Alberto Silveira, o ciúme não significa demérito ou patologia. “É comum sentir ciúme, afinal o medo da perda é presente em todo sujeito, então se vê nas crianças que disputam a posição de filho preferido, na namorada que busca atenção, no individuo que reclama da relação do trabalho”, disse.

O estranho é a negação do ciúme. Como no caso de namorados, noivos, maridos, que afirmam não sentirem ciúme. “Se for verdade a afirmação desses homens, significaria que se alguém levasse a mulher deles eles não teriam problema ou sentiriam tal ação, afinal eles não sentiriam tal perda”, afirma o psicanalista.

É comum, as mulheres serem apontadas como mais ciumentas, no entanto para o psicanalista, isso não corresponde à realidade. Segundo o mesmo, o que existe é certa conformidade social com a posição feminina, a qual para ela é permitido chorar, fazer escândalos se apresentar fragilizada, e reclamar constantemente. Contudo, o fato das mulheres exporem, com maior freqüência, o ciúme que sentem não faria delas mais ciumentas. “Afinal historicamente o homem foi protegido dessas situações, as esposas e amantes ficavam em casa e sua imagem de homem ficava intacta”, conclui o psicanalista.

Embora, não seja uma regra, existe uma diferenciação entre o ciúme apresentado pela mulher e pelo homem. Isso se dá na forma de expor o sentimento, enquanto as mulheres sentiriam ciúmes do afeto demonstrado pelo parceiro a uma terceira pessoa, os homens direcionam seu ciúme para a vida sexual da parceira. “Esse fato é perceptível em retornos após separações onde quase sempre o homem se incomoda ou se interessa pela vida sexual da parceira e a mulher por sua vez tem suas duvidas e queixas relacionadas à quantidade de afeto”, afirma o psicanalista.

Homem ou mulher, criança, jovem, adulto ou idoso só é possível ajudar o ciumento caso este sinta-se incomodado pelo ciúme. “Esse sintoma sim é válido para a análise e para outras terapias afinal é um sintoma do sujeito”, conclui o psicanalista.

Você é ciumento? Teste online: http://www.interney.net/testes/teste005.php

A Bandeira do Descaso

Posted in Política by micheletavares on 26/10/2010

Os seguradores de bandeira refletem a situação trabalhista e a hipocrisia das propostas eleitorais

Por Liliane Nascimento

Inúmeros seguradores em passeata pelo centro de Aracaju. (Foto: Liliane Nascimento)

Ainda muito cedo Maria se levanta e escolhe uma roupa que julga apropriada para o calor: camiseta, short, chinelo de dedo e um mp4 para ajudar a passar o tempo. Bem diferente do militante típico ela não sai de casa por um ideal ou com um grito preso na garganta, até porque Maria não é uma militante, ela é uma seguradora de bandeira.

João tem menos de 20 anos, concluiu o Ensino Médio, mas não tem um emprego. Por não tê-lo ele é levado a segurar bandeira no período eleitoral, mesmo sem conhecer o candidato e suas idéias. Mal se aproxima a época das eleições, as ruas se enchem de marias e joões sem oportunidade que contrastam bem o tremular alegre das bandeiras.

Seguradores de Bandeira na Praça da Bandeira, Aracaju-SE (Foto: Egicyane Lisboa)

Os seguradores, em geral, trabalham mais de oito horas por dia, expostos ao sol e a chuva, necessariamente de pé, sem um local de descanso ou sequer um banheiro. Para suportar tantas horas eles recebem protetor solar, água e lanches que são servidos ali mesmo, no meio da rua. “As pessoas ‘pensa’ que [a gente] não faz nada, mas trabalha demais”, diz um dos joões que acrescenta chegar a sua casa muito cansado no fim do dia.

Karl Marx, em O capital, refere-se a um exército de reserva que, grosseiramente resumido, seria uma massa de desempregados que enquanto está disposta a sujeitar-se a péssimas condições de trabalho, por necessidade, permite a ampliação do capitalismo e o acúmulo de lucros. De acordo com o Doutor em Ciências Sociais, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e pesquisador, entre outras, na área de sociologia do trabalho, Cristiano Wellington Noberto Ramalho, o exército de reserva está intimamente unido a capitalismo: “Os desempregados são a moeda do medo para quem não quer perder seu trabalho e que por isso aceita baixos salários. É a tradicional lei da oferta e da procura”.

Outro ponto que merece ser destacado é o número de jovens submetidos a trabalhos precários. “O primeiro emprego tornou-se um grande desafio para os jovens. Como boa parte pertencente às classes populares e detém baixa escolaridade, o subemprego acaba sendo sua única alternativa, seja para sustentar a si mesmo, seja para sustentar ou ajudar as suas famílias”, afirma o pesquisador.

Seguradores no intervalo para o lanche. (Foto: Egicyane Lisboa)

Toda exposição da juventude traz, além das tradicionais atenções com a dignidade humana, a preocupação com a perspectiva de futuro, diretamente relacionada ao que se aprende e ao que se produz na função. “Esse é um tipo de trabalho que não deixa nenhuma obra. Não gera riqueza e humilha as pessoas. É uma atividade que não produz um objeto (um prédio, um computador, uma arte, uma mercadoria), não transforma nada e por isso, ele é taxado de improdutivo. Ademais, revela uma face cruel: as campanhas políticas e vários políticos reforçam o subemprego e o trabalho precário, feito sob péssimas condições. Esses homens e mulheres – na maioria jovens – não aprendem nada ali que possa somar positivamente para seus currículos. Elas continuam no exército de reserva”, ressalta Cristiano Ramalho.

Nelson Rodrigues estava certo. É, novamente, o óbvio ululante. Nenhum candidato defenderia em campanha tais condições de trabalho sem ser rejeitado pela população, mas no escondido das praças e ruas mais movimentadas da cidade pessoas são reduzidas a mastros sem causar nenhum alarde. É o retrato da hipocrisia, ou melhor, das eleições.

O descaso está não só nas horas excessivas de trabalho e no ambiente desconfortável, mas também nos pagamentos abaixo do salário mínimo. O candidato ao governo do estado de Sergipe, nas últimas eleições, pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), Leonardo Dias desaprova a utilização de seguradores, pois segundo ele: “Este tipo de trabalho vai contra a dignidade humana” e que por essas imorais condições o PCB não utiliza seguradores de bandeira. “No caso dos grandes candidatos é uma forma de pressionar, pois as pessoas têm a cultura de votar em quem vai ganhar e essa onda de bandeiras pressiona muita gente”, conclui Leonardo Dias.

Há os que defendam esse improdutivo trabalho como uma oportunidade de emprego, há inclusive seguradores que votam nos seus bem-feitores por gratidão. Um dos coordenadores de campanha do Partido dos Trabalhadores (PT), ligado à corrente dos deputados Iran Barbosa e Ana Lúcia, David Barreto de Oliveira, posiciona-se: “Contratar seguradores sem um vínculo com o partido é uma forma indireta de compra de compra de voto”. Ele aponta para a divisão dos candidatos, em geral e também dentro do PT, em três linhas de atuação, os que não pagam seguradores, os que pagam apenas militantes e os que pagam indiscriminadamente.

Sua corrente acredita que o trabalho é importante para mostrar a força do candidato e dar visibilidade a ele, para tanto utiliza apenas seguradores voluntários. Ele considera a falta de banheiros um ato desumano, embora admita a presença de cabos-de-turma, um tipo de fiscal, que entre outras coisas checa se as pessoas estão realmente em pé.  O coordenador fala da importância de resgatar a militância como alternativa para ter autonomia e concretizar os projetos de campanha. “Se for para ganhar a eleição jogando nossos sonhos e nossa liberdade fora pelo mandato a gente não quer, a gente prefere perder”, afirma David Barreto.

Segundo o Dicionário Mor da Língua Portuguesa descaso pode ser definido como falta de atenção; inadvertência; pouco caso. Segundo as ruas e o dia-a-dia daqueles joões e daquelas marias, descaso pode ser um trabalho tão visível quanto escondido que atenta contra a dignidade, nada traz de produtivo para a sociedade, não acrescenta conhecimento aos que o executam e ainda manipula a arma democrática mais conhecida: o voto.

Sergipe voando alto nos esportes radicais

Posted in Esporte by micheletavares on 26/10/2010

Novo ponto do voo livre é a mais nova atração no Morro do Urubu.

Por Osmar Rios

Aracaju possui agora uma rampa urbana destinada aos amantes dos esportes radicais, principalmente, os adeptos ao voo livre. Localizada na Zona Norte da cidade, mais precisamente no Morro do Urubu, dentro do Parque da Cidade,  a cinco minutos do centro da capital. O Parque abrange uma área de 674 mil metros quadrados e, abrange a única reserva de Mata Atlântica na cidade. Portanto, a partir de agora os apreciadores desse tipo de esporte podem praticá-lo aqui mesmo no estado, não mais sendo necessário viajar a região Sul ou Sudeste do país. O clube responsável pela rampa é a Associação Sergipana de Voo Livre (ASVL), que possui uma excelente equipe de instrutores. O aventureiro além de praticar duas modalidades de esportes radicais, o voo livre e o parapente, vai se deslumbrar com um visual fantástico que não há outra maneira de vê-lo a não ser do alto.

A asa delta surgiu logo após a Segunda Guerra Mundial, em 1951. Já o parapente, nasce com a velasa, em 1965. No final do ano de 1975, foi fundada a Associação Brasileira de Voo Livre. A prática desse tipo de esporte aqui em Sergipe começou na década de 1980. Um grupo de amigos conheceu um instrutor de asa delta, aqui em Aracaju, e foram apresentar-lhe o Morro do Urubu. O instrutor ficou fascinado com a visita e falou que seria um ótimo lugar para voar, embora todos achassem que era uma brincadeira do instrutor.

No dia seguinte, marcaram e foram conhecer a asa delta lá no Morro. Chegando ao ambiente, a asa já estava montada e pronta para voar. Os amigos então experimentaram a asa e ficaram fascinados com o esporte. Tiveram aulas, compraram equipamentos e assim começou a história desse esporte aqui no Estado. O voo livre trouxe todos os benefícios que um esporte traz aos seus praticantes e com um ponto em destaque: trabalhar a cabeça para conseguir um determinado objetivo em sua vida.

O instrutor e praticante de paramotor, asa delta e parapente, Artur Figueiredo, fala um pouco sobre o pré-requisito básico para iniciar no mundo dos esportes radicais: “Antes de qualquer coisa, uma pessoa que gosta de esportes radicais não é um louco que quer se matar! O perfil do esportista radical é de uma pessoa que gosta de desafios, que quer conhecer a si mesmo, superar seus limites. Alguém que sente prazer em ficar no limite, sentir emoção, adrenalina. Ou seja, uma pessoa que gosta de conhecer seu corpo e testar seus limites.” É importante lembrar que por ter esse lado físico e mental, a pessoa que deseja praticar o esporte tem que ter um preparo físico e ser objetivo. “Não pode cristalizar”, segundo o instrutor, é assim denominado quando uma pessoa deixou de fazer uma ação.

O estudante de comunicação social da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Joseílton Bispo, é apaixonado por esportes radicais e foi um dos primeiros a experimentar essa nova rampa. “Foi uma experiência muito boa, é uma grande sensação de liberdade”, disse. Além da prática do voo livre, ele também curte o rapel e a escalada. Segundo o estudante, os esportes radicais são os mais empolgantes na prática. “É uma adrenalina fora do comum. É como se você tivesse ‘superpoderes’, e então você pode voar, escalar, tal quais os nossos heróis de gibi”, complementou.

Os esportes praticados nas alturas necessitam de uma atenção especial. Bons equipamentos e uma checagem milimétrica antes da prática são essenciais para que não haja problema durante o vôo, e assim, gerar consequências sérias ao praticante. A manutenção preventiva é como uma “lei” aos esportistas, já que o seu equipamento não pode quebrar durante a prática.

Artur, também revela lugares aqui no Estado que possui condições necessárias para essa prática: “Existem três sítios de voo em Sergipe. Além do Morro do Urubu, em Aracaju – onde se encontra uma das poucas rampas urbanas do Brasil – a Serra Comprida, continuação da Serra de Itabaiana, e a Serra do Machado, localizada no município de Moita Bonita, completam essa tríade”.

Por um lado, a asa delta é um tipo de aeronave composta por tubos de alumínio, que proporcionam a sua rigidez estrutural, e uma vela feita de tecidos, que funciona como superfície que sofre forças aerodinâmicas, proporcionando a sustentação da aeronave no ar. A origem deste nome, asa delta, deu-se pela semelhança da letra grega, que tem forma de triângulo, com o fortado da asa desta aeronave. Por outro lado, o parapente (paraglider em inglês) é um aeroplano (aeronave mais pesada do que o ar), em cuja asa (inflável e semelhante a um pára-quedas, que não apresenta estrutura rígida) são suspensos por linhas o piloto e possíveis passageiros.

De acordo com o instrutor, não há um “mais fácil de voar” do que o outro. Ele diz que no caso do parapente é mais lento, pois a pessoa voa sentada e necessita de pouco vento para voar, já a asa delta necessita de um vento mais forte e o esportista voa deitado. O único problema encontrado é com relação ao equipamento. O preço é alto para os padrões brasileiros. Existem equipamentos já usados, mas nem sempre é a melhor saída. Se você tiver condições o ideal mesmo é investir e um bom equipamento. Depois é só aparecer em um dos pontos citados pelo instrutor Artur e boa diversão.