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Geladinho alivia tratamento quimioterápico

Posted in Saúde by micheletavares on 20/10/2010

(Foto: Ascom/Huse - Por: Marco Vieira)

O projeto Geladinho Amigo, realizado pelo setor de Oncologia do HUSE, é sucesso no tratamento de pessoas com câncer

Por Isabelle Marques    

    Geladinho. Em Sergipe, o termo significa suco congelado em pequenos saquinhos plásticos. É o mesmo que sacolé, chup-chup, gelinho. O nome varia de acordo com a região, mas a receita que é a mesma em todo o país, ajuda a refrescar nos dias quentes e é bem saborosa. Em Aracaju, tomar geladinho ganhou um significado a mais para pacientes com câncer, em tratamento no Centro de Oncologia do Hospital de Urgência de Sergipe (Huse).

    Trata-se de um projeto criado há dois anos. A coordenadora do Centro de Oncologia, Rute Andrade, conta que o Geladinho Amigo surgiu da necessidade de diminuir os enjôos dos pacientes em tratamento. A idéia partiu do ex-funcionário Ricardo Reis, que trabalhava na equipe de enfermagem da Oncologia. Após participar de um Congresso onde descobriu que o gelo diminuía náuseas e vômitos, ele teve inicialmente a vontade de oferecer gelo com limão aos pacientes, mas logisticamente era inviável. Depois de muitas conversas, decidiram pelo geladinho. “Outros hospitais servem sorvete, mas a gente não tem como fazer isso, então a gente adequou à nossa realidade. Optamos pelo geladinho, uma receita simples e barata”, diz Rute Andrade.

      Hoje, a equipe de nutrição é quem operacionaliza o projeto. São distribuídos cerca de 50 geladinhos por dia. Maracujá, chocolate, morango, limonada rosa (suco de limão com corante de morango) fazem parte do cardápio. O geladinho, além de livrar dos enjôos de crianças e adultos que fazem quimioterapia, ajuda a deixá-los nutridos. O segredo está nos compostos alimentares adicionados à receita. Além do suco de frutas, o geladinho conta com suplemento alimentar em pó, maltodexitrina (açúcar de fruta), leite em pó, e proteína em pó. São cerca de 300 calorias por geladinho, que permitem que os pacientes fiquem mais nutridos e mais dispostos para desempenhar as atividades de rotina.

      Os geladinhos são preparados na sala de manipulação de dietas líquidas do Hospital, sob um forte esquema de higiene. “Há todo um cuidado com a água, além disso o manipulador utiliza touca, luva, máscara. A área é isolada e todo material usado é esterilizado”, explica a gerente de nutrição do Huse, Sieune Gomes.

      Enquanto os pequenos passam pelo tratamento de quimioterapia, que dura em média duas horas, o pessoal da nutrição chega para aliviar esse momento desagradável. É hora de tomar geladinho. Agora os bichinhos feitos em MDF e colados na parede da sala infantil não são mais a distração da garotada para passar a hora. O geladinho é a solução. E não há quem fique de fora. Aos poucos as carinhas tristes e desanimadas vão ganhando um aspecto melhor. Quer prova maior de que o projeto tem dado certo? Não sobra um na bandeja. Se dependesse da pequena Maria Clara, certamente ela consumiria mais de um. O seu sabor preferido é maracujá. “Não deixo ela chupar um inteiro para evitar resfriado, mas é incrível como os enjôos sumiram após o Centro de Oncologia começar a oferecer o geladinho”, afirma a mãe da menina.

Fazer quimioterapia, não é nada fácil. É dolorido para o paciente e para a família. Criar alternativas que tirem o paciente da rotina é uma forma de aliviar o sofrimento. “Faz parte do projeto de humanização do Hospital, porque vir só para tomar quimio e ir embora é insuportável. É uma rotina dura e a gente não quer que seja monótona.”, avaliou a coordenadora de enfermagem, Rute Andrade.

     Que o diga a dona de casa Maurina Florença, que está há um ano em tratamento contra um câncer de mama.“Refresca a pessoa, tira o enjôo e melhora”, diz ela. Outra dona de casa, Maria José, há oito meses em tratamento, experimenta o geladinho pela primeira vez. “Vinha sempre e eu não queria, tinha medo de gripar, tossir, mas graças a Deus estou gostando, vou continuar tomando quando eu vier para aqui agora”, fala.

     O experimento tem a aprovação geral. 100% de aceitação entre adultos e crianças. Para a coordenadora de enfermagem a explicação é simples: “A gente tem um modelo de gestão de escuta, então a gente presta atenção no que diz o funcionário, e o paciente. Se eu não tivesse dado importância ao meu funcionário, esse projeto não aconteceria. Foram várias reuniões para chegar até aqui”.  

“Nenhum de nós é tão bom, quanto todos nós juntos”

      A frase de autoria de Ray Crock, fundador do Mc Donald’s, serve de bússola para a equipe de enfermagem do setor de oncologia do Huse. Vale ressaltar que o geladinho é apenas uma das opções no tratamento contra o câncer para aliviar as reações adversas da quimioterapia. Os pacientes tomam medicamentos próprios para diminuir enjôos, náuseas e vômitos, além disso, para enfrentar a doença, contam com o apoio e a presença de voluntários e palhaços que dedicam parte do seu tempo a diverti-los.

     O setor de oncologia tem ainda outros projetos, que começam pela gentileza da água de coco; apresentação de grupos de espetáculo; grupos de pacientes, como o grupo de câncer de mama (em que 40 mulheres com câncer que se reúnem para dar força umas as outras) e grupos de orações.  Há ainda comemorações, sempre que possível, com o objetivo de tirar os pacientes da rotina estressante do tratamento. Outra ação é o desfile dos vitoriosos, momento em que pacientes curados há mais de cinco anos, relatam sua experiência bem-sucedida com o câncer. Um incentivo quase indispensável, para quem tem a vida por um fio.

4 Respostas

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  1. Wesley PC> said, on 20/10/2010 at 4:07 am

    Coincidentemente, vi um filme sobre uma professora com câncer de ovário recentemente, e estas razões que tu explicaste sobre gelados ajudarem a combater o mal-estar das náuseas e dos vômitos era destacado. Bonito projeto… Só me incomoda a inserção um tanto concessiva, “apolítica” (?) das palavras do criado do McDonalds no fervor da Tia Rute… Fuca a boa intenção.

    Quanto à matéria, fiquei lembrando de um comentário da professora Michele, sobre o viés televisivo da mesma (risos)

    WPC>

    • Isabelle said, on 22/10/2010 at 5:47 pm

      Pois é, Wesley, como escrevo para tv, já tenho essa característica imbuída em mim, mas tenho que desconstuir isso ao longo do curso. Valeu as dicas. Ah, nem tinha pensado nessa coisa do Mc Donalds, tb. Obrigada

  2. Wesley PC> said, on 21/10/2010 at 3:30 pm

    Ah, sim, esqueci de falar: esta foto selecionada é primorosa pelo seu poder de síntese e de emoção sincera. Vai direto ao ponto e pode ser “lida” através de diversos enfoques espectatoriais, que, obviamente, nos convidam à participação sobre o assunto. Muito legal a pauta. Do tipo que estimula a descoberta sobre coisas óbvias, mas que a gente não tem tempo para refletir…

    WPC>

  3. victor limeira said, on 28/10/2010 at 9:26 pm

    Muito interessante, como uma coisa aparentemente simples pode transformar a vida de alguém. O câncer é uma doença que assusta a maioria da população e o fato de crianças passarem por esse tipo de coisa realmente nos toca de alguma maneira. Parabéns pela matéria, com o tempo você saberá canalizar o seu viés televisivo.
    Parabéns pra quem fez a pauta também.

    * Ontem vi na FUTURA um filme sobre câncer (história real), o filme não é dos melhores, mas a história em si é linda, não vou fazer uma sinopse aqui, mas leiam nesse link:
    http://www.mediconerd.com/2010/09/terry-fox-e-maratona-da-esperenca.html


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