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A Bandeira do Descaso

Posted in Política by micheletavares on 26/10/2010

Os seguradores de bandeira refletem a situação trabalhista e a hipocrisia das propostas eleitorais

Por Liliane Nascimento

Inúmeros seguradores em passeata pelo centro de Aracaju. (Foto: Liliane Nascimento)

Ainda muito cedo Maria se levanta e escolhe uma roupa que julga apropriada para o calor: camiseta, short, chinelo de dedo e um mp4 para ajudar a passar o tempo. Bem diferente do militante típico ela não sai de casa por um ideal ou com um grito preso na garganta, até porque Maria não é uma militante, ela é uma seguradora de bandeira.

João tem menos de 20 anos, concluiu o Ensino Médio, mas não tem um emprego. Por não tê-lo ele é levado a segurar bandeira no período eleitoral, mesmo sem conhecer o candidato e suas idéias. Mal se aproxima a época das eleições, as ruas se enchem de marias e joões sem oportunidade que contrastam bem o tremular alegre das bandeiras.

Seguradores de Bandeira na Praça da Bandeira, Aracaju-SE (Foto: Egicyane Lisboa)

Os seguradores, em geral, trabalham mais de oito horas por dia, expostos ao sol e a chuva, necessariamente de pé, sem um local de descanso ou sequer um banheiro. Para suportar tantas horas eles recebem protetor solar, água e lanches que são servidos ali mesmo, no meio da rua. “As pessoas ‘pensa’ que [a gente] não faz nada, mas trabalha demais”, diz um dos joões que acrescenta chegar a sua casa muito cansado no fim do dia.

Karl Marx, em O capital, refere-se a um exército de reserva que, grosseiramente resumido, seria uma massa de desempregados que enquanto está disposta a sujeitar-se a péssimas condições de trabalho, por necessidade, permite a ampliação do capitalismo e o acúmulo de lucros. De acordo com o Doutor em Ciências Sociais, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e pesquisador, entre outras, na área de sociologia do trabalho, Cristiano Wellington Noberto Ramalho, o exército de reserva está intimamente unido a capitalismo: “Os desempregados são a moeda do medo para quem não quer perder seu trabalho e que por isso aceita baixos salários. É a tradicional lei da oferta e da procura”.

Outro ponto que merece ser destacado é o número de jovens submetidos a trabalhos precários. “O primeiro emprego tornou-se um grande desafio para os jovens. Como boa parte pertencente às classes populares e detém baixa escolaridade, o subemprego acaba sendo sua única alternativa, seja para sustentar a si mesmo, seja para sustentar ou ajudar as suas famílias”, afirma o pesquisador.

Seguradores no intervalo para o lanche. (Foto: Egicyane Lisboa)

Toda exposição da juventude traz, além das tradicionais atenções com a dignidade humana, a preocupação com a perspectiva de futuro, diretamente relacionada ao que se aprende e ao que se produz na função. “Esse é um tipo de trabalho que não deixa nenhuma obra. Não gera riqueza e humilha as pessoas. É uma atividade que não produz um objeto (um prédio, um computador, uma arte, uma mercadoria), não transforma nada e por isso, ele é taxado de improdutivo. Ademais, revela uma face cruel: as campanhas políticas e vários políticos reforçam o subemprego e o trabalho precário, feito sob péssimas condições. Esses homens e mulheres – na maioria jovens – não aprendem nada ali que possa somar positivamente para seus currículos. Elas continuam no exército de reserva”, ressalta Cristiano Ramalho.

Nelson Rodrigues estava certo. É, novamente, o óbvio ululante. Nenhum candidato defenderia em campanha tais condições de trabalho sem ser rejeitado pela população, mas no escondido das praças e ruas mais movimentadas da cidade pessoas são reduzidas a mastros sem causar nenhum alarde. É o retrato da hipocrisia, ou melhor, das eleições.

O descaso está não só nas horas excessivas de trabalho e no ambiente desconfortável, mas também nos pagamentos abaixo do salário mínimo. O candidato ao governo do estado de Sergipe, nas últimas eleições, pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), Leonardo Dias desaprova a utilização de seguradores, pois segundo ele: “Este tipo de trabalho vai contra a dignidade humana” e que por essas imorais condições o PCB não utiliza seguradores de bandeira. “No caso dos grandes candidatos é uma forma de pressionar, pois as pessoas têm a cultura de votar em quem vai ganhar e essa onda de bandeiras pressiona muita gente”, conclui Leonardo Dias.

Há os que defendam esse improdutivo trabalho como uma oportunidade de emprego, há inclusive seguradores que votam nos seus bem-feitores por gratidão. Um dos coordenadores de campanha do Partido dos Trabalhadores (PT), ligado à corrente dos deputados Iran Barbosa e Ana Lúcia, David Barreto de Oliveira, posiciona-se: “Contratar seguradores sem um vínculo com o partido é uma forma indireta de compra de compra de voto”. Ele aponta para a divisão dos candidatos, em geral e também dentro do PT, em três linhas de atuação, os que não pagam seguradores, os que pagam apenas militantes e os que pagam indiscriminadamente.

Sua corrente acredita que o trabalho é importante para mostrar a força do candidato e dar visibilidade a ele, para tanto utiliza apenas seguradores voluntários. Ele considera a falta de banheiros um ato desumano, embora admita a presença de cabos-de-turma, um tipo de fiscal, que entre outras coisas checa se as pessoas estão realmente em pé.  O coordenador fala da importância de resgatar a militância como alternativa para ter autonomia e concretizar os projetos de campanha. “Se for para ganhar a eleição jogando nossos sonhos e nossa liberdade fora pelo mandato a gente não quer, a gente prefere perder”, afirma David Barreto.

Segundo o Dicionário Mor da Língua Portuguesa descaso pode ser definido como falta de atenção; inadvertência; pouco caso. Segundo as ruas e o dia-a-dia daqueles joões e daquelas marias, descaso pode ser um trabalho tão visível quanto escondido que atenta contra a dignidade, nada traz de produtivo para a sociedade, não acrescenta conhecimento aos que o executam e ainda manipula a arma democrática mais conhecida: o voto.

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5 Respostas

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  1. Bárbara Costa said, on 26/10/2010 at 6:24 pm

    Adorei a reportagem. Tanto o tema como, claro, a reportagem em si.
    Muito bem escrita e interessante. :):)

  2. Victor Limeira said, on 26/10/2010 at 8:02 pm

    Sempre me perguntei sobre isso, será que os seguradores de bandeira votam nos candidatos? Confesso que não votaria, vale a analogia com os “cordeiros” de bloco na Bahia, a diferença é não pode pular! (risos)

    Excelente pauta, muito interessante a abordagem e a maneira como esta foi conduzida, Liliane realmente gosta de jornalismo literário e leva muito jeito.

    Eu compraria seu jornal =D

  3. Cristina said, on 28/10/2010 at 12:22 pm

    Muito boa a matéria! A abordagem foi muto bem feita, não levando em consideração apenas um aspecto da questão e também chamando a atenção para esse tipo de atividade que passa despercebida por observadores menos atentos. Bom trabalho!

  4. Nayara said, on 28/10/2010 at 12:39 pm

    Bem cuidado e arrumado. Deixei “meu filho” em boas mãos.

  5. Mariana Viana said, on 30/11/2010 at 6:00 am

    Ótima matéria,muito bem construida!O tipo de matéria que se tem prazer de ler!Parabéns


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