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Música sergipana para fora de Sergipe

Posted in Cultura, Música by micheletavares on 26/10/2010

Projeto Sergipe Exporta Som visa levar a música sergipana para âmbitos nacionais e internacionais para valorizar o artista local

Por Alanna Molina

A trajetória da música em Sergipe é marcada por fases de constantes desafios e superações. As dificuldades encontradas pelos profissionais da música no estado percorreram décadas na tentativa de encontrar meios de visibilidade para os artistas locais. É com essa intenção de difundir a produção local que a Fundação Aperipê (Fundap) em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura (Secult) e a Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Esportes (Funcaju), com o apoio do Sebrae-SE, lançam o projeto ‘Sergipe Exporta Som’. “O projeto visa possibilitar contatos do mercado internacional da música junto aos músicos sergipanos, e envolve uma série de ações que possibilita a profissionalização, a divulgação e comercialização das músicas produzidas pelos artistas sergipanos no mercado internacional”, comenta o diretor de marketing da Fundap, Aldenir Resende. Porém, essa tentativa de alavancar a música sergipana e fortalecer os artistas locais não é recente.

Desde a década de 80, Sergipe tenta acompanhar movimentos nacionais que valorizavam a música popular brasileira, inspirando-se em grande festivais nacionais de música e realizando alguns encontros culturais no estado. Destaca-se nesse período o Encontro Cultural de Graccho Cardoso, que em sua edição de 1998, aboliu qualquer tipo de música massiva como o axé ou o pagode. Também projetos como o Prata da Casa e o Projeto Seis e Meia, promovidos pela Secretaria de Estado da Cultura incentivaram o trabalho de muitos artistas.

Apesar disso, muitos ainda tentam gravar o primeiro disco, buscando uma vaga na lista da Lei de Incentivo à Cultura. No entanto, para tristeza dos artistas, a década de 1990 trouxe consigo a pasteurização da música. Se os artistas sergipanos já encontravam dificuldades de gravar e divulgar seu trabalho, a partir dos anos 90 ficou ainda mais difícil. O aparecimento da Axé-music começa a tomar lugar no gosto popular estimulado pela mídia. Depois, com a prévia carnavalesca inspirada na axé-music baiana – em resumo o Pré-Caju e o Forró eletrônico – o processo de gravação da música popular sergipana foi totalmente interrompido. “Existe um comércio travado, que ocorreu com uma questão história de desmantelamento do mercado local. Quando começou a onda das micaretas surgiram estruturas montadas pelo Brasil inteiro que fizeram com que a música baiana tivesse espaço durante o ano todo, e tomou o espaço das produções locais de outros estados, que não a Bahia. Foi uma estratégia de mercado interessante para quem produziu isso, mas esfacelou o resto do mercado nas outras localidades”, analisa o diretor da Aperipê FM, Edézio Aragão.

Dessa forma, muitos dos artistas de referência da música local tiveram que buscar outras formas de divulgação de seus trabalhos participando de festivais em outras partes do Brasil, como o de Campos do Jordão ou Maringá, ou tentando divulgar seus trabalhos nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Por outro lado, outros gêneros musicais são fomentados na década de 1990. O gênero pop-rock em Sergipe desponta com o festival de Rock-SE e a diversidade musical em Sergipe cada vez mais se consolida neste século, apesar da pouca visibilidade. Diversos grupos em diferentes estilos gravam por meio de selos independentes. A música contemporânea sergipana começa a ser carregada de sons diversos, misturando ritmos folclóricos sergipanos e nordestinos com rock, reggae e música eletrônica.

Cantor e compositor Igor Mangueira vê no Projeto Sergipe Exporta Som um incentivo à representação da música local (foto retirada do http://www.myspace.com/igormangueira/blog)

O Projeto Sergipe Exporta Som enfrenta toda essa bagagem histórica de fragmentação da cultura sergipana e tenta lançar os profissionais da área no mercado fonográfico, para que haja então uma valorização do artista local, pois ele tem qualidade suficiente para adentrar em outros cenários que não só o restritamente local. “Essa é mais uma tentativa de encontrar o espaço de Sergipe no cenário brasileiro e até mesmo mundial. Até então nosso estado importa mais música do que exporta. Por que isso acontece? É justamente para responder essa pergunta que projetos como esse são desenvolvidos. Por enquanto temos uma representação pequena. Mas vejo esse projeto como uma semente que pode germinar e, quem sabe, no futuro, dar frutos”, afirma o cantor e compositor Igor Mangueira, que participa do projeto.

A primeira fase do projeto ocorreu com oficinas, no período de 24 a 26 de setembro, que visaram uma troca de experiências, em que os ministrantes das oficinas – dentre eles o produtor pernambucano Paulo André e o coordenador artístico Patrick Tor 4 – falaram um pouco sobre a vivência e experiência que possuem, do tipo de produção que eles fazem e como é a relação do mercado com essa produção que está saindo do Nordeste. Igor Mangueira acredita que através de oficinas como estas é possível apreender dicas importantes e visualizar alguns caminhos mostrados pelos palestrantes. Segundo ele, para que o estado de Sergipe exporte sua música é necessária uma “tecnologia” mais sofisticada do que a que existe aqui atualmente.

Diretor da Aperipê FM, Edézio Aragão, pensa que a pouca valorização do artista local é decorrente do desconhecimento por parte dos sergipanos (foto retirada do http://aperipe.swapi.uni5.net/noticias/aperipe-fm/04/2033/aperipe-fm-1049-ganha-novo-diretor/)

A segunda fase do projeto ocorrerá em dezembro, juntamente com o aniversário da Rádio Aperipê, que consistirá na exportação das produções dos profissionais da música. Serão montadas duas coletâneas, uma de âmbito nacional e internacional, que dentre outros lugares vai ser levado para Dinamarca e para Feira Brasil que ocorrerá em dezembro, e outra que é um Box que será lançado no aniversário da Rádio para distribuir para as rádios do Brasil e do exterior, valorizando a produção local e fazendo com que ela saia de um nincho restrito e vá para outros ninchos de mercado.

“O sergipano não conhece direito a música sergipana, existe certo preconceito decorrente do desconhecimento”, afirma o diretor da Aperipê FM, Edézio Aragão, que também é músico. Não há como não concordar com essa afirmação, haja vista todos esses projetos no decorrer de décadas que visam à mesma finalidade: valorizar e dar visibilidade para o artista local. Um fato difícil de acreditar é o de que alguns artistas locais possuam muito mais receptividade em localidades fora do seu estado. Esse é mais um desafio que a música sergipana tem pela frente, e o projeto Sergipe Exporta Som surge como mais uma tentativa de incentivo para esses artistas.

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