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Uma juventude em guerra

Posted in Esporte by micheletavares on 26/10/2010

A violência das Torcidas Organizadas em Sergipe vai além dos estádios de futebol.

Por Illton Bispo

Armamentos utilizados por alguns membros da Torcida Esquadrão Colorado (TEC)

De todos os esportes praticados no Brasil, nenhum deles chama tanta a atenção como o futebol. O brasileiro é realmente apaixonado por futebol, tanta paixão que se traduz em um verdadeiro espetáculo. Proporcionado pelas torcidas, que entoam gritos de amor que embalam os duelos entre as equipes, dentro dos estádios de futebol.

As Torcidas Organizadas (TO) surgiram em Sergipe, no início da década de 1990, com as rivalidades entre as torcidas Trovão Azul (TTA) e Gigante Rubro. Também nesse período surge a Torcida Jovem do Confiança, oriunda das divergências dos próprios integrantes da Trovão Azul, e posteriormente a Torcida Esquadrão Colorado (TEC). O que era uma atividade de confraternização, de entretenimento, de união foi ferida em seus ideais de lazer pela criação das Torcidas Organizadas, sofrendo séria deterioração, circunstância que a violência e a prática frequente de atos ilícitos passaram a predominar, sempre sob o forte estímulo da certeza da impunidade.

“Atos de violência sempre fizeram parte das competições de futebol. O fato é que com surgimento das TOs em Sergipe a violência se multiplicou e ganhou outras proporções”, afirmou o Promotor do Ministério Publico Estadual (MPE), Deijaniro Jonas. Segundo ele, parte dos integrantes que compõem as TOs é proveniente de um ambiente menos privilegiado da sociedade. “Eles convivem em um meio de banalização da violência altamente materialista e competitiva, e onde a maioria dos seus integrantes são adolescentes em pleno desenvolvimento moral e emocional acabam encontrando outros motivos para afiliação a tais facções”, afirma o promotor.

As guerras entre TOs não ocorrem somente em Sergipe mas sim em todos os estados constituindo assim uma problemática nacional. Surgindo assim, uma espécie de associação entre facções, na qual sua forma de implementação é como uma aglutinação para o crime. De acordo com um levantamento feito pelo MPE, a maioria dos jovens que integram a essas facções, encontra-se na faixa de 15 e 25 anos de idade, tratam-se de pessoas que buscam afirmação social e que são facilmente influenciáveis pelos líderes que lhes cobram ousadia e destemor.

 

 “A violência nos estádios é reflexo da sociedade e não se deve reduzir o fenômeno da violência de modo simplista. Ele é complexo e multifacetado” afirma o sociólogo e especialista Bernardo Borges Buarque de Hollanda que é bacharel e licenciado  em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e autor de vários livros sobre  futebol e torcidas organizadas. Para ele, há uma conexão direta entre os fenômenos sociais e o comportamento grupal dos torcedores nos estádios.


Camiseta da TTA, recolhida pelos integrantes da TEC.

 

Segundo o especialista, os jovens produzem e refletem aquilo que a sociedade está produzindo como a violência. “Há várias teorias pós-modernas que associam a violência e o consumo desenfreado ao hedonismo. O filósofo francês Lipovetksi fala em ‘era do vazio’, enquanto Michel Mafesoli se refere às ‘tribos urbanas’. Neste sentido, o futebol tem um apelo midiático de visibilidade para o jovem que buscar expressar sua frustração ou chamar a atenção através de atitudes violentas. Ao revelar o avesso da moral e dos valores civilizados, busca mostrar sua insatisfação com a sociedade contemporânea tal qual ela é”, relata Buarque.

De acordo com um dos subcomandantes da Torcida Esquadrão Colorado (TEC), que não quis se identificar, as torcidas migraram dos estádios para as diversas regiões da cidade, sobretudo na periferia e utilizam as escolas como quartel-general e os alunos como fiéis escudeiros. “As facções são uma espécie de organização que faz uso de planejamento, simbologias e várias formas de comunicação,” diz  relatando que as Torcidas Organizadas têm vários comandos e sua principal função é impor ordem e demarcar territórios mesmo que para isso, tenham que travar uma guerra urbana.

Ele ressalta que a violência de fato macha a cara das Torcidas Organizadas e que isso prejudica seus clubes. “A violência é algo assustador e que por conta dela estamos proibidos de ir aos estádios de futebol, digo as TO, mas vale lembrar que nem todas integrantes são violentos, ou fazem uso da violência”, disse ele.

Desde 2004, o Ministério Público do Estado de Sergipe, juntamente com outras instituições, como a Secretaria de Segurança Pública do Estado, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e a Secretaria de Esporte e Lazer, vêm promovendo diversas ações no sentido de controlar os atos de violência que vinham ocorrendo nas praças de esportes ou decorrente de atividades esportivas.

Sobre a proibição das TOs nos estádios de futebol o promotor Deijaniro Jonas diz que não há proibição e nunca houve. “Qualquer pessoa que desejar ir ao estádio de futebol tem pleno e livre acesso, seja ela de TO ou não, o que não pode é comparecer ao estádio portando camisetas ou qualquer objeto que o identifique como de TO, pois tais objetos são algo fomentador de violência”. Ele também declara: “O fato de eu não conhecer o meu oponente, mais saber que ele está trajando uma camiseta de Torcida Organizada, isso já faz dele meu oponente”.

Um levantamento realizado pela Polícia Militar mostrou que a medida proposta na ação liminar, já obteve uma redução de 85% dos crimes. Sergipe já chegou a registrar mais 12 homicídios. O último ocorrido no dia 02 de março no ano passado, quando os aficionados da Associação Desportiva Confiança Trovão Azul e Torcida Jovem, se digladiaram entre si.

Segundo o psicólogo do Centro de Referência da Assistência Social (CRAS), Reginaldo Vieira Júnior, não é próprio do homem agregar-se para denegrir, humilhar, violentar a outros. “O ser humano pode unir-se a outros para a luta, para a guerra quando ameaçados e em favor de interesses exclusivos de grupos. É o que talvez aconteça com algumas facções de torcedores que se utilizam de atos violentos para tentar demonstrar superioridade frente ao desafio, à derrota. Aproveitam-se da força que o grupo tem para extravasar a agressividade”. Para ele, nem toda pessoa que faz parte de uma torcida quando está junto com os outros do mesmo agrupamento age violentamente. “Tudo isso advém de fatores individuais, culturais, sociais dentre tantos outros”, diz o psicólogo.

“Vivemos numa sociedade na qual se estimula à competição, a concorrência, a soberania de uns sobre outros. Quem ganha quer se colocar como superior a todo custo e quem perde não quer aceitar a derrota como parte integrante da vida, até por que somos treinados pra ser os melhores. Isso quer ressaltar que quando nos deparamos com qualquer que seja a forma de violência, não podemos isolá-la do contexto no qual acontece e não podemos responsabilizar um indivíduo como único responsável”, afirma ele.

As torcidas se utilizam de linguagens verbais e corporais que só membros, ou simpatizantes podem compreender.

A maioria dos jovens vinculados a essas entidades são movidos por instintos primitivos, e valendo-se da garantia do anonimato e da certeza da impunidade, extravasam desejos reprimidos e selvagens de violência. Mas a punição para os maus torcedores está prevista no novo Estatuto do Torcedor, que foi sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Prever que os torcedores que invadirem o campo, promoverem ou cometerem ato de vandalismo ou violência em um raio de cinco km dos estádios, ou promoverem confusão podem pagar multa, serem proibidos de assistir aos jogos e até serem presos. O novo Estatuto, também estabelece um cadastro dos associados e membros das torcidas organizadas. Em caso de algum dos membros da organizada cometer alguma infração, serão as entidades que responderão pelos danos. Além disso, a torcida organizada que cometer tumulto será impedida de comparecer aos jogos pelo prazo de até três anos.

O Promotor Deijaniro Jonas revela que existem seguimentos políticos envolvidos na questão das TO. “Existem determinados empresários que ao mesmo tempo, patrocinam emissoras de rádio, clubes de futebol e Torcidas Organizadas, inclusive fazem pagamentos e lucram com os votos dessas pessoas”. Ele também revela que algumas diretorias de clubes promovem e patrocinam o ingresso dessas pessoas nas praças esportivas, ou seja, são torcedores diferenciados que não pagam para terem acesso aos estádios de futebol. Segundo o depoimento de um ex integrante da (TTA),disse que  para Trovão Azul  são 100 ingressos  e para Torcida Jovem 30. Então será que é essa a forma de incrementar o futebol e que de fato o futebol sergipano cresça? “Eu creio que o   caminho não é esse”, finaliza o promotor.

Imagens: Ministério Público Estadual

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25 Respostas

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  1. cristiano said, on 27/10/2010 at 2:59 am

    Parabéns ao repórter que escreveu esta matéria, está perfeita e realmente está a retratar a ralidade das troidas e do futebol sergipano e brasileiro.

  2. Ilma said, on 28/10/2010 at 1:05 pm

    Parabéns!!! A matéria Esta excelente.

  3. Gevanildo said, on 28/10/2010 at 6:22 pm

    Parabéns, a reportagem é coerente e diz a realidade não só dos clubes sergipanos, mas a de todo o Brasil, país do futebol por execelencia. Precisamos fazer de nossos estádios lugares de paz e não de conflitos geradores de guerra.

  4. Wallter said, on 29/10/2010 at 7:39 pm

    Nossa que ferra.Gostei muito do texto,vc escreve muito bem.Parabéns pela reportagem.

  5. Luciane said, on 29/10/2010 at 8:03 pm

    Você vai longe rapaz, meus parabéns, realmente a reportagem esta muito boa. Você abordou todos os aspectos dessa realidade, que é a violência entre torcidas organizadas.

  6. Reinaldo said, on 29/10/2010 at 8:05 pm

    Nossa que ferra. Gostei muito do texto, vc escreve muito bem. Parabéns pela reportagem

  7. Adriana said, on 29/10/2010 at 8:07 pm

    Parabéns pela reportagem, gostei muito!Você vai ter um grande futuro promissor.

  8. Josué Silva said, on 30/10/2010 at 2:58 am

    É no mínimo lamentável essa situação do nosso futebol. Mais parabéns, pela matéria!Você escreve muito bem, gostei muito do texto.

  9. Anderson Barbosa said, on 31/10/2010 at 5:29 am

    Boa apuração… boas fontes… bom texto… Sem dúvidas você está no caminho certo. Força, coragem e fé….

  10. Antônio Moura said, on 02/11/2010 at 5:44 am

    Muito bom o texto, parabéns pela matéria!!

  11. Anna Célia said, on 02/11/2010 at 5:47 am

    Muito boa à reportagem, digamos que foi um bom começo.

  12. Rodrigo Novás said, on 02/11/2010 at 7:05 am

    A matéria está muito clara e muito objetiva. Você fez uma apuração excelente dos fatos.Confesso que não sabia que os torcedores da Torcida do Confiaça,eram diferenciados dos outros.

  13. Amanda Silva said, on 02/11/2010 at 4:36 pm

    Nossa como você escreve bem amigo, meus parabéns, continua assim.Abraço

    • Jenisson said, on 02/11/2010 at 5:32 pm

      Excelente!!! Essa é sua é área mesmo. Sucesso cara você escreve muito bem , e meus parabéns. AbraçO amigãoO!

  14. Omar Ribeiro said, on 02/11/2010 at 4:48 pm

    Ta muito bom o texto e as fotos também. Parabéns pela reportagem.Olha se continuar assim, vai para na Record,ou Globo que sabe.rsrsrsr

  15. Parabéns meu brother !!! ta muito massa sua reportagem , espero que daqui pra frente vc vá fazendo mais matérias dessas !!!

  16. Angelica said, on 02/11/2010 at 6:40 pm

    Realmente vc abordou um tema ótimo para esclarecer mais para a sociedade.Parabéns que vc continue assim,um dia estara na Globo ou Record.Bjs Ilton que saudade.

  17. Sabrina said, on 02/11/2010 at 7:09 pm

    Parabéns pela matéria !!!!
    Continue com os seus objetivos, pois, a cada dia aprendemos sempre um pouco e claro crescemos!!!
    Bjs…

  18. Greice said, on 02/11/2010 at 7:35 pm

    A materia está muito interessante e retrata um assunto muito polêmica desse país!! Parabéns! Vc escolheu o campo certo!! Sucesso Ilton pq vc vai longe garoto…!!!

  19. Leonora said, on 02/11/2010 at 8:07 pm

    Otima reportagem amigo,parabéns

  20. Bárbara said, on 03/11/2010 at 2:30 pm

    Parabéns!! Sua matéria está ótima texto claro não há muitas palavras dificies de se lê parabéns ao repórter Illton

  21. Flávio said, on 04/11/2010 at 3:58 pm

    Ilton,

    parabéns pela texto, principalmente no que diz respeito ao conteúdo, afinal vc retratou algo que é um problema da nossa sociedade. Sua matéria não é banalidade, ela tem função social!

  22. Rodrigo said, on 06/11/2010 at 5:03 pm

    Muito boa, mostra não só o que acontece dentro dos estádios, mostra também os bastidores de toda essa guerra e o que leva os jovens a fazer isso… reportagem de jornal!

  23. Philipe Binderli said, on 07/11/2010 at 6:12 pm

    Show Ilton, mt bom continui sempre assim ki vc vai chegar longe, abraços.

  24. […] the original here: @susanevidal https://empautaufs.wordpress.com/2010/10/26/uma-juventude-em-guerra/ meu amigo da UFS pe… This entry was posted in Twitter, WordPress and tagged meu-amigo, pediu-pra, twitter, ufs, […]


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