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Caminho das águas

Posted in Esporte, Reflexão by micheletavares on 07/12/2010

Presidente da Federação Aquática de Sergipe (FASE), o Dr. Márcio Porto fala sobre o atual lugar do pólo aquático em Sergipe e no Brasil.

Por Edson Costa

Onde está o pólo aquático? Nesse mês a TV Sergipe realiza uma competição estadual de natação, mas ela e outras mídias muito pouco falam sobre as outras modalidades aquáticas. A ignorância não paira somente sobre os aspectos administrativos e/ou político-econômico do esporte, mas sobre sua própria essência. Não são conhecidos os clubes e nem seus atletas, e até mesmo muitas competições passam despercebidas. E em contraponto a isso, vê-se conquistas expressivas e grandes nomes que vieram da prática do pólo aquático. A profundidade do debate extrapola a de qualquer piscina, pois se chega a crer que o fascínio demasiado pelo futebol estaria cegando aos brasileiros e a mídia. A grande maioria poderá pensar, e perceber que nada sabe sobre o pólo aquático.

Dr. Márcio Porto (Foto: Edson Costa)

Muito além de meras competições e títulos, pensar na exposição de modalidades esportivas, sem necessariamente privilegiar o pólo aquático, pode ser o caminho para fortalecer a educação, e até mesmo repensar o modo de se fazer entretenimento e comunicação nesse país. Flertando com temáticas tão amplas e diversas, percebe-se a plena capacidade do entrevistado em discorrer sobre todas elas. O Dr. Márcio Valença Porto é o atual presidente da Federação Aquática de Sergipe (FASE); é também membro da diretoria de desportos aquáticos da região Norte-Nordeste pela Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA). É advogado, e foi em seu escritório que se realizou a entrevista. Ele também já foi profissional de Ed. Física, e passou muitos anos lidando com educação. Casado, pai de dois filhos considera-se um esportista apaixonado, e frustrado por não poder ajudar a todas as modalidades, e dá as respostas com um tom equivalente.

 

 

Em muitos aspectos o polo aquático tem semelhanças com o futebol, que é consagrado como o esporte mais popular do Brasil. Mas, em sua opinião, por que ele é tão pouco popular?
A dificuldade para o polo aquático é o meio praticado, que é na piscina. É bom para o brasileiro, pois ele gosta quando vê uma bola, mas o polo aquático, principalmente aqui na nossa região, é muito escolar; por sua vez, as escolas não possuem uma piscina adequada para isso: ela deve ter 30 metros de comprimento, por 15 de largura, deve ter uma profundidade mínima de dois metros. Essa é a maior questão. Porém, é uma modalidade muito bela e interessante, e quem começa não quer deixar jamais.

Tendo muitas semelhanças com o futebol, o polo aquático possui tempos mais curtos, com jogadas mais rápidas. Valoriza-se a força, a “explosão”, a resistência. Não muito espaço para dribles e jogadas elaboradas. Seria correto afirmar que não existe “polo aquático arte”?
Discordo. Existe sim arte no polo aquático. O atleta, como comumente é dito, tem que pensar três segundos antes de cada decisão, três segundos antes de seu adversário. Temos várias partidas com jogadas belíssimas, e grandes jogadores individuais. A nível de Sergipe temos Sandro Bruno, que é um atleta que faz maravilhas; já é da turma do Máster, e é um dos maiores. Mas também estão surgindo revelações, como Hugo Camilo… São atletas que possuem a capacidade de criar de imediato. Quando o polo aquático é bem jogado, ele é um esporte-arte.

O polo aquático é considerado um esporte completo: desenvolve e modela a musculatura; fortalece a respiração; desenvolve os reflexos e a coordenação motora. Médicos e profissionais de Ed. Física costumam recomendá-lo?
Não vejo nenhum médico recomendar esportes, sem nenhuma ofensa aos profissionais de saúde. Hoje em dia pensa-se que esporte é academia, e não é. A base do polo aquático é a natação, e isso eu sei que todo médico recomenda. Com ela você trabalha os músculos, a respiração, todo o desenvolvimento corpóreo, e a partir daí você pode ir para a modalidade que sentir vontade. Não vejo, por exemplo, nenhum médico indicar o vôlei, mas é uma modalidade que oferece grande desenvolvimento. Igualmente o futsal, que é uma modalidade inerente a todo o povo brasileiro, está no nosso sangue. Mesmo quem não pratica, gosta. Questionando-se alguém nas ruas sobre qual time torce, podem responder: “eu sou Flamengo; eu sou Fluminense; eu sou Coríntias”, mas muitos não sabem que esses clubes possuem esportes amadores, como o polo aquático! A nível de desenvolvimento a natação, e o polo como acompanhamento.

Ultimamente a natação tem atingido grandes resultados, inclusive a nível internacional. Por consequência tem sido cada vez mais procurada e divulgada. Ambos os esportes correspondendo a mesma confederação, que é a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), por que tanta diferença entre eles?
Na verdade é muito mais fácil colocar a criança na natação. Aliás, temos tantas leis que obrigam coisas bobas, deveríamos ter uma que tornasse a natação obrigatória. Não para que todos sejam atletas, mas para que possam praticar uma atividade que desenvolva sua musculatura, e até o companheirismo. O Brasil é um país litoral, temos praias e piscinas o tempo inteiro, então é importante que as crianças saibam nadar, para se deslocar e evitar afogamentos. A maior divulgação é função disso: todos praticam natação! Mas o polo aquático é um esporte coletivo, pelo menos mais duas ou três pessoas são necessárias. Enquanto que a natação pode ser praticada sem mais ninguém. Porém há um crescimento no Brasil; em Sergipe, estamos fazendo um trabalho visando um maior englobamento das escolas.

O atleta de polo aquático além de exímio nadador, precisa ser forte, ágil, habilidoso, saber mover-se da forma correta dentro da água. É difícil achar um bom atleta? Seria mais um motivo pela baixa procura?
Eu vejo no seguinte sentido: o polo aquático é como o futebol; milhões de brasileiros praticam, mas surgem apenas poucos craques. É fácil relembrar os jogadores de futebol bons de bola, mas muitos outros jogaram naquela época e são esquecidos. No polo aquático é a mesma coisa. Como foi bem colocado, o atleta precisa ser habilidoso, mas acima de tudo, inteligente. Exige-se criatividade, até porque ele não tem espaço de locomoção para criar. Com tempo e espaço curtos, e a pressão do adversário, ele precisa criar algo bonito.

O polo aquático surgiu na Inglaterra no final do séc. XIX. A primeira competição internacional foi no Brasil, na Baia de Guanabara, Rio de Janeiro, em 1919. Ganhamos da Argentina! Aparentemente tinha tudo para dar certo. Então, o que deu errado?
Não acho que se perdeu o interesse. A primeira equipe coletiva do Brasil numa Olimpíada foi de polo aquático, e um dos integrantes da nossa equipe foi presidente da FIFA por muitos anos, o Dr. João Havelange. Aqui no Nordeste nós temos uma excelente característica: sol e calor 365 dias por ano. Mas no centro-sul, incluindo o eixo Rio-São Paulo, quando vem o frio, fica difícil praticar um esporte na água. O polo aquático tem quatro tempos de oito minutos cada, e se para a cada apito do árbitro. Uma partida dura entre uma hora e uma hora e meia. Treinar diariamente por até cinco horas numa piscina gelada dificulta um pouco. Mas eu faço uma crítica mesmo sendo o presidente da FASE e membro da CBDA na diretoria de desportos aquáticos na região Norte-Nordeste: o polo aquático concentrou-se muito no eixo Rio-São Paulo. Claro que São Paulo é celeiro de grandes atletas em várias modalidades, mas houve essa concentração. O Brasil se preocupou em ser o melhor da América do Sul, mas isso não levou a nada. Temos que pensar em ser o melhor das Américas e o melhor do mundo. E mais uma coisa: o polo aquático no Brasil é amador; na Europa ele é profissional.

O que o governo tem feito ou deixado de fazer pelo polo aquático?
Não tem deixado de fazer. O esporte nunca foi tão respeitado pelo poder público. Mas ainda bem que há dois anos, graças ao secretário de esportes Maurício Pimentel, alguém que não era do meio de esportes, mas abraçou-os com muita paixão, tem sido feitas políticas. Mas nós não queremos políticas de governo, queremos políticas públicas, que venham fazer com que qualquer modalidade esportiva seja desenvolvida dentro do nosso estado. Se Sergipe tiver uma ou duas modalidades esportivas que sejam o carro-chefe, parabéns! Sempre tivemos isso: o handball sergipano já teve nome nacional, prova disso é que o presidente da Confederação Brasileira de Handball é um sergipano, o Prof. Manuel Luiz. Sergipe já teve grandes atletas da seleção brasileira de handball que jogavam aqui. E como está hoje o handball de Sergipe? Vou deixar essa interrogação. Na verdade o governo tem nos ajudado dentro do limite, mas faltam políticas públicas.

Observando-se os times e atletas com maior pontuação no estado de Sergipe, fica confirmado quão o polo aquático é escolar. Como tem sido a atuação da Associação Atlética Universitária (AAU) da Universidade Federal de Sergipe (UFS)?
Infelizmente ela não tem participação nenhuma, nem nunca fomos procurados. Colocamo-nos a disposição para qualquer realização, mas fico até surpreso que ainda exista essa associação. Fico a disposição para ajudar na prática de qualquer modalidade pertinente a ela.

Sem os caminhos: piscina inacabada da UFS (Foto: Edson Costa)

Quais os parceiros mais importantes que a FASE tem? Quem realmente está apoiando os desportos aquáticos?
O governo do Estado a partir da secretaria de cultura, esporte e lazer. Somente. Infelizmente no estado de Sergipe os empresários não acreditam e não confiam no esporte, mas talvez também por uma falta de políticas públicas de incentivo por parte do Estado e dos Municípios. Hoje nós temos a Norcon, que até que está fazendo um trabalho bem feito, como foi feito com a Mariana Dantas. Mas nenhuma empresa e/ou instituição tem apoiado a FASE. Nós fazemos na coragem, na força, correndo de um para outro, pedindo apoio para nossos atletas.

Dentre os esportes aquáticos coordenados pela CBDA e pela FASE (natação, polo aquático, maratona aquática, salto ornamental e nado sincronizado), o polo aquático aparenta ser o mais caro, o que exige maiores gastos. Isso procede?
Comparando a natação e a maratona aquática com o polo aquático, sim. Com a natação, fica mais fácil de deslocar-se nesse país continental com uma equipe de um ou dois, mas seus treinadores. Já no polo aquático viaja-se pelo menos com 14 pessoas: 13 atletas e um treinador. Realmente, o dispêndio é maior. Agora, em relação aos saltos ornamentais, que necessita de toda uma estrutura correta, ao nado sincronizado que é uma das coisas mais belas que existem… O polo aquático não é mais nem menos dispendioso. Mas em relação a natação e a maratona aquática, procede.

No ano 2000, o colégio que fazia parte da trama da novela Malhação, da Rede Globo, possuía um time de polo aquático. Isso comprovadamente aumentou o conhecimento e o interesse sobre o esporte. Divulgar modalidades no entretenimento e não apenas em telejornais: qual sua opinião?
Claro! Esse período na novela foi de grande importância. Acho até que de forma meio equivocada, pois mostrava como se fosse um esporte violento. Mas, a aparição do polo aquático na novelinha da Rede Globo deu uma alavancada muito grande. Eu não gosto muito de novelas: as histórias são sempre as mesmas, só mudam os nomes. Desafio qualquer um a sentar diante da tevê e comparar as novelas de hoje com as de anos atrás: é sempre o mesmo enredo. Terá violência, traição, desonestidade… Deveriam buscar mostrar a educação. Vamos mostrar a atividade esportiva não apenas em telejornais. Embora eu seja aracajuano, sergipano, e brasileiro louco (!), não me considero “noveleiro”… Mas o povo do Brasil é! Vamos por coisas boas no entretenimento; a Rede Globo às vezes faz especiais com atletas praticando modalidades a que não estão acostumados: isso é fantástico! Vamos mostrar não só o polo aquático, mas todas as modalidades.

Como é pensada e articulada a comunicação da FASE? Pensa-se de forma igualitária para todos os esportes, ou os que são mais pautados pela mídia são mais bem assessorados?
Não tenho vergonha de dizer isso: na FASE quem exerce a função de Assessor de comunicação é o presidente. Infelizmente nossas entidades não tem condição de ter uma assessoria de comunicação feita com profissionalismo, e isso que é interessante. Toda Federação e toda entidade deveria ter um departamento de comunicação, para fazer os contatos. Mas nós trabalhamos através de nosso site, através de releases que enviamos para as emissoras de televisão e jornais divulgando nossa atuação. Nós não temos escolhas. Informamos de forma igual sobre todos os esportes. Aparece muito mais a natação porque temos muito mais eventos de natação

Os noticiários de esporte por vezes se retêm muito no futebol e abrem pouquíssimo espaço para outros esportes. Falar apenas de futebol, mesmo sendo o mais popular, é prejudicial?
Prejudica no seguinte sentido: Futebol a agente não discute! É paixão nacional. Nós vamos discutir todas as outras modalidades. Hoje se diz que a natação é o maior esporte desse país, brigando com o vôlei, porque o futebol está acima de todos eles. Mas infelizmente a nossa imprensa não tem comentaristas de futebol que saibam sobre outras modalidades esportivas. E minha crítica é grande: acho que eles sabem muito pouco inclusive de futebol! Sabem criticar pessoas, personalizam e não falam das modalidades. Sou torcedor apaixonado pelo Sergipe, mas onde está o nosso futebol? Temos grandes atletas de outras modalidades, mas cadê o espaço para essas pessoas? Infelizmente não há, pois se perde tempo falando de um futebol como está o nosso.

Hoje quem quer praticar polo aquático precisa fazer o que?
Procurar seu colégio. Procurar a direção de sua escola, a coordenação de esportes, para que inclua essa modalidade em seu currículo. Nós temos muitos profissionais bons em Sergipe que estão parados porque as escolas não tem interesse em desenvolver o polo aquático. Hoje temos um grande destaque que é o colégio Don Luciano. Da rede pública! Nele o professor George Maynard procura de forma maravilhosa desenvolver o trabalho. Tem suas dificuldades, mas a FASE tem buscado dar condições a ele. Conseguimos, junto ao secretário de esportes, o parque aquático Zé Peixe, de segunda a sexta, a partir das 18 horas, colocado a disposição do polo aquático. A FASE disponibilizou mais de 30 bolas, as traves e os gols no Batistão para todos que queiram praticar o polo aquático.

Para os que virão: o que tens a dizer para os que lutam pelo polo aquático e os que pretendem adentrar no esporte?
Que todos venham para junto da FASE. Nosso polo aquático é muito pequeno, e se for dividido por que é Marcio Porto o presidente da federação perder-se-á. Se existe alguém com questões pessoais sobre mim que deixe do lado de fora e venha. Todos que acham belo e tem interesse pelo polo aquático venham para a federação. Eu nunca decido sozinho: quando se erra, erram todos; e quando se acerta, acertam todos!

Uma resposta

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  1. Jorge Maynart said, on 20/12/2010 at 11:24 pm

    Marcio Porto é uma pessoa de grande valor e o maior incentivador do Polo Aquático Sergipano, parabéns por seu trabalho e dedicação na FASE(Federação Aquática de Sergipe)
    Feliz e abençoado 2011 são os votos da equipe de Polo Aquático do colégio Dom Luciano!!


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