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O homem quase invisível

Posted in Cidade by micheletavares on 07/12/2010

Morador de rua fala sobre o medo, a fome e a violência nas ruas

Por: Liliane Nascimento

 

Com um olhar parado do vazio e uma voz que parecia estranha aos seus próprios ouvidos, o senhor Agemiro falava da própria idade, que desconhecia, e do rosto de seus familiares, que já não lhe diziam nada. Junto das sobras que são os seus pertences, das roupas aos trapos e dos pés tornados grosseiros pela caminhada, seu Agemiro desfila o seu maior alívio, assim como Brás Cubas, ele “Não teve filhos, não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Morador de rua no Centro de Aracaju (Foto: Liliane Nascimento)

Este homem, certamente, não leu ou analisou a obra de Machado de Assis, todavia, compreendeu esse fragmento com a pureza dos que vivem a literatura.

O drama dos moradores normalmente é conduzido por especialistas que além de falarem da desigualdade social apontam soluções estratégicas para minimizar o problema. Poucas vezes, entretanto, para compor o quadro das necessidades, medos e expectativas dessas pessoas, elas próprias são ouvidas.

Que situação trouxe o senhor para morar na rua?

Eu sou de Ribeira do Pombal, na Bahia. Vim pra Aracaju procurar emprego. Não consegui, nem consegui voltar.

Como foi dormir a primeira noite na rua?

Na primeira noite ninguém dorme. A pessoa fica com medo de tudo. Eu mesmo, na primeira vez que dormi na rua ficava olhando para todo lado bastava um vento que eu achava que era alguém querendo me pegar. Passei assim muito tempo, sempre assustado. Só dormia quando o cansaço derrubava.

O Senhor ainda tem medo?

Medo sempre tem, não como antes que não conseguia dormir. Hoje eu durmo, mas medo tem porque não é como estar na casa da pessoa com a porta trancada. Mas agora o que tiver que acontecer acontece.

Como o senhor consegue comida?

Eu peço às pessoas. Comida é mais fácil receber do que dinheiro porque as pessoas sempre pensam que o dinheiro é pra comprar bebida e droga. Aí por causa de uns, outros ficam sem comer. Mas não é muito fácil receber comida também, tem que pedir nas casas, pedir para as pessoas que vão passando na rua e as vezes não consigo nada.

Como são esses dias em que o senhor não consegue nada para comer?

É muito ruim, mas não tem nada pra fazer, é comer o resto do outro dia, procurar alguma coisa no lixo, porque as pessoas jogam muita coisa boa, ou dormir com fome e esperar o outro dia.

É comum passar fome?

Mais ou menos. Porque eu guardo, então sempre tem alguma coisinha que não dá pra encher a barriga, mas alivia a fome.

O senhor já sofreu algum tipo de violência na rua?

Onde eu ficava antes, que era lá pelo Centro, já me bateram, queimaram com cigarro, já me roubaram também, mesmo eu não tendo nada e até já levaram o papelão, que fica por cima de mim quando eu durmo. Aí eu acho que é só ruindade mesmo, porque pra quê alguém quer um papelão velho?

Quem foram essas pessoas que bateram no senhor ou que tiraram suas coisas?

Quando acontecia eu não olhava não, porque eu tinha medo de ser pior, mas uma vez eu olhei quando a pessoa tava indo embora, era um rapaz novo, mas acho que tava drogado ou então era doido.

O senhor já viu alguém usando droga ou se prostituindo na rua a noite?

Isso aí qualquer um vê, não precisa dormir na rua não. É só anoitecer que enche de prostituta e de gente se drogando.

E as pessoas que se drogam são só homens?

Não. A maioria são homens, mas tem mulheres e crianças.

Como é a relação com outros moradores de rua?

É como com qualquer pessoa, a gente não é diferente porque mora na rua. Tem amigo e tem inimigo.

Mas é mais seguro estar perto de outros moradores? Ou é melhor andar sozinho como o senhor?

Morador de rua dormindo em ponto de ônibus (Foto: Liliane Nascimento)

Quando tem muita gente ninguém mexe, a pessoa chega e dorme onde quer. O pessoal não mexe com ninguém e ninguém mexe com o pessoal, mas quando tem muita gente junta assim na rua é pra beber e só se junta quem quer beber também. Como eu não bebo aí prefiro ficar sozinho.

Alguém relacionado ao governo, vereadores, gente do prefeito ou do governador já ofereceu ajuda ao senhor?

Não, quem ajuda as vezes é gente da igreja, traz sopa e pão, as vezes trazem até algumas roupas.

O senhor já foi proibido de entrar em algum lugar por ser morador de rua?

Já. Se um morador de rua chega na frente de uma loja ou de um supermercado, na verdade, qualquer lugar que a gente chega as pessoas já ficam com medo, pensando que a gente vai roubar.

O que o senhor acha que as pessoas pensam do senhor?

Acho que as pessoas têm medo e têm nojo também. As pessoas não queriam que tivesse gente dormindo na rua porque suja e elas acham que atrapalha. Mas ninguém pensa que quem está na rua não está porque quer.

O senhor pensa no futuro? O que o senhor gostaria de poder fazer?

Antes eu queria dinheiro pra voltar pra casa, era meu sonho. Mas agora já passou muito tempo e eu já estou velho. Agora eu só quero viver quieto até morrer.

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