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A Figura Notória e Simbólica Do Policial Militar (PM)

Posted in Comunidade e extensão by micheletavares on 11/12/2010

Policial militar em trabalho (Arquivo PM/SE)

Classe que inúmeras vezes torna-se réu, julgada de maneira arbitrária pelo senso comum e pela a mídia , no entanto  o verdadeiro culpado é outro , ”o sistema”.

Por Edu Santos

A figura do policial militar é extremamente notória na mídia e na sociedade, pois é ele o incumbido para  policiar ostensivamente, sendo assim a ‘matéria-prima’ da segurança pública. Por sua grande exposição, vários julgamentos transitórios são feitos acerca de sua conduta e de suas ações, julgamentos que o levam ao ápice da opinião pública, idealizando-o como o herói do mundo real. E julgamentos adversos, que o sentencia como arbitrário, inconsequente e antiético. As bases norteadoras do senso comum para esses julgamentos são extremamente incoerentes e errôneas, pois são feitas através de recortes da realidade e de ações isoladas. E ainda, esses homens são idealizados como os principais responsáveis acerca dos problemas da segurança pública.

Todavia, por traz das ações policiais há um aporte constitucional, que é o maior responsável por pensar, planejar e discutir as ações de segurança pública em todos os níveis, os poderes executivos, legislativos, judiciários e suas subdivisões hierárquicas. Ao longo das décadas essas instituições sempre priorizaram investimentos no aparato do técnico e armamentista do policial, esquecendo as particularidades humanas do mesmo, que merecem respaldo em demasia, pois são extremamente suscetíveis a problemas e erros.

Em entrevista concedida ao Em Pauta UFS, o comandante da unidade de policiamento comunitário do bairro Pereira Lopo, em Aracaju, o sargento Messias José dos Santos, discorre acerca do cotidiano do policial militar, dos anseios e dos principais problemas enfrentados pela classe.

Em Pauta UFS: O que te motivou a ingressar na polícia militar?

Messias José: Sempre amei a profissão e também fui influenciado pelo meu pai, que na época era policial civil e hoje está aposentado.

Em Pauta UFS: Há quantos anos o senhor exerce a atividade de policial?

M.J: Há exatamente 27 anos.

Em Pauta UFS: Qual a sua função na polícia?

M.J: Eu sou comandante de uma unidade da polícia militar comunitária.

Em Pauta UFS: Qual a sua rotina na polícia?

M.J: Eu trabalho diariamente  meio expediente, mas às vezes faço horas extras.

Fico em uma unidade fixa situada no bairro Pereira Lobo e faço o trabalho de ronda pelo bairro e adjacências. Também distribuímos nosso contato à população, e ainda ,atendemos chamadas do CIOSP e chamadas que vêm direto da sociedade, através de um celular que portamos na viatura.

Em Pauta UFS: Como é o contato da polícia comunitária com o cidadão?  Ele é eficaz?

M.J: Ele é eficaz sim, aproxima o cidadão da polícia, em um sistema de parceria fica muito mais fácil de identificarmos os problemas da população. E também contribui para mudar o pensamento negativo que às vezes a população tem a respeito da polícia.

Diariamente saímos pra fazer as rondas e conversamos com os moradores e damos o nosso telefone para eventualidades.

Em Pauta UFS: Qual a principal ocorrência que a sua guarnição atende?

M.J: As brigas conjugais.

Em Pauta UFS: O senhor considera sua rotina de trabalho cansativa? Tanto psicologicamente quanto fisicamente.

M.J: Sim, é um trabalho cansativo e extremamente estressante.

Em Pauta UFS: O senhor recebe algum tipo de aporte psicológico da corporação quando se encontra nessa situação?

Policiais militares em treinamento. (Arquivo PM/SE)

M.J: Sinceramente, não!

Em Pauta UFS: A formação policial que o senhor recebeu atende às exigências do trabalho?

M.J: Hoje se eu fosse colocar os ensinamentos que aprendi na academia, pro nosso tempo ele é arcaico,mas às vezes a polícia oferece alguns cursos de capacitação e de aperfeiçoamento, para que nós possamos ter outra metodologia de trabalho, para assim assistir melhor a sociedade.

Em Pauta UFS: Quando os policiais cometem erros, isso costuma ter grande repercussão, principalmente se houver vítimas e ainda mais se forem fatais. Há algum tipo de assistência ao polícia que comete erros?

M.J: Não, só arrebentam com a gente porque erramos, apoio psicológico nada, é só pancada!

Em Pauta UFS: Quais as principais reivindicações ou reclamações da sua classe atualmente?

M.J: Queremos o nível superior, também queremos ter nossa carga horária definida e outra coisa que a gente sofre muito ,são as horas extras que muitas vezes fazemos e demoramos muito tempo pra receber. Eu mesmo estou com três meses de horas extras atrasadas.

Em Pauta UFS: Com relação à questão salarial do policial militar. Essa remuneração é justa se compararmos a outras categorias polícias e suas rotinas de trabalho?

M.J: Nós não somos bem remunerados, trabalhamos muito e ganhamos pouco. O governo prega a ideia de que concedeu um super aumento pra gente, mas comparando nosso salário com o do policial civil e do policial federal, há uma defasagem muito grande. O meu pai, por exemplo, é um agente de polícia civil aposentado, nesse mês ele vai tirar oito mil reais. Eu sou um segundo sargento com inúmeros cursos na polícia militar, inclusive, agora estou realizando um curso pra chegar a suboficial e o meu salário só agora vai chegar a quatro mil.

Em Pauta UFS: O simbolismo do policial como o destemido combatente do crime está presente em muitas sociedades e se por um lado ele leva muitos jovens a sonharem com a profissão, por outro, ele pode responsabilizar o policial por toda a segurança pública.  Como o senhor vê esse simbolismo?

M.J: As pessoas às vezes nos julgam como super-heróis e acabam esquecendo que somos simples seres humanos, temos emoções, temos problemas familiares, problemas no próprio local de trabalho,mas mesmo assim precisamos agir rapidamente e com eficácia. Pra você ter uma ideia, se eu estiver à paisana em um ônibus e eu agir, a lei diz que eu agi e estava de folga, e me pune, mas se eu não agir ,eu prevariquei, faltei com meu dever o quanto policial. Então a gente fica num impasse ,mas na maioria das vezes acabamos agindo, está no sangue.

Em Pauta UFS: Como o senhor avalia a situação da segurança pública aqui no estado?  E como suas deficiências atrapalham o trabalho do polícia ?

M.J: O estado de Sergipe é bem pequeno,mas  apresenta um grande número de ocorrências e o efetivo da polícia militar está super defasado, o governo demora muito para abrir concursos públicos na área. No final onde deveriam haver dez policiais em serviço, hoje estão apenas três, isso acaba comprometendo nosso trabalho e consequentemente o cidadão, que sofre com os problemas provocados pela falta de segurança.

Em Pauta UFS – Com relação à abordagem as vítimas e aos criminosos. Como ela é feita?

M.J: Eu sempre me coloco no lugar da vítima e no lugar do criminoso,me coloco no lugar da vitima porque ela está se sentindo impotente  ,porque aconteceu aquilo com ela .E com relação ao criminoso, porque aquela conduta ruim dele é fruto da sociedade, pois foi criado por pais que não tinham estabilidade familiar , e essa  pessoa  acaba seguindo caminhos  tortuosos , apesar disso não justificar diretamente o que ela faz .

Até porque eu sou uma pessoa cristã evangélica e trato as pessoas como eu gostaria de ser tratado, como eu gostaria que um filho meu fosse tratado, se estivesse passando por essas condições.

Em Pauta UFS: Quais são as marcas que a polícia te deixa nesses 27 anos de trabalho?

M.J: A turma que me formei era composta por cerca de 60 homens e hoje só sobraram entre 10 e 15, alguns se suicidaram por motivos que só eles saberiam responder e outros tombaram.

O policial tem que amar o que faz. Hoje o que acontece muito, são aquelas pessoas que buscam a profissão como meio de estabilidade, porém não gostam do que fazem e acabam trabalhando mal humorados e muitas vezes fazendo o serviço de maneira ruim, atendendo mal a sociedade.

Em Pauta UFS: No ano de 2011 acontecerão concursos para os três níveis de polícia aqui no estado, inclusive para polícia militar e muitas pessoas se inscrevem buscando estabilidade, segurança, entre outros fatores. O senhor aconselharia a essas pessoas a buscar essa estabilidade na polícia militar?

M.J: Aconselharia em partes, tem que haver uma determinada identificação dela com a área e ter uma ideia do que vai encontrar aqui e levar menos em conta esse lado financeiro. Mas é bom! .

Em Pauta UFS: Com essa experiência de 27 de trabalho, além de ter plena consciência dos anseios da polícia, das cobranças da sociedade, entre outros problemas. Se o senhor pudesse recomeçar sua vida, ainda seria policial militar?

M.J: Sinceramente eu seria sim, porque apesar de conhecer todas essas dificuldades, eu amo o que faço.

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