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“Eu sou mesmo exagerado”

Posted in Uncategorized by micheletavares on 13/12/2010

Arte: Thaís Guedes

 

A arte longa e a vida breve do poeta de gênio forte, que encantou e marcou para sempre a década de 80

por Thaís Guedes

Cazuza era o poeta da rebeldia, da solidão e do amor. Jovem, doce e às vezes cruel, ele nasceu e foi criado no bairro de Ipanema, Rio de Janeiro no dia 4 de abril de 1958. Registrado como Agenor de Miranda Araújo Neto, desde antes de nascer, seu apelido já havia sido escolhido. Sem pudor e sem meio-termo, seus versos escancaravam o desejo de uma juventude que se libertava de vinte anos de ditadura, transformando-o como um ícone dos anos 80. A música de Cazuza traduz toda a euforia e angústia de uma geração e começou a dar voz aos impulsos de uma mocidade ávida por novidade.

Filho do produtor de discos João Araújo e da costureira Lucinha, Cazuza era um menino de classe média e desde muito cedo chamava a atenção por saber lidar perfeitamente com as palavras. Sempre rodeado de artistas, por conta do trabalho do pai, desenvolveu um gosto musical bastante eclético, indo de Dolores Duran, Dalva de Oliveira à Beattles, Rolling Stones.

Na adolescência, o gênio rebelde do futuro roqueiro se manifestaria. Cazuza terminou o ginásio e o segundo grau a duras penas, e, depois de prestar vestibular para Comunicação, só porque o pai lhe prometera um carro, desistiu do curso em menos de um mês de aula. Já vivia então a boemia e o trinômio sexo, drogas e rock ‘n’ roll. Que ele amasse Jimi Hendrix, Janis Joplin e os Rolling Stones, tudo bem. Mas vir a saber que se drogava e que era bissexual, isso, para a supermãe Lucinha, não foi nada fácil. Assim como não foi, para o pai, ter que livrá-lo de prisões e fichas na polícia, por porte e uso de drogas.

Em 1976 a convite de João Araújo, na época presidente da Som Livre, Cajú, como era chamado por seus amigos mais chegados, começou a trabalhar na empresa como divulgador de artistas, foi aí que conheceu o produtor Ezequiel Neves e construíram uma amizade que permaneceu forte até os últimos dias de sua vida. Entrou para um grupo de teatro e junto com seus colegas ajudou a criar o Circo Voador, espaço para apresentações de música e teatro montado no verão de 1982 no Arpoador, que marcou uma geração de artistas e continua sendo um ícone do Rio de Janeiro.

Aos vinte e três anos, ainda sem saber o que queria da vida , Cazuza conheceu um grupo de adolescentes que estavam a procura de um cantor pra recém-formada banda de rock Barão Vermelho. Foi amor ao primeiro ensaio. “Na primeira música que a gente tocou juntos, a gente sentiu que ele era o vocalista do Barão mesmo. Foi bacana, foi a sensação de que achamos o cara. O cara era o cantor de banda de rock, sacou?”,  diz Maurício Barros, tecladista da banda. Ali surgiu uma das parcerias de maior sucesso da música brasileira e nasceu o Cazuza que ficou conhecido por todo mundo.

Vivendo tudo ao mesmo tempo, Cazuza passou a conviver, sem dar muita importância, com uma febre baixa e constante. Nessa época, ele compôs um grande sucesso, o tema do filme Bete Balanço e assim, o Barão Vermelho finalmente explode e pouco tempo depois pisa no palco do Rock’n Rio, o maior evento musical que já houve no Brasil até então. Devido seu temperamento forte e intempestivo, características fortes de sua personalidade, Cazuza decidiu abandonar a banda em 1985. Seguindo carreiras independentes, Cazuza e Barão vermelho continuaram a fazer sucesso, ele  encontrou um som mais abrangente, onde pode desenvolver suas letras de uma maneira mais livre e poética.

“No dia que a gente foi na gravadora fechar o orçamento do disco, tinha um bar em frente, ele estava no bar, ele e o Ezequiel (produtor da banda). Ele chamou a gente, na hora que estávamos no preparando pra entrar na gravadora e comunicou que estava saindo. Eu não fiquei chateado, eu fiquei puto!”, relembra  Roberto Frejat.

Em abril de 1987, incomodado com as febres constantes que há alguns anos o perseguia e com os rumores de um novo vírus, na época ainda pouco conhecido no Brasil, Cazuza resolveu fazer um novo teste de HIV, apesar de já ter feito anteriormente e ter dado negativo. Dessa vez o resultado foi positivo. Como os médicos não sabiam como tratar a doença, já que essa era praticamente desconhecida no Brasil, prescreviam coisas que hoje sabemos que são absurdas como separar talheres, evitar abraços e beijos, acreditavam que a AIDS era transmitida através do mais simples contato. A condição de ter uma doença que ele sabia que, uma vez infectado, ninguém conseguia sobreviver, colocou-o numa situação de emergência onde ele não podia mais parar de produzir, foi quando começou a fazer as coisas mais bonitas de sua obra, que não é imensa, mas vai deixar uma parte significativa na história.

Depois de mais uma viagem aos Estados Unidos, Cazuza resolveu contar para os amigos mais próximos a verdade. Ele estava com AIDS. Com coragem, paixão e fúria, começou uma nova turnê pelo Brasil para o lançamento do seu terceiro LP solo, Ideologia. No início de 1989, cansado de tanta especulação, decidiu tornar público a sua doença. Ficou internado seis meses nos Estados Unidos, até os médicos constatarem que nada mais poderia ser feito. Ele voltou ao Brasil e tentou ter uma vida normal. Em seu ultimo passeio, pediu para ir ao Mirante do Leblon. Em julho de 1990, Cazuza perdeu a batalha para o vírus HIV. Ele morreu aos 32 anos.

O enterro aconteceu no Rio de Janeiro e centenas de fãs e amigos lotaram o cemitério São João Batista para prestar suas ultimas homenagens.  Sua sepultura está localizada próxima às de Carmen Miranda, Ary Barroso e Clara Nunes, astros que, assim como ele, gravaram para sempre seus nomes na história da música brasileira.

“Desde a época que ele morreu, a presença maior na minha vida é a ausência dele. É uma ausência muito presente, ela é brutal”, desabafa Ezequiel Neves com lágrimas nos olhos ao lembrar a perda do seu maior amigo.

6 Respostas

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  1. Tamylla Andrade said, on 13/12/2010 at 4:43 pm

    Com certeza um dos melhores texto que li falando sobre a vida de Cazuza..
    Em poucas palavras conseguiu expressar e falar de toda a vida desse grande talento que foi Cazuza..
    PARABÉNS🙂

  2. Wesley PC> said, on 14/12/2010 at 6:09 am

    “Ausência muito presente” é uma expressão muito forte. fechaste teu perfil com uma citação chave de ouro! (WPC>)

  3. Graca Leite Averes said, on 14/12/2010 at 10:45 pm

    O texto foi muito bem redigido! Excelente!
    Parabéns!

  4. Tia Cris said, on 15/12/2010 at 7:29 am

    Muito bom Thaís!!!!!!!!!!!!!!!

  5. Daiane Louise said, on 15/12/2010 at 10:02 am

    Muito bem escrito, Thais! parabéns!

  6. Tia Beta said, on 19/12/2010 at 7:33 am

    Adorei o texto, parabéns!!!!


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