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JOSÉ REINALDO DO NASCIMENTO FILHO: UM DESCONHECIDO COMO QUASE QUALQUER OUTRO

Posted in Uncategorized by micheletavares on 13/12/2010

Reinaldo Filho, aos seis anos de idade (foto: arquivo pessoal)

 

 – “Polônio: Entregai-lhe este dinheiro e estas cartas, Reinaldo.

Reinaldo: Assim o farei, meu Senhor.

[…]

Polônio: E deixa-o escolher a música.

Reinaldo: Está bem, meu senhor”

(HAMLET – Ato II – Cena I).

Entre a primeira frase de Reinaldo e a última, mais onze frases são pronunciadas, todas elas começadas ou terminadas pela expressão de submissão “meu senhor”. E esta é toda a participação do personagem Reinaldo na célebre peça teatral “Hamlet” (1602), de William Shakespeare, e, não por simples coincidência, uma das obras literárias favoritas de outro Reinaldo, filho de outro, habitante de Paripiranga, na Bahia.

O Reinaldo leitor da peça e que calhou ser filho de um Reinaldo que nunca chegou a ler as poucas falas do criado Reinaldo na tragédia-mor shakespeareana, tencionava formar-se em História pela Universidade Federal de Sergipe em 2010, mas foi vitimado por uma divergência de idéias com um de seus professores. Terá que adiar em pelo menos dois semestres o seu auto-programado destino enquanto professor na cidade em que seu pai mora. “O resto é silêncio”, como diria o próprio personagem Hamlet, um segundo antes de morrer.

Nascido em 18 de março de 1986, na cidade de Lagarto – SE, José Reinaldo do Nascimento Filho é filho de um agricultor e de uma mulher que ousou desafiar as convenções maternalistas de sua cidade e, na palavra de seu filho, “preferiu colecionar livros a filhos”. E incutiu na mente deste filho em particular, o central dentre cinco, o afã sempre renovado pela leitura dos grandes clássicos da escrita mundial. Mas talvez isto não seja suficiente para torná-lo mais célebre que o criado de Polônio na obra que lhe serve de cotejo nominal.

Seu irmão mais velho é prefeito da cidade onde seu pai mora; sua irmã mais nova escuta música ‘pop’ e é afiliada à Congregação Católica Canção Nova. Seus outros dois irmãos são contabilistas: um deles, já formado, exerce atividades na Controladoria Geral da União; o outro, ainda universitário, é estagiário numa empresa que lhe causa constantes desconfortos morais. Reinaldo, por sua vez, era um mero bolsista que exercia atividades de recepcionista no Departamento de Administração Acadêmica (DAA) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). E nem todos gostavam do modo como ele se portava no trabalho ou como atendia as pessoas. Tachado de bruto, imaturo, mimado e “metido a bosta” por seus colegas de trabalho, Reinaldo interrompeu as suas atividades sub-empregatícias em 01 de dezembro de 2010, particularmente irritado por seu desentendimento com o professor que vislumbra reprová-lo. Alguns sentiram falta de sua presença no estabelecimento burocrático. A grande maioria, não. Quiçá, sequer perceberam que ele não estava mais lá…

Em mais de um sentido, Reinaldo é um anônimo. Talvez não merecesse sequer ocupar as linhas de uma atividade de prática jornalística, ao contrário do que talvez tenha lhe dito a professora que, em 1992, quando ele completara 6 anos de idade, dissera-lhe que ele era “o futuro da Nação”. E, poucas horas antes de viajar para a capital do País em que habita, Reinaldo confessa, coadunando-se com um interlocutor de mensagens telefônicas: “Somos uns ‘sem-futuro’”!

Talvez seja, talvez não. Isso somente o futuro dirá. Mas, por ora, quantos Reinaldos ainda vivem anônimos neste Brasil, sendo obnubilados pelos caprichos de professores despóticos, pelas comparações superficiais com os demais membros de sua família, pelos ditames de uma atividade noticiosa que é obrigada a privilegiar mais os títulos honoríficos do que as pessoas. E este Reinaldo sequer é um serviçal da realeza literária dinamarquesa. É apenas – e não só – um admirador contumaz da obra de William Shakespeare. Que não tem mais 6 anos de idade, como nesta foto. E que, em algum lugar do mundo, para além de sua família unida que tanto o respeita como ele é, deve ter alguém que o venere. Por mais insignificante que ele seja ou pareça. Pois, definitivamente:  “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia…” (HAMLET – Ato I – Cena V)

                                                                                                              por: Wesley Pereira de Castro.

Uma resposta

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  1. Victor Limeira said, on 18/12/2010 at 3:52 pm

    Ficou muito bom, fora de sério.
    Um perfil com muitos outros dentro dele.
    Demais.


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