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IGREJA WESLEYANA NO NORDESTE: equilíbrio e exortação à prática do bem nas palavras de um pastor andarilho

Posted in Uncategorized by micheletavares on 14/12/2010

Ricardo Pereira da Silva, 28 anos, é natural de Recife/PE, cursou Faculdade de Teologia pela Universidade Metodista de São Paulo, durante os anos de 2002 a 2007, e exerce a atividade de pastor da Igreja Metodista no Nordeste há 6 anos. Atualmente, ele é pastoralmente responsável pelo cargo de reverendo da Igreja Metodista em Muribeca/SE, função que desempenha localmente desde 2009. Na entrevista abaixo, ele comenta algumas das principais motivações religiosas e algumas das principais características positivas da Igreja fundada pelo reverendo inglês John Wesley, no século XVIII:

1 – Como tu te defines religiosamente?

1. Me defino religiosamente como uma pessoa equilibrada. Uma das marcas essenciais do metodismo é o equilíbrio. Para o Metodismo, a religiosidade não aliena, mas ajuda o ser humano no processo de crescimento integral.

2 – Que função tu exerces dentro de tua igreja?

Atuo como sacerdote, consagrado pela igreja metodista no nordeste para as seguintes funções pastorais: acompanhar e conferir suporte espiritual, de aconselhamento e acompanhamento das famílias da igreja e também da comunidade em torno. O pastor metodista também é desafiado a ser agente da comunidade em que está inserido, estando a serviço do povo, honrando o ‘slogan’ nacional da Igreja Metodista: Comunidade Missionária a Serviço do Povo. Ou seja, a igreja não é um espaço destinado somente às atividades religiosas, mas é um espaço educativo e promotor do bem estar social.

3 – Como se deu os primeiros contatos entre tu e esta religião?

A minha relação com o metodismo se dá a partir da experiência da minha avó com a igreja em Recife/PE, no bairro chamado Nova Descoberta, zona norte da cidade. Esses primeiros contatos se deram e foram aprofundados principalmente através da escola dominical, um espaço de educação da igreja, que geralmente se reunia pela manhã, destinado para crianças, jovens e adultos.

4 – O que tu podes falar, com base em tua experiência pessoal, sobre esta religião?

Primeiro, prefiro definir o metodismo como um dos ramos o cristianismo protestante. A igreja metodista faz parte das denominações do ramo histórico. Sendo assim, o metodismo tem um compromisso fundamental com a educação. Por isso, essa é a minha experiência mais profunda com o metodismo. Somos um povo de coração aquecido (experiência com Deus, através da oração), mas também um povo que pensa! O metodismo apresenta uma proposta integral da experiência com Deus, através da Bíblia, ou seja, o ser humano não é somente um ser espiritual, mas social e psíquico e que através da experiência com a graça de Deus se torna imagem e semelhança do próprio Deus, vivendo a partir as prerrogativas do novo nascimento e através dele recebe a missão de ser sinal do amor que recebeu de Deus, sendo útil à sociedade que está inserido.

5 – Que tipo de hierarquias existe na Igreja Metodista?

A Igreja Metodista é uma denominação episcopal. Um bispo ou bispa governa a igreja representando algumas áreas do país. Esse grupo é chamado de Colégio Episcopal. A forma de governo é conciliar, ou seja, um processo democrático estabelecido por representações de cada Região do país que se reúne nacionalmente num conclave chamado Concílio Geral, que define os rumos da igreja no território nacional.

6 – Existem quantos estabelecimento destinados a esta religião em Sergipe?

Em Sergipe, a igreja metodista está localizada em Aracaju, no Siqueira Campos, que é a primeira igreja do metodista do Estado, denominada Igreja Metodista Central justamente por ser a primeira. Existe uma igreja também no bairro Santos Dumont, outra no conjunto Marcos Freire I, no município de Nossa Senhora do Socorro, e em Muribeca e Brejo Grande, essas últimas no interior do Estado.

7 – Como tu chegaste a exercer a função que tu exerces aqui?

Para exercer a função de sacerdote, é preciso ser membro da igreja metodismo no mínimo cinco anos, quer dizer, ser batizado e membro freqüente atuante na comunidade, depois ser indicado pelo concilio local da igreja para os estudos teológicos, após o reconhecimento da igreja de sua vocação pastoral. A igreja metodista reconhece a vocação pastoral tanto para homens como mulheres. No nordeste temos uma mulher como presidenta. Depois da indicação da igreja para os estudos teológicos é preciso fazer um período chamado pré-teológico, que consiste em trabalhos desenvolvidos na igreja local acompanhado por um pastor durante 1 ou 2 anos e estudo de literatura metodista, além de estudar para fazer o vestibular na UMESP (Universidade Metodista de São Paulo). Aprovado nesse período de experiência, é preciso fazer o vestibular, e, se for aprovado, estuda durante 4 anos em São Paulo, na FATEO (Faculdade de teologia da Igreja Metodista), que é um curso superior aprovado com nota máxima pelo MEC. Depois do curso, já trabalhando como pastor, em alguma cidade de nordeste, inicia-se o período de estudos chamado aspirante ao presbiterado da igreja metodista. Período de estudo de literatura metodista nas áreas de governo da igreja, doutrinas e historia do metodismo, sendo que a prova é aplicada pelos professores da Faculdade de Teologia, e, depois de aprovado, torna-se reverendo da Igreja Metodista no Brasil, sendo que a ordem presbiteral é o grupo responsável pelo zelo histórico, doutrinário e de governo da igreja, de maneira que essa ordem está somente abaixo dos presidentes da igreja no Brasil, ou seja, os bispos presidentes da igreja.

8 – Que tipo de interação social extra-eclesiástica tu desempenhas na comunidade em que pregas?

Conforme eu disse antes, a igreja não é um espaço destinado somente às atividades religiosas, mas é um espaço educativo e promotor do bem estar social. As dependências do templo também são parcerias que oferecem subsídios educativos a população, através de creches, reforço escolar, cursos profissionalizantes e etc.

9 – Para fazer parte desta religião, há algum tipo específico de iniciação?

É preciso ser capacitado para se torna membro da igreja. Assimilar conhecimentos básicos de bíblia, governo e doutrinas da igreja.

10 – Como tu te manifestas em relação a temas-tabus do cristianismo, como aborto, masturbação, homossexualismo e eutanásia?

Em primeiro lugar, gostaria de afirmar que não são tabus, mas posições. Cada denominação religiosa lê interpreta a Bíblia segundo suas tradições históricas e doutrinárias. Há uma frase metodista famosa que diz o seguinte: “nós, metodistas, pensamos e deixamos pensar”, quer dizer, respeitamos, discutindo sempre com equilíbrio de conteúdo. Por isso, não gostaria de aprofundar um tema especifico, mas afirmar que o metodismo é pró-vida: esses temas são definidos pelas pastorais, são documentos desenvolvidos pelos professores da Faculdade de Teologia em São Paulo, assessorados pelo colégio episcopal. Mas é preciso afirmar que, assim como Jesus, a igreja ama o pecador e não o pecado, mas também repudia qualquer forma de preconceito, por exemplo, a homofobia e qualquer questão similar.

11 – O que há de essencialmente distinto entre o metodismo e as demais religiões cristãs?

O metodismo se destaca pela proposta integral do evangelho, não está preocupado somente com a experiência religiosa das pessoas, mas também seu desenvolvimento social e psicológico, e entende que um desses caminhos é essencialmente o da educação. É preciso orar, ler a bíblia e ter comunhão com Deus, mas também é preciso estudar e muito, a fé restaura e potencializa a razão. Consciência de mundo, consciência política, social e histórica.

12 – Que tipo de financiamento monetário existe no que tange à manutenção da igreja em que tu exerces as tuas funções?

Através dos dízimos e ofertas voluntárias, nunca forçadas ou por apelo e pressão emocional. No metodismo as ações devem ser responsáveis e sempre conscientes. Repudiamos as práticas atuais de mercantilização da fé. O dinheiro não seduz a Deus e nem o pressiona para obrigação de fazer milagres. Na igreja metodista, o dízimo e as ofertas são parte da consciência da graça de Deus que nos sustenta dia apos dia.

13 – Há algum tipo de simbolismo para-sobrenatural no metodismo?

Primeiro é preciso distinguir simbolismo de misticismo. Algumas denominações protestantes agregam questões místicas da religiosidade popular ao cristianismo hoje. É preciso entender que o conceito bíblico de fé é a “certeza daquilo que não se vê”. Se sua pergunta estiver relacionada com o que cremos que Deus pode fazer, ou seja, os fatores sobrenaturais da relação de Deus com o ser humano, que são os dons e o carisma do Espírito Santo, concedidos ao cristão no momento do batismo, que tem como finalidade capacitar os cristãos para o serviço da comunidade.

14 – Existe alguma proibição comportamental dominante?

No Brasil, os metodistas são chamados para ser equilibrados. Temos como principais obrigações a de não praticar o mal, a de zelosamente praticar o bem e atender às ordenanças de Deus, tendo costumes como: moderar nos divertimentos, ser modestos no trajar, empenhar-se no combate aos vícios. No Brasil, somos abstêmios ao álcool, observadores do dia do Senhor (responsabilidades com a igreja), honestos nos negócios, praticantes dos meios de graça que a igreja oferece, praticantes de oração e jejum individual e em família, somos fraternais em relação uns aos outros, benfeitores de boas obras, promotores de educação secular e religiosa e somos operosos na obra de evangelização.

15 – Basicamente, como se dão os encontros dos fiéis?

Através de cultos, escola dominical, atividades locais e nacionais, além de atividades de auxilio social e de lazer… E encontros de jovens, crianças e adultos.

16 – Que tipos de pessoas freqüentam a igreja?

Essa pergunta é relativa e um pouco preconceituosa. Para a igreja todas as pessoas são chamadas para crescer e amadurecer na comunhão com Deus, através da igreja, isso se as pessoas se identificarem com a igreja metodista.

17 – Tu sofreste algum tipo preconceito social ou familiar ao se filiar a esta religião?

Não sofri nenhum preconceito, quando as pessoas conhecem o metodismo, se surpreendem com sua forma profunda, organizada e equilibrada de pregar e vivenciar o evangelho, especialmente o seu componente de visão sobre a importância da educação.

18 – Quais aspectos religiosos acerca do metodismo tu achas que são mais problemáticos em relação ao conhecimento geral da população, visto que as bases da religião são anglofílicas?

De modo geral, as pessoas não entendem como o metodismo assimila que a fé e a ciência se completam, piedade (ou seja, fé) e ciência (ou seja, razão) se completam a favor do bem estar do ser humano, ou seja, sem o componente da razão é possível compreender a experiência transformadora da graça de Deus, através da fé em Jesus Cristo.

19 – O que mudou em tua vida depois que aderiste ao metodismo?

Tornei-me uma pessoa equilibrada: o metodismo me ofereceu a compreensão da experiência do amor de Deus e que esse amor é essencialmente pratico e se materializa através de relacionamento saudável com as pessoas, leitura profunda e consciente da bíblia, compromisso ético com as pessoas e com o Estado e a certeza de que sou agente transmissor das boas novas que o evangelho produz na vida do ser humano. Por isso, sou pastor: para servir as pessoas por aquilo que elas são, não por aquilo que elas têm materialmente para oferecer.

20 – Que mensagem tu terias a transmitir para quem reluta em conhecer esta religião?

Em primeiro lugar, se não quiser ir algum templo metodista, ler profundamente sobre quem somos, como vivemos e qual o projeto que oferecemos a luz da bíblia, sugiro conhecer as marcas básicas, identidade, história e doutrinas do metodismo. Isso pode ser feito de forma muito fácil através da Internet. O ‘site’ da Igreja Metodista no nordeste é < www.remne.metodista.org.br>.

Condução da entrevista por: Wesley Pereira de Castro.

Fotos: arquivo pessoal do pastor

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