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AIDS pelo Drº Camisinha

Posted in Uncategorized by micheletavares on 15/12/2010

Uma vida de luta contra a doença

por Cláudia Oliveira

Almir Santana

1º de dezembro foi o Dia Mundial de Luta Contra à Aids, doença que é tão atual e preocupante. Não se pode falar sobre o histórico da doença no Estado, os fatos marcantes da luta de décadas contra a Aids, casos de preconceito, ações para prevenção ou qualquer assunto que envolvam DSTs, sem mencionar o nome do médico e atual coordenador do Programa DST/AIDS da Secretaria do Estado da Saúde, Almir Santana.
Recém-formado, Almir foi trabalhar com prevenção e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis em um dos bairros mais carentes de Aracaju – Santos Dumont. Acompanhou de perto a chegada do vírus no Estado e suas primeiras vítimas. O envolvimento no combate à Aids fez com que seus pacientes particulares não mais o procurassem com medo de serem tachados de ‘aidéticos’, ocasionando assim o fechamento do seu consultório particular. Mas as dificuldades não o fizeram desistir, nem mesmo as várias ações preconceituosas presenciadas por ele.
Em compensação, as vitórias alcançadas por ele o fortaleciam cada vez mais. Sergipe foi o primeiro Estado brasileiro a disponibilizar gratuitamente os antirretrovirais. Mas para ele, investir na prevenção é fundamental. Pensando nisso, arrumou um ônibus vermelho e fez dele auditório itinerante para palestras. Depois, inventou o Camisildo, um carro em forma de camisinha, cuja fama ultrapassou as fronteiras de Sergipe e até do país.
Almir conseguiu popularizar o preservativo, hoje facilmente encontrado em todos os municípios do Estado. O seu trabalho que ajudou e ajuda muitas pessoas, o tornou conhecido nacionalmente e o fez conquistar vários prêmios. Entretanto a luta contra a Aids o rendeu algumas alcunhas criadas pelo preconceito: Doutor das Putas e Doutor dos Gays, e uma terceira, que se orgulha muito, Doutor Camisinha. Estas e outras questões acerca da doença, seu trabalho e dedicação serão esclarecidos nesta entrevista.

Em alto mar, Drº Camisinha orienta funcionários da Petrobrás sobre a doença

Em Pauta – Recém formado, o senhor começou a trabalhar com doenças sexualmente transmissíveis nos prostíbulos do bairro Santos Dumont, um dos mais pobres de Aracaju, e a AIDS. Como surgiu o interesse nesse tema?
Almir Santana – No Centro de Saúde Dr. José Machado de Souza, eu iniciei um trabalho de mapeamento do Bairro Santo Dumont, para descentralizar a vacinação contra a Poliomielite (fui coordenador de uma das campanhas). Na visita às ruas, descobri várias casas de prostituição. Fiz o cadastro de casa e iniciei as visitas, encaminhando as profissionais do sexo para o posto de saúde. O trabalho inicial foi sobre a sífilis. Atendia um grande número de garotas que trabalhavam naquele bairro. Quando surgiu o primeiro caso de Aids, tive que sair de lá. Assim tudo começou.
EP – Em 1987, o primeiro caso de AIDS chegaria ao Estado. O senhor foi enviado a cidade para cuidar do auxiliar de enfermagem que havia emigrado para São Paulo e agora voltava, em estado grave, para Santa Luiza do Itanhi. Quais aspectos mais o marcaram nesse primeiro contato com a doença?
AS – Percebi as fortes atitudes de rejeição por profissionais de saúde e pela própria sociedade. O prefeito da cidade pedia ao Secretário de Saúde que retirasse o paciente da cidade. Naquela época, eu indignado, falava que talvez melhor seria a saída do prefeito daquela cidade.

no Mercado Central de Aracaju no Dia Mundial Contra a AIDS

EP – Nesse primeiro caso, sua intuição e sua experiência o fez identificar a nova doença como uma espécie de DST, decidindo então levar o paciente para Aracaju, mas nenhum hospital da capital aceitou a internação. Foi nesse momento em que abraçou a causa de vez?
AS – O paciente foi a óbito sem que eu conseguisse internar. Queimaram a cadeira aonde o paciente sentou no posto de saúde da cidade. Decidi abraçar a causa. Prometi que o próximo eu internaria de “qualquer maneira”. Por gostar de saúde pública, enfrentei os desafios. Paguei caro, pois tive que fechar o meu consultório particular. Cada vez que meu nome era divulgado na imprensa como o “médico da Aids”, as pessoas se afastavam de mim.

EP – O que o segundo caso do Estado, de um cabeleireiro que também havia migrado para São Paulo e voltou para Itabaiana com vírus na bagagem, teve de melhora no tratamento em relação ao primeiro?
AS – Foi uma internação hospitalar que abriu o caminho para uma maior aceitação dos profissionais de saúde. O terceiro paciente passou a ser querido por todos (também cabeleireiro, porém de Sergipe). Quando ele foi a óbito, muitos profissionais do Hospital Gov. João Alves Filho foram ao sepultamento.
EP – Como surgiu o núcleo de DST/AIDS de Sergipe?
AS – A Secretaria de Estado da Saúde tinha o Programa de Dermatologia Sanitária. Inicialmente, foi criada uma comissão para coordenar e depois foi criada a Gerência de DST/Aids por necessidade diante do surgimento do primeiro caso de Aids de Sergipe.
EP – Como coordenador do Núcleo de DST/AIDS de Sergipe, o senhor ministrou cursos de capacitação para médicos e enfermeiros. Como foi a aceitação dos profissionais de saúde em relação às informações passadas?
AS – Inicialmente foi difícil porque poucos queriam saber sobre Aids. Depois fomos agregando mais pessoas para a luta. Alguns profissionais desistiam por medo do contágio ou por que “não dava dinheiro”. A Aids era vista como doença de pobre, de prostituta e de “viado”. Eu passei a ser chamado de “Dr. das putas e dos viados”. Enfrentei muitos obstáculos.
EP – Há também o Grupo de Apoio e Prevenção à AIDS (GAPA). Como surgiu o grupo?
AS – Reuni algumas pessoas que, isoladamente, faziam trabalhos ligados às prostitutas, homossexuais ou que demonstravam gostar de trabalho voluntário.
EP – Como é realizado o trabalho pelo GAPA hoje em dia?
AS – Lamentavelmente, o Gapa foi destruído e  deixou uma grande lacuna com relação ao trabalho assistencial dirigido às pessoas que vivem com HIV/Aids e em situação de pobreza. Há a necessidade da sociedade participar mais, como acontece com as ONG que trabalham com pessoas com câncer. Hoje observamos poucas pessoas dispostas a ajudar. Enquanto isso, a epidemia de Aids cresce na pobreza…
EP – A luta contra a AIDS lhe rendeu dois apelidos repletos de preconceito: “Doutor das Putas” e “Doutor dos Gays”. Como o senhor encara essa situação?
AS – Ganhei vários “rótulos” que mostravam como era forte o preconceito até comigo. Algumas denominações me entristecem.
EP – Em contrapartida, o senhor foi intitulado como Doutor Camisinha. O apelido é reflexo do apoio da população na luta contra o vírus?
AS – É uma denominação que me alegra, pois popularizei a camisinha e a população, quando ando na rua, sempre me agradece pelo trabalho. Pessoas desconhecidas me dizem que oram muito por mim. E eu preciso muito de orações, pois enfrento cada uma!
EP – Sergipe foi o primeiro Estado brasileiro a disponibilizar gratuitamente os antirretrovirais. Como foi o processo para receber os medicamentos?
AS – No início da epidemia, sempre tivemos grande apoio das primeiras Damas do Estado. Na época, solicitei à Dra. Leonor Barreto Franco, a aquisição dos medicamentos através do Conselho Nacional do SESI. Foi um momento importante para as pessoas que viviam com HIV/Aids. Sergipe saiu na frente e, infelizmente, a mídia nacional não deu destaque.
EP – Atualmente o senhor é coordenador do Programa DST/AIDS da Secretaria do Estado da Saúde. Quais as principais ações desse programa?
AS – Apesar de várias ações de saúde hoje serem municipalizadas, nem sempre os municípios as executam. As principais ações são: criação e execução de várias campanhas informativas; capacitação de profissionais de saúde e professores; repassar recursos financeiros para alguns municípios e ONG; monitoramento e supervisão das ações dos municípios e ONG; Descentralizar as ações para os municípios; Apoiar as ações das ONG; Disponibilizar preservativos para municípios e ONG; Realizar parcerias com outras instituições; Desenvolver ações de prevenção junto ás populações mais vulneráveis.
EP – Há também um programa municipal e nacional. Como esses programas se relacionam?
AS – O Departamento Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Hepatites Virais coordena a política de prevenção,assistência , diagnóstico e parcerias com a sociedade civil. Alguns municípios de Sergipe apresentam coordenações de DST/Aids, com os quais estamos sempre integrados.
EP – Até o final de 2005, Sergipe tinha cinco mil pessoas infectadas com o vírus. Como estão esses números hoje?
AS – Consideramos a estimativa de 6.000 infectados.
EP – Como é feito o diagnóstico e o tratamento do portador do vírus HIV no Estado?
AS – Estamos cada vez mais ampliando o acesso ao diagnóstico. Hoje temos seis CTA – Centro de Testagem e Aconselhamento no interior e capital, onde a população acessa naturalmente para realizar o teste com aconselhamento. Estamos descentralizando o teste para as unidades básicas de saúde em 11 municípios. O tratamento tem como instituição responsável, a Secretaria Municipal de Saúde de Aracaju, através do ambulatório do CEMAR Siqueira Campos. As urgências e emergências são encaminhadas para o HUSES e HU.
EP – Quem são mais infectados hoje? Homens, mulheres, jovens, idosos?
AS – A infecção ainda predomina em homens, porém evidenciamos um considerável crescimento entre as mulheres.
EP – Quais as regiões de Sergipe que aglomeram um maior número de infectados?
AS – Aracaju, Socorro, Itabaiana, Estância, Lagarto, São Cristóvão e Campo do Brito.
EP – Dia 1º de dezembro foi o dia Mundial de Luta contra a AIDS. Qual o tema da campanha deste ano?
AS – O slogan definido pelo Ministério da Saúde é: “Uma dessas pessoas tem AIDS. E pode não ser quem você pensa. A AIDS não tem preconceito. Você também não deve ter”.
Os objetivos da iniciativa deste ano são: dar maior visibilidade às questões do viver com AIDS; combater o estigma e a discriminação que recaem sobre as pessoas vivendo com HIV/Aids; mostrar a proximidade da AIDS do universo dos jovens.
EP – Quais ações marcaram esta data no Estado?
AS – As ações do Estado de Sergipe e Municípios vão priorizar pontos importantes: a ampliação do acesso ao diagnóstico precoce na Atenção Básica e a abordagem nas oficinas, palestras e intervenções, do tema Preconceito relacionado principal aos Jovens que vivem com HIV/Aids  e a importância das atitudes de solidariedade.

distribuição de preservativos na Parada Gay 2010

Semana do Dia Mundial de Luta Contra a Aids/ 2011 – Programação Estadual:

Dias 30/11 e 1/12 – Stand informativo na Praça General Valadão, através da Secretaria de Estado da Saúde e Liga da Liga Acadêmica de Sexualidade da UFS;
Dia 1/12 – Stand informativo e teste rápido na Creche Padre Leon Gregório, no município de N.Senhora da Glória com concentração na Praça dos Quiosques;
Dia 1/12 – Exposição Informativa em Estância, através da Secretaria Municipal de Saúde local e participação da ONG Astrais;
Dia 1/12 – Palestras e apresentação de Teatro em Estância;
Dia 1/12 – Caminhada de Solidariedade em Estância, através da Secretaria Municipal de Saúde de Estância e Astrais;
Dia 1/12 – Caminhada de Solidariedade em Propriá, com a participação de idosos, alunos do Projovem e da UNIT e equipes do CTA e ESF da cidade;
Dia 1/12 – 14 horas – VIII Caminhada da Prevenção em Aracaju, com saída da praça da Bandeira, através das Secretarias Municipal de Saúde e Educação de Aracaju e parceiros;
Dia 1/12 – 8 Horas – Caminhada – Jovem  na Luta Contra à AIDS, em Lagarto;
Dia 1/12 – 9 Horas – Lançamento do Projeto “Camisinha Tá na Feira” nos Mercados Centrais de Aracaju, com exposição informativa e a participação do MOPS e Programa Municipal de DST/Aids de Aracaju;
Dia 1/12 – 14 Horas – Palestra Sobre a “Prevenção Sim, Preconceito Não” na Sede da Petrobrás, na Rua Acre, no Auditório do RH/DRh;
Dia 1/12 – 19:30 Horas – Palestra sobre a “Aids e a Juventude” e a “Aids e o Câncer” no Instituto de Oncologia San Giovani,dirigida aos profissionais de saúde, promovida pelo Instituto de Oncologia San Giovani e Liga Estudantil de Oncologia de Sergipe;
Dia 1/12 – 10 Horas – Campanha “Fique Sabendo” com utilização do Teste Rápido para Diagnóstico do HIV e Stand informativo no SESC – Centro, com apoio da Liga Acadêmica de Sexualidade da UFS e no SESC de  Socorro,com o apoio do CTA do município de Socorro.
Dia 1/12 – Ações de Prevenção na Praça Ananias Fernandes dos Santos e no Bar Carrancas (Rio S. Francisco), em Canindé do São Francisco, com apresentação do laço vermelho e palestras no Clube Altemar Dutra;
Dia 1/12 – 8 horas – Campanha “Fique Sabendo” com utilização do Teste Rápido para Diagnóstico do HIV nas seguintes cidades: Nossa Senhora das Dores (Unidade de Saúde Miltom Calumbi-antigo SESP); Pacatuba (Clínica de Saúde da Família); Tobias Barreto    (Clube das Mães); Pedrinhas (Unidade de Saúde Costa Guimarães); Laranjeiras (Unidade de Saúde do CAIC); Boquim (Unidade de Saúde Dr. Gilberto Carvalho e Bernadino Mitidiéri);   Carmópolis ( Unidade de Saúde Dr. Hernan Salles Galego).
EP – Apesar da disseminação de informações sobre a AIDS, o preconceito e a discriminação às pessoas vivendo com o HIV/AIDS ainda é muito forte. A que o senhor atribuiria esse fato?
AS – Existem fatores culturais que contribuem para o preconceito e atitudes de discriminação. Mas, no início da epidemia, as atitudes discriminatórias eram mais freqüentes.
EP – Quem vive com o HIV/AIDS pode trabalhar, estudar, praticar esportes, namorar e fazer sexo com camisinha, como todo mundo. Qual o maior obstáculo enfrentado pelo portador de HIV?
AS – Ainda ocorrem atitudes discriminatórias em algumas empresas, e alguns profissionais de saúde.
EP – O senhor fala sobre a AIDS no universo dos jovens e crianças de Sergipe. Há um tratamento diferenciado para esse público?
AS – Utilizamos uma liguem específica para cada público alvo e de acordo com a própria reação daquela população que estamos trabalhando e realizando a ação de prevenção. A linguagem está relacionada também com o nível de informação.
EP – O senhor é idealizador do Camisildo, um carro em forma de camisinha, cuja fama ultrapassou as fronteiras do Estado e até do país. Como surgiu a idéia do Camisildo?
AS – Nós temos sempre que utilizar a criatividade na prevenção. Criamos o Camisildo, como sendo uma forma  criativa de divulgar a prevenção em festas populares.
EP – O senhor também é idealizador do bloco da prevenção, que chama a atenção das pessoas para a necessidade de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis durante o Pré-Caju. O sucesso do bloco é resultado de uma maior conscientização da população?
AS – Sim, foi uma forma criativa de divulgar a prevenção no pré-caju, participando da festa. Tem também a função de solidariedade já que procura ajudar as pessoas que vivem com Hiv/Aids. Fico feliz em perceber que a idéia do bloco se espalhou por todo o país.
EP – Em 2008, o senhor foi vencedor na categoria médico da 5º Edição do Prêmio AIDS Saúde Brasil de Responsabilidade Social. Como é ter o trabalho de décadas reconhecido nacionalmente?
AS – É muito gratificante ver o reconhecimento à nível nacional e local.
EP – O senhor escreveu o texto “Um médico que convive com HIV”, no qual relata um pouco da sua longa convivência com pessoas que vivem o drama da doença e as lamentáveis cenas de preconceito que já presenciou. Foi um desabafo?
AS – Não, apenas um testemunho do que enfrentei no início da epidemia.Meu sonho é escrever um livro contando tudo que encarei no início do trabalho.
EP – Quais as expectativas em relação ao avanço no tratamento dos soropositivos?
AS – Somos bastante otimistas, pois os cientistas estão trabalhando muito com relação à descoberta de novas drogas antirretrovirais.
EP – Em uma palavra, resuma o seu trabalho com DSTs e AIDS.
AS – Dedicação.

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