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Candomblé: festa, tradição e alegria.

Posted in Perfil by micheletavares on 15/12/2010

Ao ritmo dos tambores e no envolvimento das vestes festivas.

Por: Egicyane Lisboa Farias

Yaô de Xango (foto: Sandra Souza Leite)

Quando a dança começa, atabaques excitados, o corpo se esvaindo em desejos de espaço, as peles dominando o cosmo, envolvendo o infinito, o som criando outros êxtases, uma representação viva da arte no meio de um ritual envolto de belezas e ritmos.

“Axé” é o poder de transformar o mundo cotidiano e a vida das pessoas, mas também é a genealogia ritual de um terreiro e sua mãe-de-santo que quem conhece encanta-se e admira-se pelo Candomblé.

A música é um envolvimento, um movimento dinâmico de culto aos ancestrais.  Tendo como papel primordial a invocação aos orixás, servindo como intermediário entre os homens e os deuses que são cultuados em meio a essa musicalidade, mostrando o desejo e continuação de uma tradição envolvendo beleza e mistério.  Canto é a essência do candomblé.

            Cantos de beleza soam a Oxum dos legados que os antepassados deixaram, festejam a natureza, festejam o nascimento, festejam os orixás. Pensando bem, é um toque que define o  sentimento pelo Candomblé, pois é num toque que sentem todas as emoções possíveis e imagináveis de como quando ouvimos uma cantiga que nos toca em especial, mais profundamente…É nesse toque que passam a conhecer os orixás, sentir seu abraço, sua energia, passam em fim a conhecer a si mesmos.

o trio de tambores Rum, Rumpi e Lé (foto: Fabiano Bispo)

Quando toca o som dos tambores, há um envolvimento com o som divertido e frenético dos abes e observando nitidamente o som preciso e decisivo do agogô. . O trio de tambores, Rum, o maior, Rumpi, o médio, e Lé, o menor, são tratados pelos adeptos como verdadeiros deuses. Recebem oferendas e reverências. Estes instrumentos são indispensáveis para o culto, pois, apenas através da música, ocorrem as incorporações. Os instrumentos se comunicam diretamente com os orixás clamando pelo seu retorno a terra. A música produzida pelo candomblé apresenta uma grande diversidade de ritmos e segundo a fé dos praticantes, os versos e as frases rítmicas repetidas incansavelmente, têm o poder de captar o mundo sobrenatural.

Não há como fugir, não há como fugir dessa magia sem igual, não há como não se envolver no bailar das pessoas diante da roda. Uma roda que demonstra aos mais atentos, responsabilidade, tradição e muita alegria, alegria em estar adorando àqueles aos quais eles descedem, amam e que vivem dentro deles, os movendo e  mostrando o caminho melhor a ser seguido nessa batalha cotidiana em que vivem. Mas é aí que entra a sintonia perfeita: ao sairem do toque já chegado ao fim, estão com a fé renovada. São as forças da natureza, os orixás que os movem para a vida, dessa vez ainda mais felizes, lembrando sempre os melhores valores, lembrando que a vida deve ser vivida sem culpa e sem pecado, que não há outro bem maior que a família e que nunca, nunca conseguirão viver sem alegria e sem um belo sorriso no rosto. “Viver e não ter a vergonha de ser feliz”.

tambores (foto: Fabiano Bispo)

Mais em meio a tanta festa, há um momento de silêncio, quando os tambores se calam e entram no momento de reflexão. É ritual de feitura ao sacerdócio no Candomblé, chamados também de “fazer o santo”, “fazer a cabeça”, “deitar para o santo”, “oba baxé ori” ou simplesmente “orô”, que é sacrificio e consagração. A pessoa que se inicia no candomblé torna-se adoxo, ou seja, passa a possui oxu, que é o canal de comunicação entre o iniciado e o seu orixá. Todo o processo de iniciação se destina à criação de ambiente propício ao tão sonhado encontro.

Feitura representa um renascimento, é o reconhecimento e a admissão do ori escolhido no orum. É o mesmo que entregar a cabeça (principio da individualidade) ao orixá (o deus maior de cada ser), permitindo que os deuses conduzam sua vida e seu destino. A feitura é um divisor de águas na vida, tudo será novo. A “feitura de santo” implica um período de reclusão geralmente de 30 dias. Os costumes da comunidade e os princípios que regulam as relações da família religiosa (hierarquia sacerdotal); as formas adequadas de comportamento nas cerimônias públicas e restritas.

Conhecimentos acerca de seu próprio Orixá são ministrados: a maneira adequada de cultuá-lo, as suas proibições, as virtudes que deverão ser cultivadas e os vícios que deverão ser evitados para atrair influências benéficas e uma relação harmoniosa com a divindade pessoal. Nesse prazo serão realizados os ebós, as oferendas a Exu e aos ancestrais, além de ocorrer todo aprendizado em relação à religião: as rezas, os cânticos, as danças etc., e por fim o orô ritual no qual, na maioria das vezes, o filho-de-santo tem seus cabelos raspados e recebe oxu,  e passa pelo ritual de efun (no qual seu corpo é marcado por pintas de giz), que se repetirá pelos sete dias subseqüentes.

            A festa em que o yaô é apresentado à comunidade é popularmente conhecida como saída de yaô e reconstitui em suas três etapas fases da concepção e do nascimento. Finalmente, prosta –se em frente aos atabaques, saudando as autoridades, . A cada reverência o iaô bate palmas compassadas. Neste ritual é acompanhado por toda a comunidade, prova de que, a partir daquele momento jamais estará sozinho.

Xango (foto: Sandra Souza Leite)

            O momento mais esperado de saída de yaô, quando o orixá anuncia o nome da iniciação de seu filho. É a partir desse momento que começa a contar a vida na religião. É um momento de muita alegria, no qual a comunidade recebe um novo membro.

            Os segredos só têm valor e poder porque podem ser revelados, e esse valor é aniquilado no momento da revelação. O segredo é um fenômeno social cujo valor deriva da sua circulação restrita dentro de comunidades delimitadas, como as hierarquias rituais do Candomblé. Até as vestimentas guardam seus segredos, seus mistérios e encantos. Existe uma definição para cada ocasião, para cada cargo no candomblé. Roupa de ração é a roupa usada diariamente em uma casa de Candomblé. São roupas simples que podem ser coloridas ou brancas, composta por saia de pouca roda para facilitar a movimentação, camisu geralmente branco e enfeitado com rend bordados, calçolão (espécie de bermuda amarrada por cordão na cintura, um pouco larga para facilitar a movimentação e proteger o corpo em casos que se é necessário sentar no chão), pano da costa e o ojá, um pano que se amarra à cabeça.

vestimentas masculinas e femininas (foto: Fabiano Bispo)


            A roupa fala de um simbolismo muito especial, que além de ético e moral, os axós dão para as mulheres posição e postura. É bonito se notar a forma e a reverência que estas roupas expressam em sua aparência e jeito: respeito acima de tudo! O vestuário de uma Iyalorixá é diferente das roupas usadas pelas ekédis e yaôs, é caracterizada pelo uso da “Bata” que é usada por fora da saia com o camisu por baixo. A Bata é símbolo de cargo ou posto dentro da hierarquia do Candomblé. O pano da costa dobrado sobre o ombro também tem sua representação, é um símbolo de cargo, pois, os Yaôs o usam amarrado no peito, as egbomis na cintura e Iyalorixás no ombro. Normalmente, saias e Batas de bordado richelieu, também só são usadas pelas Iyalorixás, assim como o pano da costa de Alaká africano.
Os turbantes também chamados de torço ou ojá, usados na cabeça normalmente são maiores e mais ornamentados, assim como determinados fio-de-contas não podem ser usados por pessoas que não tem cargo, o (fio de ouro)por exemplo só pode ser usado por Iyalorixás com mais de 50 anos de Santo, símbolo de senioridade.

Uma resposta

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  1. lucicleide santos said, on 16/12/2010 at 3:41 pm

    Egicyane parabéns pelo perfil, está bem elaborado e rico em informações


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