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Cem anos de samba malandro com Adoniran Barbosa

Posted in Perfil by micheletavares on 15/12/2010

por Cláudia Oliveira


Adoniran Barbosa nasceu em 06 de agosto de 1910, em Valinhos-SP, foi um colecionador nato de apelidos. Seu verdadeiro nome era João Rubinato, mas cada situação por ele vivida o transformava num novo personagem, numa nova história. O nome artístico ele tirou da cartola, unindo o nome do amigo Adoniran Alves com o sobrenome do compositor e cantor Luís Barbosa, que cantava sambas de breque batucando no chapéu de palha.

Filho de imigrantes italianos, a sobrevivência do paulistano comum numa metrópole que corre, range e solta fumaça por suas ventas é exposta através de suas músicas. Canta passagens dessa vida sofrida, miserável, juntando o paradoxo bom humor / realidade. Tirou de seu dia a dia a idéia e os personagens de suas músicas. Iracema nasceu de uma notícia de jornal, quando uma mulher havia sido atropelada na Avenida São João.
Quem conversasse com Adoniran perceberia que por trás daquele paulistano pé-rapado estava um homem de certa cultura, conhecedor de livros e de música mais refinada. Sua origem humilde, no entanto, não era ficção. Entregou marmita, foi office-boy, carregador, faxineiro, encanador, pintor de paredes, garçom, caixeiro em loja de tecidos e ainda arrumou um hobby, fabricando até o fim da vida brinquedos artesanais que alegravam a criançada. Mas desde cedo acalentou a idéia de ser artista. Adorava o samba dos grandes compositores que ouvia no rádio. Em 1934 venceu um concurso de música de Carnaval realizado pela prefeitura de São Paulo com a marcha Dona Boa, dando a largada para uma carreira que duraria meio século.

Adoniran nasceu e morreu pobre. Todo o dinheiro que ganhou gastou ajudando ou comemorando sucessos com os amigos. Talvez soubesse que o valor maior de suas canções eram interpretações como a de Elis Regina ou Clara Nunes. Foi um grande colecionador de amigos, com seu jeito simples de fala rouca, contador nato de histórias, conquistava o pessoal do bairro, dos freqüentadores dos botecos onde se sentava para compor o que os cariocas reverenciaram como o único verdadeiro samba de São Paulo. Mais do que sambista, Adoniran foi o cantor da integridade.
Nem mesmo pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração são capazes de passar apáticas pela voz rouca que conta e quase consolada, a terrível história da noiva atropelada 20 dias antes do casamento: “O chofer não teve culpa, Iracema/Paciência”. Mais brilhante compositor paulista de todos os tempos, Adoniran Barbosa (pobre e mal-letrado), sabia ser mais denso que muito catedrático quando definia: “pra escrever uma boa letra de samba, a gente tem que ser, em primeiro lugar, anarfabeto”. Como poucos, Adoniran foi gênio, extraía de uma quase patética simplicidade uma montanha de significados sutis. É aquela estória: você ouve Saudosa Maloca 300 vezes, sem prestar muita atenção. Aí, um dia, dá um estalo: “então era isso?”.

Filho do Bexiga, o bairro italiano de São Paulo, Adoniran foi um fotógrafo lambe-lambe da canção. Cada uma delas é um pequeno retrato de seu bairro, de sua cidade, de sua gente humilde. Por extensão, retratos que poderiam ser de qualquer grande cidade que ainda tenha, em algum canto, um resquício daquela pobreza gentil que é tão diferente da miséria definitiva. A São Paulo de Adoniran é falsamente conformada com as agruras de ser grande e faminta de seus filhos. Afinal, os homi tão com a razão/ nóis arranja outro lugar. E: Não reclama/ porque o temporal/ destruiu teu barracão./ Não reclama,/ güenta a mão, João./ Com o Cebídi aconteceu coisa pior./ Não reclama,/ pois a chuva só levou a tua cama. Era só o que João tinha. Já a casa do Cebídi tava completa e foi toda levada pela enxurrada morro abaixo. Logo, João não tem tanto motivo pra reclamar da sorte.
Em 1950, o regional Demônios da Garoa surgiu em sua vida como a mais perfeita parceria possível a um compositor popular. O grupo incorporou a cena e acumulou sucessos cantando no paulistanês criado por Moles e Adoniran. Nos anos de 1951 e 52, com os sambas Malvina e Joga a Chave (c/ Osvaldo França), já interpretado pelos Demônios, Adoniran voltou a vencer o concurso de músicas carnavalescas da prefeitura. Mas sua vida deu uma guinada mesmo em 1955, quando Saudosa Maloca, que ele gravara com pouca repercussão em 1951, estourou nas paradas na voz dos Demônios da Garoa. O megassucesso trouxe de cambulhada o Samba do Arnesto, outro clássico adoniraniano. Saudosa Maloca conquistaria o Rio de Janeiro, terra do samba, na voz de Marlene. Foi aberta a porteira por onde passariam Apaga o Fogo Mané, As Mariposas, Iracema, Mulher Patrão e Cachaça, No Morro da Casa Verde, Trem das Onze e dezenas de outras, feitas por ele ou em parcerias, que incluem até Vinícius de Moraes. Esta última, uma confirmação da sofisticação insuspeitada de Adoniran, que colocou uma música sublime na letra de Bom Dia, Tristeza, poesia de Vinícius que lhe chegou às mãos por intermédio de Aracy de Almeida.
Em 1968 ele participou da I Bienal do Samba, com Mulher, Patrão e Cachaça, sem sucesso. Mas sua marcha-rancho Vila Esperança, apresentada em 1969, no I Festival de Músicas de Carnaval da TV Tupi, classificou-se em segundo lugar, e ficou gravada no rol das grandes músicas de carnaval. Com todo esse sucesso, ele só foi gravar cantando em 1974. Até o final dos anos 60 não era costume compositor gravar, a não ser que fosse muito bom cantor. Com a quebra do tabu, entre outros por obra de Chico Buarque de Holanda, passou a ser essencial registrar essas vozes. Foi quando Cartola, Nelson Cavaquinho e outros baluartes do samba tradicional começaram a entrar em estúdio. O primeiro LP foi seguido de um segundo, em 1975, registrando para a posteridade sua voz de taquara rachada.

Mesmo pobre, ainda cantava em shows e gravava esporadicamente três Lps em 40 anos de carreira, todos lançados entre 73 e 80 e relançados mais tarde em CD. Sempre que quis, teve no estúdio os melhores músicos e cantores da música brasileira lhe pagando tributo. Muitos deles com idade para serem seus netos. Como Elis Regina, sua tiete assumida, com quem Adoniran emplacou seu maior sucesso como intérprete: Tiro ao Álvaro.
Adoniram morreu em 1982, aos 72 anos, de parada cardíaca. Dois anos antes, por ocasião de seu 70º aniversário, a EMI lançara um LP com suas músicas cantadas por ele e intérpretes como Elis Regina, Roberto Ribeiro, Djavan, Clara Nunes, Clementina de Jesus e Carlinhos Vergueiro. Sua única mágoa nos tempos de velhice era ter sido apartado de seu público. Cantava com sucesso para universitários, era adorado pela intelectualidade. Mas justamente ele, que tinha sido povo como poucos, não passava mais pela grande mídia nem tocava nas rádios populares. Quando foi pro pagode lá de cima, teve um enterro modesto. 500 pessoas amigas e nenhuma ‘otoridade’.
Neste ano, o SESC promoveu um show com o lançamento de CD gravado em homenagem aos 100 anos do compositor, reunindo as cantoras Maria Alcina, Cristina Buarque, Virgínia Rosa, Verônica Ferriani, Patty Ascher e Márcia Castro. Além do sambista Oswaldinho da Cuíca, seu amigo do Bexiga e do samba.

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