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Calçadas da terra

Posted in Perfil, Uncategorized by micheletavares on 16/12/2010

Calçadão preparado para o natal (Foto: Illton BIspo)

Mais do que uma rua o Calçadão da João Pessoa derrama sergipanidade sob os pés dos passantes

Por: Liliane Nascimento

Cada lugar possui o mérito de ser único e é por muito mais do que uma combinação de número, rua, cidade, estado e país. Cada lugar é o lirismo que desperta nos passantes e nos que se deixam ficar. As calçadas de Itabira são lugar quando põe ferro nas palavras de Drummond, as ruas de Recife são lugar quando põe saudades nos versos de Bandeira e assim, é lugar o Calçadão da João Pessoa quando põe muito mais do que produtos na vida dos aracajuanos, põe alegrias, amizades, encontros, fugas, descanso e mais beleza do que pode ser aprisionada em qualquer fotografia.

Está no dia-a-dia dos moradores de Aracaju procurar as coisas de que precisam no Calçadão, que nem precisa ser chamado Calçadão da João Pessoa, pois o sobrenome é desnecessário para aqueles que são íntimos. Este Calçadão não é só as lojas, ele é cada pedra, cada banco e cada pessoa que passa por lá. Ele, que já foi rua do barão por causa do Barão de Maruim, tem sua história, já o diga o Cine Rio Branco que marcou uma época sediando grandes óperas e outros espetáculos, antes de ser fechado porque o seu dono deixou de interessar-se por arte.

Mal amanhece e as três cores das suas pedras se transformam em tapete, os bancos se tornam acolhedores e os primeiros vendedores já tomam seus lugares, se preparando para tirar dalí o dinheiro que sustenta suas famílias,

Calçadão da João Pessoa (Foto: Liliane Nascimento)

assim como os engraxates e as estátuas-vivas. Este Calçadão que movimenta a economia com seu comércio, todavia, não é o único que existe, há o Calçadão dos estudantes que se divertem com seus amigos enquanto passam e olham em volta para saber o que há de mais novo e há ainda o calçadão dos velhinhos que sentados nos bancos durante o dia quase inteiro, parecem compreender o sentido maior do Calçadão e já não pedem dinheiro, diversão ou qualquer outra coisa, eles não querem nada, ou melhor, querem apenas estar ali, neste ambiente que se mistura.

Essa variedade de pessoas é aceita sem que ele rotule ou divida em grupos, por ele todos poderiam comprar, encontrar pessoas, tomar sorvete, fazer uma pregação, jogar xadrez ou simplesmente andar; o Calçadão não faz distinção entre pessoas, ele não vai perguntar a elas quem são ou quanto têm, vai apenas se apresentar como opção e como não abre ou fecha é opção por tempo indeterminado.

No Calçadão também há contrastes que não podem ser ignorados, ao lado das lojas abarrotadas de belas mercadorias estão pessoas pobres e doentes, com as mãos estendidas no vazio esperando ajuda dos que passam, e os que passam na maioria das vezes não os querem notar. Também não são notados os loucos que apontam o dedo para o alto, dizem conhecer toda a verdade e depois sentam-se e lá ficam por várias horas sem que nada lhes perturbe a reflexão.

Quando anoitece o Calçadão vira um ambiente a parte, aos poucos já não se podem ouvir os rapazes e moças que insistentemente perguntavam “quer fazer cartão senhor?” ou os marketeiros das lojas de eletrodomésticos com seus preços sempre mais baixos que os da loja  vizinha. São ouvidos agora outra leva de vendedores que oferecem bolsas, perfumes, CDs e DVDs pirateados e todo o tipo de comida que se possa imaginar distribuída por mesinhas que se estendem de um extremo a outro.

Vestido para o Natal o Calçadão ganha um quê diferente, ganha cores, ganha sons, ganha até uma visita do Papai Noel e como é do seu feitio os repassa para sua gente sem cobrar nada em troca. Ele é um local de contrastes, de movimento e calmaria por onde passam pessoas que fazem parte daquela história e daquele lugar, pessoas que serão pais, serão mães e continuarão sendo peças desse tabuleiro que em um extremo se estica para olhar as águas mansas do rio Sergipe e no outro mostra a delicadeza da Praça Fausto Cardoso. Atravessar esses extremos é mais do que dar 480 passos, atravessar o Calçadão é construir uma história e caminhar sobre um pedaço de si.

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