Técnica de Produção, Reportagem e Redação Jornalística

Hermes Fontes – O poeta sergipano que deu nome a uma das mais importantes avenidas de Aracaju.

Posted in História by micheletavares on 14/12/2010

Por Sóstina Silva

Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes,  ou simplesmente Hermes Fontes, teve seu nome emprestado a umas das mais movimentadas avenidas de Aracaju, onde poucos conhecem a história desse irreverente artista, poeta, escritor, caricaturista e gênio sergipano.

Hermes nasceu em 1888, em uma casa humilde na cidade de Boquim, seus pais, Francisco Martins Fontes e Maria de Araújo Fontes, sustentavam a família através da lavoura. O talento e a inteligência de Hermes Fontes chamaram a atenção de professores e grandes figuras importantes  ainda quando menino, entre esses, o chefe de Estado e jurista Martinho Garcez que o levou como adotivo para o Rio de Janeiro a fim de lhe propiciar melhores oportunidades de futuro.

No Rio, Hermes pode contribuir com a imprensa carioca como poeta, como crítico e chegou a escrever dez livros, entre eles, a obra poética “Apoteoses”, que o consagrou como um dos melhores poetas brasileiros. Dele disse o poeta Olavo Bilac: “É Hermes Fontes um moço, quase um menino cujo livro Apoteoses é uma revelação de força lírica”. O livro influenciará a poesia brasileira no começo do século XX. O gênio sergipano sonhava ser o Príncipe dos poetas e membro da academia Brasileira de Letras.

Apesar de considerar Martinho Garcez um pai, a saudade da família, e em especial da sua mãe, o angustiava e o fazia sentir-se um exilado onde vivia. Então, Após passar em primeiro lugar no concurso dos Correios e Telégrafos, Hermes Fontes decide deixar a casa de Martinho e vai viver numa pensão, onde conhece Alice, por quem se apaixona e se casa logo em seguida. Hermes via na esposa a beleza ideal de uma mulher, apaixonado, o poeta tentou dar uma vida confortável à amada. Anos mais tarde, Hermes Fontes cai na amargura ao descobrir que era traído pelo seu grande amor e o seu casamento chega ao fim. Mesmo com fim do matrimônio, o poeta continuou amando Alice. “Na véspera do divórcio Hermes mandou um carro buscar Alice para ela não ir a pé e ainda levou rosas para ela, mesmo assim ela não deu a mínima e então ele escreve a poesia ‘Cicatriz’ “, conta a professora e pesquisadora Ana Medina.

Hermes Fontes era considerado um homem romântico, sisudo e depressivo. Sem conseguir atingir seus objetivos de vida, solitário, sem o carinho da mãe, distante de sua terra natal e traído pelo seu grande amor, o poeta encerra sua vida numa noite de natal de 1930 com um tiro de revólver no ouvido. O grande poeta sergipano foi sepultado ao lado do túmulo do escritor Lima Barreto.

Quem foi João Bebe-Água?

Posted in Cultura, Educação, História, Política by micheletavares on 22/06/2009

“O seu feito grandioso

Não se passou por banal

Mas morrera obcecado

Por um retorno irreal

São Cristóvão nunca mais

Seria a capital…”

(Francisco Passos Santos – Chiquinho do Além-Mar)

Por Joanne Mota

Morador do quarteirão nº 19, da São Cristovão Capital, o lendário João Nepomuceno Borges nasceu em São Cristóvão, no ano de 1823, era filho do capitão Francisco Borges da Cruz e tinha um irmão de nome Silvério da Costa Borges. Sua escolaridade é desconhecida, mas sabia ler e escrever e exerceu durante muito tempo cargos de grande representatividade na sociedade. A história conta que João Bebe-água foi escrivão interino da Alfândega e Mesa de Rendas, de Santo Amaro; vereador; Juiz de Paz na cidade; fiscal da Câmara em 1872; e também foi “patrão-mor” da Mesa de Rendas da Barra da Cidade, hoje Barra dos Coqueiros.

Foi o homem que arregimentou 400 homens em protesto contra a transferência da Capital para o povoado Santo Antônio do Aracaju. Historiadores destacam que essa figura, que se tornou folclórica, publicou trabalhos no Pasquim do partido sob pseudônimo de ‘Nunes Machado’. João escolheu este pseudônimo inspirado na Revolução Praieira, já que Nunes Machado era, à época, o principal ícone do partido liberal no Brasil, desde que fora assassinado a frente dos revoltosos da Rua da Praia, em Recife, na eclosão da Revolução Praieira, em 31/12/1848.

Casou-se aos 50 anos, não temos ciência do nome da esposa, segundo o seu contemporâneo, Serafim Sant’iago,  em publicação no  ‘Annuario Christovense’, ele morreu viúvo. Durante os anos que sucederam a transferência da capital o “jacobino sancristovense”, como ficou conhecido, manteve o juramento de não pisar em Aracaju, período que observou piamente suas obrigações religiosas. Além disso, guardava sempre atrás da porta de sua casa foguedos que seriam usados quando a Capital voltasse a São Cristovão.

Nepomuceno Borges era componente da Irmandade do Amparo dos Homens Pardos, frequentando a igreja regularmente. Nessa irmandade, ele exerceu quase todas as funções: foi sineiro, zelador, sacristão, tesoureiro, avalista e procurador.

Sobre as suas peculiaridades físicas, a história conta que era de baixa estatura e um  tanto gordinho; tinha a cor de um pardo amarelado em tom bilioso, cabelos amealhados; trajava jarreta e trazia sempre um lenço de rapé e uma catarina, como ele titulava uma figura preta feita de ponta de boi, onde guardava fumo torrado .

Entre torrados e doses de aguardente que faziam parte do cotidiano de muitos naquela época, inclusive de Dona Maria Paiva Monteiro, mais conhecida como ‘Dona Marinete’, que cuidava da quitanda de seu pai, conheceu bem o João. Segundo ela, desde pequeno João Bebe-Água sofreu com o desprezo, inclusive de seu pai, e a transferência só foi mais um fato que contribuiria para a vida melancólica desta figura, fato que o levaria a se entregar ao álcool.

 No entanto, essa constatação não é universal, segundo historiadores a nominação “bebe-água”, foi conseguida graças a exibição da peça teatral “João Bebe-Água”, exibida na abertura do IV Festival de Arte de São Cristóvão (1975), de José Severo dos Santos e Alberto de Souza Oliveira.

 Sobre sua morte, existem várias histórias e controvérsias. Os autores modernos se atrapalham e não conhecem ao certo como discorrer sobre esse assunto. De acordo com pesquisa realizada por João Pires Wynne, o enterro desta figura data de 1896, por outro lado, Sebrão Sobrinho chegou a assegurar que o rebelde de São Cristóvão morrera em 1890. O historiador Pedro Machado, que ignora o ano de morte, apenas localiza sua última residência e destaca que João Bebe-Água morreu em sua residência ainda existente em 1938, disjunta e construída ao da ladeira de São Francisco, perto do convento deste santo.

Contudo, todos os historiadores concordam com uma coisa: João Bebe-Água morreu pobre, sozinho e desacreditado, mas nunca desistiu do sonho de ver São Cristovão voltar a ser Capital e tampouco saiu de São Cristovão para conhecer a nova Capital que crescia em Aracaju. 

Fontes:

‘João Bebe-Água o rebelde de São Cristóvão’ – De Autoria de Francisco Passos Santos – Chiquinho do Além-Mar 

http://thiagofragata.blogspot.com/2007/09/joo-bebe-gua-o-mito-em-carne-e-osso.html – Blog de Tiago Fragata

O Folclore no Mundo Globalizado

Posted in Cultura, História by micheletavares on 01/06/2009

Por Aryane Henriques e Laura Borges

Professora da Universidade Federal de Sergipe - Valéria Oliveira

Professora da Universidade Federal de Sergipe - Valéria Oliveira

Mitos e lendas do Brasil, lendas e mitos da cultura popular brasileira, contos e lendas populares, Saci-Pererê, mula sem cabeça, festividades e comemorações, curupira são os diversos meios das formas de realizações e prática do folclore brasileiro que definimos como um conjunto de mitos e lendas que as pessoas passam de geração a geração por meio de ensinamentos e da participação nas comemorações e costumes. O Folclore, na verdade, é o exercício da sabedoria do povo, afinal, a sua origem é essencialmente popular.

O Folclore Sergipano é um dos mais ricos do país. Infelizmente, muitos grupos folclóricos encontram-se extintos em vários locais do Brasil, porém aqui em Sergipe eles atuam de forma alegre, viva e rica. Por conta dessa extinção na prática do folclore há uma grande preocupação na preservação de suas manifestações e costumes. Um grande exemplo de folclore sergipano está situado na cidade de Laranjeiras que por sinal no mês de janeiro torna-se a capital mundial do folclore, pois acontece o Encontro Cultural de Laranjeiras com o intuito de reunir diversos grupos folclóricos, folcloristas de todo o mundo.

Visto que precisamos saber mais sobre o folclore brasileiro e também sergipano, pois esse costume anda extinto no cotidiano das pessoas e que há necessidade da passagem desse modo de cultura e manifestação a cada geração, o EmPautaUFS convidou a Professora de História Econômica Geral e do Brasil da Universidade Federal de Sergipe, Valéria Oliveira, para esclarecer o assunto e incentivar a prática do folclore.

EmPauta UFS: É possível haver folclore numa cidade urbanizada? Como reconhecê-lo?

Valéria Oliveira: SIM, NA MEDIDA EM QUE PERCEBEMOS AINDA HOJE DIVERSAS MANIFESTAÇÕES FOLCLÓRICAS ESPECIALMENTE EM BAIRROS CONSIDERADOS PERIFÉRICOS.

EmPauta UFS: Onde a globalização é diretamente um fator de extermínio do folclore?

Valéria Oliveira: EU NÃO DIRIA DE EXTERMÍNIO, MAS DE DESFIGURAÇÃO, UMA VEZ QUE MUITAS DAS CARACTERÍSTICAS DAS MANIFESTAÇÕES FOLCLÓRICAS AS VEZES SE PERDEM POR CONTA DE UMA MAIOR VALORIZAÇÃO DE ASPECTOS ESTRANGEIROS DO QUE DAS TRADIÇÕES LOCAIS.

EmPauta UFS: As pessoas ainda lutam por esse ideal de identidade?

Valéria Oliveira: PERCEBEMOS QUE EM DIVERSOS MUNICÍPIOS, ESPECIALMENTE NO INTERIOR, EXISTEM COMUNIDADES QUE LUTAM PELA PRESERVAÇÃO DE SUAS MANIFESTAÇÕES FOLCLÓRICAS, DE FORMA A INCENTIVAR OS MAIS JOVENS A DAREM CONTINUIDADE ÀS SUAS TRADIÇÕES.

EmPauta UFS: Quais os pontos folclóricos ainda vivos em Sergipe?

Valéria Oliveira: TEMOS ALGUNS EXEMPLOS BASTANTE EMBLEMÁTICOS COMO: LARANJEIRAS, SÃO CRISTÓVÃO, ARACAJU, MARUIM, ESTÃNCIA, ENFIM, CADA MUNICÍPIO TEM SUAS TRADIÇÕES FOCLÓRICAS.

EmPauta UFS: O que a comunidade acadêmica tem feito pelo resgate de tradições?

Valéria Oliveira: DE UMA FORMA GERAL, VÁRIOS INTELECTUAIS VÊM DESENVOLVENDO ESTUDOS SOBRE O FOLCLORE SERGIPANO, NÃO SENDO NECESSARIAMENTE MEMBROS DOCENTES UNIVERSITÁRIOS. ALGUNS NOMES SE DESTACAM, COMO: JACKSON DA SILVA LIMA, BEATRIZ GOES DANTAS, AGLAÉ d’ÁVILA FONTES DE ALENCAR, NÚBIA MARQUES, LUIZ ANTONIO BARRETO, ENTRE OUTROS.
UMA CONTRIBUIÇÃO IMPORTANTE TÊM SIDO O FESTIVAL DE ARTE DE SÃO CRISTÓVÃO QUE DURANTE MUITO TEMPO FOI ORGANIZADO PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE.

EmPauta UFS: De forma prática o que é possível fazer pela vida coletiva das crenças?

Valéria Oliveira: O FOLCLORE, NAS SUAS MAIS DIVERSAS MANIFESTAÇÕES, PODE E DEVE SER PROPAGADO PRIMEIRAMENTE NA ESCOLA E EM SEGUNDO LUGAR NO DIA-A-DIA DE CADA COMUNIDADE, VALORIZANDO OS COSTUMES, AS LENDAS AS CRENÇAS, AS DANÇAS E FOLGUEDOS. CADA UM DESSES ELEMENTOS É IMPORTANTE PARA A RIQUEZA DA CULTURA DE CADA CIDADE, ESTADO E REGIÃO.

“Preservar a memória cultural não é somente guardar o passado a sete chaves como um bem precioso. É, na verdade, libertar o passado para se encontrar com o presente numa relação significativa, onde a cultura e o talento se entremeiam de forma mágica.” (Aglaé D’Ávila Fontes de Alencar)

Jesuítas em Sergipe: uma história pouco conhecida

Posted in Cultura, História by micheletavares on 01/06/2009

Lendas, política, religião, Arqueologia, Antropologia. Tudo se mistura para o entendimento de um processo aparentemente simples como a colonização e o ato de povoar terras

Por Elaine Mesoli

S7300020.psd“O colonizado não é uno. Ele é diverso”.

Foi com essa frase que o Professor Antônio Lindvaldo de Sousa, que ministra as disciplinas História de Sergipe, História e Religiosidade, e da Pós-graduação em Ciências da Religião na Universidade Federal de Sergipe (UFS), marcou nossa entrevista. A partir daí tornou-se fácil entender a maneira como foi feita a colonização de Sergipe.De forma descontraída, ele nos explicou a presença e os motivos que trouxeram a Companhia de Jesus ao nosso Estado e as implicações do processo religioso e político do fato. Durante a entrevista ele nos revela que outras personagens também são importantes no processo da colonização e mostra de forma bastante didática que entender e conviver com as diferenças é primordial não só na atualidade, mas também no passado.Exaltamos os caciques Serigy, Surubi e Aperipê como heróis porque morreram na chamada Guerra Justa. Lembramos também muito mais dos “fidalgos” portugueses. Mas a parte das Missões dos jesuítas no território sergipano fica sempre relegada ao plano de “história de menor importância”, sabendo-se muito pouco sobre o assunto.

Os participantes da Companhia de Jesus foram parte fundamental para o entendimento do que aconteceu no território sergipano entre os séculos XVI e XVIII. Os criadores de gado da Bahia e de Pernambuco precisavam de acesso entre si e Sergipe se situa exatamente entre os dois Estados. Além disso, a região era perigosa por causa dos índios que aqui estavam já fugidos do processo civilizatório, da escravidão a que eram submetidos e da expansão da colonização das novas terras por Portugal. A Igreja Católica também passava por um momento de crise perdendo suas “ovelhas” para o rebanho dos protestantes de Calvino e Lutero e precisava de novas almas. Ajudando na colonização das novas terras, evitava o avanço do protestantismo nessa região. Em termos mais abrangentes, os jesuítas estão em nosso imaginário pelo que aprendemos nos livros didáticos escolares com a figura central de José de Anchieta escrevendo na areia. Nunca os vemos como colonizadores, mas como religiosos que buscavam infundir nos índios noções da religião de Portugal.

 

Em Pauta– Suas aulas são atrativas, os temas bastante bem explanados e você dá início à disciplina falando sempre da tolerância ao “outro”. Quem é esse “outro” e por que esse tema como início?
Antônio Lindvaldo
– É um recurso metodológico que eu uso para que o aluno entenda que existe outra história sem ser aquela oficialmente contada. Para que se entenda essa outra história é preciso entender que existe “um outro”. E saber que ele tem sua própria história e não depende de alguém que chega para contá-la por ele. Por isso, também uso da Arqueologia para entender que esse outro tem uma história muito antes do presente. Quando se trata do século XVI a gente fala “existe os outros que habitavam aqui”, mas eles não podem ser entendidos apenas como a cultura tupinambá,de forma única, mas também como outros povos que aqui existiam.

 

EP- Qual a relação deste “outro” com a colonização de Sergipe?
AL-
Pois é, com relação à colonização de Sergipe, por exemplo, eu uso os outros não só como os primeiros habitantes, os índios, mas como aqueles que são diferentes do modo de ser do índio também. Não podemos cair somente na perspectiva da atualidade de ver diferente o colonizador do colonizado. O colonizado não é uno, ele é diverso. Prefiro falar, então, em “outros”. Dessa forma, quem esta ouvindo entende que a diversidade do mundo, tanto no presente quanto no passado é grande. E nós, em pleno século XXI, temos de conviver com essa diversidade dos outros que são diferentes de nós.
EP- Quem eram os primeiros habitantes?
AL-
Não tem uma comunidade indígena nativa diferenciada de Sergipe, Bahia, Pernambuco e Espírito Santo. O habitante que morava no litoral daqui, o tupinambá possuía um domínio de sul à norte de forma abrangente. Agora, as outras tribos indígenas eram menores e há estudos que mostram isso, mas não temos como apreciar a quantidade e diversidade de tribos que aqui existiam porque não temos documentação para tanto.
 

clip_image002EP- Por que a ação dos jesuítas em Sergipe é pouco pesquisada, já que, assim como na Vila de São Vicente e em São Paulo, foi por meio deles que houve aceitação dos “brancos” pelos índios existentes nas novas terras?
AL-
Na verdade, eles são vistos como alguém que tem um método diferente. Enquanto eles pregam o evangelho e a paz, o colonizador, o criador de gado, utiliza da violência, como aconteceu em 1590 com a chamada Guerra Justa. Como houve colonizadores antes dos jesuítas, os franceses, que contrabandeavam o pau Brasil no litoral sergipano e também um ou outro navegante passando pelo rio são Francisco já passou antes de 1575 e a ação dos jesuítas foi pacífica ficou mais fácil a aceitação.
 

EP- Desde quando se tem notícia dos jesuítas nas terras de Sergipe?
AL-
A ocupação do solo, de fato, foi com os jesuítas em 1575. Eles têm o papel inicial de entrar em contato com os habitantes daqui. O trabalho dos jesuítas era conquistar a alma desses habitantes. Então, mesmo essa colonização sendo pacífica, foi colonização.
 

EP- Como e porque eles chegaram aqui?
AL-
Eles vieram por terra pelo interior da Bahia e já possuíam contatos em Itapicuru, perto de Sergipe. A motivação para o deslocamento da sede da capitania da Bahia, eu diria que tem haver com o mundo em transformação da Igreja e os jesuítas eram porta vozes dos tempos difíceis da Igreja Católica e defendiam interesses da Igreja e, ao mesmo tempo, dos interesses do próprio governador Luís de Brito. Eles foram facilitadores da colonização, tanto que ao lado do padre jesuíta Gaspar Lourenço, vieram um capitão e soldados.
 

EP- De que maneira eles foram registrados pela historiografia sergipana?
AL-
A documentação que nós temos, e que é extremamente importante, é a Carta de Toloza. Um padre jesuíta. Essa carta foi citada em nota de rodapé por Felisbelo Freire. Ela nos permite enxergar meandros, aspectos dos atos dos jesuítas construindo igrejas, promovendo a religiosidade no cotidiano dos índios. Mas não há uma abordagem, um livro específico na documentação sergipana sobre os jesuítas.
 

EP- A cultura dos índios e a dos brancos são bastante diferentes. Como foi o processo de adaptação entre os dois povos?
AL
-Ainda bem que você colocou brancos no plural, porque no processo existe o criador de gado, os soldados, o governo luso-baiano e os próprios jesuítas. Depois aparecem os carmelitas e os capuchinhos. Há uma diferença muito grande nas culturas. Cada um tem processos diferentes de encarar a natureza, de se alimentar, de trabalhar, etc. Alguns historiadores chamam isso de choque cultural, mas além disso, o tupinambá estava num estágio menos desenvolvido de cultura material do que os outros povos, nesse choque, eles saíram perdendo porque na cultura indígena apesar de haver arco e flecha, não havia cavalos ou armas de fogo. Apesar de uma cultura não ser superior a outra, em termos materiais os brancos eram superiores.
 

EP- O primeiro padre jesuíta que aqui chegou foi mesmo o Padre Gaspar Lourenço?
AL-
Nós podemos dizer que há visitas esporádicas antes de 1575 no território de Sergipe, mas colonização em termos de Missão somente a partir de Gaspar Lourenço e João Solônio, que era o companheiro dele.

EP- Porque ele foi escolhido para vir à Sergipe?
AL-
Não foi escolhido a toa. Ele era um homem experiente em Missão. Já havia lidado com índios insatisfeitos com o avanço da colonização e, fundamentalmente, não podemos esquecer que ele era famoso por falar a língua dos índios.

 

EP- O fato dele ter sido discípulo de José de Anchieta influenciou na escolha?
AL-
Se a gente for entender o universo da formação de Gaspar Lourenço, entenderemos quem ele foi e a instituição da qual ele fazia parte. Mas, além disso, precisamos entender quem foram os tutores dele, a escola em que ele estudou e o que ele defendia. José de Anchieta foi um dos tutores de Lourenço, ou seja, alguém que contribuiu para a formação de quem ele foi. Ter sido escolhido para vir à Sergipe num período de crise e com um conflito tênue entre criador de gado e Governo, mostra que ele era um homem corajoso e muito agarrado à sua formação.

 

EP- Até quando os jesuítas permaneceram em Sergipe? Por quê?
AL-
Os jesuítas não foram vitoriosos na colonização de Sergipe no início, porque, se fossem, permaneceriam catequizando. Historicamente, o momento era muito favorável aos criadores de gado. Os representantes na Bahia estavam muito mais pressionados pelos criadores de gado do que pela Igreja. Ou seja, tudo estava a favor para que a colonização não fosse um processo paulatino e educativo como previam os jesuítas. O pensamento era “vamos logo ocupar a terra e escravizar os primeiros habitantes”. Para quê? Para criar o gado e facilitar o intercambio entre Pernambuco e Bahia.

EP- Um importante político de Sergipe do século XIX tornou conhecida uma frase que diz: “Ao evangelho e não às armas, à paz não à guerra, entregou-se à conquista da nossa capitania.” O que ele quis dizer com isso?
AL-
O significado tem haver com a idéia de que o método utilizado pelos jesuítas utilizando a música, o teatro, as procissões, o catecismo e todos os rituais instituídos pela Igreja com o Concílio de Trento, nas reformas vividas naquele período, era diferente dos métodos que usam armas, pressão e exploração.

EP- O que era essa Missão que você falou antes?
AL-
Quem mora no interior geralmente sabe o que é uma Santa Missão. Quando os padres chegam numa comunidade, toda ela pára para recebê-los. Daí tem a ladainha, os sinos badalando, a via sacra, etc. São missionários que chegam num lugar e querem transformá-lo dizendo que lá existem pecadores ou que está possuída pelo demônio. Esses padres não têm moradia fixa e tem como missão levar a fé a quem não tem acesso. No caso dos jesuítas, os padres vão transformar os índios num “bom cristão”. Se a gente pegar a Carta de Toloza está lá o estudo da ladainha dia e noite.

EP- É como um curso intensivo da religião?
AL-
É mais ou menos. As Missões duravam de oito dias a três meses, dependo da Missão. O índio não entendia significados de pecado e de fogo do inferno, mas o conjunto de metáforas que aparecia, como o padre vestido com a batina, levantando a hóstia e o povo cantando. Tudo isso é pedagógico e fazia com que introjetasse no cotidiano dos índios esses rituais.

 

EP- Atualmente existem indícios dessas Missões nos locais onde elas eram instaladas?
AL-
Não, infelizmente nós não temos porque elas eram construídas de pindoba [uma espécie de palha] e esse material com o tempo acaba. O que aconteceu foi que algumas missões viraram igrejas como a Missão de Geru, virou a cidade de Geru e hoje tem uma igreja belíssima. Em Itaporanga temos Tejupeba e em Laranjeiras, Retiro.

 

EP- Havia conflitos entre os índios e os habitantes que vieram morar na região?
AL-
Havia conflitos no litoral. Com o passar do tempo,com a conquista do litoral, o interior continuou sendo o habitat dos índios. Tanto que temos índios até o século XVIII em Sergipe. Depois com a expansão do gado e da cana de açúcar na Cotinguiba, chegou no século XIX e o Governo dizia que não havia mais índios.

EP- Além dos jesuítas, quais outras figuras fazem parte da colonização de Sergipe?
AL-
É um tema interessante porque alguns alunos trabalharam não só jesuítas e criadores de gado em suas monografias. Eu trouxe documentos de Portugal que mostram que houve também mamelucos, que eram homens sem dinheiro ou prestígio, mas por causa da “propaganda” dizendo que quem participasse da Guerra ganharia terras aqui, eles se aventuraram em busca de uma vida melhor. Infelizmente, com a liberdade, eles acabaram nas garras da Inquisição. Esses homens só queriam oportunidade, não queriam escravizar índios nem nada, mas casavam com as índias. Então também temos mais esse personagem.

EP- Agora vamos para um campo mais mítico. Eu já li e ouvi diversas histórias de tesouros deixados pelos padres jesuítas. Essas histórias são verdadeiras ou apenas lendas?
AL
-São ficção. Em Jaboatão tem a história do tesouro escondido pelos jesuítas em túneis subterrâneos, mas são apenas lendas, tanto que até hoje não acharam. É muito interessante, porque você chega na cidade e não encontra marcos dos jesuítas, mas a marca mais forte é a da lenda.

EP- Porque elas surgiram?
AL-
Não existe uma comunidade que não tenha lendas.Todo mundo vive com mitos, hoje, por exemplo, temos as novelas. O ser humano não cria só necessidades físicas de alimentação. Nós precisamos do imaginário. Isso faz parte da construção de uma comunidade. Mas se você me perguntar como surgiu essa lenda lá em Jaboatão, posso dizer que a partir da fantasia encontramos um eixo com a realidade. E o que é realidade? É a presença dos jesuítas que tinham Missões lá. Isso não é só em Jaboatão, mas falam que os jesuítas concluíram um túnel que sai lá em Penedo, em Laranjeiras ou em São Cristóvão também.

EP- O túnel é um tema recorrente quando se fala de jesuítas. Eles tinham o hábito de criar esses túneis?
AL-
Na verdade, como havia muita invasão estrangeira de franceses, holandeses e ataques indígenas, as cidades, muitas delas, tinham escavações subterrâneas para fugir. Principalmente quando tem uma minoria branca e a maioria é indígena, negra e mestiços.

EP- E agora para terminar, uma brincadeira. Você é um historiador. E se considera um bom contador de histórias?
AL-
Todos nós somos! [risos] Conto histórias no dia a dia, faz parte do bate papo informal. Conto história e estórias [mais risos]

EP- Qualquer pessoa pode ser historiador?
AL-
Todos precisam da História. Qualquer pessoa pode se dedicar à História

“No sítio das águas a cidade dos aterros”

Posted in Ciência e Tecnologia, Cidade, Cultura, História by micheletavares on 27/05/2009

Por Allana Andrade (allanarafaela@gmail.com ) e
Nikos Elefthérios (nikos.grego@gmail.com)

maria augusta

Professora Maria Augusta Mundim Vargas. Foto: Allana Andrade

Após assistir uma palestra com a professora sobre a relação do homem com a natureza e  seu entendimento com a mesma, acrescentando a preocupação com o meio ambiente e a crescente expansão de Aracaju, nos sentimos motivados a compartilhar e aprofundar esse tema, com um enfoque diferenciado, tocando em pontos pouco abordados como a falta de conhecimento da área que foi aterrada em nossa capital e a interferência da construção de barragens na água do rio São Francisco, no trecho que passa pelo estado de Sergipe.

Para tanto, a equipe do Em Pauta UFS entrevistou Maria Augusta Mundim Vargas (*), professora voluntária do Departamento de Geografia e dos Núcleos de Pós-Graduação em Geografia (NPGEO) e de Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA), que além dessas questões discorreu sobre o meio ambiente no litoral sergipano, a revitalização do Baixo São Francisco, além de temas como: sociedade, cultura e desenvolvimento urbano em Sergipe.

Em Pauta UFS: Como e quando a senhora iniciou seu trabalho com o meio ambiente?

Maria Augusta Mundim Vargas: Eu trabalho com meio ambiente desde Estocolmo 72a década de 70. Em órgãos de meio ambiente desde 1975, numa época em que pouco se falava ou quase não se falava em meio ambiente. Foi logo depois da “Estocolmo 72”. Mas a preocupação era conhecer, fazer o diagnóstico do meio ambiente, […], nesta época eu morava em Minas Gerais. Quando mudei para Sergipe, na década de 80, comecei a trabalhar desenvolvendo pesquisas na Administração Estadual do Meio Ambiente (ADEMA), órgão recém criado em Sergipe, com a função de organizar a relação do poder executivo estadual com o meio ambiente.

Em Pauta UFS: Quais as principais pesquisas realizadas com a sua colaboração na ADEMA?

Maria Augusta: Na ADEMA realizamos dois grandes trabalhos. O primeiro, foi o “Zoneamento Ecológico do Estado”, que considero um marco para Sergipe. E o outro, foi um estudo muito completo dos manguezais, do caranguejo-uçá (que é uns dos produtos mais importantes da região, que está incorporado na alimentação e cultura dos sergipanos) e sobre os caranguejeiros. Tiveram outros estudos, sobre a desertificação, resíduos de lixo no município, mas acho esses dois os mais importantes.

Em Pauta UFS: Quando a senhora resolveu voltar para a academia?

Maria Augusta: Enquanto trabalhava na ADEMA pesquisando, senti uma necessidade muito forte de continuar a minha formação. Eu sentia “sede” da academia. Foi quando comecei a fazer mestrado na UFS, sendo inclusive da primeira turma do curso de mestrado que a universidade criou. “A natureza das políticas no sertão sergipano”, foi o tema. Colocando na natureza das políticas, um duplo sentido, o da natureza das políticas e das políticas agindo sobre a natureza. Uma vez na academia, não quis mais sair, então fiz uma opção de vida e larguei o trabalho como técnica na ADEMA optando por ser professora de graduação e mestrado na UFS, dando aulas em disciplinas ligadas à natureza como: Planejamento Ambiental, Biogeografia, Leituras de ECO-92 Cartas, além do tema de    mestrado. Meu doutorado foi iniciado na França, com o professor Ignacy Sachs, um estudioso que apresentou trabalhos sobre eco-desenvolvimento e desenvolvimento sustentável tanto na “Estocolmo 72” quanto na “ECO-92”, porém foi concluído em Rio Claro (São Paulo), novamente com um tema ligado à natureza. Dessa vez estudei todo o Baixo São Francisco, focando na vida das pessoas que moram na região ribeirinha, a forma como viam as mudanças realizadas nele, de que maneira absorviam as políticas que alteravam o meio ambiente, além do papel da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF) neste trecho.

Em Pauta UFS: Você e outros pesquisadores criaram um mestrado interinstitucional. Como é esse projeto?

Maria Augusta: Após terminar o doutorado, eu, o professor Rodrigo Ramalho, de Alagoas e a professora Vania Fonseca, começamos a discutir a criação de um mestrado em desenvolvimento relacionado ao meio ambiente, mas queríamos fazer um projeto diferente, que agregasse outras instituições. Era um mestrado interinstitucional e regional onde o que se lecionasse aqui na UFS fosse ensinado, por exemplo, na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). A palestra que vocês assistiram era a aula inaugural das turmas de mestrado que ensinei no período entre 1995 e 2007. Nesta aula eu desconstruía o conceito de natureza. Porque a natureza é natural, mas o conceito dela é algo construído culturalmente. No mestrado, mostrava que cada pessoa podia contribuir para uma mudança, de postura, de ação, de mudança de costume. A visão romântica da natureza, por exemplo, é a de pessoas que não possuem respeito pela natureza, que estão longe dela, que ficam idealizando. No caso das oficinas, eu faço tanto para crianças de 5ª série como para adultos, estive em Goiânia recentemente e apresentei essa palestra no mestrado, porque acho importante a gente quebrar, desconstruir esse conceito.

Em Pauta UFS: Qual é a relação dos sergipanos com o meio ambiente?

Maria Augusta: Essa relação entre sergipanos com Sergipe, não é diferente da dos paulistas com São Paulo, ou em outros estados. Vou fazer um panorama geral sobre esse assunto. Essa relação mantém-se na utilização da natureza como um recurso, mas um recurso de exploração, que vem fazendo com que espécies desapareçam, além de sua utilização para a geração de lucros. O que difere uma região da outra é uma tomada maior ou menor de conscientização e normatização dos meios. Tomamos como exemplo movimentos de artistas ou a opinião de pessoas da área, como nas reportagens que vi, há alguns dias, em que artistas levaram para o congresso um número grande de assinaturas para que seja barrada a ocupação da Amazônia, utilizem-na de forma sustentável e que empresas internacionais parem de explorar madeira de qualquer forma e passem para a exploração sustentável. Além disso, a verba destinada a secretarias como da cultura e do meio ambiente (em Aracaju não existe a de meio ambiente) é inferior àquelas recebidas por outras secretarias, gerando um problema, pois necessita de muito investimento para os projetos.

Em Pauta UFS: E na cidade de Aracaju como se dá essa relação?

Maria Augusta: Aracaju foi uma cidade planejada entre rios, por causa do porto, em uma área com água em abundância. Localizada à beira do rio Sergipe e tendo como limite sul o rio Vaza Barris, com um emaranhado de canais ao redor, um cenário típico de estuário tropical. Nessa época a idéia do racionalismo, do progresso, que o meio ambiente deveria ser “vencido pela técnica” era o que predominava. Surgiu então, a idéia da técnica vencer através do aterro e começaram a aterrar. Eu digo que “no sítio das águas a cidade dos aterros”, pois a cidade foi criada a partir de aterros. Nós temos

montagem

A Orla de Atalaia em diferentes épocas. http://www.aracaju.se.gov.br/154anos

um padrão de ocupação mais próximo ao séc. XIX. Mas de que forma podemos manter um padrão de ocupação que está mais próximo do século XIX, se estamos em 2009? Isso é inaceitável! Portanto coloco dois marcos nesse processo:

Na década de 70: com o boom da urbanização do Brasil em um dos estudos mais importantes feitos na capital, dizia-se que para pensar a expansão de Aracaju era preciso pensar a drenagem da cidade, a macro drenagem.

Na década de 90: Participei do chamado Plano Diretor de Aracaju. Este pensava em consolidar a malha na cidade que já estava habitada ou planejar a ida para a zona de expansão, que assim é chamada até hoje, área que vai do Aeroporto até o Mosqueiro. A expansão em Aracaju só poderia ser liberada depois de um estudo sobre a macro-drenagem porque a região possui problemas com canais paralelos ao mar e não há como simplesmente construir sem saber para onde essa água vai escoar.

Exatamente como está acontecendo agora com as chuvas, não tem chovido mais do que o normal, só houve um pequeno aumento pluviométrico, mesmo assim estamos tendo problemas. Uma coisa é mudar, ter a consciência, e a outra é agir em conjunto, juntar a sociedade e as esferas municipal e estadual.O que ocorre é o poder público à reboque doa acontecimentos e assim não tem órgão que dê conta de Aracaju, de Sergipe e do país.

Em Pauta UFS: Como se deu os aterros realizados em Aracaju principalmente no Bairro 13 de Julho e no Jardins?

Maria Augusta: Onde hoje é a beira do rio do Bico do Pato (local da armação da árvore de Natal) até a foz era uma praia. Começou o aterramento dos canais que iam do Augusto’s para o rio. Aterraram o mangue, sem ter para onde escoar, a água “arrastou” a avenida e a praça inteira, temos um exemplo de aterro “vivo” dentro de nossa cidade. O problema foi que, tudo que o rio tirou dali, como as pedras, ele depositou no Havaizinho próximo ao projeto Tamar, causando o afastamento do mar, pois estuários têm dessas mudanças. O shopping e o bairro Jardins, não existiam, a área era coberta por manguezais, existiam fazendas na região da Praça da Imprensa e próximas à Av. Hermes Fontes. Onde hoje é a Pizzaria Tarantella e a Escola Parque de Sergipe eram sedes das fazendas, sendo que, ainda vemos casas com arquitetura e resquícios de fazenda. No lugar da Nova Saneamento existiam apenas dunas com inúmeros pés de mangaba.

Em Pauta UFS: Então Aracaju não foi uma cidade planejada como as pessoas falam?

Maria Augusta: Aracaju foi projetada no passado, tendo apenas o que hoje é o centro da cidade realmente planejado e construído em forma de um

tabuleiro de xadrez. Depois disso o crescimento da cidade seguiu de maneira desordenada, sem acompanhamento ou controle, por falta de dados e estudos reais. Apenas em 1979 fizeram o primeiro sobrevôo em nossa cidade, para conhecer a região, mas não sabiam como chegar àquela realidade. Os responsáveis pegavam um mapa da cidade na prefeitura apenas com as quadras e avenidas desenhadas, não tinham noção de morros, lagoas e curvas de nível. O mesmo acontecia na zona de expansão, lá é como uma lâmina, uma fitinha muito estreita do mar, repleta de canais, com lagoas por todo o caminho, então não é só construir, temos que planejar para onde a água vai depois. O mapeamento de curvas de nível só foi realizado em 2000 (no primeiro governo Déda).

Em Pauta UFS: Quais são os impactos da transposição do Rio São Francisco em Sergipe?

Maria Augusta: A transposição não atinge Sergipe porque antes de chegar aqui a água passa pelas usinas de Paulo Afonso e Xingó. A discussão da transposição é histórica, vem desde os tempos do império colonial (quando viam o rio como um “oásis”, o “Nilo brasileiro”), até a construção de barragens para a geração de energia que não seria para o Nordeste, a agroindústria com a CODEVASF, a irrigação e modernização da área. A questão da transposição não é transpor o rio, e sim criar o projeto de irrigação que é algo caro. Isso tudo depende do cunho político. Pois tem uma realidade a ser feita, mas até chegar a melhorar a qualidade de vida da população vai demorar. Sergipe fica com o final do rio, recebendo uma água dura, “sem vida”, pois é uma água de barragem. Isso afeta a fauna, pois os peixes da piracema não conseguem subir para se reproduzir. Com a construção das barragens sobrou para nosso estado uma água cada vez mais sem vida, onde os ribeirinhos têm estranheza e não reconhecem o rio, não sabem lidar com ele. Além disso, há a perda da força do rio, que fica para a erosão e causa o adentramento do mar quando se encontram. O projeto de revitalização do Baixo São Francisco é a grande reivindicação de Sergipe e dos sergipanos, sobretudo dos ribeirinhos. Na cidade de Propriá se fazia uma semana de cultura e identidade, onde toda a representação política e cultural se encontrava para discutir o Baixo São Francisco.

Em Pauta UFS: Quais são os problemas enfrentados pelo rio São Francisco? E o que devemos fazer?

Maria Augusta: São vários os problemas, como o esgotamento sanitário

http://www.canoadetolda.org.br

Área do Baixo São Francisco. http://www.canoadetolda.org.br

nas bacias, os fazendeiros que barram os afluentes dos rios que passam em suas terras, desmatando próximo para pastagens, desviando e represando a água. Além disso, tem muitas cidades próximas às margens que polui com esgotos a exemplo de Propriá e Penedo.

Precisamos revegetar para continuar construindo, pois o rio está debilitado depois da construção da usina de Xingó, cuidar das bacias e realizar trabalhos que envolvam secretarias de agricultura, educação e pesquisa.

(*) Graduada em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1974), mestrado em Geografia pela Universidade Federal de Sergipe (1988) e doutorado em Geografia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1999).

(DES)MEMÓRIA

Posted in História, Política by micheletavares on 27/05/2009
Goisinho.

Goisinho.

Por Bárbara Nascimento (babi_nascoli@yahoo.com.br) e Henrique Maynart (h_maynart@yahoo.com.br)

“O medo seca a boca, molha as mãos e mutila. O medo de saber nos condena a ignorância; o medo de fazer nos reduz a impotência. A ditadura militar, medo de escutar, medo de dizer, nos converteu em surdos e mudos. Agora a democracia, que tem medo de recordar, nos adoece de amnésia; mas não se necessita ter Sigmund Freud para saber que não existe o tapete que possa ocultar a sujeira da memória.” (A desmemória/2 – Eduardo Galeano).

 

“Passei 21 dias no 28º BC. A alegação era de que eu fazia parte do Partido Comunista Brasileiro.”

Preso durante o período mais cruel e truculento da história política brasileira – a Ditadura Militar, Antônio José de Góis, o Goisinho, militante do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) fala sobre a Lei de Anistia e os seus poucos avanços em 30 anos.

EmPauta: Como o senhor adentrou na militância política?

GOISINHO: Entrei na política no processo de retomada de luta contra a Ditadura Militar – início dos anos 70, no movimento estudantil. Um momento em que praticamente tudo era proibido. O decreto 477* impedia qualquer atividade estudantil, de professores e de funcionários. Nosso objetivo era somar força com todos os cidadãos que lutavam pela redemocratização ou democratização no país, realmente nunca tivemos uma democracia.

EP: O que foi o episódio da Operação Cajueiro** do carnaval de 1976?

G: Quando foi anunciada a abertura política lenta e gradual do governo Geisel, a Esquerda Armada já tinha sido eliminada do contexto político nacional. O que acontece é um processo de desmantelamento das organizações ainda existentes (movimento estudantil, sindical e de partidos políticos clandestinos), principalmente com a morte de lideranças do Partido Comunista Brasileiro (Vladimir Herzog, Manoel Filho). A abertura política deu-se, na verdade, porque o regime ditatorial já não era mais possível do ponto de vista político e econômico. Então, lançam um acordo político para que não houvesse um avanço de massas. Dentro desse quadro foi aprovada a Lei de Anistia. Lei que até hoje está em vigor sem os devidos reparos, mesmo sem ter validade alguma nos fóruns internacionais, porque é uma lei que fere os direitos humanos. A lei brasileira diz que a tortura é crime inafiançável, imprescritível e não anistiável. Como podemos ter uma lei Anistia que fere a tudo isso? A lei de Anistia deveria pelo menos cumprir com quatro aspectos: a verdade dos fatos, a reparação, a justiça e as mudanças constuticionais e nós ainda estamos ‘capengando’ na reparação, que não corresponde às injustiças ocorridas naquele período.

EP: Como o senhor avalia a abertura dos arquivos da ditadura militar e o posicionamento do Governo Federal?

G: A censura aos documentos é coisa absurda. Os documentos servem para que se conheça a realidade e se apurem os fatos. Corremos o sério risco de ter esses documentos nas mãos de poucos. Esses dados quando não são de acesso ao público servem para atender a interesses de alguns. Naturalmente o que deveria haver era a concessão de quem sofreu tortura para a abertura desses documentos. E hoje quem mais procura essa documentação são justamente os que foram vitimados. Estudos mostram que onde se apuram esses fatos (casos do Chile, Argentina, Peru) a democracia está mais consolidada. Qual o jovem brasileiro que hoje conhece a história da ditadura militar? Não existem espaços nas escolas para se discutir isso. O que existe é uma contradição; o ministério da justiça fala de uma forma, o governo de outra. Se o governo tem vontade, apuram-se os fatos, mas essa vontade política não é demonstrada.

EP: E a mídia? Qual o papel da imprensa nesse contexto?

G: A mídia coloca isso como sendo revanchismo dos movimentos sociais. A imprensa cumpre o papel novamente de estar ao lado do Estado. Em vez de auxiliar na clareza do processo.

EP: Qual é a diferença fundamental entre os processos de redemocratização do Chile, da Argentina se comparados ao do Brasil?

G: Nós tivemos uma eleição indireta mesmo com o fim da ditadura. Um país quando passa por uma transformação a primeira coisa é a criação de uma constituinte, a do Brasil só veio em 1988. Os setores conservadores que participaram da ditadura assumiram o poder. Ainda hoje temos no governo pessoas que sustentaram a ditadura militar, seja no parlamento, no judiciário, no executivo.

EP: Ultimamente temos acompanhado uma explosão de produtos da indústria cultural que falam sobre o período ditatorial, principalmente do ano de 68. Até que ponto essas produções auxiliam ou atrapalham o esclarecimento do processo?

G: Se usada a verdade são instrumentos importantes. Mas, infelizmente poucos setores da sociedade vão conhecer, são produções independentes. Fica realmente nós falando para nós. Toda pesquisa, estudo, matéria que sai sobre a ditadura é de fundamental importância. Porque aparentemente a ditadura mais parece um período em branco de nossa história, pouco se quer falar sobre. Se perguntarmos quem foram os presidentes do Brasil de 1965 a 1985, dificilmente alguém diz, mas se perguntarmos que foi Getúlio Vargas, Juscelino (…). Então se procura até esconder e mídia dá pouca importância, só faz uma análise geral dizendo que foi um período de importante crescimento da economia brasileira.

EP: O senhor foi recentemente anistiado dentre outros, Benedito Figueiredo, João Augusto Gama, Poeta Mário Jorge. Quais são as limitações e o papel que a Comissão de Anistia pode cumprir no processo de redemocratização de fato do país?

G: A comissão do Ministério da Justiça tem muitas deformações. Desde a Lei de Anistia até a sua aplicabilidade. A lei pode ser interpretada de maneiras diferentes a depender da formação da Comissão de Anistia. A Lei de Anistia não repara dor, sofrimento, não existe lei que seja capaz disso. A reparação é de perdas que você teve na sua vida profissional, intelectual e até física. E a lei não está sendo interpretada dessa forma. Eu pedi equiparação salarial dos vinte e seis anos que passei no Banco do Estado de Sergipe e não tive os mesmos direitos que os outros funcionários, eu tive perdas durante toda a minha vida funcional. Eu me formei em Economia em 1977, o Banco não tinha nem quadros. Todos os formandos daquela época foram admitidos como técnicos do Banco, eu nunca fui. Eu requeiro isso, essa reparação. Quem era que te daria um emprego em empresas privadas? E nos órgãos públicos era necessário um atestado de bons antecedentes, um documento da ditadura. E de forma errônea foi reparado o tempo que eu passei preso e nãos os prejuízos que tive em minha vida profissional. A reparação é dada, equivocadamente, a contar da data em que você foi preso até o ano de 1979, ano da Anistia. Ao passo que pessoas que defenderam a ditadura foram indenizadas e recebem o que o ministro do supremo recebe – salário máximo. E muitos vitimados estão até hoje sem ser reparados. O que falta é o Estado assumir suas responsabilidades, assumir que é culpado e reparar os danos causados. Não se pode admitir que pessoas que foram braços da ditadura sejam indenizadas. O caso mais citado desse país é o de Carlos Heitor Cony, que durante a ditadura fez editorial defendendo esse sistema e hoje recebe aposentadoria de uns 20 mil reais.

EP: Em relação alguns atores daquele momento político, que hoje se utilizam do fato de ter sido preso, torturado de forma meramente eleitoreira.

G: Não da para se imaginar que em 1968 se faça um encontro para estudantes sem que os agentes da repressão tenham conhecimento. Deslocar cinco mil estudantes para Ibiúna sem ser percebido pela polícia seria impossível. A prisão realmente foi em massa, por felicidade de o momento não ser de tanta truculência e tortura. Muitas dessas pessoas que estão no congresso nem sequer foram mais militar em movimento estudantil. A maioria estava lá por questões diversas. Você vê o que é o José Serra hoje em dia. (risos).

EP: Como o senhor avalia o papel da imprensa naquele momento e qual o papel que ela cumpre na atualidade? A Folha de São Paulo participou ativamente da Operação Bandeirante***, e, nos trinta anos da Lei de Anistia, lança um editorial chamando a Ditadura de Ditabranda.

G: Com raríssimas exceções, todos (meios de comunicação) apoiaram a ditadura. Inclusive, há aqueles que institucionalizaram o golpe, caso da Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Globo, que cresce o seu monopólio graças ao regime.  O que a Folha de São Paulo quer? Negar toda a história que ocorreu e que ela apoiou. E essa imprensa é a mesma que nós temos hoje com seus mesmos proprietários; Nenhum deles vão dar espaço para que se discuta seriamente essa questão. A democracia que temos no Brasil é eleitoreira, não existe liberdade de imprensa. O que a mídia reproduz? Simplesmente o que os grupos econômicos têm interesse. Concessões públicas nas mãos de políticos, um verdadeiro monopólio. Com os Franco no caso de Sergipe, os Magalhães na Bahia. Que democracia é essa que nos temos?

EP: Quais são as condições reais e objetivas que o povo brasileiro precisa construir para que exista uma anistia de fato ao que aconteceu no regime militar?

G: Hoje você não o Estado, a universidade, o movimento estudantil discutindo os problemas da sociedade. Nós estamos vivendo uma crise geral, uma crise ética, moral, econômica, política e não se nada. Ninguém quer discutir isso. Muitas vezes quando você vai discutir isso, vem alguém e diz: “Esquece! Pra que discutir essa questão?” Essa questão não atinge a sociedade, o que atinge é a pobreza, a fome, a violência, a falta de educação e de saúde. Dentro de um contexto você pode até discutir isso, porque você está discutindo a postura que tem o Brasil. Porque tortura é um crime imprescritível, inafiançável e ninguém está na cadeia no estado brasileiro por ter torturado alguém. Então, precisamos de um envolvimento muito grande, de uma consciência e de educação também. O Brasil precisa de uma revolução na educação. Infelizmente, o próprio movimento que contribuiu para essa democratização do país está atrelado ao Estado, que é o movimento sindical. Nós temos a dita esquerda brasileira no poder e o que temos é 1% de reajuste salarial, numa inflação de 5%. Você comunista no poder e você tem plano diretor de Aracaju enterrado por interesse das empresas. Uma loucura.

EP: Hoje é muito mais interessante discutir anistia dos que foram executados, dos que passaram por homicídio premeditado, dos que foram torturados na cadeia. Qual é a discussão que tem que ser feita em paralelo? A tortura de 30 anos atrás dói do mesmo jeito que a tortura que a gente tem hoje.

G: A gente não discute isso porque quem está lá é pobre e preto. A anistia política atingiu a todas as classes sociais, mas muito mais a classe média do que o povão. Você via operário, mas você tinha uma parcela significativa da classe média. Bota-se uma algema num banqueiro e temos uma crise nacional entre o judiciário, executivo e o legislativo. E do povo torturado na cadeia, quem fala? Ninguém abre o bico.

EP: Nós podemos dizer que temos trinta anos de quê?

G: Trinta anos de luta para que se avance e se tenha uma sociedade democrática. Há altos e baixos, mas é um processo que vem se avançando.  Agora com a crise, vem a perda dos direitos sociais, de emprego (perda de plano de saúde, que o trabalhador não tem dinheiro para pagar), o que aumenta a demanda da saúde publica que não dá resposta. Então, eu vejo que a gente tem abertura para a discussão de um processo democrático, mas não vivemos nele. Falta motivação da sociedade brasileira para discutir esses aspectos sociais e realmente avançar. Somos um país rico nos recursos naturais. Nós temos alternativas energéticas e nós não aproveitamos isso. Eu acho que falta educação! Sem educação, sem ciência, sem isso nós vamos continuar a vender a matéria-prima, para eles fazerem e ganhar dinheiro do outro lado.

* Define infrações disciplinares praticadas por professores, alunos, funcionários ou empregados de estabelecimentos de ensino público ou particulares, e dá outras providências.

** A repressão mais brutal vivida pelo PCB de Sergipe, levando à prisão a maioria dos seus militantes, estudantes, líderes do movimento sindical.

*** A Operação Bandeirante (OBAN) foi um centro de informações, investigações e de torturas montado pelo Exército do Brasil em 1969.

Artesãos ou Neo-Hippies?

Posted in Cultura, História by micheletavares on 14/04/2009
 
 

Como se autodenominam  pessoas que seguem o estilo de vida propagado pelos Hippies

Por Thayza Darlen Machado

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Através do movimento underground da contracultura eles destruíram inúmeras barreiras morais e ditaram regras que hoje fazem parte da cultura ocidental. Passados quase 50 anos desde que se tem idéia dos primeiros filetes de jovens indignados com o estilo de vida fomentado pelo sistema econômico e social da época, é comum a afirmação de que os hippies não existem mais e de que a sua ideologia se diluiu no tempo.

Datam-se os anos 50 como o marco de origem das iniciativas que posteriormente formaram o movimento. É quando a geração beatnick, jovens rebeldes, contagiados pelo orientalismo, e embalados pelo som do rock and roll,  ‘acorda’ para o condicionamento repressivo que a cultura capitalista propaga. Mas é mesmo durante a década de 60 que os hippies se firmam como grupo revolucionário. Seus adeptos: uma população jovem, de classe média, fruto do baby boom do pós-guerra.

Uma observação pouco acurada do que representou o movimento pode levar a afirmação precipitada de que aqueles jovens eram simplesmente crianças inocentes cheias de ideais utópicos que só pensavam em drogas e sexo. Por outro lado, uma análise aprofundada recairia na compreensão de que aquelas crianças inocentes, que adoravam o sexo e a droga, conseguiram abrir os olhos de toda uma geração através dos seus ideais utópicos. Essa perspectiva é muito bem explicitada nas palavras de Martin Lee, no documentário “Hippies”, produzido pelo canal fechado History Channel: “Havia um tipo de ‘experimento da orgia’ que ia além das drogas e do sexo. Era um experimento sobre um estilo de vida: experimentos em arte, expressão política – como expressar desaprovação pela política governamental, fosse pela guerra do Vietnã ou qualquer outra coisa”.

 

hippies-2-reduzido2Ainda segundo o vídeo, é em 21 de janeiro de 1966 em São Francisco, mais especificamente na rua Haight Ashbury, com a realização de um famoso festival financiado pela mídia, O The Trip’s Festival, que os hippies começam a se organizar em comunidades e chamar a atenção da mídia. Através desse espetáculo o LSD (ácido lisérgico) ganha popularidade e transforma-se no guia de libertação e expansão mental desses jovens. O psicodelismo torna-se característica particular do grupo. As sensações de efeito visual distorcido e do aguçamento das cores provocadas pela droga influenciaram a arte, a música e a concepção de mundo dos hippies. Além disso, como explica o escritor Peter Coyote, “para muitos, a droga era um meio de transcender, de nos fazer ir mais longe do que imaginamos ser capazes. De tentar fazer uma sociedade mais humana e aprazível”.

 

No Brasil, quando da mais intensa propagação dos ideais disseminados pelos hippies, estávamos já sob o domínio do Regime Militar. O veículo mais expressivo que deu voz ao movimento de contracultura foi o jornal O Pasquim, na coluna Underground, escrita por Luiz Carlos Maciel, de 1969 a 1971. Nela o jornalista apresentava artigos e análises sobre os acontecimentos mundiais que propagavam a contracultura. Porém, a parte majoritária do jornal, adepta de uma esquerda tradicional, não compactuava dos mesmos interesses do jornalista em relação ao tema, o que desencadeou a saída do mesmo em 1971.

Foi nessa mesma década de 70 que o cantor John Lennon anunciou o fim do “sonho”. Atualmente acredita-se que a filosofia hippie se esvaeceu. Que, como cita Claudio Prado, presidente do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital, em entrevista à jornalista Flávia Pardini: “Desapareceu o hippie de calça rasgada, porque a calça rasgada agora está na boutique”. Enaltecendo a apropriação da vestimenta e estilo hippies pela indústria da moda.

Remanescentes ou  afeiçoados?

Mas, se os hippies não existem mais, o que são aquelas pessoas que ganham a vida vendendo artesanato? Na maioria das vezes, eles se autodenominam artesãos, levam vida parcialmente alternativa, compactuam com a tecnologia e estão sempre atentos à manipulação do sistema. É o que explica o artesão Rodrigo Mago: “As pessoas vê a gente assim de cabelo grande e diz ‘olhe lá, um hippie!’.Eu não sou hippie. Eu não tenho dinheiro, nem uma Combi toda pintada. Eu vendo arte, vivo disso. Os hippies lá daquele tempo eram tudo cheio da grana. No festival lá de Woodstock os cantores mais famosos foram contratados com grana alta; eles bancavam tudo”. Na opinião de Rodrigo, os hippies da década de 60 eram jovens ricos que saíam de casa com seus carros coloridos. E que tão logo se desiludiam com o movimento, retornavam ao aconchego dos seus lares.

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Rodrigo Mago na praça Fausto Cardoso - Centro de Aracaju

Rodrigo começou a questionar-se sobre as imposições da sociedade ainda aos seis anos de idade, quando o seu pai lhe dizia que ele deveria cortar o cabelo porque assim deveriam fazer os homens. “Eu gostava do meu cabelo grande. Se a natureza deixava o meu cabelo crescer mesmo eu sendo homem, então eu não tinha que cortar”.  O seu primeiro contato com hippies deu-se entre os seis e sete anos, na Praça da Catedral, onde a mãe o deixava numa oficina de pintura para poder ir trabalhar: “eu ficava olhando aquele povo do cabelo grande, assim feito o meu. Mas, eu tinha medo de me aproximar. Um dia eu mostrei eles a minha mãe e ela me levou lá e comprou uma pulseira pra mim”, conta.  Rodrigo, hoje com 29 anos, saiu de casa aos 15 e mora na Chapada Diamantina. Acredita que a tecnologia pode ser uma grande aliada para encurtar as distâncias. “A internet é massa, permite que você fale com um monte de gente distante. Eu posso conversar com uma amiga minha lá do estrangeiro. Eu não posso fugir do sistema, eu só tenho que ter consciência do que ele quer de mim de verdade, e fazer com que eu use o que ele me oferece pra poder ferir ele”, defende.

 Outro caso bastante singular é o de Eduardo. Com o seu sorriso leve, barbicha alongada e discurso pacifista, há nove anos leva vida nômade. Habitou países como Bolívia, Peru, Argentina e, atualmente, o Brasil. Não fosse pelos traços andinos, cabelo negro e liso que teima em permanecer ajustado, e a sua posição decidida ao afirmar a morte da ideologia colorida, ele poderia ser encarado como um dos raros remanescentes da tribo revolucionária dos anos 60. Mas, é enfática a sua posição de que hippies não existem mais. “Aquela pureza, aquele amor de antes, não existe mais. As pessoas não miram mais as outras nos olhos. Não há comunidades vivendo em harmonia como houve naqueles tempos”, desabafa.

Por sua vez, o hippie Adriel acredita que os lendários hippies ainda existem. “Mesmo sendo poucos eles existem. Se você vive de arte, não tem uma casa pra morar, acha que a droga ajuda você a abrir a mente, quer um mundo de paz e amor, você é hippie. Eu sou hippie”, comenta.

Se existem ou não, hippies espalhados pelo mundo que compactuam com os mesmos ideais erigidos pelos jovens da década de sessenta, parece ser uma questão de ponto de vista. É fato, porém, que o movimento balançou e destruiu vários dos códigos culturais solidamente construídos pela velha cultura. E suas influências foram ainda mais além. Segundo professor e escritor americano, Stanford Fred Turner, em entrevista à Folha de São Paulo, os hippies, unificados na pessoa de Stewart Brant, tiveram grande influência na construção do modelo de internet: “Vamos imaginar a região de San Francisco em 1971, 1972. A era dos hippies, do rock and roll havia passado e San Francisco era o centro disso. O pessoal do computador, na época, estava fora da contracultura. Eles não eram “os bacanas”. Uma vez perguntei a um deles por que se aproximou de Brand. ‘Porque Stewart Brand arrumava namoradas’, comenta. Assim, Brand e a contracultura trouxeram um valor social que eles não tinham. Queriam ser legais, arrumar namoradas, ter estilo. Mais tarde, no início dos anos 80, quando a contracultura já havia morrido, pessoas como Brand se voltaram para os pesquisadores em computação -que passaram, então, a ser as pessoas “bacanas”- e os ajudaram a recuperar seu status cultural. 

‘Cajueiros dos Papagaios’ 154 anos depois

Posted in Cultura, História, Política by micheletavares on 08/04/2009

Como o ‘Arraial do Santo Antonio’ do Aracaju se tornou a Capital de qualidade de vida no Nordeste

Allana Rafaela (allanarafaela@gmail.com) e  Joanne Mota (joannemota@gmail.com)

mapaPopulação de 536.785 habitantes, de acordo com a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) de 2008. Área total de 181 km², densidade demográfica de 2.874, 60 hab/km² e altitude 4m. Terra dos papagaios e caranguejos, dos cajueiros frondosos, das mangabas e dos coqueiros, dos muricis e araçás, cidade de povo ordeiro, trabalhador, diligente e hospitaleiro. Já sabe de qual município estamos falando? Tais características são do município brasileiro que é capital do menor Estado da Confederação, Sergipe. Esta é Aracaju, uma cidade que tem a história cheia de lances dramáticos, às vezes até pitorescos, que há 154 anos nasceu de uma resolução da Assembléia Provincial da época, fato que alterou, significativamente, a história do seu Estado.

Aracaju é uma jovem cidade de 154 anos, construída a partir de uma decisão do então governador da província, Ignácio Joaquim Barbosa, que resolveu mudar a capital de São Cristovão e instalá-la na foz do rio Sergipe. Ao expandir rumo ao sul do estado, a nova Capital também ocupou os estuários dos rios Poxim e Vaza-Barris, o que garantiu o desenvolvimento econômico do estado à época. Além do porto, razão que fundamentou a transferência da capital, Aracaju possuía culturas que sustentaram seu desenvolvimento, como as culturas da cana-de-açúcar, atividade produtiva do vale do Cotinguiba; algodão, especialmente os trapiches, que nutria as fábricas têxteis e as vilas operárias no novo município.

Segundo pesquisa realizada pelo poeta e historiador Thiago Fragata, a mudança da metrópole não resultou apenas da iniciativa do Presidente Inácio Barbosa, mas também de fatores internos – originados na Província – e externos, que resultam de causas políticas e econômicas que norteavam o cenáriocana_de_acucar1 nacional no século XIX. “A cultura do açúcar era o principal produto de exportação de Sergipe, e com sua capital localizada no interior do Estado, no município de São Cristovão, o escoamento da produção tornava-se difícil. Daí a justificativa para a fixação do centro de decisões político e econômico na área litorânea do Estado”, acrescenta.

Para a pesquisadora e historiadora Lenalda Andrade, a transferência da metrópole foi baseada na articulação governamental que dominava a política brasileira no século XIX. O país era marcado por uma ‘política de conciliação e trabalho construtivo’, reflexo das grandes iniciativas econômicas do Barão de Mauá, que expirava a modernização e dirigia a uma ampliação territorial, política e econômica. Segundo ela, Sergipe vivia um momento muito bom economicamente, mas necessitava de um ponto estratégico para que o Estado conseguisse acompanhar a modernização em curso impulsionada pelo desenvolvimento industrial. “Inácio Joaquim Barbosa foi aracaju-taboleiro1um pioneiro e revolucionário, a mudança da Capital foi um marco histórico para Sergipe e essa mudança aconteceria de qualquer forma, pois São Cristovão, mesmo sendo uma cidade estabelecida, ainda apresentava limitações, o que fundamentou de vez a transferência”, ressalta a historiadora.

Assim, em 17 de março de 1855, a colonial São Cristovão deu lugar ao povoado Santo Antônio de Aracaju, que logo depois se tornou Aracaju, segunda capital planejada do Brasil. O engenheiro Sebastião José Basílio Pirro fez um plano que se resumia a um alinhamento de ruas em linha reta, dentro de um quadrado de 1.188 metros, que formam quarteirões simétricos que lembram um tabuleiro de xadrez, a fim de desembocarem no Rio Sergipe.

Mas nem tudo foi fácil com a transferência da metrópole, politicamente geraram-se muitas discussões que deram origem ao aparecimento de grupos adversos no julgamento do ato. Segundo o historiador José Calazans Brandão da Silva, formaram-se duas correntes de opinião em torno dajoao-bebe-agua1 mudança, o Partido Liberal, no poder durante toda a primeira metade do século XIX, defendia a economia da região do Vaza-Barris (São Cristovão e Itaporanga); e o Partido Conservador, por sua vez, defendia a economia do Vale do Cotinguiba (Maruim, Japaratuba, Santo Amaro e Laranjeiras). Este cenário dividiu os pontos de vista das respectivas populações e dos intelectuais da época, pois agora a nova Metrópole seria composta de gente humilde, pescadores e oleiros, que habitavam em casas de palha sem nenhuma arquitetura predial para receber o feito.

Ao realizar um olhar comparativo da segunda metade do século XIX com a segunda metade do século XX, a pesquisadora Lenalda Andrade, diz que as opiniões contraditórias foram e são naturais no desenvolvimento político de qualquer nação. E mesmo Aracaju não possuindo uma estrutura básica de cidade, conseguiu em poucos anos atingir um status considerável de capital. “Esse pensamento otimista não povoou a antiga Capital São Cristovão, e protestos legais foram levados à Câmara Municipal da antiga metrópole e manifestações públicas foram feitas, estas com o intuito de descredibilizar a nova capital e os políticos que haviam influído para a transferência naquela época”, completa.

Para o historiador Thiago Fragata, com a Mudança da Capital, deu-se a falência da economia sancristovense uma vez que a maioria dos negócios dependia da elite burocrática. O êxodo para a Aracaju foi a única alternativa para muitos. “A Câmara de Vereadores chegou a escrever um protesto ao Imperador D. Pedro II, que visitou a cidade em janeiro de 1860, sem efeito. O comerciante João Nepomuceno Borges, conhecido como João Bebe-Água, dizem ter juntado voluntários para impedir o translado dos cofres públicos, viu seu plano esvaziado, foi ridicularizado como patriota louco e maltrapilho pelos agentes da manobra política”.

Construção de uma nova Capital

Com a mudança da metrópole, Sergipe passou o final do século XIX estruturando sua nova Capital para receber a elite da época. No inicio do século XX, já com certa estrutura, a nova Capital floresce política e socialmente, o que impulsiona o desenvolvimento industrial, principalmente da indústria têxtil.

industriaA pesquisadora Lenalda Andrade destaca que o desenvolvimento da indústria no início do século passado foi fundamental para complementar o setor econômico do Estado. Ela lembra que até então as atividades econômicas eram essencialmente agrícola, e que esse crescimento econômico garantiu a Sergipe o aperfeiçoamento de novas formas econômicas que se destacavam no cenário nacional naquela época. “O desenvolvimento da indústria sergipana no início do século XX possibilita ao Estado um crescimento muito favorável, o complexo têxtil passou a se articular com o capital comercial, expandindo assim o comércio de confecções. A partir daí constatamos uma intensificação e diversificação da indústria sergipana”, explica a pesquisadora, destacando a importância da Sudene e da Petrobras no processo de expansão econômica e social do Estado.

Lenalda Andrade ainda acrescenta que o estado de Sergipe apresenta um bom histórico de aproveitamento no que diz respeito ao ambiente da economia brasileira, sobretudo a partir dos anos de 1960 com a chegada da Petrobras no Estado. “O Brasil dos anos 90, por exemplo, nos traz a construção de uma trajetória cada vez melhor, com mais dinamismo das exportações e elevação das reservas, além de políticas sociais mais ativas com impacto na distribuição de renda e no consumo popular”, explica. “O potencial do mercado nordestino mostrou às grandes indústrias a expansão de consumo das classes. A partir de 1995, o desempenho industrial de Sergipe superou a média do nacional, segundo dados do IBGE e da Secretaria de Estado de Planejamento”, complementa a pesquisadora.

Quanto ao quadro atual de Sergipe, o IBGE e o Conselho Regional de Economia de Sergipe (CORECON) destacam a histórica concentração espacial da indústria no leste sergipano, que inclui a cidade de Aracaju. Os órgãos exemplificam destacando que “a construção civil concentra mais de 90% de suas indústrias no leste sergipano, dado semelhante ao setor de alimentos e bebidas. A indústria de calçados é a única exceção, com 43% da produção localizada no sertão”.

Segundo informações no site da Companhia de Desenvolvimento Industrial e de Recursos Minerais de Sergipe (CODISE), Sergipe é pioneiro na região nordeste na adoção de uma política de organização do espaço urbano para a implantação de projetos industriais. O Distrito Industrial de Aracaju (DIA) foi projetado e construído ainda na década de 70, impondo-se como um dos mais importantes instrumentos utilizados pelo Poder Público para consecução de sua política de atração de investimentos para o território sergipano. A partir disso, o Governo de Sergipe ampliou a política de implantação de distritos e núcleos industriais em diversos municípios, buscando a interiorização do desenvolvimento econômico-social, tendo em vista a sua atuação no processo de geração e redistribuição de riquezas.

Dessa forma, o setor industrial sergipano poderia descentralizar-se e desenvolver-se por todo o Estado. De acordo com o site do Conselho Regional de Economia, a descentralização do setor industrial é um desafio para o governo de Sergipe, que agora se associa a essa tendência. O mercado interno tem grande potencial de crescimento, e já apresenta intenções de investimentos em vários setores produtivos.

Para Lenalda Andrade, essa política de interiorização econômica surgiu para ordenar o crescimento dos municípios sergipanos. A pesquisadora destaca que devido a falta de políticas públicas mais claras, municípios como São Cristovão, Nossa Senhora do Socorro, Barra dos Coqueiros, Laranjeiras, Maruim e Santo Amaro das Brotas não puderam acompanhar o desenvolvimento ocorrido em Aracaju. “O que observamos hoje é uma Capital rodeada de cidades dormitórios, essas pessoas abastecem principalmente o setor terciário de nossa Capital. Isso reflete o desfavorecimento destes municípios e demonstra o acanhamento dos investimentos econômicos nestas localidades”, confirma a pesquisadora.

Segundo dados do IBGE em 2008, Aracaju possui 536.785 habitantes em sua dimensão política, no entanto quando olhamos para sua dimensão econômica se verifica a soma das populações dos municípios de Nossa Senhora do Socorro, Barra dos Coqueiros, Laranjeiras e São Cristovão – totalizando mais de 780 mil habitantes formados pela Grande Aracaju -, localizada no litoral, cortada pelo Rio Sergipe, antigo Vale do Cotinguiba, e pelo Rio Poxim.

O hoje…

Depois de 154 anos de desenvolvimento político, econômico e social a pequena Aracaju se torna uma Capital paradoxal, pois é possível ver entre suas obras faraônicas o jeitinho provinciano peculiar do aracajuano. Ainda se pode encontrar vizinhos sentados em cadeiras às portas das casas nos fins de semana, mediante às inúmeras opções de diversão; um número infinito de bicicletas trafegando à medida que o número de carros parece maior que o de habitantes; shoppings e lojas cada vez maiores enquanto as pequenas mercearias lutam bravamente pela sua permanência; carroças perambulando em meio aos carros importados; carnaval fora de época nos trios elétricos contrastando com marchinhas nos bailes e blocos de rua durante a festa de momo; bairros nobres com mansões e residenciais arrojados, e bairros tradicionalistas, onde nem se cogita a possibilidade de alterar a arquitetura. Essa todos nós conhecemos. É Aracaju, a capital de Sergipe.

08-de-julho

*Imagens de arquivos históricos da Capital.

Muito além das quatro linhas

Posted in Esporte, História by micheletavares on 21/01/2009

Por Carlos Vitor e Jean Cristian

 

Século XVI: Escócia, Reforma Protestante. Década de 20: Espanha, tomada do poder pelo general Miguel Primo de Rivera. Estes dois acontecimentos, aparentemente sem nenhum ponto de similaridade entre si, marcam o eixo central da história de dois dos maiores clássicos do futebol europeu e por que não dizer, mundial. As disputas entre os escoceses Glasgow Rangers Football Club e Celtic Football Club, na cidade de Glasgow e entre os espanhóis Fútbol Club Barcelona e Real Madrid Club de Fútbol são muito mais do que “simples” jogos de futebol. Representam disputas de cunho religioso, social e político.

celtic-football-club1rangersQuando os protestantes chegaram à Escócia em meados do século XVI, proporcionaram limpezas étnicas em algumas cidades católicas, executando vários seguidores da religião sediada no Vaticano. Porém, já no século XIX, os católicos voltaram a povoar várias regiões da Escócia. A cidade de Glasgow foi uma delas e, diante da situação de miséria imposta pela Grande Fome da Batata, observou a chegada de vários imigrantes irlandeses aos seus domínios. Imigrantes que, sentindo-se acuados e inferiorizados numericamente decidiram fundar, em 1888, um clube de futebol. Temendo as investidas protestantes diante de sua fé e dos seus jovens, o padre Walfrid criou o Celtic, patrocinado pelo arcebispo da cidade.¹ Logo, jogando por uma razão, com um intuito claro, a equipe hoje sediada no estádio Celtic Park, venceu quatro das seis ligas disputadas.

Disputa entre jogadores de Celtic e Rangers

Disputa entre jogadores de Celtic e Rangers

Bandeiras da Irlanda e do Reino Unido empunhadas pelos torcedores de Celtic e Rangers, respectivamente.

Bandeiras da Irlanda e do Reino Unido empunhadas pelos torcedores de Celtic e Rangers, respectivamente.

Em resposta à iniciativa católica, os protestantes de Glasgow queriam uma equipe que fizesse frente ao Celtic e impusesse sua superioridade. O Rangers, fundado 16 anos antes, identificado com ideais franco maçônicos, extremamente monarquista e que não tinha no segmento religioso sua maior característica, começou a ativar a sua veia protestante com maior fervor assim que alguns confrontos vitoriosos diante da equipe verde e branca se sucederam.

Estádio Celtic Park.

Estádio Celtic Park.

Diante deste quadro não é de se surpreender que grupos radicais de torcedores se enfrentem violentamente a cada partida entre os rquirrivais e que o número de ocorrências nas delegacias e nos hospitais cresça de modo gritante. ² Brigas que começam a ser provocadas, dentre outros momentos, a partir de insultos mútuos nas arquibancadas. Enquanto

Provocações e insultos.

Provocações e insultos.

 os torcedores do Rangers, com vestimentas cor de laranja³, entoam cantos ofensivos ao papa como o “Simply the best”, de Tina Tuner que vira um sarcástico “F… the pope!”, os rivais do Celtic chegam a exaltar as ações terroristas do grupo extremista irlandês IRA.

 
Estádio Ibrox Park, "casa" do Rangers

Estádio Ibrox Park, "casa" do Rangers

Os dirigentes de ambas as equipes, com o passar dos anos, enxergaram no duelo uma grande oportunidade para lucrarem financeiramente. Exaltando a disputa religiosa, mas, sem necessariamente correspondê-la no âmbito dos negócios. Formando o que ficou conhecido como “The Old Firm”, ou A Velha Firma. Lançando mão de ações como abrir um espaço, que durante muito tempo foi vetado, para jogadores de várias religiões em seus elencos, os homens fortes dos dois clubes almejam formar equipes cada vez mais competitivas a ponto de disputar de igual para igual com grandes nomes do futebol europeu como o Milan, da Itália ou o Real Madrid, da Espanha.

Por falar na Espanha, um outro clássico do futebol que atrai as atenções de uma parcela considerável dos admiradores do futebol é “El Clásico” Real Madrid versus Barcelona. Quando essas duas potências do futebol mundial se enfrentam, simbolizam para os seus seguidores muito mais do que uma partida de futebol. É um espaço de afirmação de identidade nacional.

Real Madrid Club de Fútbol

Real Madrid Club de Fútbol

 

Em meio ao crescimento dos ideais nacionalistas e de afirmação de suas culturas regionais como fatores preponderantes para a consolidação de nações independentes que emergiu das regiões formadoras do território da Espanha, o general Miguel Primo de Rivera assumiu o poder do país. País que, até hoje sente muita dificuldade de ser identificado como tal, já que é formado por várias regiões que possuem sua própria cultura, seus próprios costumes, e até mesmo sua língua singular. Essa verdadeira

Fútbol Club de Barcelona

Fútbol Club de Barcelona

partilha entre micro nações dentro de um território politicamente delimitado como nação fez com que, durante anos o selecionado de futebol não obtivesse resultados expressivos nos torneios que disputou. Salvo os feitos de 1964 e o mais recente, de 2008, quando a seleção espanhola venceu a Eurocopa, torneio de seleções mais importante da Europa.

Primo de Rivera impôs várias sanções às regiões que se opunham a constituição do Estado nacional espanhol. E foi a partir daí que a cidade de Barcelona se tornou símbolo da resistência aos comandos dos governantes militares. E mais tarde, quando da subida ao poder do “Generalísimo” Francisco Franco essa disputa se fortaleceu nos campos de futebol.

Francisco Franco

Francisco Franco

Admirador assíduo do esporte, Franco assistia a todas as partidas tanto da seleção espanhola como do clube que virou ícone futebolístico do poderio da capital, o Real Madrid4. “Para o Generalíssimo, as vitórias da seleção e do Real Madrid eram também suas próprias vitórias.” Conta o jornalista Franklin Foer em seu livro “Como o futebol explica o mundo – Um olhar inesperado sobre a globalização”. E em suas ofensivas militares, traduzia o seu ao ódio ao FC Barcelona em investidas contra o estádio e contra as instalações do rival, chegando ao ápice de ordenar a prisão e execução do então presidente do clube, o esquerdista Josep Sunyol.

Os catalães torcedores do Barcelona têm em seu time, que se autodenomina

Torcedores do Barça

Torcedores do Barça

“Mès que un club”, ou Mais que um clube, uma representação de sua identidade nacional e em seu estádio, o Camp Nou, um espaço para despejarem todas as suas indignações aos regimes que cercearam a Cataluña durante muitos anos5. Regimes centralizados em Madrid. Entretanto pode ser injusto afirmar que o principal time da capital espanhola possa ter se favorecido de sua posição estratégica para conseguir êxito em suas conquistas, apesar de sua relação estreitamente ligada ao governo. Um exemplo muito claro dessa relação é o fato de um dos apoiadores do general Franco era o homem que dá nome ao estádio do Real Madrid, o ex-jogador e ex-presidente do clube, Santiago Bernabéu. 

Estádio Santiago Bernabéu

Estádio Santiago Bernabéu

Zambrotta (esq.) - hoje no Milan - e Guti, disputam bravamente "El Clásico".

Zambrotta (esq.) - hoje no Milan - e Guti, disputam bravamente "El Clásico".

Confrontos como estes demonstram vão de encontro ao que muitas pessoas pensam a respeito do futebol: um simples jogo onde vinte e dois jogadores “se matam” de correr atrás de uma bola. Verdadeiras representações da vida de grandes grupos sociais, como as descritas acima, apontam para a verdade de que por muitas vezes o limite das quatro linhas e dos muros de um estádio são muito pequenos para abrigar tamanha riqueza de significados.

1. O arcebispo de Glasgow fez questão de deixar explícito o objetivo daquele evento na ata de fundação do clube: Fornecer fundos às assembléias da sociedade Saint-Vincent de Paul d’East End no intuito de manter a assistência alimentar às crianças necessitadas das missões de Saint-Marie, Saint-Michel e Sacré-Coeur. (Descrito no livro “Vencer ou morrer – Futebol, geopolítica e identidade nacional, de Gilberto Agostino)

2. Registros do livro de ocorrências da polícia de Glasgow em 1999, sobre atos cometidos por torcedores do Rangers:
Karl McGraorty, 20 anos atingido no peito por uma flecha quando saía de um pub do Celtic.
Liam Sweeney, 25 anos, espancado por quatro agressores num restaurante chinês.
Thomas McFadden, 16 anos, apunhalado no peito, estômago e virilha – assassinado depois de assistir ao jogo num pub irlandês.

3. Alguns torcedores do Rangers são admiradores de Guilherme de Orange, chamado por eles de “Rei Billy” que depôs a monarquia católica em 1688.

4. Vários clubes espanhóis tiveram que mudar seus nomes oficiais. A chancela de selo da coroa real foi concedido a times que tinham identificação com poder central. Antes de ser conhecido com esse nome o Real Madrid era somente Madrid CF. O Barcelona também teve seu nome modificado pelos ditadores, de FC Barcelona para Barcelona FC, um verdadeiro ultraje à língua catalã.

5. Um dos gritos de guerra da equipe: Visca el FC Barcelona! Visca Catalunya! (Vida longa ao FC Barcelona, Vida longa a Catalunha)
Trecho do hino do clube:
O estádio não é mais que um grito:
Nós somos la gente blaugrana…
Pouco importa de onde viemos,
Do Norte ou do Sul,
Em um ponto nós estamos de acordo:
Uma bandeira nos torna irmãos,
Blaugrana no vento…
Um grito de bravura
Faz conhecer nosso nome no mundo inteiro:
Barça, Barça, Barça!

Museus aracajuanos apresentam baixos índices de visitação

Posted in Cultura, História by micheletavares on 19/12/2008

Por Carol Correia

Pesquisa: Carol Correia e David dos Santos

 

Museu do Homem Sergipano

Museu do Homem Sergipano

Aracaju, mesmo sendo uma capital pequena, com uma população de pouco mais de 500.000 habitantes, possui mais de 10 museus. Porém, a população, em geral, desconhece a função e a existência deles e tem-se como conseqüência o não-aproveitamento desses espaços.

 

Mas, para que serve um museu? Segundo a definição citada no site da Fundação Casa Rui Barbosa (http://www.casaruibarbosa.gov.br/paracriancas/museu_oquee.asp), “o museu é uma casa de criação onde se preserva a memória de uma cidade, de um país, de uma pessoa, enfim é o lugar de histórias interessantes que nos faz viajar no tempo. Mas, apesar de contar histórias que já aconteceram, o museu é o lugar para pensarmos o presente e refletirmos sobre o nosso tempo”.

 

 Para Raí Ramos, estudante de Artes Visuais e estagiário do Museu do Homem Sergipano, o museu é importante pois ele ‘armazena’ a história de uma sociedade. “É ele quem se encarrega de contar as histórias que não se guardam na memória, conectando o passado e o presente. Assim, conhecer como as coisas evoluíram nos faz dar valor aos nossos antepassados”, explica.

 

Catarine de Souza, estudante de Serviço Social e estagiária do Memorial de Sergipe, também reconhece o valor desta instituição para a sociedade. “Os próprios objetos do museu conseguem informar e tornar o conhecimento interativo”. Para ela, um dos motivos que acarretam a falta de visitas ao museu deve-se à falta de divulgação, mas o grande problema é a falta de conhecimento quanto à importância do museu por parte dos aracajuanos.

 

Museu do Homem Sergipano

 

Museu do Homem Sergipano

Museu do Homem Sergipano

O Museu do Homem Sergipano (MUHSE), fruto dos anseios de professores de Antropologia da Universidade Federal de Sergipe que desejavam divulgar e preservar as memórias do seu estado, hoje possui exposição permanente, além de exposições temporárias durante todo o ano. Seu acervo é constituído de peças provenientes de escavações arqueológicas, como objetos do mobiliário, louças e cerâmica, ou adquiridos por compra e, em sua maioria, por doações. Ele também é composto de fotografias, telas, maquetes e documentações manuscritas, impressas ou bibliográficas.

Durante 2008, o MUHSE ofereceu várias exposições, como a ‘Culturas Pré-Históricas em Sergipe’, exposição comemorativa do aniversário de Aracaju, ‘Índio em Sergipe’, ‘Ciudad Invadida’, ‘UFS – 40 Anos’, ‘Folguedos do Ciclo Natalino’, entre outras. Este ano lançou o projeto ‘Cinema no Museu’ que consiste em exibir filmes, geralmente relacionados à história, no auditório do próprio museu, acompanhados de um palestrante para debater o assunto tratado e responder perguntas.

 

Entretanto, o índice de visitas do Museu do Homem Sergipano é baixo se comparado ao de museus como o Museu Afro-Brasileiro de Sergipe, localizado em Laranjeiras, e ao Museu de Arte-Sacra, localizado em São Cristóvão. A média de visitas mensais do MUHSE é de 98 pessoas (dados de 2008), enquanto o Museu Afro-Brasileiro de Sergipe consegue atingir 1000 visitantes.

 

A grande maioria desse público é constituída de crianças e adolescentes que fazem a visita levados pelas escolas. “Há a presença de poucos universitários, alguns professores, poucos turistas e poucos profissionais liberais, ou seja, pouca gente que não esteja inserida nesse grupo” diz Raí Ramos.

 

Segundo Artur Alexandre Gomes, estudante de Artes Visuais e estagiário do MUHSE, a razão para a existência de um público tão restrito se refere aos recursos de divulgação. “A parte publicitária daqui do museu é limitada à colagem de cartazes pela UFS e por colégios” protesta.

 

Apesar de reclamarem da pouca difusão do museu dentre os aracajuanos, os próprios funcionários reconhecem que sua estrutura é pouco eficiente. “Aqui temos a presença de cupins e bactérias, que danificam as mesas de exposição e até os objetos” apresenta Raí Ramos. “O museu parece apenas uma casa com objetos dentro, não existe nem isolamento entre as peças e o público”, completa.

 

Segundo a coordenadora do MUHSE, Neila Cardoso, uma reforma estrutural está prevista para o ano que vem. “Esperamos que finalmente essa reforma saia do papel para que assim, o museu possa contar melhor a história de Sergipe” diz.

 

Memorial de Sergipe

 

Memorial de Sergipe

Memorial de Sergipe

O Memorial de Sergipe, mantido pela Universidade Tiradentes (UNIT), completará 11 anos de existência em janeiro do ano que vem. Seu acervo de mais de 13 mil peças, constituído em sua maior parte através de doações, é composto de documentos textuais, fósseis, máquinas rudimentares, artesanato, mobiliário, louças, armamentos, medalhas, entre outros objetos.

 

O roteiro de visitação do espaço contém a história da UNIT, Sergipe Pré-Colonial, Personalidades Sergipanas, Cangaço, Segunda Guerra, Rosa Faria, Cotidiano Sergipano, Religiosidade, Artesanato, Folclore e Meios de Comunicação. Além disso, oferece vários conjuntos de objetos como a Coleção Rosa Faria, com pinturas em louças e azulejos, a Coleção Véio, com esculturas em madeira (dentre elas as que entraram para o Guiness Book), a Coleção Vera Ferreira, com objetos relativos ao cangaço e a Coleção José Augusto Garcez, com fósseis e objetos etnográficos.

 

Seu público é bem semelhante ao dos outros museus aracajuanos, porém no Memorial de Sergipe as visitas dos universitários são bastante freqüentes. “Às vezes, grupos grandes das turmas da UNIT vêm aqui para receber a monitoria” diz Catarine de Souza.

 

Memorial da Bandeira

 

O Memorial da Bandeira, outro museu aracajuano, mantido pela Prefeitura de Aracaju, por meio da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Esportes (Funcaju), foi inaugurado em 2004 e tem como objetivo divulgar os símbolos cívicos do Brasil República e do Brasil Império. No museu, além de bandeiras, um outro atrativo é o viés diferenciado da História apresentado aos alunos dos ensinos fundamental e infantil que constituem, majoritariamente, o público visitante.

 

 “No colégio nós aprendemos que o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral. Aqui, tentamos abordar o tema de uma maneira diferente: dizemos que ele foi tomado e colonizado pelos portugueses”, explica Bianca de Carvalho, coordenadora do Memorial. Ela revela que o museu também tem problemas quanto ao número de visitas. “Alunos do curso de Museologia da UFS fizeram um trabalho e diagnosticaram que o grande problema da falta de visitas é a pouca divulgação que nós temos”, conta.

 

Apesar das dificuldades, os museus de Aracaju continuam procurando melhorar sua estrutura e exposições. Todos têm projetos de exposições temporárias para 2009. O Museu do Homem Sergipano, por exemplo, pretende continuar com o ‘Cinema no Museu’, realizar um seminário sobre Pré-História, exposições a respeito do Descobrimento do Brasil, do Folclore e dos projetos do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC).

 

Informações:

O Museu do Homem Sergipano está localizado na rua Estância, 228, Centro.

O Memorial de Sergipe está localizado na Av. Beira Mar, 626, 13 de Julho.

O Memorial da Bandeira está localizado na Praça da Bandeira, Centro.

 

 Fotos: Carol Correia