Técnica de Produção, Reportagem e Redação Jornalística

Traquinagem no Campus: Direto do Lixo

Posted in Jornalismo by micheletavares on 27/10/2009

Entre uma reportagem e outra sempre sobra um tempinho para cuidar da limpeza da caixa de emails, apagar spams, responder mensagens… até que quase tudo possa cair na lixeira do seu computador! Quase tudo… Foi nessas idas e vindas da seleção virtual diária que chegou ao Empautaufs o trabalho que está sendo produzido por um grupo de estudantes do curso de Audiovisual, e como nosso blog é igual a coração de mãe…

Surpresa: não é que ficou bacana! Confira: http://www.youtube.com/watch?v=L9A9RV7Yuho

O programa Direto do Lixo têm a intenção de explorar o universo que está ao nosso alcance e a partir dele conseguir passar para o internauta um tipo mesclado de informações. A idéia surgiu a partir do blog www.diretodolixo.blogspot.com, criado por Daniel Lolo (Apresentador) que após algumas postagens juntou-se com Arthur Pinto, Brucce Cabral e Márcio Oliveira para tentar realizar a criação de um programa na web. A idéia saiu do papel e foi colocada em prática.

O vídeo mostra uma pequena apresentação do Programa Direto do Lixo que logo estará com seu primeiro episódio sendo veiculado na internet (youtube).

Ficha Técnica
Apresentação: Daniel Lolo
Direção Geral: Arthur Pinto
Roteiro: Daniel Lolo
Produção: Brucce Cabral e Marcio Oliveira
Som/Imagem: Arthur Pinto
Edição/Finalização: Arthur Pinto

Alceu Valença e suas influências

Posted in Jornalismo, Perfil by micheletavares on 23/06/2009

Alceu Valença. Disponível em: www.olindaurgente.blogspot.com

Por Allana Rafaela

O dia 1 de julho de 1946   poderia ter sido mais um dia qualquer, mas não no agreste pernambucano, na cidade de São Bento do Una (na Fazenda Riachão). Para Décio e Adelma era um dia especial, nascia seu filho Alceu de Paiva Valença, este que anos mais tarde se tornaria para a música brasileira um grande cantor e compositor, para o Nordeste um sinônimo, além de receber de todas as classes e em todas as regiões do país admiração e carinho.

Autor de canções como: “La Belle de Jour”, “Morena Tropicana”, ”Anunciação”, “Como Dois Animais” e “Coração Bobo”. Desde cedo começou a se apresentar. Em 1950, (tendo então quatro ou cinco anos) ficou com o segundo lugar em um Concurso Infantil no Cine Teatro Rex de Capiba cantando “É Frevo Meu Bem”.  Daí em diante não parou mais. A partir de 1968 começa a participar de festivais de MPB em Recife e no Rio de Janeiro. Forma-se em Direito (1969), mas abandona a carreira de advogado para se dedicar à música.

Em 1979, faz apresentações na Escola de Artes Visuais (RJ) intitulada “Alceu Valença em noite de au revoir”, logo depois segue para uma temporada de shows na França, gravando informalmente em Paris o disco “Saudades de Pernambuco” (ainda permanece inédito no Brasil). Percorre cidades européias como Lyon (França), Nyon (Suíça) e o interior da Alemanha. Regressa ao Brasil e apresenta o show “O Cantador” no Teatro Ipanema (RJ).Discografia

Em 1980, lança o LP “Coração Bobo” que revela seu nome para o grande público no Brasil com a música de mesmo nome do disco, que “estourou” nas rádios do país. Mas é com o disco “Cavalo de Pau” que o sucesso é confirmado. Mais de 500 mil cópias em poucos meses, sendo o primeiro estouro de vendas em sua carreira.

Dono de uma voz incomparável, Alceu Valença em suas canções, mistura influências dos negros maracatus, cocos e repentes de viola, além de utilizar guitarra, baixo elétrico e mais tarde o sintetizador eletrônico em suas canções, dando vida nova aos ritmos regionais, como o baião, coco, toada, maracatu, frevo, caboclinhos e embolada e repentes cantados com bases rock’n’roll.

Alceu é um artista simples, em seus shows utiliza roupas leves, quase sem adereços (exceto o chapéu que já é marca registrada), interage e alegra o público que responde às brincadeiras, canta, dança, se diverte e quando se despede deixa a platéia emocionada e pedindo “bis”. Porém, diferente de muitos artistas, ele é engajado, se preocupa com questões ambientais e culturais. Em entrevista para o jornal O Estado de Mato Grosso do Sul em dezembro de 2007 ele se diz preocupado com o meio ambiente, e cita o disco “Espelho Cristalino” (1977) que “foi inspirado nos rios que não corriam mais por causa da seca. Me preocupo muito com isto ainda.”  . E cita a música ‘Papagaio do Futuro’, que foi “criada por causa da crise no petróleo na época”.

Quanto à parte cultural ele critica certas bandas de forró “porque fazem um forró que não é forró. São estas bandas que misturam um nome com outro, como ‘alhos com bugalhos’ entende?”, analisa sobre as modas que aparecem diariamente na mídia. “ficam querendo vender que a moda é ser ‘emo’, ser triste. Eu acho que deveriam aproveitar e se suicidarem todos. Porque no Brasil tem que ser o contrário. Ter alegria e cumplicidade. Isto sim é a música brasileira.” E finaliza fazendo comparações entre bandas: ”Hoje comparam a banda Calypso com a Nação Zumbi, que é muito melhor e uma das maiores bandas de rock do Brasil. Mas no nosso país o que é bom tem que ser imitação”

Visite http://allanandrade.blogspot.com/2009/06/o-motorista-do-taxi-lunar.html e saiba como foi o show de Alceu Valença em Aracaju no último dia 20.

Spider Jerusalem, o maior jornalista dos quadrinhos

Posted in Jornalismo, Perfil by micheletavares on 22/06/2009
O Famigerado Spider Jerusalem

O Famigerado Spider Jerusalem

Por Nikos Eleftherios

Para se falar de Spider Jerusalem, devemos também falar sobre o jornalismo em si. Isso é necessário, pois um não pode ser visto mais sem o outro, em uma atualidade em que os jornais são apenas porta vozes do governo e das grandes corporações, Jerusalem escapa à regra, trazendo vergonha, choque e até arrependimento para a sociedade, pois segundo suas próprias palavras “Abrir a barriga do mundo e farejar as entranhas, é isso que fazemos”.

Um grande inimigo da polícia violenta e intransigente de nossos dias, curiosamente queria ser um atirador de elite quando criança “E não queriam todos?”. Spider cresceu nas docas da Cidade, onde teve uma infância difícil, com pais bêbados e lagartos como café da manhã, almoço e jantar todos os dias. Seu pai era motorista de ônibus e sua mãe dona de casa. O colunista para o jornal diário da Cidade The Word também lembra que na sua juventude não podia tomar banho de chuva “Era ácida, derretia você todo até o esqueleto” e dificuldades de aprendizado “Tínhamos que construir nossas próprias armas, para não dar uma vantagem injusta aos professores”.

Em busca Da Verdade 

Tendo uma estranha e controversa carreira profissional, Jerusalem afirma já ter sido prostituto e revela que foi stripper com apenas oito anos de idade, é estranho imaginar Jerusalem como o mais próximo a um jornalista, no termo romântico da palavra, na imprensa atual.

Um guerreiro e um aventureiro – respectivamente protegendo e indo em busca à verdade – o colunista é um misantropo declarado, pois procura defender sua audiência de figuras de autoridade opressoras e injustas, o público apenas têm que seguir suas determinações, que mesmo assim devem ser questionados, não aceitos imediatamente.

Nada escapa às suas críticas e, como já foi dito, o próprio jornalismo é sua vítima. “Você não aprende jornalismo na escola, você aprende escrevendo a merda do jornalismo” e “Jornalismo não é sobre planos e cartilhas, é sobre reação humana e iniciativa criminal” são algumas das declarações feitas para sua assistente Channon em seu primeiro dia sob a tutela de Spider.

Um verdadeiro bastardo

De acordo com o editor do The Word Mitchell Royce “Spider precisa ser odiado para poder funcionar”.

Não se pode esperar coisas muito boas de alguém movido por ódio.

Spider em seu apartamento

Spider em seu apartamento

Rabugento, mal-humorado, pavio-curto, violento, viciado, beberrão, fumante ávido e boca-suja. Ele é odiado por quase toda A Cidade, e amado pela pequena parte restante.

Mesmo desprezando todos aqueles ao seu redor, Jerusalem sabe ser bastante leal aos poucos que considera amigos e sempre procura defender essas pessoas daqueles que pretendem machucá-las.

Apenas uma figura contraditória

É o que se pode falar sobre Spider Jerusalem. Jornalista que não segue o manual, defensor dos injustiçados e um opressor, crítico da alienação, porém viciado em drogas de todos os tipos de cores. E ele seguirá assim, procurando A Verdade a todo custo, abrindo o caminho a tiros se necessário.

*Spider Jerusalem é o personagem principal da HQ Transmetropolitan, escrita por Warren Ellis e desenhada por Darick Robertson. Mais informações em http://anodobastardo.wordpress.com/2008/02/20/licoes-de-spider-jerusalem-sobre-jornalismo-essa-coisa-ingrata-com-a-qual-pretendo-um-dia-me-torturar/ .

“O impresso ainda é o melhor veículo de transmissão de idéias e de análises profundas.”

Posted in Cultura, Educação, Jornalismo by micheletavares on 26/05/2009
O professor e jornalista Carlos Eduardo Franciscato em entrevista concedida ao site “Nós da comunicação”

O professor e jornalista Carlos Eduardo Franciscato em entrevista concedida ao site “Nós da comunicação”

De forma bastante otimista, o jornalista e professor, da Universidade Federal de Sergipe,  Carlos Eduardo Franciscato, opina sobre o futuro do jornal impresso, as possibilidades do jornalismo no ambiente virtual e a situação das empresas sergipanas de impresso.
Por Thayza D. Machado (dmthayza@gmail.com)

“Professor, faço a disciplina Técnicas de Produção e Reportagem Jornalística com a professora Michele. E, como atividade, devo produzir uma entrevista. Resolvi falar sobre a crise atual que vem enfrentando o jornalismo impresso. O senhor poderia ser meu entrevistado?”. Foi dessa forma que, timidamente, convidei o professor.

Franciscato é jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe, doutor e mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia e atual presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPjor). Sua disponibilidade imediata com o “Sim, podemos começar?” me deixou ainda mais segura sobre a escolha da fonte ao passo que ensinou, na prática, o que os livros já haviam alertado: O jornalista deve estar sempre preparado. Eu não estava. Dois dias depois, entrevistava o professor Franciscato. A fluidez do discurso, o freqüente sorriso entremeando as explanações, ajudara a estudante de jornalismo a dissipar o nervosismo.

A seguir, o professor discorre acerca do futuro do jornal impresso, as possibilidades do jornalismo no ambiente virtual e a situação das empresas jornalísticas de impresso no estado.

EmpautaUFS: O fechamento de empresas jornalísticas que trabalham com impresso, tais como o Rock Montaim News e o Seatle Post-Inteligencer, acelera o debate sobre um possível fim do jornal impresso. Qual a visão do senhor em relação ao fato?

Carlos Franciscato: Nós temos nestes anos recentes, realmente, uma avaliação de quanto tempo nós teremos os jornais impressos no modelo que nós conhecíamos até a virada do século. De fato ele vem se transformando tão drasticamente que está perdendo a sua identidade tradicional. As empresas de jornal impresso não são apenas empresas de jornal impresso, são ofertadoras de serviço: elas ofertam serviços de informação; elas sabem que essa é a transição que elas têm que fazer. Então não é apenas se dedicar a produzir o jornal, eu tenho que produzir serviços múltiplos de informação para diversos clientes e assim ir disseminando, distribuindo o seu elemento central, que é a informação jornalística de qualidade, por diversos meios. Isso quer dizer: o jornal impresso vai deixar de existir? A longo prazo é bastante provável. A curto e médio prazos também não podemos ser tão radicais. Mas, a tendência, o movimento, a eficiência de outros suportes, particularmente o uso da internet, está tirando o fôlego do jornal impresso. O que não quer dizer que a empresa jornalística que produz o jornal impresso estará desaparecendo. Não. Ela está se transformando, ela está pluralizando os modos como ela produz e oferta informação jornalística para os seus leitores.

EmpautaUFS: A distribuição de jornais gratuitos em várias partes do mundo representa algo sobre essa transformação?

Carlos Franciscato: O jornal gratuito impresso mostra como não é fácil você fazer uma previsão única sobre o futuro do jornal. “Ah, o jornal vai acabar por que tem a internet”. Não! O jornal se transformou. Tem um novo produto, que não era pensado com tanta importância quando ele se criou. Então nos últimos dez anos se criou um… algo como um subproduto, que é um jornal menor, de menos importância. Mas, ele continua sendo um jornal impresso; ele continua sendo algo relevante na vida das pessoas. Uma forma de acesso à informação – gratuita, de circulação em metrôs, por exemplo, em que a pessoa, na sua meia hora de circulação, vai ler o jornal. “Ah, mas isso no conceito de jornalismo online talvez seja precário”. Mas, é um modo como o jornalismo se transforma para continuar existindo, continuar chegando às pessoas. Então, o jornal gratuito é um bom exemplo de que não adianta nós sermos apressados para dizer que o jornal impresso vai acabar porque é caro, é pesado, de difícil manipulação, de circulação. Não. O jornal gratuito está dizendo. É uma forma leve, fácil, ágil e barata de ter informação. Por tanto, não vamos supor que o jornal impresso esteja imediatamente acabando. Não. Pode se transformar – drasticamente, inclusive. O jornal gratuito, de metrô, de meia hora, é uma mudança drástica, mas é jornal impresso ainda.

EmpautaUFS: Muitos jornalistas citam como alternativa para que o jornal impresso continue atuante uma reestruturação na sua forma de abordagem. As matérias teriam que ser mais analíticas e profundas, já que o “furo” não faz mais sentido p/ o impresso. Na visão do senhor essa alternativa procede?

Carlos Franciscato: O impresso ainda é o melhor veículo de transmissão de idéias e de análises profundas. Você não só lê no sentido do papel, da letra, mas, você interage com a informação de uma forma mais densa, mais concentrada e mais qualificada. Realmente ainda não mudamos para um outro padrão. O rádio não consegue fazer isso, a televisão não consegue fazer isso, e a internet AINDA não consegue fazer isso. A internet é uma das novas lógicas de produção de informação jornalística. O jornalismo online é aquele que mais está prometendo criar novas narrativas para produzir jornal, conteúdo jornalístico de qualidade. Mas hoje, um texto denso, difícil, a melhor forma de você apreendê-lo, de você interagir com ele, é no texto do jornal impresso. Então isso finaliza o quê? Se o melhor que o jornal impresso tem é a qualidade, a densidade, a capacidade de análise, então é isto que vai dar força, vigor e vai dar a razão de ser do jornal impresso. Mas não é um argumento fácil de resolver porque também não quer dizer que a leitura de conteúdos densos esteja em expansão entre as pessoas. Nós podemos ter vários tipos de movimentos paralelos: um deles é de que as pessoas estejam reduzindo seu interesse por notícias densas. Então não adianta você produzir um noticiário denso se isso não representa a maioria do interesse do leitor. Então vamos ter cuidado: Ah não, a partir de agora os jornais impressos têm que fazer só matérias jornalísticas analíticas e profundas. Devagar com isso, porque você pode limitar muito o alcance da leitura do teu jornal. A maioria pode não querer a leitura desse texto denso porque não tem tempo, porque está satisfeito com essas notícias rápidas e breves…

EmpautaUFS: Mas, então o jornal não deve buscar certa reestruturação para, digamos, competir com essa nova mídia?

Carlos Franciscato: Não, ele tem. Ele está se transformando. Primeira transformação dele: de não ficar preso ao seu formato impresso. É você se desdobrar em online, você casar os serviços. Mostrar que você é uma instituição jornalística, uma organização que produz informação jornalística de qualidade. Isso é bom. E aí você vê qual é o teu suporte. Continua como impresso por uma série de questões estratégicas, porque, na verdade, o jornal sempre existiu como impresso e enterrar de vez e se transformar de vez em internet é uma mudança que muitas vezes não precisa ser tão apressada. Eu não vou deixar de existir porque não vou mais produzir notícias no papel. Não! Eu vou existir porque as pessoas sabem que nós produzimos informação de qualidade. E a partir daí eu vou diversificar as formas de ofertar essa informação para o leitor. Que pode ser continuar preservando o jornal impresso. Agora, não é do tipo: “eu faço só jornal impresso e não vou aceitar outro tipo de produto”. Não. Creio que é uma estratégia equivocada. Eu acho que o contrário é mais inteligente.

EmpautaUFS: O papel social do jornal impresso é alterado com essa crescente valorização do ambiente virtual?

Carlos Eduard Franciscato: O núcleo central da informação qualificada sobre a sociedade, aquela idéia de que jornalismo analítico com o bom texto de reportagem de fundo eu só vou encontrar no jornal impresso. Ele continua sendo isso. Mas, esse status privilegiado ele está perdendo. Isso é proporcionalmente menos importante. Na internet, com as suas novas ferramentas, tem-se muito produto qualificado disponível para as pessoas. Então, os novos leitores têm a opção de, se acharem conveniente, utilizar a internet como padrão de jornalismo de qualidade. Os bons portais são muito eficientes, tem oferta de banco de dados, e material em profusão. Tem muita coisa! A internet vai ser sempre isso. Vai ser esse universo de coisas caóticas. Então é você qualificar as ferramentas para que o uso das informações que são boas possam ser destacadas pelo leitor dessa profusão caótica. Então, de fato, o jornal impresso, há 20/30 anos atrás era o grande mecanismo de repercussão pública das informações. Quer dizer: saía na capa do jornal às seis da manhã nas bancas e dava aquele impacto social. Hoje o impacto social é menor porque nos sites você já tem esse produto informativo, esse serviço informativo. Então você diversificou a oferta e, proporcionalmente, diminui a importância de um veículo apenas.

EmpautaUFS: Mas, a recente crise que o New York times vem enfrentando, de alguma forma alerta sobre a dificuldade de se manter ativo um site com jornalismo de boa qualidade…

Carlos Eduardo Franciscato: Uma coisa interessante é que, quando a internet surgiu (ainda bem que foi assim) as empresas perceberam que era um movimento necessário de crescimento: “nós temos que ter a nossa face online do conteúdo”. Mas o modelo de negócio da internet não é um modelo fácil. É um modelo mais difícil do que aquele modelo tradicional de jornalismo impresso em que você vendo o jornal. O jornal tal custa dois reais: você pode assinar, comprar em bancas ou tomar emprestado. Tudo muito simples, muito direto. A internet surgiu com uma nova lógica. Uma lógica que desafia as empresas comerciais tradicionais porque é uma lógica aberta. É algo que ainda está se configurando. Por isso hoje se pensa em um novo modelo de negócio. Por exemplo: você entra em um site como o UOL, vê a manchete, e para você ler aquela matéria teria que comprá-la isoladamente; pagaria 50 centavos por ela, mas veja bem: para fazer essa compra pela internet exigi-se a eficiência daquilo que a gente chama de micropagamento, que a internet ainda não administrou. Quer dizer, eu tenho que entrar em um formulário para registrar número de cartão de crédito, para assegurar que o sistema seja seguro, entre outras coisas, e gasto 15 minutos para pagar cinqüenta centavos e só então ler a notícia. Não faz sentido.

EmpautaUFS: E as pessoas já estão habituadas a ler essas matérias gratuitamente…

Carlos Eduardo Franciscato: Então, é um dos desafios. Vários sites já tentaram fechar conteúdo. Mas, não conseguem manter fechados. É uma tentativa de rentabilização indireta, mas, assim… essa notícia de serviço público do dia-a-dia é uma notícia aberta. Realmente isto acho que os jornais, em termos de rentabilidade, eles não conseguem vender notícia na internet.

EmpautaUFS: A migração de empresas de jornal impresso para edições exclusivamente online, e o constante corte de recursos humanos advindos do fato, chega a mexer na estrutura da profissão do jornalista?

Carlos Eduardo Franciscato: Sim. Esse é um dos desafios hoje, inclusive, na formulação das diretrizes curriculares. Qual é o novo perfil de jornalista que se queira colocar a partir dos critérios de qualidade. Mas vai partir das demandas pelo perfil profissional. O que as empresas querem que o jornalista faça dentro de uma empresa. Aí vem uma discussão muito problemática do jornalismo multimídia, que é formar o profissional para operar várias ferramentas ao mesmo tempo ou de forma complementar. Isto, enfim, é muito imprevisível em termos do resultado real disto para a atividade profissional e para a qualidade do conteúdo jornalístico. Será que nós estamos qualificando o jornalista e permitindo que o jornalista haja com qualidade, tornando ele multifuncional no mesmo ambiente ele tem que operar com vários tipos de linguagens e ferramentas. Isso a tecnologia está sinalizando como questão de curto prazo. Mas temos aí uma questão com grandes e profundos problemas.

EmpautaUFS: A noção de “temporalidade jornalística”, termo recorrente no livro do senhor (A Fabricação do Presente, Editora UFS), é alterada pela internet? Se sim, de que forma essa alteração meche com a visão do leitor em relação ao jornal impresso?

Carlos Eduardo Franciscato: Há 20 anos, qual era o momento sublime de você ter acesso a informações jornalísticas do dia-a-dia? Era o início da manhã com a circulação de jornais.. Essa lógica mudou profundamente porque o que a internet oferece é atualização contínua. É você ter acesso continuado às informações independente do início da manhã. Então, muda a relação temporal: é o tempo das pessoas, a gente se vincula mais diretamente com o tempo dos eventos; quando os eventos acontecem nós estamos mais próximos dessa ocorrência, desse tempo de ocorrência. Há uma administração do tempo de leitura. Não ficamos presos. Porque o jornal chega às seis da manhã eu tenho que sentar ali e passar duas horas lendo o jornal. Não, eu faço a minha administração do tempo, do meu uso de tempo e a minha relação com o factual e com a memória que os bancos de dados têm: a partir de uma tragédia eu posso buscar textos memoriais, textos jornalísticos que falam de um passado e aí eu vou interpretando, com minha leitura individual, aquele fato presente. Então, a internet, ao ofertar conteúdo, amplia a possibilidade de as pessoas entenderem os fatos. A internet não só desencadeou como continua a desencadear a noção de temporalidade. E a idéia de atualização contínua é fundamental.

EmpautaUFS: Podemos afirmar que a internet desencadeou uma nova revolução nos hábitos de leitura? De que forma?

Carlos Eduardo Franciscato: Isso é fundamental, a idéia de jornalismo em tempo real, que é um termo que até não usamos mais com tanta freqüência. Mas a sua relação com o evento agora é de quase instantaneidade mesmo. Aconteceu, você já está com um banco informativo à sua disposição para você consultar. Então, isso muda radicalmente; acho que essa é a mudança mais radical. Segunda mudança radical é a diversidade da oferta. A internet diversifica a oferta de conteúdo em um grau muitíssimo, exponencialmente maior que qualquer outra mídia oferecia: é a variedade de acesso. Hoje você quer, de manhã, ler noticiário sobre Aracaju. Há 15 anos você dependia de 1, 2, 3 rádios, e uma ou duas estações de televisão. Hoje não. Hoje você tem pelos menos umas 20 ou trinta instituições produzindo informação. As tradicionais continuam, mas a internet é um espaço fértil p/ quem quer publicar.

EmpautaUFS: Há alguma prática substancial ao jornalismo que é alterada no jornalismo online?

Carlos Eduardo Franciscato: A prática fundamental é a da publicação: como você vai preparar o material para torná-lo disponível ao leitor. Então esse é o elemento central, porque os conceitos basilares do jornalismo continuam os mesmos: então, a apuração, a exatidão, a qualidade de informação, pluralidade, tudo isto está preservado, isso é transposto para qualquer mídia jornalística. Mas, o modo como você oferta o conteúdo, torna o conteúdo disponível e o tipo de narrativa para fazer esse conteúdo ficar compreensível isso se modifica radicalmente. Um exemplo: a internet trabalha como nenhuma outra mídia uma nova ferramenta chamada infografia, que é a combinação da informação jornalística com elementos de animação, com elementos de movimento, com elementos de imagens em movimento, uma construção visual da informação.

EmpautaUFS: A crise no jornalismo impresso de alguma forma indica uma possível crise no próprio jornalismo e em sua atividade?

Carlos Eduardo Franciscato: Não a crise do jornalismo impresso, mas, as novas tecnologias estão tornando o espaço público de circulação da informação mais acessível para os produtores, não só acesso de leitura, que é uma coisa democrática, boa, mas acesso de produção. Isso também é um lado que considero bom, o fato de as pessoas poderem usar a internet para conversar, para trocar informação. E isto está mexendo estruturalmente com uma lógica anterior tradicional que nós tínhamos. Agora as pessoas percebem que elas criam suas próprias redes sociais. E elas trocam informação diretamente. Então isso, claro, coloca certa preocupação porque a gente acha que a troca de informação é sempre saudável, a comunicação é sempre saudável, mas, os requisitos para fazer um bom produto jornalístico não são preservados naturalmente nessas trocas de conversação comum entre as pessoas. O que a gente tem tentado mostrar é que o jornalismo continua sendo essencial porque não tem outra instituição social que faça a tarefa que o jornalista e que as instituições jornalísticas fazem. Há outras trocas de informação, de comunicação saudáveis, mas elas não substituem o jornalismo no seu rigor e na sua qualidade de atividade.

EmpautaUFS: Essa nova onda conhecida por “jornalismo cidadão” pode diminuir a importância do jornalista, na visão das pessoas…?

Carlos Eduardo Franciscato: Na visão das pessoas talvez diminua. Na visão das pessoas! Têm-se várias razões: “ah, porque eu não confio numa grande empresa para fazer jornalismo com compromisso social”, “ah, porque a Folha de São Paulo é uma grande empresa, quer ganhar dinheiro, então eu não confio que ela vá fazer…”. Eu acho isso uma visão simplória. Mas, enfim, pessoas podem se juntar para tentar, politicamente, enfrentar a lógica do grande conglomerado empresarial. Elas pensam: “nós podemos fazer a nossa comunicação cidadã sem vocês. Ponto final”. Acho que no conjunto, no final das coisas, nós temos que confiar nas boas instituições jornalísticas, aquelas que fazem jornalismo de qualidade. Eu acho que o jornalismo cidadão é um voluntariado bonito, mas as pessoas não fazem jornalismo de qualidade, porque elas fazem relatos sobre situações que elas tem acesso. O que é bom, é saudável, democratiza o acesso a quem fala. Mas isto não é um recorte jornalístico de qualidade, isso exige competência e habilidade para o ofício. Então as pessoas não naturalmente nascem com essas habilidades. Por isso que a gente acha que as escolas são fundamentais para preparar as pessoas para cumprir bem suas habilidades.

EmpautaUFS: As empresas sergipanas de jornalismo impresso se mostram atentas às transformações que enfrentam o setor?

Carlos Eduardo Franciscato: Não. Parcialmente. Muito vagarosamente, apenas. Porque elas vêm de uma herança negativa de não ter lógicas de mercado radicais. Mas a lógica de mercado não é tão perversa, ela torna acessível às pessoas o produto, então, quando você vai numa banca de revista de manhã e encontra uma diversidade de jornais, você tem ali uma lógica de mercado, está ali a banca de venda, escolha aquilo que você acha melhor ou que mais lhe aproveitaria. E essa lógica de competição, de concorrência, que faz com que o jornalismo melhore um pouco, as empresas jornalísticas aqui de Sergipe nunca incorporaram com muito entusiasmo. Idéias de um empresariado tacanho que acha que não se ganha dinheiro comercialmente com comunicação, que se pode ganhar indiretamente, em relações com o estado – algumas escusas. Esses vícios antigos de mau empresariado permanecem. Elas não são agressivas para tentar conquistar o leitor: você vê propagandinha do jornal tal, lê no jornal, assina e coisa e tal, mas, um esforço engajado de ir às ruas pra mostrar que você tem um produto de qualidade, um investimento de se vincular ao público e fazer com que o público gere rentabilidade para o jornal é muito fraco.

EmpautaUFS: Mas… Em relação à interação com ferramentas on-line, o Sr. acredita que elas estão atentas?

Carlos Eduardo Franciscato: Elas criaram os sites tardiamente, muito tardiamente. E porque são tacanhos, acreditam que os sites podem tirar leitor do impresso. Mas, pelo contrário, o site pode ampliar o vínculo do leitor com a instituição, com a organização. O importante, o fundamental, é você preservar, ampliar o vínculo com o seu leitor, isto que é a chave, e não se fechar. “Não, eu não posso botar na internet porque vai mais gente ler e não vai comprar jornal”. Isso é uma visão atrasada que  a tecnologia vai passar por cima, então o jornal que se fechar para não chegar ao leitor, a não ser por venda de jornal impresso, o que é uma visão atrasada, esse corre risco de ser extinto.

EmpautaUFS: Temos alguma boa referência sergipana na área do jornalismo online?

Carlos Eduardo Franciscato: Os sites dos jornais eu acho todos eles fracos. Eles trabalham com muita precariedade e não investem para que essa precariedade seja superada, por entender aquelas lógicas de que o site vai competir com o jornal impresso. Isso é uma visão atrasada. Tem que se superar, arranjar estratégias para superar esse risco.