Técnica de Produção, Reportagem e Redação Jornalística

GABRIEL, um bebê vencedor, um adolescente rebelde

Posted in Perfil by micheletavares on 18/12/2010

Na madrugada de uma quarta-feira de Cinzas nascia Gabriel Contino, prematuro, desenganado pelos médicos.  A idéia do nome surgiu depois que a mãe leu o livro Cem Anos de Solidão, do colombiano Gabriel García Marquez, no período em que esteve internada no hospital com risco de perder o bebê. Ela se encantou com o autor e resolveu dar ao filho o mesmo nome. E assim foi feito. Como já era previsto, o pequeno Gabriel veio ao mundo com uma série de problemas de saúde e foi direto para UTI neo-natal. Só um milagre para fazer com que aquela pequena criança sobrevivesse, sua expectativa de vida era quase nula. Passou duas semanas na incubadora respirando com a ajuda de aparelhos. Tremia muito e mexia involuntariamente os braços. Para os médicos deveria ser um tumor no cérebro, um edema. Uma equipe especializada em prematuros com problemas neurológicos foi chamada e o que diziam era que se ele não morresse iria ter problemas por toda a vida.  

Mas o garotinho resistiu! Recebeu alta. Foi para casa, onde continuou o tratamento. Era o próprio pai, um médico residente quem lhe aplicava as injeções de sulfato de magnésio para diminuir os tiques nervosos. Gabriel tinha apenas 2kg. Aos três meses foi operado de hérnia.Os pais do pequeno não agüentaram a barra e se  separaram quando Gabriel completou seis meses de vida. Aos poucos o frágil bebezinho foi melhorando, ganhando peso.Gabriel  deu a volta por cima, começou a engatinhar, a falar as primeiras palavras. Cada desenvolvimento do pequeno era uma conquista para a família. Gabriel andou e cresceu saudável.

Muitas ‘histórias’ marcaram a vida deste pequeno. Gabriel mudou de escola várias vezes, como também de casa e de padrastos. O tempo com a mãe era curto, ela trabalhava demais. Nos dias de folga do pai eles não se desgrudavam. As brigas com o irmão materno eram freqüentes. Os ciúmes dos irmãos paternos, uma constante. A adolescência abriu então as portas para a rebeldia, uma forma de sarar ou esquecer esses conflitos. Nessa época era Pixote, conhecido assim pelos amigos. Numa escola “liberal”, aprendeu coisas erradas e a fazer música. Escreveu  rock, com letra e melodia, uma  delas relatava o episódio em que foi pego por um segurança furtando uma caixa de giz de cera durante o recreio (na escola liberal os alunos podiam sair para fazer o que bem entendessem).

Na adolescência começou a se mostrar… Aos doze pichava e tinha outro apelido, agora o chamavam de “Pequeno”. Começou a surfar, andar de skate no half-pipe do morro e de bicicleta.

A música estava sempre presente em sua vida. MPB, samba, pagode, rap, funk, hip hop.  Ouvia de tudo. Adorava o rock nacional dos anos 80. De presente gostava de ganhar revistinhas em quadrinhos e discos. Adorava escrever. No colégio desenhava e fazia suas próprias versões para letras de músicas que ouvia. E assim foi, e o garoto cresceu. Hoje dedica a vida a fazer aquilo de que mais gosta: música. Mais uma vez mudou de nome, e até hoje, é o que permanece.  Desde  1992,  com a censura da música Tô Feliz (matei o presidente) Já são sete cds gravados, um DVD, mais de 2 milhões de cópias vendidas e dois livros publicados. “Loura-burra” e “234-5678” foram suas músicas de maior sucesso. Hoje, na rua, no trabalho, no Brasil e no mundo ele é conhecido por todos como Gabriel, o pensador.

“Pessoa pensante e artista falante” Gabriel pensa e diz, ao contrário dos que pensam e produzem ruído. Já era uma raridade musical, agora é uma raridade literária”. Luiz Fernando Veríssimo

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Sexo, drogas e rock’n’roll

Posted in Perfil by micheletavares on 17/12/2010

A história musical de Paulo Ricardo, ex líder da banda RPM


Por Roseli Nunes


O cantor, compositor, ator e jornalista diplomado Paulo Ricardo, levou ao delírio milhares de fãs durante a década de 80, quando então era vocalista do grupo de rock RPM. Passou por uma fase crítica, enfrentou o esquecimento e as drogas. Recuperado, voltou ao cenário musical cantando baladas românticas, o que a crítica considera como sendo a fase “brega” do cantor, que agora remota às paradas de sucesso com canções do pop rock.

Paulo Ricardo Oliveira Nery de Medeiros nasceu no dia 23 de setembro de 1962, no Rio de Janeiro. Hoje, com 48 anos de idade, o cantor ainda é lembrado por toda uma geração como sendo o sexy símbol” dono do famoso olhar 43, que passou a ser sinônimo de sensualidade.

Eu preguei
Revoluções
E coloquei
Nas canções

Toda a raiva
E a frustação
De quem rasgam
O coração

(Canções, Revoluções. Composição: Paulo Ricardo)

No auge do sucesso, nos anos 80, o cantor afirmou que os integrantes do RPM fumavam maconha, bebiam e cheiravam cocaína diariamente. “Era uma coisa que estava incorporada a nossa rotina. Chegamos a consumir coca sobre um disco de platina que ganhamos”, declarou Paulo Ricardo em entrevista a um programa de TV, no qual disse ainda ter parado com as drogas em 1995.

Depois de todo o sucesso com o RPM, Paulo Ricardo teve uma fase na qual começou a usar paletó, cabelo curto e até casaco de pele. Foi o período “brega/romântico” que durou três anos e o projetaram para a América Latina com

músicas melosas e regravações do cantor Roberto Carlos. Foi neste mesmo período que Paulo Ricardo arriscou-se na telenovela Esperança e emplacou duas musicas em trilhas sonoras de folhetins exibidos em rede nacional.

O sucesso com o novo público e as poucas críticas positivas não foram suficientes para manter o cantor no novo estilo musical. Paulo Ricardo cria em 2004, o PR.5, banda com uma proposta ligada às questões sociais. A nova empreitada durou pouco tempo. Depois da regravação de “Imagine”, o cantor decidiu que já tinha feito tudo o que queria e decidiu voltar para o rock.  Inovador e sem medo de encarar novos desafios, Paulo Ricardo não dispensou o primeiro convite para atuar como ator e mostrou-se seguro e motivado para aceitar outros, caso eles surjam convites. Na verdade, o cantor de voz rouca e olhar marcante, destacou-se sempre na área musical, e sua carreira como ator parece mesmo limitar-se às pequenas e raras participações.

Após emplacar a música Vida Real, que se tornou tema de abertura do BBB, Paulo Ricardo parece voltar ao cenário musical como astro do pop rock brasileiro recebendo um prêmio da DreamWorks, como melhor performance vocal internacional na tradução do filme Spirit – Corcel Indomável.

Paulo Ricardo é um dos poucos artistas brasileiros que atacam bem em diversas mídias. A prova de que se trata de um homem de várias e bem sucedidas versões vem em números: o RPM vendeu até hoje mais de cinco milhões de discos. Em 1997, quando já seguia em sua carreira-solo, Paulo conseguiu ser o mais tocado em todas as rádios paulistanas com a música “Dois”, que saiu no disco “O Amor me Escolheu”. Como jornalista, escreve eventuais crônicas e artigos para a Folha de São Paulo. Além de tudo isso, encontra tempo para agenciar sua própria carreira.

Longe das drogas há mais de 10 anos, o bonitão dono do eterno “olhar 43” fez as pazes com os ex integrantes do RPM e colocou fim no processo judicial que os envolvia à vários anos na justiça. Atualmente, aquele ex-roqueiro de vinte e poucos anos que na década de 80 foi febre em toda a nação, fazendo as mocinhas gritarem “revolução”, contenta-se em ser lembrado como parte da história do rock nacional, e declara não sentir saudades dos tempos áureos da carreira quando, a falta de maturidade para lidar com a fama e o consumo de drogas, falaram mais alto do que as perspectivas promissoras do futuro.

Calçadas da terra

Posted in Perfil, Uncategorized by micheletavares on 16/12/2010

Calçadão preparado para o natal (Foto: Illton BIspo)

Mais do que uma rua o Calçadão da João Pessoa derrama sergipanidade sob os pés dos passantes

Por: Liliane Nascimento

Cada lugar possui o mérito de ser único e é por muito mais do que uma combinação de número, rua, cidade, estado e país. Cada lugar é o lirismo que desperta nos passantes e nos que se deixam ficar. As calçadas de Itabira são lugar quando põe ferro nas palavras de Drummond, as ruas de Recife são lugar quando põe saudades nos versos de Bandeira e assim, é lugar o Calçadão da João Pessoa quando põe muito mais do que produtos na vida dos aracajuanos, põe alegrias, amizades, encontros, fugas, descanso e mais beleza do que pode ser aprisionada em qualquer fotografia.

Está no dia-a-dia dos moradores de Aracaju procurar as coisas de que precisam no Calçadão, que nem precisa ser chamado Calçadão da João Pessoa, pois o sobrenome é desnecessário para aqueles que são íntimos. Este Calçadão não é só as lojas, ele é cada pedra, cada banco e cada pessoa que passa por lá. Ele, que já foi rua do barão por causa do Barão de Maruim, tem sua história, já o diga o Cine Rio Branco que marcou uma época sediando grandes óperas e outros espetáculos, antes de ser fechado porque o seu dono deixou de interessar-se por arte.

Mal amanhece e as três cores das suas pedras se transformam em tapete, os bancos se tornam acolhedores e os primeiros vendedores já tomam seus lugares, se preparando para tirar dalí o dinheiro que sustenta suas famílias,

Calçadão da João Pessoa (Foto: Liliane Nascimento)

assim como os engraxates e as estátuas-vivas. Este Calçadão que movimenta a economia com seu comércio, todavia, não é o único que existe, há o Calçadão dos estudantes que se divertem com seus amigos enquanto passam e olham em volta para saber o que há de mais novo e há ainda o calçadão dos velhinhos que sentados nos bancos durante o dia quase inteiro, parecem compreender o sentido maior do Calçadão e já não pedem dinheiro, diversão ou qualquer outra coisa, eles não querem nada, ou melhor, querem apenas estar ali, neste ambiente que se mistura.

Essa variedade de pessoas é aceita sem que ele rotule ou divida em grupos, por ele todos poderiam comprar, encontrar pessoas, tomar sorvete, fazer uma pregação, jogar xadrez ou simplesmente andar; o Calçadão não faz distinção entre pessoas, ele não vai perguntar a elas quem são ou quanto têm, vai apenas se apresentar como opção e como não abre ou fecha é opção por tempo indeterminado.

No Calçadão também há contrastes que não podem ser ignorados, ao lado das lojas abarrotadas de belas mercadorias estão pessoas pobres e doentes, com as mãos estendidas no vazio esperando ajuda dos que passam, e os que passam na maioria das vezes não os querem notar. Também não são notados os loucos que apontam o dedo para o alto, dizem conhecer toda a verdade e depois sentam-se e lá ficam por várias horas sem que nada lhes perturbe a reflexão.

Quando anoitece o Calçadão vira um ambiente a parte, aos poucos já não se podem ouvir os rapazes e moças que insistentemente perguntavam “quer fazer cartão senhor?” ou os marketeiros das lojas de eletrodomésticos com seus preços sempre mais baixos que os da loja  vizinha. São ouvidos agora outra leva de vendedores que oferecem bolsas, perfumes, CDs e DVDs pirateados e todo o tipo de comida que se possa imaginar distribuída por mesinhas que se estendem de um extremo a outro.

Vestido para o Natal o Calçadão ganha um quê diferente, ganha cores, ganha sons, ganha até uma visita do Papai Noel e como é do seu feitio os repassa para sua gente sem cobrar nada em troca. Ele é um local de contrastes, de movimento e calmaria por onde passam pessoas que fazem parte daquela história e daquele lugar, pessoas que serão pais, serão mães e continuarão sendo peças desse tabuleiro que em um extremo se estica para olhar as águas mansas do rio Sergipe e no outro mostra a delicadeza da Praça Fausto Cardoso. Atravessar esses extremos é mais do que dar 480 passos, atravessar o Calçadão é construir uma história e caminhar sobre um pedaço de si.

Candomblé: festa, tradição e alegria.

Posted in Perfil by micheletavares on 15/12/2010

Ao ritmo dos tambores e no envolvimento das vestes festivas.

Por: Egicyane Lisboa Farias

Yaô de Xango (foto: Sandra Souza Leite)

Quando a dança começa, atabaques excitados, o corpo se esvaindo em desejos de espaço, as peles dominando o cosmo, envolvendo o infinito, o som criando outros êxtases, uma representação viva da arte no meio de um ritual envolto de belezas e ritmos.

“Axé” é o poder de transformar o mundo cotidiano e a vida das pessoas, mas também é a genealogia ritual de um terreiro e sua mãe-de-santo que quem conhece encanta-se e admira-se pelo Candomblé.

A música é um envolvimento, um movimento dinâmico de culto aos ancestrais.  Tendo como papel primordial a invocação aos orixás, servindo como intermediário entre os homens e os deuses que são cultuados em meio a essa musicalidade, mostrando o desejo e continuação de uma tradição envolvendo beleza e mistério.  Canto é a essência do candomblé.

            Cantos de beleza soam a Oxum dos legados que os antepassados deixaram, festejam a natureza, festejam o nascimento, festejam os orixás. Pensando bem, é um toque que define o  sentimento pelo Candomblé, pois é num toque que sentem todas as emoções possíveis e imagináveis de como quando ouvimos uma cantiga que nos toca em especial, mais profundamente…É nesse toque que passam a conhecer os orixás, sentir seu abraço, sua energia, passam em fim a conhecer a si mesmos.

o trio de tambores Rum, Rumpi e Lé (foto: Fabiano Bispo)

Quando toca o som dos tambores, há um envolvimento com o som divertido e frenético dos abes e observando nitidamente o som preciso e decisivo do agogô. . O trio de tambores, Rum, o maior, Rumpi, o médio, e Lé, o menor, são tratados pelos adeptos como verdadeiros deuses. Recebem oferendas e reverências. Estes instrumentos são indispensáveis para o culto, pois, apenas através da música, ocorrem as incorporações. Os instrumentos se comunicam diretamente com os orixás clamando pelo seu retorno a terra. A música produzida pelo candomblé apresenta uma grande diversidade de ritmos e segundo a fé dos praticantes, os versos e as frases rítmicas repetidas incansavelmente, têm o poder de captar o mundo sobrenatural.

Não há como fugir, não há como fugir dessa magia sem igual, não há como não se envolver no bailar das pessoas diante da roda. Uma roda que demonstra aos mais atentos, responsabilidade, tradição e muita alegria, alegria em estar adorando àqueles aos quais eles descedem, amam e que vivem dentro deles, os movendo e  mostrando o caminho melhor a ser seguido nessa batalha cotidiana em que vivem. Mas é aí que entra a sintonia perfeita: ao sairem do toque já chegado ao fim, estão com a fé renovada. São as forças da natureza, os orixás que os movem para a vida, dessa vez ainda mais felizes, lembrando sempre os melhores valores, lembrando que a vida deve ser vivida sem culpa e sem pecado, que não há outro bem maior que a família e que nunca, nunca conseguirão viver sem alegria e sem um belo sorriso no rosto. “Viver e não ter a vergonha de ser feliz”.

tambores (foto: Fabiano Bispo)

Mais em meio a tanta festa, há um momento de silêncio, quando os tambores se calam e entram no momento de reflexão. É ritual de feitura ao sacerdócio no Candomblé, chamados também de “fazer o santo”, “fazer a cabeça”, “deitar para o santo”, “oba baxé ori” ou simplesmente “orô”, que é sacrificio e consagração. A pessoa que se inicia no candomblé torna-se adoxo, ou seja, passa a possui oxu, que é o canal de comunicação entre o iniciado e o seu orixá. Todo o processo de iniciação se destina à criação de ambiente propício ao tão sonhado encontro.

Feitura representa um renascimento, é o reconhecimento e a admissão do ori escolhido no orum. É o mesmo que entregar a cabeça (principio da individualidade) ao orixá (o deus maior de cada ser), permitindo que os deuses conduzam sua vida e seu destino. A feitura é um divisor de águas na vida, tudo será novo. A “feitura de santo” implica um período de reclusão geralmente de 30 dias. Os costumes da comunidade e os princípios que regulam as relações da família religiosa (hierarquia sacerdotal); as formas adequadas de comportamento nas cerimônias públicas e restritas.

Conhecimentos acerca de seu próprio Orixá são ministrados: a maneira adequada de cultuá-lo, as suas proibições, as virtudes que deverão ser cultivadas e os vícios que deverão ser evitados para atrair influências benéficas e uma relação harmoniosa com a divindade pessoal. Nesse prazo serão realizados os ebós, as oferendas a Exu e aos ancestrais, além de ocorrer todo aprendizado em relação à religião: as rezas, os cânticos, as danças etc., e por fim o orô ritual no qual, na maioria das vezes, o filho-de-santo tem seus cabelos raspados e recebe oxu,  e passa pelo ritual de efun (no qual seu corpo é marcado por pintas de giz), que se repetirá pelos sete dias subseqüentes.

            A festa em que o yaô é apresentado à comunidade é popularmente conhecida como saída de yaô e reconstitui em suas três etapas fases da concepção e do nascimento. Finalmente, prosta –se em frente aos atabaques, saudando as autoridades, . A cada reverência o iaô bate palmas compassadas. Neste ritual é acompanhado por toda a comunidade, prova de que, a partir daquele momento jamais estará sozinho.

Xango (foto: Sandra Souza Leite)

            O momento mais esperado de saída de yaô, quando o orixá anuncia o nome da iniciação de seu filho. É a partir desse momento que começa a contar a vida na religião. É um momento de muita alegria, no qual a comunidade recebe um novo membro.

            Os segredos só têm valor e poder porque podem ser revelados, e esse valor é aniquilado no momento da revelação. O segredo é um fenômeno social cujo valor deriva da sua circulação restrita dentro de comunidades delimitadas, como as hierarquias rituais do Candomblé. Até as vestimentas guardam seus segredos, seus mistérios e encantos. Existe uma definição para cada ocasião, para cada cargo no candomblé. Roupa de ração é a roupa usada diariamente em uma casa de Candomblé. São roupas simples que podem ser coloridas ou brancas, composta por saia de pouca roda para facilitar a movimentação, camisu geralmente branco e enfeitado com rend bordados, calçolão (espécie de bermuda amarrada por cordão na cintura, um pouco larga para facilitar a movimentação e proteger o corpo em casos que se é necessário sentar no chão), pano da costa e o ojá, um pano que se amarra à cabeça.

vestimentas masculinas e femininas (foto: Fabiano Bispo)


            A roupa fala de um simbolismo muito especial, que além de ético e moral, os axós dão para as mulheres posição e postura. É bonito se notar a forma e a reverência que estas roupas expressam em sua aparência e jeito: respeito acima de tudo! O vestuário de uma Iyalorixá é diferente das roupas usadas pelas ekédis e yaôs, é caracterizada pelo uso da “Bata” que é usada por fora da saia com o camisu por baixo. A Bata é símbolo de cargo ou posto dentro da hierarquia do Candomblé. O pano da costa dobrado sobre o ombro também tem sua representação, é um símbolo de cargo, pois, os Yaôs o usam amarrado no peito, as egbomis na cintura e Iyalorixás no ombro. Normalmente, saias e Batas de bordado richelieu, também só são usadas pelas Iyalorixás, assim como o pano da costa de Alaká africano.
Os turbantes também chamados de torço ou ojá, usados na cabeça normalmente são maiores e mais ornamentados, assim como determinados fio-de-contas não podem ser usados por pessoas que não tem cargo, o (fio de ouro)por exemplo só pode ser usado por Iyalorixás com mais de 50 anos de Santo, símbolo de senioridade.

D. Pedro, um príncipe “à moda da casa”.

Posted in Perfil by micheletavares on 15/12/2010

Dom Pedro I (Foto: google.com.br)

Por Eudorica Leão

Quem avistasse aquele menino de cabelos cacheados e negros,  nariz aquilino, olhos pretos e sorriso largo correndo pela Quinta da Boa Vista ou pela Fazenda Santa Cruz, não imaginaria que se tratava do herdeiro do trono e futuro Imperador do Brasil. D. Pedro não era exatamente o que se esperava de um príncipe.

O segundo na linha sucessoria, D. Pedro torna-se o herdeiro do trono após a morte de seu irmão mais velho, Antonio. Preterido pela mãe, Carlota Joaquina, em favor de seu irmão Manoel, foi criado solto “como Deus cria batata”. É possível que, essa falta de cuidado por parte da rainha, tenha moldado de maneira particular o comportamento do jovem Pedro.

Grosseiro, mal educado, impaciente com as cerimônias oficiais era também uma pessoa de sorriso farto, de uma simplicidade incomum para os homens brancos da época e para os nobres em particular. Misturava-se ao povo como se dele fizesse parte. Contrário à escravidão africana e a pretença superioridade da raça branca, dizia saber que seu sangue e o dos negros não se diferenciavam na cor.

Adulto, tinha três grandes paixões: música, cavalos e mulheres. Tocava nove instrumentos, entre estes o mau falado violão, ou viola francesa como era chamado na época; instrumento considerado vulgar, ainda mais quando usado para executar o lundu, música de “negros” onde o convite para dança era feito com uma umbigada. D.Pedro era um exímio tocador de lundu, e o fazia em bares e ruas de fama duvidosa do Rio de Janeiro.

Sua outra paixão eram os cavalos. Aprendera a montar caindo, no total foram 36 quedas. Mas a prátiaca não se limitava a montaria, cuidava pessoalmente de seus animais.

Quanto às mulheres… Bem, D. Pedro não era exatamente um monge, e nem a essas deixava passar,  a exemplo de Ana Augusta, monja portuguesa com quem teve um filho, a quem dera o primeiro nome do pai: Pedro.  Sua fama de mulherengo e conquistador era tamanha, que os pais cuidadosos literalmente escondiam suas filhas quando sabiam que D. Pedro estava nas proximidades.

Amante insaciável, D.Pedro bulivana escravas, frequentava bordéis, seduzia moças de familia e sabe-se lá mais o que. Dizem que a esposa do imperador, imperatriz D. Leopoldina morreu de tristeza, por causa das inumeras aventuras amorosas do marido. Diante da difícil tarefa de listar as amantes de D. Pedro, falemos então da mais famosa: Domitila de Castro e Canto Melo, a marquesa de Santos ou “Pompadour dos Trópicos” como ficou conhecida na Europa.  Nem mesmo sua paixão pela marquesa conteve os ânimos do D. Juan do Novo Mundo. D. Pedro teve um caso com a irmã da marquesa de Santos, a baronesa de Sorocaba Maria Benedita de Castro Canto e Melo, que lhe dera um filho.

Aliás, D. Pedro foi pai de muitos filhos, 18 no total entre legítimos e inlegitimos. Se a fama de mulherengo risca sua imagem de marido, que isso não atinja a imagem do pai, era tido como cuidadoso e amoroso. Ao renunciar ao trono em favor de seu filho, escreve-lhe uma carta onde trata Pedro de Alcantara João (futuro D. Pedro II), ainda uma criança de cinco anos, por “Meu querido filho e meu imperador”. D. Pedro mostra-se um homem emotivo, a quem as lágrimas o impediram de responder com maior brevidade uma carta do filho. A saudade dilacera o coração daquele pai, para quem  “Deixar filhos, pátria e amigos, não pode haver maior sacrifício; mas levar a honra ilibada, não pode haver maior glória”.

Possuidor de um temperamento extremista, capaz de grandes ódios e grandes amores, não é dificil listar  para cada nome seu (e era extenso: Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon) um vício e uma qualidade. Definiu-se como verdadeiro, humano, generoso e “capaz de esquecer as ofensas que me são feitas.”

 

ônibus 040: Quem te conhece, não te esquece jamais.

Posted in Perfil by micheletavares on 15/12/2010

O Ônibus das cenas inusitadas, Marcos Freire II / DIA (Foto: Illton Bispo)

Por Illton Bispo

      O ônibus ainda é o transporte coletivo mais popular nas cidades, e ainda muito usado por trabalhadores, principalmente em países como o Brasil. O primeiro serviço de transporte coletivo de ônibus no país foi implantado em 1908, ligando a Praça Mauá ao Passeio Público, no Rio de Janeiro.

     A cada dia e a cada manhã uma nova história para contar. São inúmeras pessoas que se utilizam desse veículo na cidade de Aracaju, especialmente quem utiliza o ônibus 040, Marcos Freire II / D.I. A, que liga os Bairros Lamarão, Santos Dumont, Capucho ao Terminal do Distrito Industrial (D.I. A). Vive sempre apertado, aliás, aperto é quase um elogio para o nosso amigo aqui. Pois se não tiver no aperto, pode-se dizer que não é o 040.

    Sua trajetória começa bem cedinho, lá pelas 4h da manhã e segue sua rotina embalado pelos ritmos musicais do momento, que vão desde o arrocha a Lady Gaga constituindo assim, um cenário favorável para  caras feias , discussões e  até mesmo estranhamentos,sem falar no mau humor das pessoas. Os sons que ecoam no ambiente do ônibus, parte dos diversos aparelhos celulares e MP3. Além dos gritos, xingamentos, piadinhas com o motorista e cobrador.

     Acompanhada a rotina em horário de pico ao longo das avenidas e ruas de Aracaju, é possível notar a variedade de figuras pitorescas encontradas no interior do  040. É ambulante aqui, outro ali, mudinho entregado papelzinho, onde na maioria das vezes é motivo de socos e ponta pés. Pois o nosso amigo tem um belo histórico de brigas, armações e barracos. E quando chega  no Terminal  Maracaju, localizado na Zona Norte da cidade, no Bairro Santos Dumont é um verdadeiro Deus nos acuda, uma correria só  aglomerados de pessoas querendo descer e outras subir ao mesmo tempo.Trabalhadores, donas de casa,  estudantes e até mesmo idosos travam uma luta por um espaço livre no 040.

 Jailson Silva, usuário do Marcos Freire II/D.I.A, há   cinco anos,  fala que a população de Aracaju ainda  é ignorante no que se diz respeito a cidadania. E que as pessoas não se importam com o comum. 

    O ônibus é considerado por muitos, como uma super “máquina” de transportar pessoas em massa. Transporta da mais simples pessoa ao mais inusitado objeto, como por exemplo, uma imensa cama de solteiro, que   se transforma em motivo de burburinho e atiça a indignação de alguns de seus passageiros. Suas portas andam quase sempre abarrotadas é gente caindo de um lado para o outro, as pessoas até parecem desenhos animados, grudados uns aos outros e nos vidros das janelas, tamanha é a lotação do no nosso companheiro Marcos Freire II/ D.I.A. 

Passageiro se preparando para mais uma "aventura" no 040. (Foto: Illton Bispo)

    Muitos usuários reclamam do aperto e da falta de segurança dentro do ônibus. Pois o nosso amigo é um forte alvo de maníacos sexuais que se aproveitam das mulheres indefesas e os assaltos frequentes que muita das vezes, as pessoas nem se dão conta que estão sendo roubadas, tudo isso em virtude da super lotação. Que na maioria das vezes o motorista do veículo é taxado de culpado. De certa forma eles acabam sendo culpados. Tendo em vista que  na maioria das vezes  eles não para no ponto certo durante o seu trajeto, freiam bruscamente e acaba produzindo efeito dominó e sai derrubando tudo dentro do nosso amigo 040.

     Segundo Antônio Silva, motorista de 57 anos,  as pessoas reclamam da lotação com razão, no entanto há reclamações de todos os lados que se pode imaginar. A única alternativa para o 040 não lotar é não parar nos pontos. Mas se isso acontece, causa outro transtorno e reclamações, “se bem que muitos amigos meus fazem esse tipo de coisa. As pessoas não entendem que é nosso dever é parar. Mas cabe as pessoas decidirem se vão ou não subir em um ônibus lotado”. Outro fato interesante que acontece com frequência com o nosso amigo Marcos Freire II/D.I.A.É  que  muitos motoristas param fora do ponto dentro dos Terminais  de integração,com o objetivo de descarregar os passageiros para quando chegar ao ponto certo outros passageiros subirem com traquilidade, mas as pessoas estão desabituadas a este tipo de manobra e quando avistam o ônibus, saem correndo  feito loucos.

     Já são 17h, fim de tarde e mais um início de pico na cidade. As pessoas estão voltando do trabalho para suas casas,mais estressadas  do que nunca.E a rotina do Marcos FreireII/ D.I.A  se repete novamente:lotação,aperto, mal humor  e por aí vai.Assim,o nosso  companheiro 040, traça  seu destino mais uma vez .Sua vida conturbada   e cheia de histórias só  encerra no final da noite,onde a  paz, tranquilidade  e harmonia predominam em seu interior. Quem sabe, se as empresas de transporte urbano da capital disponibilizassem mais ônibus nessa linha nos horários de picos, o nosso amigo seria menos lotado e mais agradável.

A infância do homem mais conhecido do país.

Posted in Perfil by micheletavares on 15/12/2010

Silvio Santos aos 12 anos. (Foto: google.com.br)

Por Wallison Oliveira                                                                                                

          Filho de mãe turca e pai grego, nascido no Rio De janeiro, Senor Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos, sempre foi uma pessoa que tinha a atenção de todos. O moleque era um zero à esquerda. Na escola, faltava a maioria das aulas, e encarnava um verdadeiro pestinha com os colegas.

           Torcedor do fluminense, Silvio Santos sempre ouvia sua professora da quinta série, Maria Lourdes Bruce, da escola Celestino da Silva, na Rua do Lavradio, centro do Rio, a seguinte frase: ‘’Silvio, desse jeito você não vai ser ninguém na vida, só pensa em futebol”, pois Silvio gostava mais de falar em futebol do que estudar, quando tinha apenas 12 anos.

         Cenourinha, apelido dado por colegas, pelo diminutivo de Senor. Suas travessuras não se limitavam apenas na sala de aula, sua mãe Rebecca Abravanel, vivia correndo atrás do menino, com o chinelo na mão, pelas ruelas da Vila Rui Castro, na Travessa Bentevi, no centro do Rio de Janeiro, onde ele nasceu, não dava sossego para Dona Rebecca. “Ele era um capetinha, não havia quem o controlasse, apesar da rigidez da mãe”, lembra Lydia Marques, 68 anos, colega de turma e vizinha, na Vila Rui Castro.

          Além de Silvio, Rebecca e Alberto Abravanel, tiveram cinco filhos (Beatriz, Sara, Leon, Perla e Henrique), sempre tratados com rédeas curtas por Rebecca.

          Com o trabalho que conseguiu quando tinha 14 anos, Silvio que nem sempre conseguia ir às aulas. No terceiro ano, quando tinha 19 anos, das 459 aulas previstas no currículo, ele faltou a 234, correspondendo a 51% das aulas.  

          Para se divertir, Silvio e o irmão Leon, usavam a imaginação para driblar a falta de dinheiro com travessuras, nos cinemas da Cinelândia entravam pela saída das sessões, para não pagar ingresso.“No Odeon, nós nos infiltrávamos entre o público que saía  e caminhávamos  em sentido contrário, andando para dentro do cinema”, contou Silvio em entrevista reproduzida no livro, A fantástica História de Silvio Santos. O dinheiro economizado com os ingressos era gasto em outra mania de Silvio, ele colecionava figurinhas que vinham em balas.

         O único que ele pagava pelo ingresso, era o extinto “Cine Ok”, todas as quintas-feiras, onde passava seu seriado favorito: “O vale dos Desaparecidos”. ‘’Não podíamos correr o risco de não poder entrar de carona”, disse Silvio. “No Cine Ok, nossa pilantragem não dava certo , porque o porteiro e o guarda de serviço já nos conheciam”, recorda Silvio no livro.

           Em uma certa tarde de quinta-feira, Silvio foi proibido pela mãe de ir ao cinema, pois estava gripado e com febre alta, ficou arrasado, mas a palavra da mãe prevaleceu. Pouco tempo depois, ele descobriu que havia escapado da morte, o Cine OK pegou fogo e muitas pessoas ficaram feridas, esse foi o primeiro de uma série de golpes de sorte na vida de Silvio.

Cem anos de samba malandro com Adoniran Barbosa

Posted in Perfil by micheletavares on 15/12/2010

por Cláudia Oliveira


Adoniran Barbosa nasceu em 06 de agosto de 1910, em Valinhos-SP, foi um colecionador nato de apelidos. Seu verdadeiro nome era João Rubinato, mas cada situação por ele vivida o transformava num novo personagem, numa nova história. O nome artístico ele tirou da cartola, unindo o nome do amigo Adoniran Alves com o sobrenome do compositor e cantor Luís Barbosa, que cantava sambas de breque batucando no chapéu de palha.

Filho de imigrantes italianos, a sobrevivência do paulistano comum numa metrópole que corre, range e solta fumaça por suas ventas é exposta através de suas músicas. Canta passagens dessa vida sofrida, miserável, juntando o paradoxo bom humor / realidade. Tirou de seu dia a dia a idéia e os personagens de suas músicas. Iracema nasceu de uma notícia de jornal, quando uma mulher havia sido atropelada na Avenida São João.
Quem conversasse com Adoniran perceberia que por trás daquele paulistano pé-rapado estava um homem de certa cultura, conhecedor de livros e de música mais refinada. Sua origem humilde, no entanto, não era ficção. Entregou marmita, foi office-boy, carregador, faxineiro, encanador, pintor de paredes, garçom, caixeiro em loja de tecidos e ainda arrumou um hobby, fabricando até o fim da vida brinquedos artesanais que alegravam a criançada. Mas desde cedo acalentou a idéia de ser artista. Adorava o samba dos grandes compositores que ouvia no rádio. Em 1934 venceu um concurso de música de Carnaval realizado pela prefeitura de São Paulo com a marcha Dona Boa, dando a largada para uma carreira que duraria meio século.

Adoniran nasceu e morreu pobre. Todo o dinheiro que ganhou gastou ajudando ou comemorando sucessos com os amigos. Talvez soubesse que o valor maior de suas canções eram interpretações como a de Elis Regina ou Clara Nunes. Foi um grande colecionador de amigos, com seu jeito simples de fala rouca, contador nato de histórias, conquistava o pessoal do bairro, dos freqüentadores dos botecos onde se sentava para compor o que os cariocas reverenciaram como o único verdadeiro samba de São Paulo. Mais do que sambista, Adoniran foi o cantor da integridade.
Nem mesmo pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração são capazes de passar apáticas pela voz rouca que conta e quase consolada, a terrível história da noiva atropelada 20 dias antes do casamento: “O chofer não teve culpa, Iracema/Paciência”. Mais brilhante compositor paulista de todos os tempos, Adoniran Barbosa (pobre e mal-letrado), sabia ser mais denso que muito catedrático quando definia: “pra escrever uma boa letra de samba, a gente tem que ser, em primeiro lugar, anarfabeto”. Como poucos, Adoniran foi gênio, extraía de uma quase patética simplicidade uma montanha de significados sutis. É aquela estória: você ouve Saudosa Maloca 300 vezes, sem prestar muita atenção. Aí, um dia, dá um estalo: “então era isso?”.

Filho do Bexiga, o bairro italiano de São Paulo, Adoniran foi um fotógrafo lambe-lambe da canção. Cada uma delas é um pequeno retrato de seu bairro, de sua cidade, de sua gente humilde. Por extensão, retratos que poderiam ser de qualquer grande cidade que ainda tenha, em algum canto, um resquício daquela pobreza gentil que é tão diferente da miséria definitiva. A São Paulo de Adoniran é falsamente conformada com as agruras de ser grande e faminta de seus filhos. Afinal, os homi tão com a razão/ nóis arranja outro lugar. E: Não reclama/ porque o temporal/ destruiu teu barracão./ Não reclama,/ güenta a mão, João./ Com o Cebídi aconteceu coisa pior./ Não reclama,/ pois a chuva só levou a tua cama. Era só o que João tinha. Já a casa do Cebídi tava completa e foi toda levada pela enxurrada morro abaixo. Logo, João não tem tanto motivo pra reclamar da sorte.
Em 1950, o regional Demônios da Garoa surgiu em sua vida como a mais perfeita parceria possível a um compositor popular. O grupo incorporou a cena e acumulou sucessos cantando no paulistanês criado por Moles e Adoniran. Nos anos de 1951 e 52, com os sambas Malvina e Joga a Chave (c/ Osvaldo França), já interpretado pelos Demônios, Adoniran voltou a vencer o concurso de músicas carnavalescas da prefeitura. Mas sua vida deu uma guinada mesmo em 1955, quando Saudosa Maloca, que ele gravara com pouca repercussão em 1951, estourou nas paradas na voz dos Demônios da Garoa. O megassucesso trouxe de cambulhada o Samba do Arnesto, outro clássico adoniraniano. Saudosa Maloca conquistaria o Rio de Janeiro, terra do samba, na voz de Marlene. Foi aberta a porteira por onde passariam Apaga o Fogo Mané, As Mariposas, Iracema, Mulher Patrão e Cachaça, No Morro da Casa Verde, Trem das Onze e dezenas de outras, feitas por ele ou em parcerias, que incluem até Vinícius de Moraes. Esta última, uma confirmação da sofisticação insuspeitada de Adoniran, que colocou uma música sublime na letra de Bom Dia, Tristeza, poesia de Vinícius que lhe chegou às mãos por intermédio de Aracy de Almeida.
Em 1968 ele participou da I Bienal do Samba, com Mulher, Patrão e Cachaça, sem sucesso. Mas sua marcha-rancho Vila Esperança, apresentada em 1969, no I Festival de Músicas de Carnaval da TV Tupi, classificou-se em segundo lugar, e ficou gravada no rol das grandes músicas de carnaval. Com todo esse sucesso, ele só foi gravar cantando em 1974. Até o final dos anos 60 não era costume compositor gravar, a não ser que fosse muito bom cantor. Com a quebra do tabu, entre outros por obra de Chico Buarque de Holanda, passou a ser essencial registrar essas vozes. Foi quando Cartola, Nelson Cavaquinho e outros baluartes do samba tradicional começaram a entrar em estúdio. O primeiro LP foi seguido de um segundo, em 1975, registrando para a posteridade sua voz de taquara rachada.

Mesmo pobre, ainda cantava em shows e gravava esporadicamente três Lps em 40 anos de carreira, todos lançados entre 73 e 80 e relançados mais tarde em CD. Sempre que quis, teve no estúdio os melhores músicos e cantores da música brasileira lhe pagando tributo. Muitos deles com idade para serem seus netos. Como Elis Regina, sua tiete assumida, com quem Adoniran emplacou seu maior sucesso como intérprete: Tiro ao Álvaro.
Adoniram morreu em 1982, aos 72 anos, de parada cardíaca. Dois anos antes, por ocasião de seu 70º aniversário, a EMI lançara um LP com suas músicas cantadas por ele e intérpretes como Elis Regina, Roberto Ribeiro, Djavan, Clara Nunes, Clementina de Jesus e Carlinhos Vergueiro. Sua única mágoa nos tempos de velhice era ter sido apartado de seu público. Cantava com sucesso para universitários, era adorado pela intelectualidade. Mas justamente ele, que tinha sido povo como poucos, não passava mais pela grande mídia nem tocava nas rádios populares. Quando foi pro pagode lá de cima, teve um enterro modesto. 500 pessoas amigas e nenhuma ‘otoridade’.
Neste ano, o SESC promoveu um show com o lançamento de CD gravado em homenagem aos 100 anos do compositor, reunindo as cantoras Maria Alcina, Cristina Buarque, Virgínia Rosa, Verônica Ferriani, Patty Ascher e Márcia Castro. Além do sambista Oswaldinho da Cuíca, seu amigo do Bexiga e do samba.

Danny Elfman, um gênio da musica cinematográfica

Posted in Cultura, Música, Perfil by micheletavares on 15/12/2010

Fotografia de Bob Charlotte / PR Photos.

Nomeação de Danny Elfman para o Oscar de 2009 por "Milk"

A consagrada trajetória de um dos maiores compositores de trilhas sonoras da atualidade.

Por Matheus Alves

A trilha sonora, é uma das principais bases de um bom filme. É tão importante quanto a atuação dos atores e a competência do diretor. As imagens e o som, é capaz de imprimir no espectador uma torrente de emoções. Uma cena sem musica não provoca tanto impacto quanto uma cena embalada pela melodia certa. A trilha sonora é capaz de despertar a tensão, a emoção, a repulsa, a compaixão e a ira do público. Todo diretor que espera que seu filme seja um sucesso de bilheteria, tende a escolher um compositor que seja capaz de dar vida às cenas de seu filme, transmitindo as emoções na dose certa e necessária, sem direito a erros, por mais que alguns deles venham a acontecer. E Danny Elfman é um desses magos da composição responsável por ajudar a alavancar diversos títulos.

Considerado por muitos um gênio, possui atrelado ao seu nome enormes sucessos de bilheterias e parcerias importantíssimas ao longo de sua carreira, como a dos diretores Tim Burton, Sam Raimi, Ang Lee e Brian de Palma. Muitos espectadores que não se preocupam com a parte técnica dos filmes que assiste, pode até não conhecê-lo por nome, mas com certeza já ouviu suas composições, cantarolou-as em determinados momentos, possuem como toque de celular e et ceteras.

Robert Daniel Elfman nasceu em 1953 em Amarillo, Texas. É filho de uma autora de livros infantis e de um oficial da Força Aérea Americana. Iniciou sua carreira musical como cantor e compositor da aclamada banda de rock ‘The Mystic Knights of Oingo Boingo’ (Os Guerreiros Místicos de Oingo Boingo), formada por seu irmão, o diretor Richard Elfman, em 1972. A banda, que depois passou a ser chamada apenas de ‘Oingo Boingo’, conquistou um grande numero de seguidores até o seu fim momentâneo em 1995, mas ficou restrita ao sul da Califórnia, não chegando a ter um grande reconhecimento nacional ou internacional.

A Oingo Boingo tornou-se um dos principais grupos ‘cult’ da década de 80 dos EUA. Em meio ao sucesso da banda, Elfman passou a contribuir para faixas de filmes populares e compôs a trilha para um filme idealizado por seu irmão, “Zona Proibida” (The Forbidden Zone, 1979). A banda fez também aparições no filme “De volta para a Escola” (Back to School, 1986) e interpretaram a faixa titulo do filme “Mulher Nota 1000” (Weird Science, 1986), composta por Elfman.

A trilha sonora de ‘Zona Proibida’ foi a estreia de Elfman como compositor para o cinema e marcou o inicio de sua carreira, que primeiramente se estruturou como compositor para filmes independentes e peças de teatro. Foi na metade da década de oitenta que um fã do grupo, o novato diretor Tim Burton, convidou Elfman para trabalhar em algumas das canções de “As Grandes Aventuras de Pee Wee” (Pee-Wee’s Big Adventures, 1985).

Fotografia por Warner Bros Records

Tim Burton e Danny Elfman, uma parceria de 25 anos.

 

Essa foi apenas a primeira das doze parcerias que os dois viriam a ter ao longo de 25 anos, onde Elfman só não fez parte de três filmes, dos quinze assinados por Burton como diretor, “Ed Wood”(1994), “Vicent and Me”(1995) e “Sweeney Todd”(2007). Ele compôs as trilhas para filmes de estrondoso sucesso de Tim Burton, como “Os Fantasmas se Divertem”(Beetlejuice, 1988), “Batman”(1989), “Edward Mãos-de-Tesoura”(Edward Scissorhands, 1990), “O Estranho Mundo de Jack”(The Nightmare Before Christmas, 1993), “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”(Sleepy Hollow, 1999), “A Fantástica Fábrica de Chocolate”(Charlie and the Chocolate Factory, 2005), “A Noiva Cadáver”(Corpse Bride, 2005) e mais recentemente, “Alice no País das Maravilhas”(Alice in Wonderland, 2010).

É dele a composição das músicas de Hannibal Lecter no último filme da trilogia, “Dragão Vermelho”(Red Dragon, 2002), das peças instrumentais para o premiado musical “Chicago”(2002), é o responsável pelas partituras das três versões do “Homem-Aranha”(Spider-Man) de Sam Raimi e o “Hulk”(2003) de Ang Lee. Também de sua autoria há filmes como “Dick Tracy”(1990), “Missão Impossível”(Mission: Impossible, 1996), “Um Plano Simples”(A Simple Plan, 1998), “A Menina e o Porquinho”(Charlotte’s Web, 2006), “A Família do Futuro”(Meet the Robinsons, 2007) e “O Exterminador do Futuro – A Salvação” (Terminator – Salvation, 2009)”.

Embora a maioria de seus trabalhos tenham sido voltados pra telonas, para a telinha Elfman também criou boas composições, principalmente para as séries de TV como “Na Mira do Tira!”(Sledge Hammer!, 1986-1988), “Contos da Cripta” (Tales from the Crypt, 1989-1996), “The Flash”(1990-1991), a abertura da serie cômica “Desperate Housewives”(Donas de Casa Desesperadas, 2004- ). Para as animações, seu nome é associado à “Beetlejuice”(1989-1992), “As Novas Aventuras de Batman e Robin”(The Adventures of Batman & Robin, 1992-1999), Family Dog(1993), “The Dilbert Zone”(1999-2000), e talvez o mais famoso de todos, “Os Simpsons”(1990- ).

Elfman cita frequentemente Prokofiev, Sravinsk e Bartok como seus compositores clássicos favoritos, mas as principais influências Hollywoodianas para suas composições vem de Nino Rota, Carl Stalling, Erich Wolfgang Korngold, Kiklos Rozsa, Franz Waxman e Bernard Herrmann. E foi justamente a influência de Herrmann que lhe permitiu ser cotado para recriar a trilha clássica da refilmagem de “Psicose” (Psycho, 1998).

Foto cortesia de BMI

Premiação recebida pela Broadcast Music, Inc

Seu primeiro premio veio em 1989, um Grammy pela trilha sonora de Batman. Também foi indicado diversas vezes ao Grammy pelos títulos “Homem-Aranha”, “O Planeta dos Macacos”, “Edward Mãos-de-Tesoura”, “Dick Tracy” e “MIB:Homens de Preto”. Foi indicado uma única vez ao Emmy por sua trilha sonora composta para “Os Simpsons”. Em 1993 foi indicado a um Globo de Ouro pela trilha sonora de “O Estranho Mundo de Jack”, onde suas notas pesadas e macabras permeiam todo o filme, dando a atmosfera gótica e sombria típica nos filmes de Burton, contando também com algumas composições onde ele empresta sua própria voz.

Apesar de ser considerado um dos compositores mais produtivos e respeitados do mercado, tendo trabalhado em alguns dos maiores filmes de Hollywood, Elfman ainda não ganhou nenhum prêmio Oscar apesar de já haver sido indicado quatro vezes, as duas primeiras foi em 1997, quando ele recebeu indicações pela trilha de “MIB:Homens de Preto” (MIB, 1997), sendo que também assinando o segundo titulo da série, “Homens de Preto II” (MIIB, 2002) e a outra por “Gênio Indomável”(Good Will Hunting, 1997), onde assina como co-produtor.

Sua terceira indicação ao Oscar veio em sua nona colaboração com Tim Burton, “Peixe Grande e suas Histórias” (Big Fish, 2003). A quarta indicação só veio cinco anos depois, por suas músicas em “Milk” (2008), uma cinebiografia do diretor Gus Van Sant sobre Harvey Milk, um ativista político que lutava pelos direitos dos homossexuais e foi assassinado em São Francisco.

Estes são apenas alguns dos títulos atrelados a Danny Elfman. Filmes com grande sucesso de bilheterias, marcados por belíssimas composições sonoras e diversas indicações a premiações, desde grandes a pequenas. Elfman possui um estilo único de composição, que chega a ser uma mistura de tudo que é conhecido com particularidades adquiridas ao longo de sua extensa experiencia no mercado musical. Atualmente é casado com a atriz Bridget Fonda, que conheceu durante as gravações de “Um Plano Simples” com quem teve um filho chamado Oliver de cinco anos e é pai de mais duas meninas de um casamento anterior.

Foto-montagem por Matheus Alves

Alguns dos filmes em que Elfman compôs para Burton

 

Eliana Ribeiro: uma voz que canta, encanta e evangeliza.

Posted in Perfil by micheletavares on 15/12/2010

Eliana Ribeiro (Arte: Yasmim Raquel)

Por Osmar Rios

         Em 13 de fevereiro de 1977, em Vitória/ES, nascia uma futura estrela da música cristã: Eliana Ribeiro Morais de Oliveira ou, simplesmente, Eliana Ribeiro. Porém, o seu caminho até o verdadeiro encontro com o catolicismo não foi tão rápido e simples. Eliana foi uma adolescente rebelde, envolvida com drogas, bebidas, namoros, depressões e até desejos de morte.  Ela vivia em bares e sempre seu pai tinha que ir buscá-la. Padre Léo, hoje já falecido, da Comunidade Bethânia, foi quem apresentou Deus para Eliana pela primeira vez, em um encontro de jovens onde ela morava. A partir daí começou a dar passos de conversão e, em Aparecida/SP, descobriu sua vocação para a comunidade religiosa Canção Nova (CN), em um Congresso Nacional da Renovação Carismática Católica (RCC) no ano de 1997.

      Então começou a se empenhar e buscar confissão, eucaristia, mortificações e oração da comunidade e do terço, pois segundo ela Jesus continuaria a libertando. Eliana iniciou seu caminho vocacional para a CN em 1998 e, em janeiro de 1999 conseguiu entrar na comunidade de Cachoeira Paulista/SP. Contudo, antes de entrar para a comunidade, cursava Química licenciatura na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), além de dar aulas da seguinte matéria para pré-vestibular, já cantava em grupo de oração e fazia parte da secretaria do Departamento de Audiovisual da RCC.

       Ela sempre gostou de cantar, todavia achava que sua voz não era boa. O curioso é que ela nunca cantou em barzinhos, começou já na igreja, aos 18 anos. Lá se engajou também em trabalhos com crianças, em um grupo de oração, e após um ano foi convidada para o ministério de música, o qual teve que sair em 1998 por ter que iniciar seu caminho para a Canção Nova.  Ironia do destino: a voz que para a própria Eliana era ruim teria um “final feliz” no caminho da evangelização.

         Em dezembro de 2000, ela sofreu um acidente automobilístico no qual estavam também seu namorado, Fábio, sua mãe e seu pai, que infelizmente faleceu, deste modo afastou-se por um tempo da CN. E, em abril de 2001, retornou com a certeza que chamado de Deus era mais forte. Lá dentro da comunidade seguiu fielmente o principal objetivo que era evangelizar e mais uma vez a música estava ao seu lado.

        Em 2002, gravou seu primeiro CD, “Tempo de colheita”. Um CD onde Eliana pode revelar sua história através de canções, desde a fase rebelde à fase da conversão. Em seu blog, ao comentar sobre este fato, ela diz que todas as vezes que iam gravar uma música rezavam muito e sentiam Deus “conversar” com eles, que tinham cada vez mais certeza do título do CD. Dois anos depois, após se casar com Fábio, os dois membros da CN, foram enviados para uma missão em Portugal e lá tiveram a oportunidade de iniciar o projeto de um novo CD, “Espera no Senhor”. Ao retornarem ao Brasil, continuaram o projeto e, assim, Eliana lançou seu segundo disco, com 11 faixas de estúdio e cinco ao vivo em Portugal.

        Através dos seus CDs, os cristãos puderam sentir um amor de Deus mais profundo, dando mais confiança ao Senhor, acreditando que é Ele quem cuida de todas as coisas e tem o controle de tudo, jamais nos abandonará e será o único a realizar o que os outros consideram impossível, segundo Eliana Ribeiro propôs. Hoje, muitos católicos, em especial grupos de jovens cristãos, são fãs dela e utilizam muito suas músicas em momentos de reflexão ou animação. Importante ressaltar uma frase dita por ela sobre sua experiência com a CN e a música em sua vida: “Na Canção Nova, mulher que canta, leva alegria, esperança, mudança de vida e um encontro pessoal com o Senhor”.

        Recentemente, ela teve uma das maiores realizações da sua vida (e acredito que para seus fãs também foi): o lançamento do seu primeiro DVD, gravado ao vivo no auditório “São Paulo”, da Canção Nova, em Cachoeira. O DVD tem 19 faixas, incluindo quatro músicas inéditas: “Barco à vela”, que dá título ao DVD, “Força e vitória”, “Enviai” e “Eu me rendo a ti”.

“Insisto em persistir em meus desejos
Insisto em só fazer do meu jeito
Me perco querendo ser Deus de mim
Escolhe mal quem escolhe só
Quem deixa Deus ser Deus, vê melhor
Aquilo que os olhos não podem ver
Por isso deixo aqui meu querer
Por isso deixo aqui meu querer
 

 

Refrão:
Guia-me Senhor por onde aprouver
Calo meu querer para ouvir o que Deus quer
Barco à vela solto pelo mar
Vou para onde o vento do Senhor levar”
(Barco à vela – Eliana Ribeiro)
 

        Este DVD também foi consagrado com as participações especiais de Dunga, Padre Cleidimar Moreira e Brais Oss. Portanto, conheça mais desta missionária da comunidade Canção Nova que, através de uma das mais bonitas vozes da música católica brasileira, tem como instrumento de evangelização a música, mas também responde por outras diversas atividades evangelizadoras, como a apresentação de um programa na TV e um blog no site da própria comunidade. E, através do “Barco à vela”, tenha o grande prazer de estar em contato com Deus por meio da música e do show que traz grandes novidades e uma produção que vai te cativar, te emocionar e te levar à grandes momentos que provém o bem da alma e do Espírito Santo. Confira abaixo um trecho de um testemunho de uma das suas fãs:
”(…)Quero agradecer a você e a toda equipe (direção, produção, músicos, etc.) pelo carinho com que prepararam tudo. Já assisti a vários DVD’s, inclusive católicos, mas o seu tem uma unção especial. A história temática que vai permeando todo o DVD nos possibilita, além de ouvir suas belas canções, meditar sobre nossa própria vida. Me senti entrando naquele barco com você rumo ao alto mar que é Jesus. Chorei com você na sua partilha na música “Nossa Alma” (e quem não choraria?…). Obrigada por partilhar isso conosco (…) O Barco sempre teve um significado muito grande para mim, sempre gostei de uma música do Pe. Zezinho “Há um barco esquecido na praia”, ao mesmo tempo sempre me associei a um barco em que, hora em águas mansas, ora em tempestades, vai seguindo a rota do Senhor. Acompanhei pelo seu blog toda a preparação do DVD e quando vi o tema escolhido por você, pensei: só podia ser a Eliana Ribeiro mesmo para ter essa inspiração. Adorei essa idéia de um DVD temático. Pura inspiração do Espírito Santo. Continue sendo esse Barco Eliana que atrai tantos outros a Jesus, inclusive eu. Que Deus te abençõe e fortaleça sempre” (…)  Raquel Contagem/MG

(Fonte: http://blog.cancaonova.com/elianaribeiro/category/testemunhos/)

Ficou curioso? Dá uma olhada nesse vídeo sobre o DVD “Barco à vela”: